Germinar sementes de comunidade

Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing by William Blake (c. 1785).

Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing by William Blake (c. 1785).

Mais do que as particularidades do lugar onde decorre um retiro, o que de melhor pode acontecer nestas ocasiões é a co-criação de um microcosmos e da comunidade que nele germina, como uma semente. Cada uma destas sementes é excepcional, devido às infinitas combinações de seres, humanos e de todos os outros, que formam a sua essência e que determinam o que dela brota.

Na sequência do texto da semana passada, surgiu a necessidade de clarificar que um retiro extrapola o lugar, o “centro”, as condições físicas, em que um grupo se reúne. A semente de comunidade que integra o retiro é o núcleo da energia, não o “centro de retiros” que o recebe, ainda que o ambiente condicione a forma como a semente germina. Na minha experiência, a relação entre a dinâmica da comunidade formada em cada retiro e os influxos, ou se preferirmos as vibrações, que emanam do espaço físico pode ser definida por simbiose.

Durante as peregrinações de duas a três semanas em que eu participava, nos verões do início do milénio, a nossa primeira base era sempre EarthSpirit, onde permanecíamos pelo menos uma semana. Por mais day-trips que fizéssemos por todo o Sudoeste de Inglaterra, era lá que ancorávamos e estabilizávamos as nossas energias. Ficámos a conhecer bem o nosso entorno, através de caminhadas por Lollover Hill, de madrugada, à tarde, e quando a lua permitia. Estávamos cercadas de colinas onde muitos ancestrais ergueram os seus fortes, caçaram os seus cervos, e observaram o vôo das aves. Em Dundon Beacon aprendemos a reconhecer orquídeas e borboletas. Não havia uma fronteira rígida entre espaço exterior e interior. No main-hall, em torno da comprida mesa, sentávamo-nos para partilhar refeições vegetarianas, ao pequeno-almoço e ao final do dia, e lembrávamos os momentos mais marcantes de passeios, meditações e rituais.

À nossa volta sentíamos a reconfortante presença das pedras que desde o século XVII formam o celeiro, que de uma maneira tão graciosa e eficaz se transformou para nos acolher. Acima das nossas cabeças víamos as grandes traves de madeira e o telhado, com as suas janelas voltadas ao céu. E no cimo das escadinhas, do lado direito, chegávamos às familiares águas-furtadas, ao estilo casa na árvore, onde as ‘miúdas’ como eu dormiam, conversavam e riam a bandeiras despregadas. Aí tínhamos das mesmas janelas com vista para o céu, que nunca nos deixavam dormir para além das sete da manhã. Deitar cedo (ou até tarde) e cedo erguer, não era um sacrifício num refúgio assim. Sobretudo, quando a tarefa do dia era uma peregrinação ou um ritual, mais ou menos espontâneo, numa das colinas de Glastonbury, em Stanton Drew, Avebury, West Kennet, Stonehenge, e noutros sacred sites menos conhecidos.

De regresso a EarthSpirit, surgiam sempre muitas oportunidades para tecermos melhor a rede invisível que nos unia em comunidade; quer fosse durante as actividades na meeting-room, quer através da comunhão criada por tarefas domésticas que fazíamos em conjunto. Também nessa altura não havia máquinas de lavar louça naquele centro de retiros. Nem sei se já há! A estadia prolongada permitia-nos organizar um esquema rotativo, em que duas ou três de nós lavavam, ferviam e secavam a louça de todo o grupo, à vez. As nossas roupas eram lavadas em conjunto numa potente máquina, que parecia prestes a levantar voo e que ficava no anexo da casa principal, onde o nosso anfitrião morava com a família. Era sempre uma alegria quando íamos estender tudo para o quintal, descalças pela relva fresca. Pode até soar demasiado romântico e bucólico, mas só para quem não viveu a simplicidade destes prazeres sem preço.

Por tudo isto, senti um golpe energético quando tivemos de deixar EarthSpirit pela primeira vez, para seguirmos viagem para a Cornualha. Com vinte e um aninhos, acabadinha de sair da faculdade, criativa mas um tanto formatada, estava completamente despreparada para lidar, ou sequer compreender, o que estava a passar-se comigo. Na última manhã, quando partirmos para uma última paragem em Glastonbury, antes de seguirmos para a Cornualha, debulhei-me em lágrimas. Foi como se estivessem a empurrar um pintainho para fora do ninho. Como se não bastasse ter de me despedir da paisagem daquela região e de lidar com o afastamento da vila de Glastonbury, com a qual sempre deixei muitas pontas soltas, ainda tive de sentir a subtil, mas gradual alteração na dinâmica da nossa pequena semente de comunidade, que tão bem tinha germinado em EarthSpirit. Tudo isto não obstante o meu enorme desejo de chegar a Tintagel e (re)conhecer a Cornualha.

Daí em diante, esperavam-nos dois encantadores hotéis à beira-mar e um outro, discreto e charmoso, em Bath. A dinâmica da nossa comunidade de pouco mais de dez mulheres não voltou a ser a mesma e o meu humor continuou a oscilar, entre a expectativa e a leve melancolia. Nesses locais, parecíamos e sentíamo-nos mais como um vulgar grupo de turistas. Sem o espaço nutridor de EarthSpirit, tivemos de aprender a voar sem rede. Apesar de confortáveis, esses ambientes não foram os ideais para que a nossa semente continuasse a germinar. Por isso aproveitávamos o tempo passado em Dartmoor, nas Hurlers, em St.Nectan’s Glen, Peter’s Wood, Rocky Valley, …, e nos muitos sacred sites de West Penwith; quer fosse um holy well no meio dos campos de urze ou um dos vários círculos de pedra. Muitas vezes, bastava darmos as mãos e olharmo-nos nos olhos para que a nossa semente de comunidade continuasse a germinar.

Nos anos seguintes, eu comecei a compreender e a lidar melhor com as alterações de vibração do espaço e com as consequentes variações na dinâmica de cada uma das pequenas comunidades que integrei, a cada peregrinação. Fui crescendo até estar preparada para começar a co-facilitar. Portanto, fazendo por um momento a ligação com o meu texto da semana passada, quando alguém com estas vivências partilha impressões mais terra-a-terra e faz algumas apreciações, reparos ou até críticas, que se querem construtivas, acerca deste ou daquele aspecto da realidade actual de muitos “centros de retiros”, não se deve pensar que está de alguma maneira a tentar comparar a experiência de ficar num desse locais com uma vulgar e asséptica ‘hotel experience’.

