Por muitos caminhos podemos chegar a Roma

Samuel Palmer The Coloseum, Rome 2

“The Colosseum of Rome” (Anfiteatro Flávio); Samuel Palmer (1805-1881). Black chalk with pen and black ink on paper. 2 11/16 x 3 1/8 inches (68 x 79 mm) The Joseph F. McCrindle Collection. (2009.235) The Morgan Library & Museum

 

Entre pessoas que pensam o Divino do ponto de vista daquilo que para si é credível ou inverosímil, é comum encontrarmos estudiosos, terapeutas e artistas que apenas reconhecem as divindades através dos símbolos, qualidades, nomes, mitos, e da antropomorfia que lhes é atribuída. Fazendo uso desse património, não contemplam as religiões tradicionais que reconhecem o númen de uma deusa ou os númenes de múltiplos deuses. Essa postura e os argumentos usados para os limitar ao plano mental, o qual muitas pessoas não conseguem ou não se permitem transcender, abre um precedente que muitas vezes degenera em apropriação cultural daqueles símbolos. Não só por indivíduos exteriores ao contexto étnico das divindades e religiões, mas também por aqueles que, de forma involuntária ou deliberada, abusam as suas próprias heranças culturais e desconsideram as religiões tradicionais dos grupos étnicos de que descendem. Para compreender este processo é essencial saber o que é a apropriação cultural, de um modo geral, e entender o propósito dos símbolos no contexto religioso.

Quando tocamos no assunto apropriação cultural, não é raro sermos desencorajados com os habituais revirar de olhos e zombarias. No mínimo, alguém dirá que estamos a ser demasiado zelosos e a espartilhar o mundo em grupos, segundo uma visão dualista que opõe o “Eu” ao “Outro”, sem atender ao facto de todas as culturas procurarem inspiração umas nas outras. Muitos Pagãos queixam-se da “Polícia Cultural”, que acusam de perseguir aspirantes a tribalistas. Ninguém gosta de ver a sua indulgência posta em causa e as chamadas de atenção são encaradas como pretexto de quezília porque, na maior parte das vezes, não lhes convém saber a que nos referimos. Para muitos, encarar a apropriação cultural é pouco proveitoso, demasiado extenuante ou complicado. Preferem abster-se e manter os seus hábitos e devaneios. O problema é que estas atitudes acontecem a partir de uma posição de privilégio e não de respeito. Quando alguém se permite ignorar os efeitos da apropriação cultural, porque não o afecta a um nível pessoal, não anula o problema para aqueles que sofrem o impacto desse acto abusivo. Diminuir a questão apenas agrava o insulto.

Apropriação cultural consiste em tomar para si a propriedade intelectual, sabedoria tradicional, expressão cultural e artefactos de outros povos, sem permissão, mesmo que seja sob pretexto de honrarem um grupo étnico, incluindo elementos tradicionais de outro contexto na sua própria narrativa cultural. Isto pode parecer louvável, mas não acontece de forma igualitária, como parte de um intercâmbio saudável. Consiste no uso não autorizado das danças, música, folclore, culinária, vestuário, tatuagens e pinturas tribais, medicina tradicional, símbolos religiosos, e tudo o que seja originário daquela cultura. Os danos são maiores quando se trata de uma minoria étnica que foi ou é oprimida, alvo de genocídio, ou explorada de alguma forma.

Em carta aberta dirigida a todos os educadores, Tara Houska, a procuradora-geral especializada em direitos tribais e membro fundador da organização Not Your Mascots, expôs as evidências que atestam o impacto negativo da apropriação cultural para todas as crianças e deu o seu testemunho:

“Em 2005, a American Psychological Association (APA) recomendou a eliminação imediata de todas as mascotes com temas Nativos em instituições educativas, equipas atléticas, etc. A sua posição foi baseada na evidência empírica que demonstra o impacto prejudicial que as mascotes Nativas têm na auto-estima das crianças Nativas Americanas.

As crianças Nativas Americanas são 2.5 vezes mais vulneráveis ao suicídio do que qualquer outra raça; é a segunda causa de morte entre os 15 e os 34 anos. Ver o contínuo uso de símbolos e nomes que atingem as nossas crianças em situação de risco é particularmente desencorajador.

