Matrimonium

"Venus with Cupid and a Satyr"Antonio Allegri da Correggio, (c. 1528)

“Vénus e Cupido com um Sátiro”; Antonio Allegri da Correggio, (c. 1528); Musée du Louvre.

 

Originalmente, uma obscura deidade Italiana associada ao reino vegetal, aos jardins, e não à fertilidade animal, Vénus tem um nome de deusa-mãe muito mais arcaico do que Afrodite.

Associada ao matrimonium, semanticamente o seu nome revela ter sido esposa de Pan (Pã):

Pan < Phaunus (< Kaun-ish < Kian-ish >) > Wianis > Venus” = Fauna.

Bona Dea, no seu templo com as suas serpentes, é também interpretada como um título da antiga Deusa Romana Fauna. Portanto:

Bona Dea < Wauna Thea < *Kauna Keka = *Ki-Anish > Wi-Anish > Venus.

Dito de outra forma, Vénus era a evolução do nome de Bona Dea por compactação fonética da expressão ritual *Kuna kiki < Ki-Ana-Kiki.

in “Imperium Numinibus In Nomine Domine, Mitemologia racional” (Estudo comparado da nomenclatura, etimologia & fenomenologia mítica)

Matrimonium – Casamento Romano

A vida em comum, acordos pré-nupciais, divórcio, cerimónias religiosas de casamento, e compromissos legais tinham todos um lugar na antiga Roma. Os Romanos eram distintos de outros povos mediterrâneos ao tornarem o casamento uma união social entre iguais, não valorizando a submissão da mulher.

A palavra matrimonium, com a sua raiz mater (mãe) deixa evidente o principal objectivo desta instituição, que é a concepção de crianças. O matrimónio também podia melhorar o estatuto social e a riqueza. Alguns Romanos casaram por amor.

O casamento não era um assunto de estado, pelo menos até ao tempo de Augusto. Era um assunto privado, entre marido e mulher, as suas famílias, e entre os pais e as suas crianças. Contudo, existiam requisitos legais. As pessoas que se casavam precisavam ter o direito a casar, o connubium.

Connubium é definido por Ulpian (Frag. V.3) como “uxoris jure ducendae facultas”, ou a faculdade através da qual um homem pode tornar uma mulher a sua legítima esposa.

(…)

Recomendo a leitura integral deste artigo muito completo, em inglês:

Matrimonium – Roman Marriage

Living together, prenuptial agreements, divorce, religious wedding ceremonies, and legal commitments all had a place in ancient Rome. Judith Evans-Grubbs says that the Romans were unlike other Mediterranean people in making marriage a union between social equals and not valuing submissiveness in the women.

Motives for Marriage

In ancient Rome, if you planned to run for office, you could increase your chances of winning by creating a political alliance through the marriage of your children. Parents arranged marriages to produce descendants to tend the ancestral spirits. The name matrimonium with its root mater (mother) shows the principle objective of the institution, the creation of children. Marriage could also improve social status and wealth. Some Romans even married for love.

The Legal Status of Marriage

Marriage was not a state affair — at least until Augustus made it his business. It was private, between husband and wife, their families, and between parents and their children. Nonetheless there were legal requirements. It wasn’t automatic. People getting married had to have the right to marry, the connubium.

Connubium is defined by Ulpian (Frag. v.3) to be “uxoris jure ducendae facultas”, or the faculty by which a man may make a woman his lawful wife.

Who Had the Right to Marry?

Generally, all Roman citizens and some non-citizen Latins had connubium.

However, there was no connubium between patricians and plebeians until the Lex Canuleia (445 B.C.). The consent of both patres familias (patriarchs) was required. Bride and groom must have reached puberty. Over time, examination to determine puberty gave way to standardization at age 12 for girls and 14 for boys. Eunuchs, who would never reach puberty, were not permitted to marry. Monogamy was the rule, so an existing marriage precluded connubium as did certain blood and legal relationships.