Ainda assim, é bom não esquecermos que a oferta de um centro de retiros não deixa de ser híbrida, a meio caminho entre um produto turístico – com todas as garantias de conforto, higiene e segurança – e um espaço sagrado, onde a sustentabilidade e o respeito por tudo aquilo que há de mais subtil se combinam, para promover a germinação de todas as pequenas sementes de comunidade que aí se reúnem.

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Retiro, o que me faz espécie

The Green Man by Brian Froud

The Green Man by Brian Froud

Se calhar sou eu que sou esquisita, mas tenho para mim que no caminho da Consciência está o respeito por uma noção de auto-preservação que assenta no princípio da Higiene. E se para alguns “ascetas” esse conceito se restringe à higiene mental, chegando a ser notório o desleixo com a limpeza do corpo físico, outras pessoas ainda se preocupam com medidas de higiene que deveriam reger muitos dos alegados “centros de retiros” espalhados um pouco por todo o mundo.

O primeiro que visitei, por semanas em anos consecutivos, desde 2001, deve ter-me deixado mal habituada. Trata-se de EarthSpirit Centre, em Dundon, nas proximidades de Glastonbury, que tem crescido sob o cuidado permanente do nosso querido e inesquecível anfitrião, o Green Man David Taylor. Ele sempre foi receptivo a sugestões que tem vindo a implementar, com vista a uma maior sustentabilidade, segurança e conforto. São prova disso as distinções que o centro tem recebido e que o tornaram referência incontornável no Reino Unido. É um Green Tourism Award Winner, com a categoria Gold, Kindred Spirit Awards Winner, e Ethical – CSR – Green Business of the Year.

Em Portugal, a minha experiência de permanência em locais que se identificam como “centro de retiros” é pequena e acredito que ainda não conheci alguns dos melhores, mas do que conheci, no distrito de Lisboa, serviu para identificar onde é que eu traço o risco. Se visitar novos centros, não deixarei de colocar questões como:

– quantas pessoas se servem da mesma casa de banho, em particular da mesma sanita?

– com que regularidade, durante o retiro, os sanitários são desinfectados?

– o preço do retiro é mais baixo do que nos outros centros porque não inclui a limpeza?

– quais a medidas tomadas quanto à deambulação e saúde de animais domésticos?

– quais as práticas de desinfestação e sua regularidade?

– existe uma máquina de lavar – ou pelo menos escaldar – louça a altas temperaturas?

Sim, porque, quanto a esta última, qualquer chafarrica que sirva cafezinhos em louça não descartável é obrigada por lei a ter tal equipamento! Ora, como é que em “centros de retiros”, sendo que alguns deles são perfeitamente ad hoc e funcionam em instalações que não foram pensadas nesse sentido, não se considera o que devia ser uma prioridade absoluta?

Deixei a sugestão relativamente à máquina de lavar loiça em um – e apenas um – dos casos, em que o centro é gerido pelos proprietários do local, que muito empenho e recursos têm investido num espaço que é, de facto, um exemplo a seguir. A outros, que funcionam com grandes limitações de instalações e autonomia dos próprios arrendatários, e sem prejuízo da relevância das actividades desenvolvidas, prefiro simplesmente não voltar. Aplico eu mesma a máxima que ouvi há dias, de uma pessoa responsável por um desses locais; “fica com o que te serve e deixa o que não te serve”. Sem dúvida! Especialmente em determinadas fases da vida, que exigem todos os melhores cuidados. Em todo o caso, para os que não querem ou não possam investir em equipamento, talvez não fosse má ideia deixarem claro a quem os visita que é melhor levarem louça própria e identificável, que possam usar e lavar (no habitual lavatório, com água fria ou tépida), sem corrermos o risco de andarmos a fazer roleta-russa, sobretudo com talheres que podem estar mais ou menos “lavadinhos”, segundo o conceito de limpeza de cada um/a, mas que nunca são realmente esterilizados.

Talvez, no entendimento de alguns, nós, os participantes de retiros, ainda tenhamos de “evoluir” até ao ponto em que acreditaremos que os Elementares nos protegerão das hepatites e de outras afecções. Mas confesso, nem em locais muito humildes, na Índia, senti que houvesse tamanho laxismo. E nem é que eu não acredite que muitos se sentem pioneiros e que estão a fazer o melhor que podem, com toda a boa vontade, mas a verdade é que para ter uma porta aberta e dizer ao mundo que se fundou e se é responsável por um Centro de Retiros, é preciso mais do que um yurt, uma garagem ou umas tendinhas, e boas intenções.

Kill them with kindness

Tinted vintage photo of The Lady Chapel at the ruins of Glastonbury Abbey, Glastonbury UK.

Tinted vintage photo of The Lady Chapel at the ruins of Glastonbury Abbey.

 

Sometimes, I peep at folks through Facebook and it’s like a marketplace where there are many conspicuous wannabe ladies of Avalon (with only one L; not the real French town with double L). Honestly, regardless of where they are or where they go to, they seem to be importing and exporting much the same. Also curious is that they don’t have an openly competitive attitude. Instead, they butter each other up with amiable gestures. I guess that’s what people now call sisterhood! It serves them, but it’s not true cooperation and it manifests as a variety of snobbery, in relation to everybody else. Deep down, maybe they know, or at least suspect that, actually, what they want is readily available to everyone. As long as they follow a certain modus operandi that keeps nowadays Glastonbury and the extended spiritual marketplace alive, if debauched as ever.

Of course, there are rarer elixirs, to be found in less congested locales that owe nothing to soggy apple crumble, sodding Malmesbury, congregations of greedy monks, mischievous abbots, cunning priestesses, conmen, carnivals, funfairs, cultural appropriation, and the commodification of lowercase spirituality. As a tip for the potentially talented, deeply creative, and truly original:

Go, go, and add to the rowdy crowd…, but don’t get lost in the mist, fog, or pouring rain. That’s not important and won’t make you special. Besides, damp weather is the worst for feeble bones. I can say this because I, once a probing young Portuguese, arrived in Glastonbury on the verge of the Millennium; childlike and open-minded. I also used to ride horses in Sintra since I was a kid. So, I fell on the malodourous mud times enough to learn to avoid it.