As mascotes Nativas também afectam as crianças não Nativas. Em Março deste ano, psicólogos da University of Buffalo conduziram um estudo predominantemente com participantes brancos e determinaram que, apesar das intenções positivas de honrar os Nativos Americanos, as mascotes trazem à memória pensamentos negativos e estereótipos associados aos povos Nativos. Mais, estes participantes expostos a mascotes Nativas também têm mais tendências a estereotipar negativamente outros grupos étnicos.

Este não é certamente o tipo de contexto que crie espaços educativos positivos para as mentes jovens. O bem-estar das nossas crianças devia ter mais importância do que o legado de uma mascote desportiva. Os Nativos Americanos têm lutado contra a apropriação das nossas imagens e a chacota feita da nossa cultura durante décadas, isto não é nada de novo.

Quando me mudei para Washington, D.C., eu fiquei chocada com a omnipresença das imagens da equipa de futebol americano de Washington. Eu não conseguia imaginar ser uma criança Nativa aqui; eu lembro-me de sentir vergonha enquanto estudante, quando fazíamos o cocar de papel para o Dia de Acção de Graças e quando os meus colegas se mascaravam de Nativos para o Halloween – isto é outro nível de indignidade. Cresceres a ouvir “Arranquem os escalpes dos Peles Vermelhas” durante os jogos e veres regularmente colegas a usarem uma caricatura de ti numa camisola; as nossas culturas não são trajes. Nós ainda estamos aqui.”

Chas S. Clifton, autor e historiador especializado em Estudos Ingleses e Estudos Pagãos, colaborador do Grupo de Estudos Pagãos da American Academy of Religion (AAR), na sua dissertação Nature Religion for Real, publicada na revista GNOSIS 48, de 1998, refere:

“E ninguém possui as ideias de percussão, fogueiras, cânticos, transes, magia sexual, meditação, ou os símbolos da faca, cálice, bastão, ou qualquer outro.”

De facto, a utilização de qualquer elemento universal não constitui só por si um sinal de apropriação cultural. Esta acontece quando vários elementos universais e étnicos estão reunidos, segundo os preceitos de uma cerimónia livremente adaptada dos ritos tradicionais de um povo aborígene, para o qual as verdadeiras cerimónias são sagradas. Não pode ser ignorado o facto de, na maioria dos contextos de colonização, estas práticas terem sido proibidas e consideradas actos criminosos que atentavam contra a soberania do colonizador que viria a destituí-las da sua sacralidade, apenas para as apropriar a seu bel-prazer. Neste caso, temos um exemplo de pastiche espiritual, que é uma apropriação feita para conseguir um determinado ambiente, um estilo ou feeling, que alguém totalmente exterior àquela cultura quer recriar em ocasiões e contextos que nada têm a ver com a origem étnica onde buscaram essa inspiração. Quando o objectivo não se resume a efeitos decorativos, do plano dos sentidos, procuram alinhar-se com determinados valores tradicionais de outras culturas, numa tentativa de reclamarem tradições que estão ausentes da sua vida.

Tudo aquilo pode parecer inofensivo, mas causa danos e grandes prejuízos, porque não podemos dissociar a propriedade cultural da propriedade intelectual e a sua protecção é essencial para a sobrevivência e desenvolvimento cultural dos povos indígenas. Quando um industrial reproduz um artefacto indígena em série, sem permissão, sem recorrer aos artesãos desse povo, nem contribuindo com a devida percentagem dos lucros gerados para a preservação da cultura que violou, ao criar um produto que não respeita qualquer ética e que não é mais do que um acessório carnavalesco, o dano é inegável. Com frequência, quando um motivo tradicional é roubado não é possível, do ponto de vista legal, atribuir o direito sobre essa propriedade intelectual que é parte da propriedade cultural de um povo, por direito, desde tempos ancestrais. Mas esta lacuna não legitima a apropriação.

Por vezes, a apropriação resulta em ridículo para quem ostenta símbolos étnicos. Um exemplo é o que acontece quando alguém que não é Maori se inspira em motivos Maori ou os copia e recorre aos serviços de um tatuador que não é um artista ta moko, que não entende os motivos e em nada beneficia a cultura Maori com o pagamento que recebe. Não quer dizer que todas as tatuagens com motivos Maori sejam inapropriadas, mas nunca serão consideradas ta moko e são designadas Kirituhi. Durante a época balnear podemos perceber que quando um motivo sagrado específico para o rosto é tatuado noutra parte do corpo, para além de ridículo, torna-se insultuoso.

