Os Errantes

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A figura sincrética de Aion-Uranus, representando a Eternidade, dentro de uma esfera celestial decorada com os signos do zodíaco. Entre uma árvore verde e uma árvore sem folhas (Verão e Inverno). Sentada defronte dele, Tellus, a Deusa- Mãe Terra, e quatro crianças representado as Estações (parte central de um mosaico de uma villa Romana, em Sentinum, agora conhecido por Sassoferrato, em Marche, Itália; ca. 200-250 da Era Comum.)

 

Por incrível que pareça, existem pessoas escolarizadas que pensam que os Deuses Júpiter, Saturno, Marte, Vénus e Mercúrio, entre outros, receberam os seus nomes por causa dos planetas do Sistema Solar, mesmo daqueles que foram descobertos apenas em séculos recentes.

Por outro lado, a maioria das pessoas não hesita em afirmar que aconteceu exactamente o contrário. Ou seja, que não só os planetas modernos, como os cinco planetas clássicos, receberam os nomes dos Deuses.

É raro encontrar alguém que entenda que os Deuses, os planetas, e os seus nomes sempre tiveram os mesmos numina, sendo o reconhecimento, que continua muito para além da Antiguidade, um processo simultâneo. A confusão, geradora do entendimento essencial desta questão, pode ser estimulada através da leitura do Capítulo VI, do Livro II, da História Natural, de Plínio o Velho.

Na impossibilidade de aceder, online, a uma tradução fidedigna, em Português, deixo um excerto de uma tradução em inglês:

“Let us now leave the frame of the world itself and treat the remaining bodies situated between the sky and the earth. The following points are certain: (1) The star called Saturn’s is the highest and consequently looks the smallest and revolves in the largest orbit, returning in thirty years at the shortest to its initial station. (2) The motions of all the planets, and among them the sun and moon, follow a course contrary to that of the world, namely to the left, the world always running to the right. (3) Although they are borne on by it and carried westward with an unceasing revolution of immeasurable velocity, nevertheless they travel with an opposite motion along their respective tracks. (4) Thus it comes about that the air is not massed in a dull lethargic ball by revolving in the same direction because of the eternal rotation of the world, but is scattered into separate portions by the opposite impact of the stars. (5) Saturn is of a cold and frozen nature. The orbit of Jupiter is much below it and therefore revolves much faster, completing one rotation every twelve years. The third star is Mars, called by some Hercules; owing to the proximity of the sun it has a fiery glow; it revolves once in about two years, and consequently, owing to its excessive heat and Saturn’s frost, Jupiter being situated between them combines the influence of each and is rendered healthy. (6) Next, the sun’s course is divided into 360 parts, but in order that an observation taken of the shadows that it casts may come round to the starting-point, five and a quarter days per annum are added; consequently to every fourth a year an intercalary day is added to make our chronology tally with the course of the sun.

Below the sun revolves a very large star named Venus, which varies its course alternately, and whose alternative names in themselves indicate its rivalry with the sun and moon—when in advance and rising before dawn it receives the name of Lucifer, as being another sun and bringing the dawn, whereas when it shines after sunset it is named Vesper, as prolonging the daylight, or as being a deputy for the moon. This property of Venus was first discovered by Pythagoras of Samos about the 42nd Olympiad, [612-609 BC] 142 years after the foundation of Rome. Further it surpasses all the other stars in magnitude, and is so brilliant that alone among stars it casts a shadow by its rays. Consequently there is a great competition to give it a name, some having called it Juno, others Isis, others the Mother of the Gods. Its influence is the cause of the birth of all things upon earth; at both of its risings it scatters a genital dew with which it not only fills the conceptive organs of the earth but also stimulates those of all animals. It completes the circuit of the zodiac every 348 days, and according to Timaeus is never more than 46 degrees distant from the sun. The star next to Venus is Mercury, by some called Apollo; it has a similar orbit, but is by no means similar in magnitude or power. It travels in a lower circle, with a revolution nine days quicker, shining sometimes before sunrise and sometimes after sunset, but according to Cidenas and Sosigenes never more than 22 degrees away from the sun. Consequently the course of these stars also is peculiar, and not shared by those above-mentioned: those are often observed to be a quarter or a third of the heaven away from the sun and travelling against the sun, and they all have other larger circuits of full revolution, the specification of which belongs to the theory of the Great Years.”