Um recado

“Purim at Mea Shearim, Jerusalem, Israel” (Fotografia: Frederic Brenner)

Cada celebração traz oportunidades de purificação, reflexão e entendimento. O mês que precede o novo ano sacro é um tempo de conexão com os antepassados, dos familiares aos mais ancestrais. Para mim, a Parentália foi profundamente reveladora e permitiu-me aferir alguns pontos de vista, estudar, e descartar alguns preconceitos. Não mais usarei a datação ab urbe condita (ou seja, ‘desde a fundação da cidade’ de Roma), sabendo como é errónea e que no passado foi usada para fins propagandistas. Se alguém espera encontrar aqui uma grande admiradora do Império Romano vai ficar desapontado. Sou apenas uma politeísta e uma cultrix, no sentido Romano do termo. Tenho em conta a necessidade de honrar as minhas origens, não apenas através dos rituais, mas da minha conduta e de uma tomada de posição em situações que não devem passar despercebidas a ninguém.

Isto não é de agora, mas têm vindo a aumentar as manifestações de antissemitismo e não posso ficar indiferente à paranóia das Nações Unidas em relação a Israel, que é evidente em vários planos, desde o Conselho dos Direitos Humanos à UNESCO, a par de incongruências que me fazem temer pelo futuro, a muito curto prazo. Que Anna Perenna não nos falhe e que os ciclos sejam benéficos. Também no âmbito dos eventos feministas dos últimos meses, temos assistido à ingerência de propagandistas e até de uma terrorista condenada que procura legitimar a sua presença ilegal nos Estados Unidos da América, manipulando a opinião pública menos atenta ou apenas mais inclusiva e predisposta ao ódio pelos Judeus. Chegámos ao ponto em que uma dessas mulheres vociferou acerca de quem, segundo ela, pode e não pode ser considerado feminista!

Fica apenas uma nota a alertar para a necessidade de, tanto quanto possível, conhecermos a História e não permitirmos que os piores momentos, a começar pelos horrores que a Roma Antiga e a Igreja Católica trazem à nossa memória colectiva, sejam reescritos, reabilitados, e repetidos sob outras aparências e com novos requintes de malvadez.

 

Quando o intelecto se pompeia

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Pavão pintado na parede do salão de banquetes da Villa di Poppea, Oplontis; fresco anterior a 79 da Era Comum, Segundo Estilo (Fotografia: Mimmo Jodice/Corbis)

Ao longo dos anos, que vão passando a ser décadas, tenho observado que a tendência para a comparação e a busca de correspondências, independentemente de onde possa levar, é uma forma de evasão ao politeísmo. Na tentativa de abarcarem todos os deuses ou, no caso do Movimento da Deusa, todas as deusas, as pessoas em questão caminham a passos largos para uma nivelação. Isto nem sempre acontece de forma consciente. A excessiva intelectualização das divindades e religiões, a tentativa de as assemelhar e categorizar, e a necessidade de mascarar o desconhecimento em relação à tradição Romana, debitando conclusões mal fundamentadas e baseadas em aparências, afasta esses estudiosos de deuses e deusas concretos e de uma prática religiosa tradicional e eficaz, dando lugar ao eclectismo de improviso, à popular visão arquetípica e a uma postura apenas historicista, quase sempre privada dos numina.

Como Nick Farrell notou, num artigo acerca das ameaças ao ocultismo, “O intelecto é incrivelmente lógico e se começares com uma ideia podes levá-la até ao ponto em que se torna absurda”. Estes processos terminam com discussões altamente teóricas, sem qualquer base experiencial, acerca de pseudoquestões, meras definições ou jogos de palavras, que se tornam entraves e são irrelevantes para quem está concentrado em aspectos práticos da tradição que de facto conhece. A propósito, a importância das fontes primárias para o Cultus Deorum Romanorum não deve ser substimada.

Dar de beber a quem tem sede

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‘Pombas a beber’- mosaico da Casa das Pombas, Pompeia (Museo Archeologico di Napoli)

O que não falta é quem queria vender-nos a fórmula do sucesso. Porém, no que diz respeito à Religio Romana do Cultus Deorum o sucesso perde o sentido que a maioria lhe atribui.

Por todo o lado encontramos dicas para cativar, manter e aumentar as audiências, os seguidores nas redes sociais, os membros de grupos de partilha, que muitas não são mais do que espaços de promoção pessoal ou corporativa. Devemos ser assíduos na publicação de imagens e artigos apelativos, mas somos aconselhados a não desenvolver, aprofundar, nem alongar muito as nossas intervenções online. Afinal, a maioria não escuta para entender, mas sim para reagir e retorquir. O importante deixa de ser o conteúdo e passa a ser a afluência, o movimento aparente que é produzido por um sem número de notificações que parecem comprovar a efervescente troca de ideias e, enfim, o sucesso de uma comunidade que se encontra sobretudo, ou apenas, no meio virtual. Para muitos, o que importa é que cada vez mais pombas venham beber da água que lhes dão.

Ora, esta lógica de gestão de trazer por casa não serve ao Cultus Deorum Romanorum e àqueles que, de forma altruísta, partilham o que aprenderam de fontes seguras e com a mais pura prática da sua tradição, ao longo de muitos anos e, em alguns casos, de décadas. Num artigo de 2015, Nick Farrell referiu o seguinte:

“Por medo de serem vistos como autocráticos, os professores permitem o bulling dos seus alunos ignorantes. É agora possível calar um professor que se atreva a referir que a adorada crença New Age de um aluno está errada. Foi-me dito online que é melhor que uma pessoa seja autorizada a distribuir as suas ideias ignorantes do que eu a questioná-las.”

Embora se referisse à degradação que o Ocultismo tem vindo a sofrer, é uma realidade que se verifica em diversos contextos. A explosiva receita de sucesso, que mistura a torrente de publicações não arbitradas e a censura daqueles que procuram moderar e esclarecer, em nada serve comunidades de pessoas que de facto querem aprender e expandir o seu conhecimento e prática de uma tradição religiosa como o Cultus Deorum Romanorum.