Da mesma forma, ao definirem o que são cerimónias xamânicas, xamãs e xamanismo, muitos alegados facilitadores espirituais dos nossos dias estão a classificar a si mesmos, a outros povos e seus líderes espirituais, segundo um conceito que não existe como tal em nenhuma das tradições englobadas. Essa categoria, que é apenas aparente, reflecte os fetiches de uma visão imperialista do mundo e perpetua a invasão cultural, que promove a opressão, uma percepção selectiva e estática da realidade. Resulta na imposição de uma visão do mundo sobre outra, insinuando a aparente superioridade do invasor e a falsa inferioridade do invadido. É inaceitável que exista quem, sem qualquer experiência vivencial ou conexões com a cultura apropriada, se sinta no direito de redefinir, nos seus termos, o que é ou não é apropriação cultural. Isto é ofensivo, porque desta forma a narrativa que prevalece não é a das pessoas que viram a sua propriedade cultural violada, mas sim a voz de quem violou, o que é mais nocivo do que apropriação em si. Porque mesmo quando o apropriador admite que a sua atitude indignou os representantes legítimos daquela cultura, não acredita que tenha, de facto, feito nada errado.

Reporto-me agora à apropriação de elementos da Cultura Clássica da Europa, com o propósito de aprofundar a importância do símbolo no contexto religioso e étnico.

Em alguns dos seus livros mais populares, a médica, analista junguiana, professora de psiquiatria e autora Jean Shinoda Bolen trilhou o terreno movediço da apropriação cultural. No livro As Deusas em cada Mulher, que antecedeu Os Deuses em cada Homem, as «deusas» gregas são o elemento diferenciador através do qual a autora apresenta e desenvolve, de forma acessível ao grande público, o verdadeiro tema do livro, que nada tem de novo: o autoconhecimento através dos arquétipos. Repete, sem pudor, a afirmação mais comum e simplista, segundo a qual as divindades romanas são apenas traduções das divindades gregas adoptadas, ignorando por completo a verdadeira origem de muitos deuses romanos que não partilham númenes nem mitos com os deuses gregos e sempre estiveram associados a locais da Península Itálica:

“A maioria de nós aprendeu qualquer coisa sobre deuses e deusas do Monte Olimpo nos tempos de escola e viu estátuas e quadros deles. Os Romanos adoravam as mesmas divindades, designando-as pelos seus nomes latinos. Os deuses do Olimpo tinham atributos muito humanos: o seu comportamento, reacções emocionais, aspecto e mitologia fornecem-nos padrões semelhantes ao comportamento e atitudes humanos.”

Bolen recorre à arqueomitologia, uma área de estudo polémica, que por vezes resvala para o domínio da imaginação, na tentativa de afirmar a superioridade do Sagrado Feminino e de ilustrar supostos factos históricos de um passado inverificável. Este recurso enfraquece os argumentos e contribui para a distorção da natureza das divindades referidas. Ao abordar aspectos mitológicos, dissociando-os do seu contexto e assimilando-os a uma presumida origem universal, refere uma Grande Deusa, da qual todas as outras deusas descenderiam. Uma ideia que estava em voga à data da edição original daquele livro (1984), que deve mais ao Feminismo e aos novos movimentos religiosos do que à História das Religiões. Foi uma forma conveniente e proveitosa de agradar ao seu público e de escapar a um assunto bem mais complexo, que ninguém espera ver desenvolvido nos seus livros.

A incompreensão está patente desde o primeiro parágrafo da Introdução, em cada referência às «deusas» gregas, que restringe à imaginação e diz serem formas, ideias mentais, qualidades humanas e imagens, numa clara apropriação dos aspectos simbólicos, que surgem descontextualizados:

“Tal como as mulheres não estavam usualmente conscientes dos poderosos efeitos que os estereótipos culturais tinham sobre elas, também podem não estar conscientes das poderosas forças dentro de si que influenciam o que fazem e como se sentem. São estas forças que apresento neste livro, sob a forma de deusas.”

