Gato por lebre

Martial 1

“Marcus Valerius Martialis, poeta romano” (London, July 1814, by G. Jones). Marcus Valerius Martialis foi um poeta latino que viveu na Hipânia durante o primeiro século da Era Comum. (Foto: The Print Collector/Print Collector/Getty Images)

 

A etimologia da palavra plágio é interessante e a sua história remonta ao primeiro século da Era Comum. Envolve o poeta romano Marcus Valerius Martialis, que usou a palavra “plagiarus” num dos seus poemas, para descrever um ladrão literário anónimo. Até aí o termo tinha sido usado para descrever o acto de raptar escravos ou pessoas livres que seriam escravizadas e a quem se atribuía valor monetário. Isto significa que para aquele poeta a apropriação dos seus poemas era tão grave como o roubo dos seus escravos, uma vez que o reconhecimento do seu mérito era indissociável da remuneração que deveria receber pelos poemas e que o poeta impostor que lhe negava.

Nos dias que correm, o que publicamos online não está protegido por direitos autorais, a não ser em circunstâncias em que o autor tomou providências extraordinárias que, na prática, podem significar muito pouco. A propriedade intelectual que deve ser protegida, quer tenha carácter ficcional ou derive de investigação, não deve ser difundida no espaço internáutico, nem mesmo através de correio electrónico. De nova, esta informação não tem nada, à semelhança de muitas publicações que todos os dias seduzem os incautos.

O tópico do plágio não é uma novidade, mas é actual e polémico entre cultores que defendem a transparência na difusão e comercialização de conteúdos relativos às religiões que estudam e praticam. O facto de muitos cultores serem académicos que disponibilizam algumas das suas pesquisas e composições através de plataformas de organizações, sem custos para o público, justifica a indignação e as reclamações, sempre que a fraude acontece.

Enquanto permanecemos no domínio dos blogs e websites, o hábito que muitas pessoas pouco capacitadas têm de usar os conteúdos de outros autores, sem referirem a fonte ou apresentando-os como seus, ainda que condenável, não gera grande frémito. Quem dera que copiassem apenas os textos que vale a pena ler. O problema é quando a arteirice de alguns resulta em produto comercializável de credibilidade duvidosa.

Os historiadores de religiões, Françoise Le Roux e Christian-J. Guyonvarc’h fizeram referência à vulnerabilidade do público, em dois dos seus livros relativos aos Estudos Célticos:

“É preciso, ainda e sempre, incansavelmente insistir sobre o facto de o fenómeno celta (como de resto todo o facto indo-europeu) ser unicamente linguístico e religioso, identificando-se a etnia celta, à partida, apenas pela língua. Podemos certamente sonhar e escrever os romances de pura ficção sobre a suposta história dos Celtas, mas nesse caso é preciso prevenir que se está a sonhar.

Em geral, infelizmente, não se previne, e o público deixa-se arrastar (o que poderia fazer para além disso?) por especulações cujo defeito comum consiste em se basearem em aparências que foram um pouco forçadas. E tudo tem uma explicação através dos Celtas, das Cruzadas à Revolução, sem esquecer o surrealismo e as insurreições estudantis de Maio de 1968. Pode mesmo atribuir-se aos Celtas a mensagem salvadora e ecológica que, entre o ano 2000 e um termo indeterminado, salvará a Humanidade – abstracção indefinível – da catástrofe nuclear.”[1]

“É evidente que não temos aqui em consideração os trabalhos marginais ou menores, obras aproximativas que, misturando a imaginação, a ignorância e, por vezes, a má-fé, enchem as montras das livrarias e transformam os Celtas do passado e do presente em matéria-prima comercial. O grande público é presa fácil para alguns semiletrados.”[2]

“Alguns «investigadores» acabam por se convencer de que o domínio céltico é de tão fácil acesso que não há qualquer necessidade de o conhecer para se escreverem livros.”[3]

Um caso flagrante de apropriação surgiu no âmbito inflamável de uma organização que, por incrível que pareça, alguns acreditam ter poder legal para aprovar a publicação de material que foi disponibilizado por inúmeros autores, ao longo de vários anos, no seu website. Esta entidade, autoproclamada Nova Roma é um Estado alternativo que não é reconhecido como fonte legítima de informação pela maioria dos cultores da religião romana. Esta plataforma teve o seu contributo na disseminação de informação mais ou menos fidedigna, acerca da civilização que se propõe reconstruir. Teve o seu tempo.