The Betrothal, Dowry, and Engagement Rings

Engagements and engagement parties were optional, but if an engagement were made and then backed out of, breach of contract would have had financial consequences. The bride’s family would give the engagement party and formal betrothal (sponsalia) between the groom and the bride-to-be (who was now sponsa). Dowry, to be paid after the marriage, was decided on. The groom might give his fiancee an iron ring (anulus pronubis) or some money (arra).

How Roman Matrimonium Differed From Modern Western Marriage

It’s in terms of property ownership that Roman marriage sounds most unfamiliar. Communal property was not part of marriage, and the children were their father’s. If a wife died, the husband was entitled to keep one fifth of her dowry for each child, but the rest would be returned to her family. A wife was treated as a daughter of the pater familias to whom she belonged, whether that was her father or the family into which she married.

Distinctions Between Confarreatio, Coemptio, Usus, and Sine Manu

Who had control of the bride depended on the type of marriage. A marriage in manum conferred the bride on the groom’s family along with all her property. One not in manum meant the bride was still under the control of her pater familias. She was required to be faithful to her husband as long as she co-habited with him, however, or face divorce. Laws regarding dowry were probably created to deal with such marriages. A marriage in manum made her the equivalent of a daughter (filiae loco) in her husband’s household.

There were three types of marriages in manum:

  • Confarreatio
    • Confarreatio was an elaborate religious ceremony,
    • with ten witnesses,
    • the flamen dialis (himself married confarreatio) and
    • pontifex maximus in attendance.
    • Only the children of parents married confarreatio were eligible.
    • The grain far was baked into a special wedding cake (farreum) for the occasion; hence, the name confarreatio.
  • Coemptio
    • In coemptio, the wife carried a dowry into the marriage,
    • but was ceremoniously bought by her husband in front of at least five witnesses.
    • She and her possessions belonged to her husband.
    • This was the type of marriage in which, according to Cicero, it is thought the wife declared ubi tu gaius, ego gaia, usually thought to mean “where you [are] Gaius, I [am] Gaia,” although gaius and gaia need not be praenomina or nomina*.
  • Usus
    • After a year’s cohabitation, the woman came under her husband’s manum,
    • unless she stayed away for three nights (trinoctium abesse).
    • Since she wasn’t living with her pater familias, and
    • since she wasn’t under the hand of her husband,
    • she acquired some freedom.

Sine manu (not in manum) marriages began in the third century B.C. and became the most popular by the first century A.D. There was also a marital arrangement for slaves (contuberium) and between freedmen and slaves (concubinatus).

Sacrifício ritual e Direitos dos Animais

Mosaico romano de o djem (220-250 dc). Silêncio, os touros dormem 1

Mosaico romano de El Djem (220-250 CE) – “Silêncio, os touros dormem.”

 

Um esclarecimento acerca do sacrifício ritual de animais. Este assunto sempre gerou polémica, por várias razões. Nos últimos anos, sobretudo, entre membros de comunidades religiosas que defendem o direito de continuarem a usar métodos tradicionais no abate de animais, para fins religiosos. Geralmente com recurso a apenas um instrumento, como faca, sem medidas para diminuir o sofrimento do animal e confiando na eficácia das técnicas ancestrais. Os membros daquelas comunidades religiosas têm os seus argumentos, que não são aceites entre os activistas pelos Direitos dos Animais e que chocam com a legislação de países que baniram ou estão em vias de banir o abate de animais para qualquer fim, sem recurso a métodos para reduzir o sofrimento. A prática de atordoar o animal para o tornar inconsciente, mesmo antes da morte, é uma medida generalizada a nível mundial, no abate de animais para fins de consumo.

