Sacrifício ritual e Direitos dos Animais

Mosaico romano de o djem (220-250 dc). Silêncio, os touros dormem 1

Mosaico romano de El Djem (220-250 CE) – “Silêncio, os touros dormem.”

 

Um esclarecimento acerca do sacrifício ritual de animais. Este assunto sempre gerou polémica, por várias razões. Nos últimos anos, sobretudo, entre membros de comunidades religiosas que defendem o direito de continuarem a usar métodos tradicionais no abate de animais, para fins religiosos. Geralmente com recurso a apenas um instrumento, como faca, sem medidas para diminuir o sofrimento do animal e confiando na eficácia das técnicas ancestrais. Os membros daquelas comunidades religiosas têm os seus argumentos, que não são aceites entre os activistas pelos Direitos dos Animais e que chocam com a legislação de países que baniram ou estão em vias de banir o abate de animais para qualquer fim, sem recurso a métodos para reduzir o sofrimento. A prática de atordoar o animal para o tornar inconsciente, mesmo antes da morte, é uma medida generalizada a nível mundial, no abate de animais para fins de consumo.

No contexto dos ritos do Cultus Deorum Romanorum que segue os preceitos arcaicos, estas questões não são centrais, uma vez que os Cultores da Traditio Romana de Numa Pompilius não sacrificam seres viventes:

“Il coltello che ora squarcia le viscere del toro abbattuto, negli antichi sacrifici non veniva affatto usato.” [ Ovid, Fasti, I.337 ]

“A faca que agora esquarteja as vísceras do touro abatido, nos antigos sacrifícios não era usada.” [Ovídio, Fasti I.337]

Esta prática foi totalmente impedida na tradição de Numa:

“I sacrifici non devono essere celebrati col versamento di sangue, ma con farina, vino e offerte frugali.”

“Os sacrifícios não devem ser celebrados com derramamento de sangue, mas com farinha, vinho e oferendas frugais.”

No entanto, o sacrifício de animais foi muito popular no período da Roma clássica, tendo sido realizado segundo o rito Romano e o rito Helénico, e continuamente praticado no âmbito público e em privado. Quando realizado, o Immolatio obedece a determinadas regras que têm de ser observadas. A mais evidente é a de que o animal tem de ser dirigido para o local do sacrifício sem recurso a medidas de coacção e sem estar atordoado ou sedado. Caso o animal resista ou se debata, o sacrifício não pode ser realizado, sob pena de ser prontamente invalidado. Também é assim na tradição Helénica, mas sempre existiram precedentes, no que respeita a medidas para atordoar o animal, sem que isso seja incompatível com a observação dos princípios indispensáveis para a validação do sacrifício. Os antepassados Romanos que praticavam o Immolatio previam a aplicação de um golpe para atordoar o animal, in loco, imediatamente antes do golpe mortal, à semelhança do que se verifica na tradição Helénica, de um modo geral:

“It made a difference, of course, whether a large or a small animal had to be killed. With a bovid or a large pig, it was wiser to stun the victim first. In the Odyssey it is one of Nestor’s sons who performs this act…” (Jan Bremmer 2010, “Greek normative animal sacrifice” in «A Companion to Greek Religion», ed. Daniel Ogden, Wiley-Blackwell, p. 136)

“The official performing the sacrifice took the knife from the basket, cut some hairs from the victim, and threw them on the altar fire. Small animals were held over the altar and their throats cuts; an ox was struck with an ax to stun it…” (M. C. Howatson 2013, «The Oxford Companion to Classical Literature» Oxford University Press, p. 505a)

“Fazia diferença, claro, se um animal grande ou pequeno tinha de ser morto. Com um bovino grande ou um porco, era aconselhável atordoar a vítima primeiro. Na Odisseia é um dos filhos de Nestor que realiza o acto…” (Jan Bremmer 2010, “Greek normative animal sacrifice” in «A Companion to Greek Religion», ed. Daniel Ogden, Wiley-Blackwell, p. 136)

“O oficial que realizava o ritual retirou uma faca do cesto, cortou alguns pelos da vítima, e atirou-os ao fogo no altar. Pequenos animais eram segurados sobre o altar e as suas gargantas eram cortadas; um boi foi atingido com um machado para o atordoar…” (M. C. Howatson 2013, «The Oxford Companion to Classical Literature» Oxford University Press, p. 505a)

Não está em causa a validade moral do sacrifício ritual de animais. Está implicitamente aceite que o sacrifício animal é um acto válido e sagrado nas religiões e tradições que o praticam, salvaguardado pela ortopraxia inerente. Para quem o sacrifício de seres viventes está totalmente fora de cogitação, é perfeitamente possível observar todos os preceitos do Cultus Deorum Romanorum da tradição de Numa; inclusive, existem Cultores vegetarianos, vegan, e que seguem regimes alimentares que excluem o consumo de aves e de mamíferos. Porque o sacrifício de animais nas tradições Romanas é de cariz comunal, não faria sentido sacrificar um animal cuja carne não seria depois consumida pelos Cultores.

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