 

Presente de menina

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The Original Rider Waite Deck, by Arthur Edward Waite & Pamela Colman Smith. The Sun, XIX.

Findo o Outono, com todas as tarefas de jardinagem que lhe estão associadas, e terminada a Saturnália, a confecção da orange marmalade e do primeiro bolo-rei, tenho mais uma vez vagar para regressar ao blog, mesmo antes do Dies Natalis Solis Invicti. Em época de presentes, derivada da tradição da Sigillaria, recordo o primeiro Tarot que tive.

Criada entre livros, foi o meu pai que me ofereceu o meu primeiro livro acerca de Tarot e um baralho com os Arcanos Maiores e as Figuras. Eu tinha seis anos. Não foi prenda de aniversário nem natalícia. Foi noutro dia qualquer. O baralho era pequenino, de sete por cinco centímetros e meio, ideal para as mãozinhas de uma criança curiosa, que se fartou de brincar com ele. Assim fui aprendendo a linguagem do Tarot. Ao longo dos anos, vários outros baralhos vieram até mim. Durante a minha primeira viagem à Grã-Bretanha, em plena Mists of Avalon Pilgrimage, a Enid Williams, uma iniciada da Fellowship of Isis, ofereceu-me os seus próprios Motherpeace Tarot Book & Deck, de Vicki Noble e Karen Vogel. Só alguns anos mais tarde, quando tinha vinte e cinco anos, escolhi e comprei o meu próprio Tarot de eleição. Mas comprar baralhos de Tarot e um certo “tipo” de livros nem sempre é fácil.

Aos dezoito, quando era uma estudante de Design, no segundo ano da faculdade, ia muitas vezes ao Chiado. Por vezes, ia encontrar o meu pai na Bertrand, mas passava muito tempo sozinha, a explorar as livrarias circundantes. Numa tarde bonita, fui atraída pela fachada Deco da Livraria Aillaud & Lellos. Há algum tempo, li o seguinte, no blog “Aprender uma coisa nova por dia”, no post de 15 de Fevereiro de 2015, “Hoje quero aprender sobre – As livrarias antigas de Lisboa”:

“Subsiste na Rua do Carmo esta livraria que abriu portas em 1931. Vende livros de todos os géneros, mas sobretudo edições mais antigas e livros generalistas, e uma das suas duas montras oferece sempre livros a preços promocionais. A fachada da loja mantém a traça original, em pedra cinzenta, e as duas colunas que ladeiam a porta ostentam motivos gravados em estilo Art Deco.”

É bom saber, porque a minha experiência foi contrária, porque não encontrei “livros de todos os géneros”. Não voltei lá. Não quer dizer que não volte, mas ainda não aconteceu. Tivesse eu menos bons exemplos e força anímica, o que escutei naquela livraria podia ter-me desencaminhando de muitos e bons estudos.

O meu hábito sempre ficar a namorar os livros, mas assim que entrei o vendedor, que talvez não fosse um verdadeiro livreiro, perguntou-me logo o que eu procurava. Eu pedi que me indicasse a secção de Esoterismo, como é costume chamar a um conjunto muito heterogéneo de publicações de várias áreas de estudo, que partilham estantes com livretes de instruções e curiosidades mais ou menos duvidosos. De facto, não gosto da palavra aplicada ao contexto, mas não queria entrar em detalhes e esperava uma simples indicação. Em vez disso, o funcionário manteve as mãos atrás das costas, sem nunca desmanchar um sorriso cínico e respondeu; “Aqui, não vendemos esse tipo de livros.”

Fosse hoje, eu sei muito bem o que lhe diria, mas a minha reacção foi não ter reacção, porque pensava que aquele tipo de resposta, antiguinha, pertencia à década de cinquenta. Acerca dessa época, Doreen Valiente disse, numa entrevista FireHeart, em 1999:

“You couldn’t buy a pack of tarot cards in those days. Literally. I tried for ages before I was able to get a pack of tarot cards, and nowadays, you can buy any amount of packs of tarot cards.”

Ora, aquele era o ano de 1998! De resto, achei que qualquer palavra minha seria escusada, para além das estritamente necessárias, antes de me retirar. Com o meu mais doce sorriso, agradeci, cumprimentei, e saí. Ninguém me mandou descer o Chiado!

Acredito que, na verdade, o problema foi mais o tipo de atendimento do que a livraria e duvido que não tivesse encontrado, pelo menos, os livros do Paulo Cardoso ou o Livro de São Cipriano.

Um par de anos após o a minha primeria ‘Glastonbury experience’, onde todas as livrarias têm aquele “tipo” de livros, passei algumas semanas em Londres, onde visitei a mais antiga livraria de Ocultismo do mundo, a Atlantis Bookshop, Museum Street, Bloomsbury. Agradeço ao meu pai, por me ter dado aquele primeiro Tarot e a liberdade para explorar todo o “tipo” de livros que alegravam as estantes das livrarias e da nossa biblioteca doméstica, em qualquer idade, sem demais considerações. De tal forma que, confesso, eu lia Anaïs Nin aos onze anos. Oops! Mais não digo, nestes dias doces que pertencem às crianças, que se querem muito curiosas. E viva o Sol!

Ficção versus Religião

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Ilustração artística original de Richey Beckett na capa para vinil da banda sonora composta por Paul Giovanni, lançada no 40º aniversário do filme “The Wicker Man” (Robyn Hardy, 1973), pela Silva Screen Records (2013). Edição comemorativa limitada a 1000 cópias.

É frequente encontrarmos elementos de Ficção nas práticas de carácter religioso, individuais ou colectivas. Isto acontece em várias correntes do Paganismo moderno e também da espiritualidade de raiz cristã. Por vezes conjuga-se com influências New Age e as formas mais populares e comerciais de Xamanismo, que é consequência directa da visão universalista (ou imperialista) do mundo, essencialmente cosmopolita e do âmbito do paradigma tribalista urbano. Dada a importância da veracidade histórica e o respeito pelas fontes primárias, esta tendência não se manifesta no Reconstruccionismo religioso de qualquer cultura nem nas recuperadas religiões da Antiguidade Clássica.