Em nome dos Deuses

A Hermès equestrian product displayed at the Leather Forever exhibition, London, in 2012. Photo Mark O-Flaherty

Um produto equestre Hermès (original em vermelho e amarelo) apresentado na exposição Leather Forever, Londres, in 2012. (Foto: Mark O-Flaherty)

 

O uso de nomes pela companhia francesa de produtos de luxo, Hermès, tem sido um tema quente.

No Verão passado, a actriz e cantora britânica Jane Birkin cujo nome serviu de inspiração para a icónica carteira Birkin, um dos handbags mais vendidos em todo o mundo, impôs uma condição àquela casa. No centro da polémica estava um vídeo apresentado pela controversa organização pelos Direitos dos Animais, People for the Ethical Treatment of Animals (PETA). Os seus activistas denunciaram a criação e matança de crocodilos e aligatores que alegadamente seriam utilizados pela referida companhia no fabrico da famosa carteira. Entre os animais explorados para este fim, contam-se também avestruzes e lagartos, entre outros. Após 68,000 pessoas terem assinado uma petição lançada pelos activistas, Birkin fez uma exigência à companhia, no sentido de ver o seu nome retirado daquele produto. Emitiu a seguinte declaração:

“Having been alerted to the cruel practices endured by crocodiles during their slaughter for the production of Hermes bags carrying my name … I have asked Hermes Group to rename the Birkin until better practices responding to international norms can be implemented for the production of this bag”

“Tendo sido alertada para as práticas cruéis sofridas por crocodilos durante a sua matança para a produção da carteira Hermes que tem o meu nome … Eu pedi ao Grupo Hermes para dar outro nome à Birkin até que melhores práticas que correspondam às normas internacionais possam ser implementadas para a produção da carteira”

Partindo de um olhar atento à transcrição das palavras de Birkin em muitos websites, é notória a ausência de acentuação no nome Hermès. Esta é uma lacuna frequente, também em plataformas de vendas online, e tem causado outras polémicas. Aquele acento é o único elemento que permite distinguir a marca de produtos de luxo, Hermès, do nome do Deus Grego, Hermes. Infelizmente este detalhe não é contemplado na linguagem electrónica, o que dá lugar à apropriação indevida de um nome que é de domínio público e à monopolização daquelas plataformas, por parte da companhia francesa.

Talvez, o mais preocupante nestas situações seja a certeza de que ninguém pensou nas consequências da apropriação para todos os que querem usar determinada designação no seu devido contexto cultural e, muitas vezes, religioso. Uma das denúncias mais recentes foi feita por um politeísta autraliano, no seu website:

“A particular god whom I’ve be devoted towards is Hermes, naturally I like making art for him, but his name is a big issue when selling online because it is trademarked. Meaning, I am not allowed to use the gods name in both his cultural context and religious context.”

“Um deus em particular de quem tenho sido devoto é Hermes, naturalmente gosto de fazer arte para ele, mas o seu nome é um grande problema quando se vende online porque é uma marca comercial. Significa que eu não sou autorizado a usar o nome do deus nos seus contextos cultural e religioso.”

Na Europa, de acordo com as leis comunitárias, só pode ser banido de usar o nome Hermes aquele que comercializar as mesmas categorias de produtos que a marca Hermès. Algo semelhante é válido para os EUA. Resta encontrar uma forma de assinalar e fazer valer as diferenças no meio virtual, onde as consequências são reais para todos aqueles que vêem as suas lojas online serem fechadas, por causa de equívocos que tomam proporções ofensivas.

Apesar dos danos ocasionais, longe de discursos conservadores, muitos politeístas não são contra a utilização dos nomes dos deuses para fins comerciais, desde que os seus próprios interesses – também comerciais – não sejam ameaçados por monopólios geridos por máquinas de marketing, geralmente ignorantes, autómatas e por isso ineptas no plano intelectual, religioso, e espiritual. O propósito destes motores de polémica é apenas servir, seja quem for. Incluindo os Deuses! Não sendo justificação para apropriações, é esta consciência que, muito além de quaisquer interesses comerciais, regula a opinião de muitos politeístas.