No contexto dos ritos do Cultus Deorum Romanorum que segue os preceitos arcaicos, estas questões não são centrais, uma vez que os Cultores da Traditio Romana de Numa Pompilius não sacrificam seres viventes:

“Il coltello che ora squarcia le viscere del toro abbattuto, negli antichi sacrifici non veniva affatto usato.” [ Ovid, Fasti, I.337 ]

“A faca que agora esquarteja as vísceras do touro abatido, nos antigos sacrifícios não era usada.” [Ovídio, Fasti I.337]

Esta prática foi totalmente impedida na tradição de Numa:

“I sacrifici non devono essere celebrati col versamento di sangue, ma con farina, vino e offerte frugali.”

“Os sacrifícios não devem ser celebrados com derramamento de sangue, mas com farinha, vinho e oferendas frugais.”

No entanto, o sacrifício de animais foi muito popular no período da Roma clássica, tendo sido realizado segundo o rito Romano e o rito Helénico, e continuamente praticado no âmbito público e em privado. Quando realizado, o Immolatio obedece a determinadas regras que têm de ser observadas. A mais evidente é a de que o animal tem de ser dirigido para o local do sacrifício sem recurso a medidas de coacção e sem estar atordoado ou sedado. Caso o animal resista ou se debata, o sacrifício não pode ser realizado, sob pena de ser prontamente invalidado. Também é assim na tradição Helénica, mas sempre existiram precedentes, no que respeita a medidas para atordoar o animal, sem que isso seja incompatível com a observação dos princípios indispensáveis para a validação do sacrifício. Os antepassados Romanos que praticavam o Immolatio previam a aplicação de um golpe para atordoar o animal, in loco, imediatamente antes do golpe mortal, à semelhança do que se verifica na tradição Helénica, de um modo geral:

“It made a difference, of course, whether a large or a small animal had to be killed. With a bovid or a large pig, it was wiser to stun the victim first. In the Odyssey it is one of Nestor’s sons who performs this act…” (Jan Bremmer 2010, “Greek normative animal sacrifice” in «A Companion to Greek Religion», ed. Daniel Ogden, Wiley-Blackwell, p. 136)

“The official performing the sacrifice took the knife from the basket, cut some hairs from the victim, and threw them on the altar fire. Small animals were held over the altar and their throats cuts; an ox was struck with an ax to stun it…” (M. C. Howatson 2013, «The Oxford Companion to Classical Literature» Oxford University Press, p. 505a)

“Fazia diferença, claro, se um animal grande ou pequeno tinha de ser morto. Com um bovino grande ou um porco, era aconselhável atordoar a vítima primeiro. Na Odisseia é um dos filhos de Nestor que realiza o acto…” (Jan Bremmer 2010, “Greek normative animal sacrifice” in «A Companion to Greek Religion», ed. Daniel Ogden, Wiley-Blackwell, p. 136)

“O oficial que realizava o ritual retirou uma faca do cesto, cortou alguns pelos da vítima, e atirou-os ao fogo no altar. Pequenos animais eram segurados sobre o altar e as suas gargantas eram cortadas; um boi foi atingido com um machado para o atordoar…” (M. C. Howatson 2013, «The Oxford Companion to Classical Literature» Oxford University Press, p. 505a)

Não está em causa a validade moral do sacrifício ritual de animais. Está implicitamente aceite que o sacrifício animal é um acto válido e sagrado nas religiões e tradições que o praticam, salvaguardado pela ortopraxia inerente. Para quem o sacrifício de seres viventes está totalmente fora de cogitação, é perfeitamente possível observar todos os preceitos do Cultus Deorum Romanorum da tradição de Numa; inclusive, existem Cultores vegetarianos, vegan, e que seguem regimes alimentares que excluem o consumo de aves e de mamíferos. Porque o sacrifício de animais nas tradições Romanas é de cariz comunal, não faria sentido sacrificar um animal cuja carne não seria depois consumida pelos Cultores.