É um facto que as personagens de romances, como The Mists of Avalon, e de trilogias tão proeminentes como Lord of the Rings, ganham muitas vezes um carácter deífico, passando a ser cultuadas ou tidas como guias espirituais, à semelhança do que acontece com antepassados, santos e entidades. As encenações religiosas, os rituais e sacrifícios, a cenografia do espaço sagrado ficcional e a caracterização de grupos sacerdotais representados em filmes e séries televisivas, como Practical Magic, King Arthur, The 13th Warrior, Gladiator, Vikings e Rome, de forma mais ou menos fiel a uma pesquisa histórica acurada, são muitas vezes adoptadas à risca ou com ligeiras adaptações livres. Alguns grupos chegam a incluir elementos de cenas emblemáticas de obras polémicas e incompreendidas como Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick ou clássicos do humorístico ‘mystery horror‘ britânico, como The Wicker Man, de Robin Hardy (1973, baseado no romance Ritual, de David Pinner, publicado em 1967). Dependendo do grau de alienação dos indivíduos envolvidos, o resultado pode resvalar para o plano do burlesco.

Uma ferramenta útil para os estudiosos de matérias que relacionam Religião e Cultura Visual, na sua vertente popular, é a Encyclopedia of Religion and Film (2011). No prefácio, Eric Michael Mazur observa:

“A maioria dos Americanos passa mais tempo a ver e a pensar acerca de filmes do que a frequentar a igreja ou a considerar ideias religiosas tradicionais.”

O autor e editor dos livros The Americanization of Religious Minorities (Johns Hopkins University Press, 1999), The Routledge Companion to Religion and Popular Culture (John C. Lyden, Editor, and Eric M. Mazur, Editor; Johns Hopkins University Press, 2014) e God in the Details: American Religion in Popular Culture (Eric M. Mazur, Editor, and Kate McCarthy, Editor; Routledge, 2010) refere:

“Este trabalho não se destina a ser um catálogo de todos os filmes feitos na história global da indústria cinematográfica que incluem, representem, abordem, ou mencionem religiões específicas ou religiões em geral.

“O objectivo desta enciclopédia não é catalogar todos os filmes religiosos – quaisquer que sejam – mas dar aos leitores algumas ferramentas de que possam necessitar para avaliarem produtos visuais para si mesmos e permitir-lhes criarem as suas próprias listas de filmes (como quer que as definam) em várias partes do mundo em relação a várias – mas não todas – as tradições religiosas (e como estas são representadas em filmes).”

Christine Hoff Kraemer é uma académica de Estudos Religiosos especializada em Paganismo contemporâneo, sexualidade, teologia, e cultura popular. Em “Gender Essentialism in Matriarchalist Utopian Fantasies: Are popular novels vehicles of sacred stories, or purely propaganda?”, ela procura responder a várias questões, sendo a primeira:

“Se o mito é indefensável como narrativa histórica, poderá ser usado como uma história sagrada, como sugere a teóloga feminista Starhawk?”

Neste paper publicado na revista (peer-reviewed) Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, Vol. 11, Nº 2 (2009), Kraemer defende que:

“Apesar da pesquisa arqueológica continuar a confirmar que a narrativa da Pré-história matriarcal é pouco suportada por evidências científicas, o uso a que se tem prestado na Ficção demonstra a sua contínua viabilidade como história sagrada.”

Em “Notes toward a Pagan Theology of Fiction” (17 de Maio de 2013, no blog Sermons from the Mound: Pagan Theology and Scholarship, Pagan Channel, Patheos) Kraemer abordou esta temática de forma descomplexada, não se excluindo da sua análise:

“Os Pagãos geralmente concordam que a Ficção tem poder espiritual. Nas suas entrevistas a Pagãos, Margot Adler (autora de Drawing Down the Moon) e Sarah Pike (autora de Earthy Bodies, Magical Selves) observaram que os Pagãos citavam com frequência a Ficção Científica e a Fantasia como inspirações importantes para a sua vida espiritual. Na disciplina de Estudos Religiosos, em geral, há imenso material acerca de como as pessoas têm usados romances, filmes e outros média para fins espirituais.

“Os meus estudos focam-se na forma como a Ficção com uma tónica religiosa tem inspirado a realidade das práticas comunitárias, e como de seguida os indivíduos voltam a ficcionar essas práticas comunitárias para conseguirem articular melhor e disseminar os seus valores religiosos. À semelhança do mito, que tende a focar-se mais na verdade espiritual ou cultural do que na verdade histórica (embora possa haver um evento histórico ou personalidade no cerne desses contos), os Pagãos normalmente usam Ficção para clarificarem valores, descrevendo experiências extáticas ou articulando esperanças de forma que sintam ser espiritualmente autêntica – um propósito para o qual as descrições em prosa histórica literal não são apropriadas.

“Apesar de eu mesma ter achado que a Ficção é religiosamente inspiradora (especialmente a Ficção que inclui a adoração de deidades históricas), em geral eu mantenho as personagens derivadas do entretenimento da cultura pop fora das minhas devoções. Há qualquer coisa de cativante na sugestão de diZerega que se lhe for dada suficiente atenção e energia, um pensamento-forma originalmente baseado numa narrativa da cultura pop pode tornar-se responsivo (ou, talvez, que um espírito pré-existente use o disfarce dessas imagens para estabelecer contacto com os humanos). No entanto, eu tendo a concordar com Galina Krasskova, que fazer da cultura pop o foco de uma prática espiritual poderia impedir-nos de formar uma relação com o parcialmente esquecido, mas potencialmente muito responsivo espírito do local onde estamos e dos nossos próprios ancestrais.”

“Eu preocupo-me que a Ficção possa ter uma qualidade escapista, e que envolver-me com ela de forma demasiado directa na minha vida espiritual possa distrair-me ainda mais do local.”

Esta conclusão remete-nos para o incontornável genius loci, o génio de lugar presente na Religião Romana e, sob várias outras designações, em muitas culturas autóctones. Sem limitações de género ou estética pré-estabelecida, talvez seja ele o nosso melhor guia, quando se trata de acedermos às nossas heranças energéticas, religiosas e culturais.

Fazendo jus ao “Museum”

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Recriação da vida quotidiana de uma ‘witch’, no MWM (Fotografia: © Museum of Witchcraft and Magic)

A chegada das primeiras chuvas, depois de um Verão sufocante, vem reactivar o que de mais orgânico existe na minha memória, que se relaciona com o estio e o “tempo impetuoso” que por vezes se manifesta de forma surpreendente e implacável.