Os dissidentes daquela organização continuam a ver os seus textos publicados em livros que encontram receptividade junto de muitos leitores menos avisados. Alguns destes consumidores procuram uma introdução amigável e de fácil digestão ao culto dos deuses romanos. A maioria está formatada segundo aquilo que assimilou através de artigos e livros que resumem o panteão de forma enciclopédica ou o aplicam a contextos que nada têm de religioso e que, na melhor das hipóteses, se centram em aspectos mitológicos. Não apresentam referências uteis à reflexão e ao estudo individual, nem introduzem princípios teológicos que convém conhecer, sobretudo, antes de ministrar palestras, facilitar formação, e escrever outros livros redundantes, que irão perpetuar incorrecções graves, de geração em geração. Uma situação recorrente é a contaminação de conceitos clássicos por elementos do neoplatonismo, da magia cerimonial, da psicologia e da astrologia modernas, aos quais nem sequer é feita justiça.

Por terem sido publicados na plataforma online de uma organização, os conteúdos não passam a estar sob a alçada dessa entidade para fins comerciais, nem o seu uso recorrente dispensa referências detalhadas relativamente a todo o material citado. Ainda segundo as virtudes romanas, seria de louvar um pedido de autorização a quem teve o altruísmo de os oferecer aos internautas. Infelizmente há indivíduos que passam anos sem dar sinal de vida, apenas para reaparecerem como alegados autores de compilações de registos que são do domínio público. De livros que nem sequer foram submetidos à apreciação do Collegium Pontificum da entidade Nova Roma.

Para além de plágio, estes abusos são uma forma de apropriação cultural, uma vez que os princípios mais básicos proclamados no contexto onde surgiram são desrespeitados à partida, pelo acto de publicação indevida. Com a agravante de disseminarem uma versão customizada da verdade histórica, que tem um impacto enorme nas práticas religiosas dos aspirantes a cultores, que geralmente se mostram muito satisfeitos por cumprirem as instruções daquelas cartilhas. A única defesa contra estes abusos é a reclamação e, quando esta é ignorada, o maior número possível de críticas escritas em todos os pontos de venda online que permitam comentários aos livros. Apesar de todas estas acções, a situação raramente é revertida.

Um exemplo de rip off, de duas publicações resultantes de plágio, são os livros de um individuo que usa o pseudónimo Lucius Vitellius Triarius, que é o seu nome de cidadão na dita Nova Roma. Uma parte das receitas provenientes da venda dos títulos Religio Romana Handbook, A Guide for Modern Practitioners e Meditations on the Roman Deities, A Guide for Modern Practitioners, seriam retidas pelo alegado autor, talvez para cobrir quaisquer despesas resultantes de eventuais processos judiciais, e uma outra percentagem teria como destino a conta bancária daquela organização, mas não há como confirmar se isto acontece. A única certeza é que os responsáveis pela gestão do website da Nova Roma têm retirado inúmeros textos que continuam a ser do domínio público. Só não se sabe se esta medida vem no sentido de impedir o plágio ou, em vez disso, de retirar do olhar público os textos que, a seu tempo, serão matéria-prima de mais publicações abusivas e mal referenciadas.

A informação relativa a direitos de autor inscrita nas páginas do livro que podem ser visualizadas online apenas menciona o referido cidadão. Muitas vezes, quem compra não sabe que poderia ter acesso ao teor daqueles livros, sem quaisquer custos. A autoria de grande parte dos conteúdos é de vários membros que tinham abandonado aquela entidade, estando o maior contribuidor e responsável pela compilação original a enfrentar algumas dificuldades financeiras, o que não deixa de ser irónico. Nenhum deles antecipou que as suas composições viriam a ser usadas por alguém que nem sequer foi responsável pela compilação. Estes esquemas são executados em proveito de um ou alguns indivíduos, sem respeito pela ética e, na verdade, em detrimento de quem, por todo o mundo, aspira ao conhecimento do que é genuíno e não do que foi alvo de reconstruções que carecem verificação.