Palavras cruzadas

Triple Hecate, Roman statue (marble), 3rd century AD, (Antalya Müzesi, Antalya). [photo by Dick Osseman]1

Tripla Hécate, estátua Romana (mármore), século III EC, (Antalya Müzesi, Antalya). [fotografia: Dick Osseman]

Acerca da palavra bruxa ou bruxo, que não equivale à palava Bruxa ou Bruxo, aplicada a um contexto contemporâneo especifico:

Apenas ao dizê-la e escutá-la ninguém consegue perceber a diferença. Em todo o caso, as pessoas que discriminam, condenam, e até matam alegadas bruxas e bruxos, hoje, não querem saber qual é a diferença; seja qual for o termo que signifique o mesmo que bruxa, em diferentes idiomas. Muitas pessoas trabalham, criativamente ou em aconselhamento, com o arquétipo da bruxa ou o arquétipo da mãe ou o arquétipo da deusa (e aqui este é o único que existe – não existe tal coisa como o arquétipo de Vénus ou o de Diana ou o de Juno; que denotam uma falta de compreensão ou uma distorção do que é um arquétipo.) Infelizmente, algumas pessoas inflamam-se, não compreendem, ficam ofendidas, e até se sentem discriminadas, quando alguém simplesmente indica a etimologia da palavra bruxa. Outras esquecem que a Psicologia é acerca de comportamento, não de Espiritualidade. As nossas espiritualidades – e a nossa religiosidade – manifestam-se nos nossos comportamentos e essa é a matéria para a Psicologia, não é a Religião. Da mesma forma, a essência da Literatura é a narrativa, nada mais.

Todas as interpretações e apropriações da palavra bruxa são literárias e usadas no contexto de teorias psicológicas e visões “psicologizadas” da realidade. A Vida e as nossas vidas não são narrativas e, embora contenham histórias, não são histórias. No entanto, muitas “pessoas narrativas”, que vêem as vidas como histórias, usam a palavra bruxa para caracterizar – não para definir – a si mesmas e/ou outras pessoas. Algumas pessoas perdem o contacto com a realidade, de forma voluntaria ou acidental. É o seu problema ou a sua redenção. Contudo, isto não altera o significado da palavra bruxa, os factos históricos e as imagens que ela evoca, quer gostem ou não, quer isso encaixe nas suas histórias – e nas suas espiritualidades, em particular – ou não.

Uma explicação semelhante aplica-se à palavra pagã ou pagão, que não equivale à palavra Pagã ou Pagão, como é aplicada num contexto contemporâneo específico. Mais uma vez, apenas ao dizê-la e escutá-la ninguém consegue perceber a diferença.

 

Poder e superstitio

JRaiseLazarus

Um fresco do século III descoberto nas catacumbas da Capela de São Callisto, em Roma, representando Jesus segurando uma varinha na mão direita enquanto reergue Lázaro dos mortos.

A superstitio não se traduz apenas numa atitude servil que procura aplacar a ira dos Deuses mas também no desejo de extrair e usar o poder dos Deuses, através da magia natural e das suas Leis Magicas. A Lei do Contacto ou Contagion é a segunda lei secundária da Lei da Similaridade. Segundo esta lei, as coisas que alguma vez estiveram em contacto continuam a actuar uma sobre a outra, à distância, mesmo depois do contacto físico ter cessado. Pelo menos, até que seja realizado algum ritual para banir essa conexão.

Entre os que ambicionam ao poder, são comuns expressões que revelam superstitio e presunção. Um exemplo é; “Estou a trabalhar com os Deuses.” Ou seja, com esta ou aquela divindade, desta ou daquela tradição, desta ou daquela cultura; muitas vezes alternadamente, outras em simultâneo. Isto também acontece, de forma mais assumida e socialmente aceite entre pessoas de qualquer religião ou sem nenhuma, no contexto das teorias psicológicas que reinterpretam o conceito Junguiano de arquétipo. Trabalhos.