“Este livro descreve uma nova perspectiva psicológica da mulher, baseada em imagens de mulheres fornecidas pelas deusas gregas, que se mantiveram vivas na imaginação humana durante mais de três mil anos.”

“Os mitos gregos, e todas as outras histórias de fadas e lendas que ainda são contadas ao cabo de milhares de anos, mantêm-se actuais e pessoalmente relevantes, porque existe neles algo de verdadeiro acerca da experiência humana comum.”

“Embora este livro proponha uma teoria e forneça informações úteis aos terapeutas, é escrito para todas as pessoas que queiram compreender melhor as mulheres – sobretudo as que lhes são mais próximas, mais queridas e que lhes causam mais perplexidade – e para as mulheres descobrirem as deusas que vivem nelas.”[1]

Os Cultores poderiam tentar brincar às deusas e aos deuses em cada um. Mais do que divertido, poderia tornar-se uma brincadeira verdadeiramente orgiástica, mas sabem que não seria sensato. Apenas um exercício fútil. O leitor que tome contacto com este tipo de abordagem simplista, sem ter o benefício da experiência prévia do númen, sem conseguir transcender o plano mental que define as suas crenças, e pensando estar a ler livros que não têm o poder de impactar o seu entendimento das divindades, pode vir a ter uma surpresa. Porém, o mais provável é que aceite as limitações propostas e se concentre na temática dos arquétipos, aprendendo o lingo, jogando o jogo, assimilando as incorrecções, e relegando os detalhes referentes às «deusas» para um plano secundário, apenas auxiliar de uma tentativa de caracterização de aspectos da mente humana.

O que não foi esclarecido é que os símbolos, os nomes, as características físicas e qualidades atribuídas pelos seres humanos sempre foram apenas um meio para ascender à divindade. Os seus efeitos, para além do plano mental, não podem ser controlados pelos autores que os apropriam e apresentam ao leitor. Claro que para os praticantes de religiões teístas, as divindades não se resumem à mitologia, apesar de todo o potencial que os mitos encerram e que não podem ser resumidos em princípios teóricos do âmbito da análise junguiana. Portanto, as afirmações desta autora e de muito outros autores soam descabidas.

Todas as manifestações associadas às divindades ajudam os nossos cérebros a compreenderem e a tornarem concreto o que não é tangível nem nomeável. Não me refiro a características da personalidade! Como seres humanos, percebemos que esses símbolos têm implicações que estão para além do nosso entendimento. Em particular, para os Cultores não existem meros símbolos, porque estes manifestam o númen, o poder e, enfim, tudo o que advém da divindade cuja existência não depende do nome nem da forma que lhe atribuímos e que não é uma mera representação mental de uma qualidade humana, mais ou menos consciente. A ordem dos factores e de grandeza é totalmente contrária ao conceito de arquétipo que, segundo a autora e o seu mentor, é um produto da mente humana.

Independentemente dos detalhes relativos ao modo como tudo se processa, sabemos que os símbolos e os rituais têm o poder de direccionar as nossas mentes, estimulando as sinapses e actuando na libertação de substâncias químicas que permitem a ascensão a outros estados de consciência ou aquilo que por vezes é definido por aumento da intensidade de vibração. Estas reações facilitam o acesso a esferas que transcendem o plano mental e estão mais próximas de um plano divino ou da vibração de uma divindade. As palavras proferidas, em qualquer idioma, as nossas acções e intensões, são as ferramentas que nos auxiliam nessa ascensão e nos permitem intensificar as vibrações correctas para reverenciar as divindades. A isto se deve o facto de a prática prevalecer sobre a crença. Ao longo do tempo, sem que haja um intervalo definível, uma vez que este varia dependendo da pessoa e porque muitas vão sempre precisar dos símbolos ou de uma figura sacerdotal que facilite a ascensão, vai-se tornando mais fácil estabelecer a conexão com a divindade, invocá-la, vivenciá-la e manifestá-la em todos os planos da nossa existência e muito para além deles.

É desta forma que mesmo os livros baseados em princípios da análise junguiana, que apropriam os deuses gregos, podem ser um caminho para o verdadeiro conhecimento das divindades. Mas esta é apenas uma possibilidade. Porque, apesar do contacto com o númen poder acontecer de forma involuntária, por mais desprevenido que esteja, o leitor terá um papel activo no desenvolvimento de uma relação com os deuses. Usando uma metáfora, todos os caminhos podem levar a Roma, se os quisermos trilhar.