Esta é a época das transmutações e da sublimação. Assim, pensando em situações de grande impacto, reporto-me a acontecimentos com mais de uma década, que hoje podem ser olhados como agentes de mudança benéficos, ainda que na época tenham sido devastadores. Com o distanciamento que os anos e a geografia me permitem, observo também como alguns meios de comunicação usaram uma calamidade para redefinirem as razões pelas quais uma aldeia piscatória é conhecida em todo o mundo. Censuraram pontos de interesse incontornáveis, que o establishment continua a querer relegar para o mundo das sombras. Ou seja, tudo o que ainda não cabe na pretty picture de um Reino Unido pitoresco, próprio dos postais ilustrados que estamos à espera de encontrar à venda nas lojas mais cristãs do countryside.

Como é habitual, a BBC é a maior aliada de todos os que querem reescrever os factos, de forma a projectarem para o mundo a imagem idílica das “terras de sua Majestade”. Para alguns, é óbvio que estou a falar de Boscastle ou Kastel Boterel, no norte da Cornualha, e dos acontecimentos a que por pouco eu não assisti in loco, a 16 de Agosto de 2004. Os mesmos que foram relembrados em incontáveis artigos escritos por ocasião do décimo aniversário da flash flood, a cheia que destruiu grande parte da aldeia e de outros vales nas proximidades de Tintagel. Locais como Crackington Haven e Rocky Valley nem sequer foram mencionados nos noticiários. Exactamente por não serem tão conhecidos como a aldeia onde, desde 1960, existe um curioso museu que é acarinhado por muitos e detestado por alguns. O Museum of Witchcraft and Magic foi dos poucos edifícios poupados à destruição total. Apesar da sua localização mais próxima do mar e de ter sofrido muitos estragos, não foi arrastado pela enxurrada. Este facto excepcional não foi digno de nota em artigos com títulos sugestivos, como o da BBC News, “Boscastle: The village ‘washed on to the map’”, de 16 de Agosto de 2014, onde apenas foi feita um acanhada referência a um “Museum”, que só identificamos através do nome da colaboradora Carole Talboys.

Desapareceram do mapa setenta e cinco carros, cinco caravanas, vários barcos e seis edifícios, incluindo o centro de turismo junto ao parque de estacionamento e a loja cristã de lembranças que funcionava do lado oposto ao museu, no local onde agora existe uma simpática National Trust shop. Os detalhes relativos à violenta precipitação que se fez sentir durante algumas horas e às características geográficas que contribuíram para que o rio Valency se transformasse numa torrente estão amplamente registados. As operações de salvamento foram as que mais meios exigiram, depois da Segunda Guerra Mundial. Desde o primeiro momento, o piloto de um helicóptero da Sea King que sobrevoou a área afectada requisitou todos os meios aéreos disponíveis. Entre os Magnificent Seven, destacam-se os contributos de um helicóptero da Royal Air Force da Royal Marines Base de Chivenor, em Devon, que salvou cerca de sessenta pessoas, de outro da Royal Naval Air Station de Culdrose e da Cornwall Air Ambulance. Do balanço final não constou qualquer perda de vida humana nem ferido grave, graças a todos os esforços de inúmeros habitantes com grande presença de espírito, de cerca de cem bombeiros da Cornualha e de Devon e da Guarda Costeira.

Houve muitos heróis naquele dia e todos merecem ser recordados com gratidão. O que não é admissível é que aquela cheia terrível, que ganhou um lugar de destaque na História do Reino Unido, sirva de pretexto para o whitewashing do costume. Ou seja, para que se faça tabula rasa do papel que durante décadas o Museum of Witchcraft and Magic, inúmeros colaboradores no âmbito do Paganismo em geral, e histórias fatídicas de mulheres como Joan Wytte, desempenharam no quotidiano de Boscastle. A contribuição para a economia local pode ser avaliada pela média de 40,000 visitantes, nos anos anteriores à cheia, apesar da epidemia de Febre Aftosa que teve impacto no turismo da Grã-Bretanha. É imperativo que os leitores dos artigos censórios da BBC, que apenas descobriram a aldeia após a catástrofe, e os visitantes de todo o mundo que só lá foram depois de terminado o processo de reabilitação total, fiquem bem cientes da existência prévia daquele museu, apreciem-no ou não. Porque, em conjunto com o património natural de Valency Valley e de Peter’s Wood (NT), bem como de preciosidades espirituais e arquitectónicas como a evocativa Minster Church, o MWM sempre foi uma referência incontornável para iniciados em diversas tradições mágicas, viajantes esclarecidos, peregrinos cristãos progressistas e até os habituais holidaymakers.

Feita esta introdução, volto às minhas memórias de todas as visitas a Boscastle. A primeira aconteceu durante a Mists of Avalon Pilgrimage de 2001 e repetiu-se duas vezes. As imagens mais intensas que ainda guardo são de um dia de Verão que parecia não ter fim, em Agosto de 2004, poucos dias antes da tragédia. Nada fazia prever uma alteração tão súbita do clima e de tudo o que me rodeava, a não ser talvez os fortes ventos que durante aquela semana motivaram o encerramento provisório de Tintagel Castle. Depois de uma manhã e início de tarde passados em Port Isaac, Trevena, Rocky Valley e St. Nectan’s Glen, o mini-bus deixou mais um grupo da Sacred Journeys for Women junto ao caminho do bosque, que leva até à encantadora clareira de Minster Church. Após uma temporada em West Penwith, no sul da Cornualha, eu e um amigo, colaborador habitual da SJW, aceitámos o convite para mais uma partilha com o novo grupo de mulheres que tinha acabado de chegar à Cornualha, vindo de Glastonbury.