Entre praticantes modernos das mais diversas tradições mágicas, é frequente a procura de referências acerca de métodos, como de iscos para as divindades que procuram atrair. Tais “informações” chegam a adquirir um carácter sigiloso ou mesmo intransmissível, por serem alegadamente potentes e apenas destinadas aos iniciados nas referidas tradições. Mesclam ideias herméticas da Renascença e conceitos modernos de magia, dos séculos XIX e XX, de tal forma que se instala a crença acerca da existência de correspondências mágicas fixas que remontam à Antiguidade. A consequência deste equívoco é a ideia de que os Romanos (ou Egípcios ou Gregos…) saberiam todas as respostas para as preguntas dos neopagãos com pretensões a mágicos. À falta de antepassados originais, é aos Cultores que chegam aquelas questões, tão recorrentes que poderiam justificar a abertura de um centro online ou linha telefónica com respostas standard, de forma a desobstruir os grupos de partilha dedicados à Religio.

“Isso soa familiar. No passado tentei explicar as diferenças entre o uso da magia na religião Romana e o tipo de magia greco-egípcia do Império Oriental. Pode encontrar-se magia natural nas práticas Romanas. A cura de Catão para uma perna partida é um exemplo da Lei da Similaridade. As ideias acerca dos numina divinos estarem em coisas e de que os numina podem acumular-se em coisas que assim ganham poder espiritual adicional é um exemplo da Lei do Contagion. Esta lei, da magia natural, é a ideia por detrás das relíquias em todas as religiões. A magia greco-egípcia também usa essas leis da magia natural. Mas adiciona alguns outros conceitos, tal como astrologia, elementares, daemones e o poder das palavras para os controlar. Os Cristãos hoje não percebem que quando os autores dos textos deles colocam Jesus a dizer “ego eimi, eimi…” estavam a recordar uma típica fórmula mágica greco-egípcia. Comparativamente é o mesmo que a fórmula encontrada no GPM: “Eu sou o grande deus Heru que te comanda.” Pode ser por isto que Jesus foi inicialmente representado no Ocidente como um mágico com uma varinha mágica a transformar a água em vinho e a reerguer os mortos. No Ocidente Romano eles conseguiam reconhecer tal fórmula como sendo Oriental. As ideias por detrás do ocultismo moderno vieram desse mesmo contexto. O que os modernos ocultistas por vezes não percebem é que as suas “ciências Herméticas” – teurgia, astrologia moderna, alquimia, tarot, etc. – e a chamada alta magia têm origens Cristãs. Indiquem-lhes Iamblichus, Platão, e outras fontes gregas para o que eles procuram. Explicações são demasiado complexas para oferecer.”

Marco Orazio

 

Correspondências Modernas

Bikini designed by Emilio Pucci, 1955. Emilio Pucci Archive, all rights reserved. 2

Villa Romana del Casale, primeiro quartel do século IV na Sicília, não muito longe da Piazza Armerina. Modelo a usar um biquíni concebido por Emilio Pucci, 1956; fotógrafa Elsa Haertter. Emilio Pucci Archive, todos os direitos reservados.

Reiterando as declarações anteriores:

A Religião Romana Tradicional

“Pode retirar dela o que desejar. Pode acrescentar qualquer coisa que desejar ao seu cultus mas não vamos ensinar isso. Ninguém está a negar permissão a ninguém de fazer o que entender mas nós não ensinamos Japa ou mantra ou feitiços. Pode procurar qualquer comunidade pagã ecléctica que desejar para aprender e discutir o que desejar.

Os Romanos foram tolerantes com outras práticas religiosas também conhecidas por sacra privata conquanto não impedissem ou obstruíssem a sacra publica do Cultus Deorum. A Religião Romana Tradicional de Roma era a sua base. Outros Deuses foram sincretizados ao longo do tempo mas os Dies Consentes permaneceram os mesmos e os Deuses primários e as práticas não se alteraram. Na Antiguidade as práticas era mais semelhantes do que as vastas diferenças que vemos hoje. Esta assimilação ocorreu através de conquista.