Entretanto, depois de várias denúncias, os livros foram temporariamente retirados dos websites subsidiários da Amazon, uma vez que esta companhia se rege pelo princípio de não comercializar publicações forjadas com conteúdos que à data de publicação eram do domínio público. Porém, quando menos se espera, as publicações voltam a estar à venda, gerando nova onda de protestos e a necessidade de alertar os leitores destes guias práticos para o facto de estarem a ser vítimas de fraude. Porque, para além do óbvio, as publicações que aparentemente simplificam acabam por promover a desorientação e o velho hábito que supostos novos sábios – sempre prontos a palrar o que leram e escutaram – têm de adulterar, ocultar e confundir.

Ninguém sabe tudo, mas felizmente há muitos que vão aprendendo o suficiente para se protegerem destas situações e saberem a quem devem reconhecimento pela transmissão gratuita de informação credível. Sabemos que um dos sinais mais evidentes de que não estamos no contexto clássico ou étnico mais desejável é a palavra “nova”.

Referências:

[1] Christian-J. Guyonvarc’h, Françoise Le Roux; A Sociedade Celta, Publicações Europa-América, 1995

[2], [3] Christian-J. Guyonvarc’h, Françoise Le Roux; A Civilização Celta, Publicações Europa-América, 1993

O que é eterno

incenso romano

Duas deusas, talvez Deméter e Perséfone; a deusa à direita deita incenso às chamas do tribulum em forma de altar. Relevo em mármore, de Elêusis, Romano, séculos I – II da Era Comum. Metropolitan Museum of Art, NY.

 

As religiões étnicas não são encenações. São contrárias aos devaneios, à superstição, aos neopaganismos e novos movimentos religiosos. Não podem ser criadas no presente nem são o produto de revivalismos inspirados num passado pouco conhecido ou imaginado.

São soberanas e independentes de “laços e sentimentos de pertença, vinculados a uma ética específica” que caracterizam as redes e o paradigma tribalista, deste modo definidos e relacionados entre si por Michel Maffesoli. Em nenhum aspecto se prestam à articulação de paralelismos abusivos e correspondências simplistas. Não podem ser tomadas por matéria-prima comercial para inúmeras publicações que as apropriem e orientem exercícios de cartilha, redundantes, inspirados em teorias psicológicas e uranoscópicas. Devem ser praticadas e não apenas pensadas. Ainda que muitos tentem, em hipótese alguma podem ser psicologizadas. As suas divindades não são astros, estereótipos nem arquétipos.

As suas teologias são literais, estão documentadas e podem ser reencontradas pelo cultor que queira estudá-las, sem pretensão de as recriar. Existem, são perpétuas e inextinguíveis. Os seus cultos podem ser restabelecidos, mesmo onde foram reprimidos, mas não devem ser reconstruidos. As suas cerimónias colectivas, com carácter público, não se prestam a manifestações aleatórias, de índole pessoal ou artística. Requerem a existência de um corpo sacerdotal, que observe os preceitos. Dispensam os criativos, organizadores de eventos, realizadores, produtores, argumentistas, encenadores, directores, actores e figurantes, a não ser na sua qualidade de cultores.

Distinguem-se de quaisquer vanguardismos e reacções a doutrinas e religiões, em particular às que lhes são posteriores, que delas derivaram ou degeneraram. Por serem indissociáveis das suas etnias, afirmam-se de forma espontânea e inalienável, permitindo a assimilação cultural de indivíduos de outras etnias, sem que isso ameace a sua integridade. São religiões comunitárias. Abrangem a prática singular e privada, sem promoverem a realização individual ou os interesses de pessoas que procurem protagonismo através de práticas e conceitos monetizáveis, ajustados à sua escala e semelhança. Destas ambições advêm sentimentos de estagnação, restrição, incompreensão e frustração, que podem e devem resultar em abandono.

O elemento supremo e intrínseco às religiões étnicas é aquele que, no contexto romano, Cícero traduziu por mens divina. No singular numen e no plural numina, “a que todos obedecem”.

Estão presentes.