Poder e superstitio

JRaiseLazarus

Um fresco do século III descoberto nas catacumbas da Capela de São Callisto, em Roma, representando Jesus segurando uma varinha na mão direita enquanto reergue Lázaro dos mortos.

A superstitio não se traduz apenas numa atitude servil que procura aplacar a ira dos Deuses mas também no desejo de extrair e usar o poder dos Deuses, através da magia natural e das suas Leis Magicas. A Lei do Contacto ou Contagion é a segunda lei secundária da Lei da Similaridade. Segundo esta lei, as coisas que alguma vez estiveram em contacto continuam a actuar uma sobre a outra, à distância, mesmo depois do contacto físico ter cessado. Pelo menos, até que seja realizado algum ritual para banir essa conexão.

Entre os que ambicionam ao poder, são comuns expressões que revelam superstitio e presunção. Um exemplo é; “Estou a trabalhar com os Deuses.” Ou seja, com esta ou aquela divindade, desta ou daquela tradição, desta ou daquela cultura; muitas vezes alternadamente, outras em simultâneo. Isto também acontece, de forma mais assumida e socialmente aceite entre pessoas de qualquer religião ou sem nenhuma, no contexto das teorias psicológicas que reinterpretam o conceito Junguiano de arquétipo. Trabalhos.

Entre praticantes modernos das mais diversas tradições mágicas, é frequente a procura de referências acerca de métodos, como de iscos para as divindades que procuram atrair. Tais “informações” chegam a adquirir um carácter sigiloso ou mesmo intransmissível, por serem alegadamente potentes e apenas destinadas aos iniciados nas referidas tradições. Mesclam ideias herméticas da Renascença e conceitos modernos de magia, dos séculos XIX e XX, de tal forma que se instala a crença acerca da existência de correspondências mágicas fixas que remontam à Antiguidade. A consequência deste equívoco é a ideia de que os Romanos (ou Egípcios ou Gregos…) saberiam todas as respostas para as preguntas dos neopagãos com pretensões a mágicos. À falta de antepassados originais, é aos Cultores que chegam aquelas questões, tão recorrentes que poderiam justificar a abertura de um centro online ou linha telefónica com respostas standard, de forma a desobstruir os grupos de partilha dedicados à Religio.

“Isso soa familiar. No passado tentei explicar as diferenças entre o uso da magia na religião Romana e o tipo de magia greco-egípcia do Império Oriental. Pode encontrar-se magia natural nas práticas Romanas. A cura de Catão para uma perna partida é um exemplo da Lei da Similaridade. As ideias acerca dos numina divinos estarem em coisas e de que os numina podem acumular-se em coisas que assim ganham poder espiritual adicional é um exemplo da Lei do Contagion. Esta lei, da magia natural, é a ideia por detrás das relíquias em todas as religiões. A magia greco-egípcia também usa essas leis da magia natural. Mas adiciona alguns outros conceitos, tal como astrologia, elementares, daemones e o poder das palavras para os controlar. Os Cristãos hoje não percebem que quando os autores dos textos deles colocam Jesus a dizer “ego eimi, eimi…” estavam a recordar uma típica fórmula mágica greco-egípcia. Comparativamente é o mesmo que a fórmula encontrada no GPM: “Eu sou o grande deus Heru que te comanda.” Pode ser por isto que Jesus foi inicialmente representado no Ocidente como um mágico com uma varinha mágica a transformar a água em vinho e a reerguer os mortos. No Ocidente Romano eles conseguiam reconhecer tal fórmula como sendo Oriental. As ideias por detrás do ocultismo moderno vieram desse mesmo contexto. O que os modernos ocultistas por vezes não percebem é que as suas “ciências Herméticas” – teurgia, astrologia moderna, alquimia, tarot, etc. – e a chamada alta magia têm origens Cristãs. Indiquem-lhes Iamblichus, Platão, e outras fontes gregas para o que eles procuram. Explicações são demasiado complexas para oferecer.”

Marco Orazio

 

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