Nós não estamos interessados em conquista. É bem-vindo ao nosso lar. Em vez de tentar mudar os nossos hábitos, aprenda com eles. Não entraria numa comunidade Vodoun e insistiria que faria um ritual sem um peristilo porque quer fazê-lo dessa forma. Mas seria convidado a aprender ou sair. Somos Cultores tradicionais e cada um de nós tem o seu cunho pessoal mas também preservamos os princípios básicos já delineados. Por favor, respeite-nos como nós respeitamos a si. Há muito que pode aprender, se der uma oportunidade.”

Jenna Rose Brent

Desfazendo o nó:

Associação com sistemas mágicos

“A filosofia Hermética emerge na Grécia por volta de 500 antes da Era Comum. O Egipto e mais tarde Roma aderiram a ela – os Romanos basicamente devido aos escritos de Platão e Sócrates – muitos estudiosos, filósofos e a elite política de Roma estudaram na Grécia ou foram educados por escravos Gregos e assim aconteceu que Hermes, a filosofia Hermética, a espiritualidade, o misticismo e o conceito de um sistema Hermético se sucederam. Contudo, é sobretudo um sistema Grego que, em algumas tradições, tem uma forte influência do sistema mágico Egípcio.

Quanto aos dias da semana, não eram “adorados” por rotina na Religião Romana – em nenhum período. Porém, havia o aspecto de certos dias serem mais propícios do que outros para pedir favores dos Deuses, um conceito que está no limite entre magia – superstitio na relação mística espiritual com os Deuses Romanos – uma influência dos antepassados Etruscos e mais tarde dos cultos Orientais, embora alguns mistérios tivessem os seus. No entanto, se uma pessoa tinha uma relação com os deuses podia pedir aos seus Patronos independentemente do dia da semana; o fasti, o Feriae, dies festi, que lhe estivesse associado como o dies natalis, Sacra gentilícia, kalends, Ides, Nones etc..

Os rituais dos dias da semana são um conceito relativamente moderno, um conceito oriental mas mesmo no Oriente não é como o conceito de Sanatana dos antigos textos Védicos; embora eles tenham dias auspiciosos para os deuses, eles não adoram os dias da semana ou fazem litanias em cada dia. Tais litanias, meus amigos, são um conceito Cristão que se desenvolveu com o tempo e mesmo esse é um aspecto mais moderno. Um aspecto moderno tornado muito popular nas formas new age das antigas religiões – incluindo a Afrocêntrica – com tempo de sobra. No CD cada Deus teria rituais inteiros no decorrer da cerimónia que inclui a formula básica de um ritual completado com sacrifício. O que é mais importante na Antiga Religião Romana é ter um patrono ou patronos e reverenciá-los regularmente independentemente do dia da semana.

Espiritualmente e misticamente, os acessórios das ferramentas rituais, invocações, cores, pedras, música, libações, oferendas etc. emitem a cadência vibracional que atrai a divindade para o ritual. Não é o dia da semana, a menos que seja uma data específica como aniversário, consagração, ascensão ou morte etc. com o tradicional ritual regulamentar. Dado isto, é perfeitamente aceitável tecer um dia específico numa prática religiosa privada ecléctica, desde que a pessoa perceba o que torna o ritual potente e satisfatório; o que quer dizer que tem de ser feito de forma contínua tendo em atenção a criação do ambiente propício, contracto regulamentar etc. – se não for assim é teatralidade vazia, ou na melhor das hipóteses poesia bonitinha.

Leva muito tempo e entrega manter uma agenda complicada para cada dia da semana de acordo com os ritos da Religio e francamente a maioria não pode fazê-lo, requer muita energia, tempo e dinheiro – no fim trata-se mais de aparências exteriores e programas do que de comunhão com os Deuses. E muitos podem até ganhar a fúria de alguns Deuses se a pessoa falha na manutenção disso. Uma pessoa deve reverenciar os Deuses com qualidade e não quantidade. Um patrono ou três é fazível numa base regular, reverenciar vários Deuses favoritos com um rito e sacrifícios longos e elaborados para cada, trimestral, semianual ou anualmente é o mais apropriado e fazível.”