No meio internáutico, nos canais noticiosos, nos blogs pessoais, nas mais variadas publicações, as divindades fazem-se notar, mantendo os seus nomes presentes no pensamento de leitores e consumidores. Nada é mais válido para Deuses indissociáveis e regentes do Comércio, da Comunicação, e das Viagens. Quem os tem por patronos deverá saber contar com a sua astúcia e os seus truques, ainda que isso aparentemente fira os seus interesses.

Compete aos cultores e politeístas, em geral, saberem cada vez mais tecer a teia a favor dos Deuses, numa Rede que é deles, argumentando para defenderem os seus direitos. Deverão procurar esclarecer, suscitar o interesse e promover o conhecimento aprofundado, em vez de tentarem controlar o incontrolável e arriscarem iniciar discursos raiados de intolerância para com aqueles que pouco mais conhecem do que clichés generalistas e mitologias psicologizadas. É importante ter em mente que eles, ou os seus descendentes, poderão vir a ser, em consciência, os politeístas e cultores de amanhã. Melhor do que ninguém, um Mensageiro sabe que por muitos caminhos…

Amor sem limites

Alphonse Legros Diana huntress

“Diana, a caçadora”; Alphonse Legros (1837–1911)

Um aspecto que atrai bastantes pessoas para a Antiguidade Clássica e para o politeísmo, em particular para o culto dos Deuses Gregos, mas também dos Deuses Romanos, é a ideia de que aquelas sociedades aceitavam – e até promoviam, através de algumas divindades – a homossexualidade.

Se é válido afirmar que a antiga Roma não condenava as relações entre pessoas do mesmo sexo, também é verdade que este facto não significava uma aceitação. A diferença é que o Estado e a Religio não se imiscuíam na vida privada e sexual de ninguém, como veio a tornar-se norma após a ascensão do Cristianismo. No entanto, talvez ao contrário do que muitos possam ser levados a pensar, em parte devido a algumas cenas mais desbragadas em séries e filmes, a homossexualidade não podia ser assumida publicamente. As manifestações públicas de carácter sexual entre homens e entre mulheres não eram bem-vistas e nunca foram encorajadas.

Quanto à instituição do casamento, Matrimonium, estava reservada a casais heterossexuais e era, sobretudo, contractual. O que de facto se passava na intimidade não era averiguado. A cerimónia podia integrar elementos religiosos, mas isso era válido para qualquer matéria legal e não tinha o sentido espiritual que lhe foi atribuído no Cristianismo.

Na sociedade actual, felizmente, a maioria das pessoas não espera que ninguém pense estas questões da mesma forma que os nossos antepassados Romanos. Seja como for, os Cultores sabem que a Religio Romana é neutra neste aspecto, como é em muitas questões de ordem social. Não existe nenhuma razão para que os Cultores tomem qualquer posição contra ou a favor da homossexualidade, por motivos religiosos.

Não existem patronos Romanos para os indivíduos e os relacionamentos homossexuais. Qualquer associação de um Deus ou de uma Deusa a uma expressão da sexualidade, com base no sexo ou género, não passa de uma apropriação. O facto de determinadas divindades serem preferidas por pessoas solteiras, casadas, celibatárias, homossexuais, ou com qualquer vivência, não significa que estejam destinadas, ou restringidas, a ninguém em particular.

O casamento homossexual, como hoje o entendemos, nunca existiu na antiga Roma. Por isso, à partida, não podemos estabelecer nenhuma equivalência entre o modelo do passado e o presente. Quanto à Religio Romana, alguns podem achar que negligencia as necessidades de Cultores do mesmo sexo que desejam uma cerimónia religiosa para celebrar as suas uniões enquanto casais. Porém, no plano religioso não se trata de evitar a questão por não existir resposta para ela, mas sim de não haver nenhuma cerimónia específica para a união de casais com uma determinada vivência da sexualidade. Como referido, nem sequer era dada grande ênfase à cerimónia religiosa no contexto do Matromonium heterossexual, o único que era possível perante a sociedade.