Finda a visita ao graveyard que cerca a pequena igreja, descemos em silêncio pelo “bosque de fadas e duendes”, até ao fundo do romântico vale onde o rio Valency era apenas um riacho cristalino. Descalça pela erva, estendi o meu xaile axadrezado na margem, sentei-me e acenei às outras mulheres que iam passando por mim. Quando cheguei ao ponto de encontro, no parque de estacionamento, a coordenadora avisou-me que o resto do grupo ficara para trás para ajudar uma das mulheres, que tinha torcido um tornozelo no sinuoso caminho do bosque. Devido ao atraso, era preciso que alguém familiarizado com o local fosse avisar o Graham King, o então proprietário e curador do MWM, para que ele soubesse o que se passava e pudesse contar com a visita do grupo, ainda durante aquela tarde. Assim, eu segui à frente e como sempre fui muito bem recebida no museu, com direito a visita gratuita em regime de livre-trânsito e à habitual troca de impressões acerca de algumas das peças mais interessantes da colecção. Não que o preço do bilhete fosse caro, bem pelo contrário, e eu sempre tive muito prazer em contribuir para o fundo que assegura a preservação do MWM.

O museu original foi fundado em 1951, na Ilha de Man, por Cecil H. Williamson. Ele empregou Gerald Gardner como ‘resident witch’, mas a amizade entre eles não durou, porque o reservado Williamson, que era fascinado pela Craft das “wayside witches” do West Country, nunca aprovou a prática Wicca do excêntrico Gardner. Após alguns anos, Cecil mudou o museu para Windsor, em Inglaterra, vendendo a Gardner o edifício e moinho conhecidos por ‘Witches Mill’. Para mais detalhes acerca destes e de muitos outros factos relacionados com estas figuras incontornáveis da Witchcraft contemporânea, recomendo a leitura dos livros de Philip Heselton, em particular “Gerald Gardner And the Cauldron of Inspiration: An Investigation into the Sources of Gardnerian Witchcraft”. Durante vários anos, Gardner e Williamson geriram museus separados, tendo Williamson mudado o local do seu museu para vários pontos do sul da Inglaterra, como a aldeia de Bourton-on-the-Water, em Cotswold, onde a comunidade cristã lhe fez a vida negra, com direito a ameaças de morte, gatos estrangulados e pendurados no seu quintal, e cocktails molotov atirados para o interior do museu. Por fim, acabou por se retirar para a Cornualha e se fixar em Boscastle, em 1960.

Graham King comprou o museu a Williamson em 1996, depois de decidir fazer uma mudança de estilo de vida radical. Cecil Williamson viria a morrer em 1999, aos 90 anos de idade. Segundo King, ele era um homem fascinante, witch e cunning-man praticante de todos os tipos de magia, que fazia ‘trabalhos’ para os seus clientes. Terá sido agente do MI6, exercendo funções de conselheiro oculto dos serviços secretos britânicos, durante a guerra. Mais um caso surpreendente, a juntar ao de Doreen Valiente que, segundo a recente investigação de Heselton, foi um dos elementos do Bletchley staff a que Churchill se referiu como “the geese that laid the golden eggs and never cackled“.

Quando Graham King tomou conta do museu, herdou o esqueleto de Joan Wytte, uma mulher nascida em 1775 que foi apelidada de “Fighting Fairy Woman”, devido à sua estatura pequena e carácter quezilento. Ela era conhecida pela sua clarividência e as pessoas recorriam a ela para obterem profecias e curas. Terá realizado simpatias, em particular uma espécie de magia popular em que usava farrapos ou ‘clouties’ das roupas de pessoas enfermas. Atava-os a árvores junto dos muitos poços sagrados que existem naquela zona rural. A ideia era deixar o trapo desfazer-se até desaparecer, como a doença que se queria debelada. Antes de ser enterrado, o esqueleto de Joan foi analisado por especialistas forenses que confirmaram a sua idade de trinta e muitos anos. Concluíram que ela foi uma fumadora e que usava um cachimbo de barro. Devido a um grande abcesso no dente do ciso direito, terá desenvolvido uma atitude irascível na fase final da sua vida. Terá proferindo imprecações de forma indiscriminada, envolvendo-se em lutas onde demonstrava a sua extraordinária força física, que levantou suspeitas de possessão diabólica. Por fim, foi acusada, não de bruxaria mas de desordem pública e roubo, e encarcerada na medonha Bodmin Gaol. Aí, sucumbiu às deploráveis condições de vida, tendo morrido de broncopneumonia em 1813, antes mesmo de ir a julgamento.

Os seus ossos tornaram-se uma oddity, foram usados em sessões espíritas e várias outras práticas, antes de chegarem ao museu de Williamson. A verdade é que as ossadas humanas sempre foram usadas como atracções e os restos mortais de Joan Wytte estiveram expostos durante quarenta anos. Porém, partilhando da mentalidade que rege causas como a HAD – Honouring the Ancient Dead, os novos responsáveis do museu acharam por bem que lhe fosse concedido um enterro decente. Para além disso, o museu tinha vindo a ser alvo de fenómenos como poltergeist, pelo que foi pedido conselho a uma witch com mediunidade, que revelou que o espirito da falecida desejava ter uma cerimónia fúnebre. Assim, em 1998, com grande discrição, Graham e as pessoas da sua confiança enterraram-na respeitosamente num recanto bonito de um bosque da região. Algum tempo depois, colocaram perto desse lugar um memorial dedicado àquela que se tornou uma lenda local e é frequente encontrarem flores que visitantes anónimos deixam junto da lápide onde está gravado o seguinte epitáfio:

“Joan Wytte

Born 1775

Died 1813

In Bodmin Gaol

Buried 1998

No

Longer

Abused”

A maior parte dos museus recebe grants, apoios de patrocinadores, mas devido à sua temática o MWM não atrai esses padrinhos e subsiste apenas das receitas de bilheteira e de doações de particulares. Não se trata de um grande negócio e recorre à sua estimada Society of Friends. Cada amigo paga uma subscrição anual em troca da newsletter e de um evento anual, durante o qual algumas pessoas são convidadas a palestrar acerca de assuntos relevantes. As subscrições e doações são usadas na conservação dos arquivos e aquisição de espólio. Para além disso, é frequente o museu receber objectos, sobretudo ferramentas rituais de ocultistas falecidos e até colecções inteiras. Muito do trabalho de inventário e manutenção é realizado por voluntários ou pessoas que se deslocam ao museu para efectuarem pesquisas e aceitam este acordo de reciprocidade. Uma vez que a publicidade gratuita é sempre bem-vinda, o MWM sempre soube tirar o melhor partido dos média, chegando a receber alguns valores de companhias de Televisão. O objectivo é sempre fazer a mensagem do museu passar para o público e a prioridade é receber muitos visitantes, porque de facto a preservação e expansão daquela colecção, única no Reino Unido e no mundo, depende sobretudo da afluência sazonal, da Páscoa ao Halloween, sendo possível agendar algumas visitas excepcionais durante o resto do ano. Após a devastação das cheias, foram aplicados todos os esforços e um grande investimento na recuperação do museu, que reabriu ao público, como se nada se tivesse passado, no dia 25 de Março de 2005.