Jenna Rose Brent

“A religião Romana não aderiu a nenhum sistema de correspondências. De facto, a antiga magia Hermetista, que empregou correspondências, não era consistente. O que encontramos hoje são sistemas modernos que, na melhor das hipóteses, datam do Renascença. Quanto às cores, existiam algumas noções de cores associadas aos planetas. Vénus com verde, do cobre. Apolo ou Sol com ouro. O planeta Marte era com mais frequência relacionado como Hércules, e com a cor vermelha. Luna ou Diana com prata. Júpiter, associado com éter e o céu, com o azul. Preto para Saturno, e cores misturadas para Mercúrio. Estas correspondências de cores são bastante tardias, do Império Oriental, e tiveram uso continuado. Pode ler Ficino para saber mais acerca do uso da cor e dos planetas.

Para além disso, Minerva foi mencionada com olhos verdes, Ceres com cabelo loiro, fitas azuis adornavam os sacrifícios a Neptuno, brancas para Ceres, vermelhas para a Bona Dea, mas estas convenções não eram o mesmo que correspondências. Exemplares encontrados, primeiro da Etrúria e mais tarde por todo o Império Romano, mostram a produção massiva de imagens pintadas de todas as formas, mas apenas o azul, amarelo, vermelho, branco e preto eram usados. Vermelho, azul, e amarelo eram usados alternadamente para o vestuário das figuras. Os Romanos pintavam tudo, mas apenas para decoração, não qualquer sistema de simbolismo ou correspondências mágicas.”

Marco Orazio

O Cultus Deorum: princípios

Ara Pacis Augustae, painel de "Tellus"

Ara Pacis Augustae, painel de “Tellus”, Roma; mármore, séculos 13-9 antes da Era Comum (foto: CenozoicEra, 1995, domínio público).

Mensagem de uma mentora:

“Um princípio do CD [O Cultus Deorum] é a filosofia no sentido dos Deuses, que é decididamente diferente de outras tradições de pensamento religioso. Um preceito da religião Romana é a simplicidade, pragmatismo e relação contratual com os Deuses baseada no princípio de “do ut des,” – “Eu dou para que possas dar.” Proceder de outra forma é eclectismo com sabor Romano; enquanto sacra privata isso é perfeitamente aceitável, mas não enquanto prática da religião Romana. Contas de rosário, adoração de estátuas (não significando estátuas enquanto símbolos em santuários), centros psíquicos/chakras, varinhas, cartas Lemmie, livros de sombras, chamar os quatro ventos ou pontos cardeais por rotina, um panteão misto, indica uma crença religiosa ou tradição que é uma sacra privata sincrética, mas não deve ser referida como Romana. Claro que qualquer pessoa pode chamar a sua sacra privata como bem desejar.

Este grupo conhecido por Cultus Deorum existe para a discussão e ensinamento da Antiga Religião Romana, o que inclui os seus princípios. É acerca de como Os Deuses são reverenciados na tradição do Cultus Deorum. Não como eles são reverenciados na Tradição Helénica, na Tradição Kmética, na Tradição Wiccana, na Tradição Hermética, na Tradição Judaica, na Tradição Zoroastriana, na Tradição Hindu etc. e qualquer membro deste grupo deve esperar que os ensinamentos sejam transmitidos de acordo com a Antiga Religião Romana do Cultus Deorum. Os membros devem esperar ser questionados acerca de uma contribuição que não é do âmbito da nossa Tradição. Isto é importante para reforçar e ensinar os princípios da nossa antiga tradição. Também é importante na assistência a novos Cultores que foram chamado para a Religio pelos Deuses ou Mistérios Romanos, para evitar confusão relativa a filosofias, princípios e rituais do CD. Todas as pessoas são bem-vindas a participar em discussões, independentemente das suas crenças, mas por favor tenham em mente o propósito deste grupo e respeitem-no. Não somos recons [reconstrucionistas], embora alguns possam ser, mas também, alguns podem considerar isso insultuoso. Eu não me refiro a mim mesma como pagã, por muitas razões, mas esse não é o assunto deste texto.