Assim, como qualquer união conjugal estaria associada a Vénus, qualquer união de qualquer casal pode, hoje em dia, ser associada a Vénus. O facto de muitas mulheres homossexuais serem particularmente dedicadas a Diana não faz de Diana a Deusa certa para associar à união de lésbicas ou a nenhuma relação sexual entre ninguém. Por outro lado, o facto de Vénus estar associada ao Matrimonium não a torna a Deusa exclusiva dos heterossexuais que se casam. Nem o facto de Diana estar associada às companhias femininas e à ausência de relações sexuais a torna a Deusa das lésbicas, dos celibatários, ou das pessoas virgens (o que quer que se entenda por pessoa virgem), até porque seria um contra-senso. É fácil perceber. Não existe um Deus ou Deusa para as pessoas que desejem sexualmente e – ou – amem determinada pessoa, independentemente de quaisquer episódios mitológicos ou predilecção imperial por heróis ou divindades (sobretudo, Gregos).

Quando os Cultores, que partilham detalhes da sua sexualidade com o mundo, procuram cerimónias ancestrais específicas para pessoas com determinada vivência sexual e não encontram respostas que satisfaçam a sua necessidade de afirmação, também através de uma cerimónia religiosa, da sua sexualidade, podem sentir-se negligenciados. Contudo, não existe qualquer razão para se sentirem assim.

Se é possível e desejável invocar Vénus no contexto de uma relação sexual, do acto sexual, de qualquer manifestação amorosa, de uma cerimónia religiosa para celebrar qualquer união sentimental, e se não são impostas limitações à celebração de nenhuma união, não existe qualquer razão para achar que Religio Romana deveria ser menos neutra – ou mais pessoal, entenda-se como quiser – nesta questão. Nem que tal invocação a Vénus constituiria uma traição a quaisquer patronos pessoais.

O amor não tem limites e os Deuses muito menos, por isso, que ninguém se limite.

 

Communitas

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“Tempio di Giove Capitolino” (disegno ricostruttivo, J. Carlu, 1924), Musei Capitolini

As expectativas individuais nunca foram relevantes para a Religio Romana. A mentalidade “faça você mesmo” aumenta a confusão acerca de como abordar o Cultus Deorum Romanorum e os Cultores. Num contexto politeísta, muitas pessoas tomam-no por Paganismo moderno e tentam recriá-lo, para se ajustar aos seus intentos e preferências pessoais, em vez de olharem mais profundamente para a herança Romana e mudarem a sua perspectiva. Porque não se trata do que ninguém pensa que deveria ser, hoje, e de reformas para o tornarem apelativo e satisfatório. Por vezes, observar a frustração de alguém é como ver uma formiga a debater-se com uma grande migalha de pão. O que dizem nem sequer é ofensivo, apenas engraçado. Recomenda-se reflexão.

CDR – Cultus Deorum Romanorum

CPR – Communitas Populi Romani

MTR – Movimento Tradizionale Romano

NR – Nova Roma

RPR – Republica Romana

SVR – Societas Via Romana

“CDR não é uma organização e é propositadamente assim. Nós não queremos uma organização centralizada que possa interferir com grupos locais. Uma organização pode potencialmente levar a disputas políticas, preocupações financeiras e legais que são mais bem tratadas a nível local. Mesmo uma organização internacional deve lidar com alguns assuntos a nível local quando respeita a bancos ou a registos com agências governamentais. Uma organização tem os seus benefícios, mas eu aprendi com a experiência que tais benefícios são mais bem empregados localmente. Por outro lado, trabalhando juntos como indivíduos e grupos locais, podemos aprender uns com os outros. O site CDR destina-se a ser um recurso on-line de informações para todos os cultores e alunos da religio Romana. Gostaria muito de dar as boas-vindas ao CPR e usar a sua experiência e assistência nesse projecto. Gostaríamos também de informações acerca de grupos locais sobre como lidar com questões organizacionais a nível local. O nosso propósito é o de ajudar as pessoas a fundarem sodalitates locais. No máximo, vejo o CDR a desenvolver-se como uma “organização” deste tipo e ter convenções onde representantes de grupos locais podem encontrar-se face a face para discutir e determinar como a nossa tradição romana pode crescer através de sodalitates locais. O CDR funciona através dos voluntários individuais, realmente apenas um punhado de pessoas. Mas alguns de nós estão envolvidos com grupos locais e gostaríamos de ver mais dos nossos indivíduos envolverem-se em grupos locais. E é claro que desejamos que os grupos locais cooperem uns com os outros e estejam abertos para cultores Deorum que possam visitar as suas áreas locais.