Muito para além de quaisquer livros bem-intencionados, lançados no mercado da auto-ajuda e das espiritualidades chave-na-mão, que muitos de nós lemos na mais tenra juventude, quando as nossas relações com as divindades eram apenas florescentes (não fluorescentes, como os autocolantes em forma de estrelas e planetas que colamos no tecto do quarto das crianças), o que importa é reter uma noção. Não cabe a ninguém que não “acredita”, e se mantém nesse plano mental, impor o seu ponto de vista acerca do que são ou não são as divindades, fazendo pouco caso da sua dimensão transcendente, indo contra qualquer tradição, e usando as suas opiniões como pretexto para apropriar os respectivos símbolos. Na melhor das hipóteses, essa postura é pretensiosa e na pior acusa desrespeito por um contexto religioso que não conhece. Principalmente se essa pessoa reclama afinidade com essa herança cultural e étnica.

Os filhos não têm o direito de redefinir as suas mães nem os seus pais de acordo com o seu ponto de vista, apenas porque deles descendem. Por mais benevolente que seja a natureza desses pais e mesmo que não castiguem os filhos pelas suas atitudes, que não lhes cortem as mesadas nem os deixem sem sobremesas, os seus actos lesam não só as suas relações familiares, no âmbito privado, como toda a herança, que acaba por ficar mal representada e mais vulnerável a sucessivas apropriações.

Isto é válido para um Nativo Americano que, procurando a aceitação do mundo Anglo, está disposto a alimentar a “imaginação cultural Euro-Americana”, encarnando o estereótipo do “nobre selvagem”. Tal como Clifton referiu, citando a ecofeminista iconoclasta Mary Zeiss Stange, no livro Woman the Hunter, aquele é o “Eco-Índio”, um ícone cultural que pode ser associado ao paradigma tribalista dos nossos dias e que é adoptado por pessoas que não vivenciam a realidade quotidiana dos Nativos Americanos, hoje em dia.

No entanto, aquela advertência também é válida para todos os que vivem na Europa e que fomentam a apropriação de uma vasta herança cultural, recusando-se reconhecer a existência de religiões que foram reprimidas, muitas vezes de forma irrecuperável, ou mal assimiladas por uma religião estrangeira supostamente superior, que durante quase dois mil anos foi imposta à Europa de forma abusiva, com recurso à mais terrível propaganda, em desrespeito pelos valores de diversos grupos étnicos. Claro que os neopaganismos, distintos das religiões étnicas, são como uma reacção cutânea a este passado ainda tão presente, que pode vir a repetir-se num futuro não muito distante.

A consequência mais prejudicial de um panorama em que os povos europeus e os seus descendentes vivem, na Europa e por todo o mundo, com um défice de referências espirituais a que possam chamar suas, do ponto de vista étnico, é aquela consecutiva e por vezes frenética apropriação de símbolos espirituais de outros povos. Para quem vive há duas, cinco ou vinte gerações em continentes que foram colonizados, pode tornar-se impossível negar uma relação legítima, no sentido do intercâmbio e não da apropriação, com as diversas culturas aborígenes, que são heterogéneas e estão em constante transformação. O mesmo não acontece quando a apropriação é feita por pessoas que sempre viveram na Europa. A conexão com aquelas terras, os rios, a fauna, a flora, o sangue, não pode ser estabelecida  apenas no plano mental, à distância ou durante uma visita esporádica, por mais inesquecível que seja.

Igualmente lesiva para a preservação e difusão da herança cultural das diversas etnias europeias é a idealização que os europeus e os seus descendentes, em qualquer continente, fazem de um passado que por vezes é totalmente imaginado, para servir ideologias, espiritualidades modernas e interesses comerciais. Porque, de facto, não precisamos seguir pela via da apropriação cultural para tomarmos contacto directo, conhecermos, respeitarmos e amarmos profundamente as nossas raízes. Esta atitude fará toda a diferença, na Europa e no modo como abordamos as culturas indígenas, por todo o mundo.

[1] Jean Shinoda Bolen; As Deusas em cada Mulher, Planeta Editora, 1998