Tal como um grupo Helénico é um santuário para essa tradição, tal como um grupo Politeísta é um santuário para essa tradição, tal como um grupo Cristão é um santuário para essa tradição e assim por diante, o Cultus Deorum é um santuário para os Cultores Romanos tradicionais discutirem as suas crenças, para expressarem as suas visões relativamente à Religião Romana Tradicional, para expressarem as suas divergências, ou o seu desânimo, relativamente ao que é a Religião Romana Tradicional neste, seu santuário. Este é um santuário do qual os Cultores podem esperar instruções Religiosas tradicionais e discussões e a prática correcta de preces, rituais, e sacrifícios. Para participar e fruir de discussões filosóficas, místicas, intelectuais e académicas acerca da natureza do divino, incluindo a relação com os assuntos humanos dos Cultores e o seu lugar na ordem social, de acordo com o CD.

Enquanto Cultores, a Antiga Religião Romana É uma parte do nosso quotidiano. Nós não precisamos de fazer um ritual elaborado para o Deus do Dia, nós temos os nossos patronos, nós temos o nosso fasti que está estruturado em torno das observâncias religiosas que nos guiam. Os nossos Deuses estão presentes em ritual mas também nas nossas portas, nos nossos santuários, nos nossos lararia, nos nossos jardins (que são santuários cultivados), nos nossos ribeiros e outros lugares naturais que também são santuários e/ou altares. Nós oferecemos sacrifícios em libações de comida e bebida à hora das refeições sem grande fanfara, apenas colocando uma pequena porção num prato e ora a pomos de parte, no lararium ou sacrário, ora as oferecemos durante rituais elaborados. Nós vivemos a nossa religião, a nossa tradição. Nós incorporamos os deuses de outros como sempre fizemos desde a antiguidade mas dentro dos princípios e práticas da nossa tradição. Enquanto acreditamos que preces regulamentares como adorações, invocações, evocações, petições, expiações e canções (Carmen) são potentes, também podemos estar certos que “um sacrifício sem preces é tido como inútil e não uma conferência decente com os deuses.” (Plínio o Velho) A acrescentar a isto, é parte do rito Romano incluir uma promessa, um votum ou voto pela concessão de uma petição/pedido.

A Tradição da Religião Romana, o Cultus Deorum, também tem o seu lado místico, das histórias dos Deuses aos seus Mistérios iniciáticos, (ancestrais, arcaicos et imperiais), aos seus cultos místicos e extáticos, aos seus muitos modos de divinação, simpatias, profecias, oráculos, augúrios, astrologia e meditações, aos seus métodos de magia que vão do misticismo ao superstitio, dependendo da filosofia e/ou pensamento político – ou do medo dos seus poderes. E este é apenas um breve sumário do que o rico mundo do Cultus Deorum tem para oferecer. Eu peço-vos que tomem o vosso tempo para aprenderem, colocarem questões, para penetrarem mais profundamente nesta rica tradição religiosa que é tão intrigante e poderosa que foi adoptada por um Imperador Romano e alterada num esforço de controlar o seu poder e o seu povo, mas que ainda consegue irradiar a sua luz através de 17 séculos de supressão, e que ainda inspira os cultores dos nossos dias a permanecerem Deiantiqua sub relligione” Roma (sob a religião da antiga Roma).”

por Jenna Rose (‘Cultus Deorum’ – Julho 2015)