O que é eterno

incenso romano

Duas deusas, talvez Deméter e Perséfone; a deusa à direita deita incenso às chamas do tribulum em forma de altar. Relevo em mármore, de Elêusis, Romano, séculos I – II da Era Comum. Metropolitan Museum of Art, NY.

 

As religiões étnicas não são encenações. São contrárias aos devaneios, à superstição, aos neopaganismos e novos movimentos religiosos. Não podem ser criadas no presente nem são o produto de revivalismos inspirados num passado pouco conhecido ou imaginado.

São soberanas e independentes de “laços e sentimentos de pertença, vinculados a uma ética específica” que caracterizam as redes e o paradigma tribalista, deste modo definidos e relacionados entre si por Michel Maffesoli. Em nenhum aspecto se prestam à articulação de paralelismos abusivos e correspondências simplistas. Não podem ser tomadas por matéria-prima comercial para inúmeras publicações que as apropriem e orientem exercícios de cartilha, redundantes, inspirados em teorias psicológicas e uranoscópicas. Devem ser praticadas e não apenas pensadas. Ainda que muitos tentem, em hipótese alguma podem ser psicologizadas. As suas divindades não são astros, estereótipos nem arquétipos.

As suas teologias são literais, estão documentadas e podem ser reencontradas pelo cultor que queira estudá-las, sem pretensão de as recriar. Existem, são perpétuas e inextinguíveis. Os seus cultos podem ser restabelecidos, mesmo onde foram reprimidos, mas não devem ser reconstruidos. As suas cerimónias colectivas, com carácter público, não se prestam a manifestações aleatórias, de índole pessoal ou artística. Requerem a existência de um corpo sacerdotal, que observe os preceitos. Dispensam os criativos, organizadores de eventos, realizadores, produtores, argumentistas, encenadores, directores, actores e figurantes, a não ser na sua qualidade de cultores.

Distinguem-se de quaisquer vanguardismos e reacções a doutrinas e religiões, em particular às que lhes são posteriores, que delas derivaram ou degeneraram. Por serem indissociáveis das suas etnias, afirmam-se de forma espontânea e inalienável, permitindo a assimilação cultural de indivíduos de outras etnias, sem que isso ameace a sua integridade. São religiões comunitárias. Abrangem a prática singular e privada, sem promoverem a realização individual ou os interesses de pessoas que procurem protagonismo através de práticas e conceitos monetizáveis, ajustados à sua escala e semelhança. Destas ambições advêm sentimentos de estagnação, restrição, incompreensão e frustração, que podem e devem resultar em abandono.

O elemento supremo e intrínseco às religiões étnicas é aquele que, no contexto romano, Cícero traduziu por mens divina. No singular numen e no plural numina, “a que todos obedecem”.

Estão presentes.

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