Naquele longínquo fim de tarde de Agosto, depois das despedidas e mesmo antes de partir de Boscastle rumo a Devon, eu ainda tive tempo de passar pelo posto de turismo que viria a ser arrasado. Comprei algumas lembranças e o livro “The Quest for King Arthur” (David Day, forward by Terry Jones; Michael O’Mara Books Limited). Mais um adorado título na minha biblioteca e menos um exemplar perdido, entre tantos goodies levados para o mar pelas águas inclementes da cheia do rio Valency, que transbordou apenas dias mais tarde. O choque e a tristeza foram indescritíveis, mas a esperança e a resiliência das gentes de Boscastle, em nome do bem comum, tornaram-se exemplos a seguir.

Genius loci de Merlin’s Cave

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Genius loci manifesta-se na encosta sul de Tintagel Castle

Existe uma pequena enseada ambiciosamente chamada “praia” de Tintagel, que é banhada pelo mar azul-turquesa. O mesmo que na nebulosidade parece cor de chumbo. Nos dias mais ensolarados e quentes faz-nos querer entrar na água. Porém, no lado oposto do promontório, onde esta fotografia foi tirada, o vento pode ser implacável e o caminho pode ficar interdito aos visitantes.

Eu tive a sorte de pisar cada degrau desse percurso íngreme, várias vezes. Entendo que a erosão é um problema que ameaça o local e que a subida é fisicamente exigente, mas não aceito o argumento segundo o qual a solução seja implantar uma ponte nos rochedos. Sobretudo, quando essa ponte não irá colmatar a falta de acessibilidade a visitantes com mobilidade limitada. Para além disso, terá de ser fechada sempre que os elementos assim o ditarem. Tendo em conta o que já assisti em Tintagel Castle, isso acontecerá muitas vezes, mesmo no pico do Verão. Apesar disso, o concurso público promovido com alarido pela imprensa apurou um projecto vencedor. A juntar a outras atrocidades, esse será o símbolo máximo da usurpação de um dos mais importantes monumentos da Cornualha pelo English Heritage.

Outra incongruência é que, apesar do risco de erosão, tenha sido permitida uma operação invasiva numa área geológica classificada como Site of Specific Scientific Interest. É de notar que as Lendas Arturianas têm sobrevivido bem, sem necessidade de esculpirem rostos imaginários nas rochas de lugares tão proeminentes e sagrados como os trílitos de Stonehenge ou os White Cliffs of Dover. Assim, porquê abrir uma excepção em Tintagel? Em qualquer outro monumento histórico isso seria considerado vandalismo, mas junto da entrada da chamada Merlin’s Cave aquele rosto indigente surgiu com o estatuto imedato de “intervenção artística”. O que se seguirá? Talvez Damien Hirst tenha uma ideia.

Por esta altura, eu e qualquer pessoa que tenha visitado Tintagel Castle quando a presença do English Heritage se limitava à gift shop tem motivos para se sentir privilegiado. E que bom era dispensar a boleia da carrinha e seguir pelo caminho abaixo, da King Arthur Bookshop até à base do promontório, parando numa roulotte para comprar um cone de gelado mint/choc-chip e acabar descalça, a molhar os pés no mar! Outros tempos, que não eram ensombrados por estátuas do Darth Vader com dois metros e tal de altura e um nome ridículo que não quer dizer nada do que eles pensam, porque Gallos em Kernewek não é sinónimo de “poder” mas sim de habilidade ou capacidade de fazer alguma coisa. A maior intervenção que eu alguma vez fiz por lá foi guardar umas pedrinhas e seixos para recordação. So guilty…

É dessas visitas que eu guardo memórias de como a magia acontece e o genius loci de Tintagel Castle se manifesta. A cor azul-acinzentada da rocha que brilha com uma iridescência subtil e a luz, intensa e um pouco etérea, quando se mistura com a neblina marítima. Era assim que estava o ambiente, da última vez que lá estive. A maré estava baixa e eu desci até à praia na companhia de um amigo, que é músico profissional e se mudou de Londres para a Cornualha há mais de uma década, depois de muitos anos a sonhar fazê-lo. A caverna de tecto arqueado está situada abaixo do cabeço que se separou do promontório e liga a praia de seixos ao lado oposto, onde os raios de sol começavam a aparecer, logo após o meio-dia.

Caminhávamos com cuidado, olhos pregados ao chão, para compensar a súbita falta de luz e tentar ver onde pisávamos. Havia outros visitantes na caverna, mas não estava apinhada. Num instante, eu percebi que se tratava de um grupo de jovens mulheres norte-americanas, talvez um pouco mais novas do que eu. Quando estávamos a meio-caminho, olhando para a saída, vi que elas pararam quando estavam apenas um pouco mais adiante de nós. Foi como se tivessem planeado fazê-lo e reparei como assentiram em concordância, antes de começarem a entoar belas harmonias, num cântico que parecia de sereias. Seis silhuetas recortadas contra luz, num concerto para o qual eu nem sequer paguei bilhete!

Entretanto, eu pensei naquela figura cujo rosto apenas o vento e as ondas esculpiram e continuam a fustigar, do outro lado do rochedo. Imaginei que ele deveria estar encantado com aquelas vozes e com tudo o que de mágico acontece em Tintagel. Foi um daqueles momentos que não podem ser recriados. Uma dádiva que por alguma razão merecemos receber.

Eu serei para sempre tão grata!

Recomendo uma colecção de curtas-metragens acerca de Kernow e da Língua Kernewek, que está condensada em dois DVDs da autoria do Bardo do Gorsedh Kernow e produtor Denzil Monk. Inclui um documentário acerca da polémica ocupação (legalizada) de Tintagel Castle pelo English Heritage. O título é Tyskennow Kernow e os trailers podem ser vistos online:

Tyskennow Kernow – Trailer 1

Tyskennow Kernow – Trailer 2