Eu tinha ouvido dizer que o MTR se tinha dividido. Uma facção achou que era muito político. Talvez fosse assim. Eu nunca considerei o MTR uma reconstrução da Religio Romana, mas mais uma continuação de um movimento político que anteriormente usara Roma para as suas ambições nacionalistas. Outras organizações em Itália e em outros lugares também têm diminuído de tamanho, principalmente porque se envolveram em questões organizacionais e houve negligência entre os membros da comunidade. Grupos de Internet que se intitulavam como organizações da Religio Romana falharam. A maior delas, Nova Roma caiu de mais de 2000 membros pagantes em 2008 para pouco mais de 100 em 2010, quando a NR abandonou a Religio Romana e foi usurpada por monoteístas. Outros grupos semelhantes nunca foram longe porque, como a NR, eles tinham muitos interesses e nunca se focaram apenas na Religio Romana. CDR não é uma organização, e é focado exclusivamente na Religio Romana, com potencial para crescer. Mas existem grupos locais que prosperam. Um perto de Nashville parece ter um começo sólido e tem cerca de 20-30 membros que se reúnem regularmente. Planos estão em curso para se financiarem através de diferentes meios, incluindo a realização de corridas de bigas. Maxima tinha um grupo de mais de 50, na Califórnia; eu não tenho ouvido nada deles ultimamente, mas desde que se separarou da NR ganhou beneméritos. Aparentemente, houve uma ruptura entre os nossos cultores da Ucrânia, e problemas atuais no país podem parar os desenvolvimentos lá, mas tem uma base sólida. Em outros lugares eu sei de interesses na América Central e do Sul porque formam-se grupos lá. Temos pequenos grupos locais que se formaram em diferentes lugares nos EUA. Acho que à medida que surgir mais informação e tivermos os cultores a trabalhem uns com os outros em questões locais, as nossas comunidades religiosas irão desenvolver-se. Apenas fiquem focados nos Deuses que servem e na comunidade que apoia a adoração dos deuses. Cuidando das relações pessoais entre si e os deuses é a melhor maneira de manter uma comunidade estável para apoiar a nossa fé religiosa comum. Invenietis omnia prospera evenisse sequentibus Deos, adversa spernentibus.

Durante vários anos tenho trabalhado para aproximar os politeístas romanos. Em 2008 eu era cônsul da NR após ter servido duas vezes como cônsul na SVR. Em 2001 e 2006 eu também servi como Tribuno na NR. No final de 2008 eu fui eleito Pontifex Maximus na NR, tendo também servido como PM na SVR e mais tarde também chamado PM na RPR. Em 2008, eu fui capaz de reunir cultores de todo o mundo para celebrar os feriae Latinae e Parilia. Tivemos a Lívia e outros representantes de diferentes grupos na Itália em M. Albano. Representantes de SVR, NR, e TRW juntaram-se no Texas, no Templo da Religio Romana na Califórnia e Oregon, no Templo de Vesta, na Califórnia, no Templo Clareon em Filadélfia, Pa. Um grupo de cultores Deorum em Nashville, TN. grupos mais pequenos em Ohio, Geórgia e Carolina do Norte, bem como outros com quem eu sou menos familiarizados no sudeste da Ásia, Japão, Austrália, México, Peru, Brasil, França, Espanha, Reino Unido, Alasca e Havaí. Naquela época, as comunidades estavam a crescer. Esses grupos locais que citei acima tinham entre 30 a 50 pessoas. Cerca de metade dos membros da NR nesse momento professaram serem cultores, por isso, ao todo cerca de 1000. A SVR tinha cerca de metade do tamanho de NR, por isso mais algumas centenas de cultores entre os seus membros estavam envolvidos. Eu não sei que membros numerados estavam no Caminho Romano, uma vez que os membros estavam espalhados pelos estados de Arizona, Novo México, Texas e Arkansas. Podemos dizer com segurança que, com toda a internet e grupos locais envolvidos pode ter havido 2.000 indivíduos representados nesse evento. Nós não tínhamos contacto com todos os outros grupos que sabia existirem na época. Alguns simplesmente recusaram-se a ter qualquer coisa a ver com a NR por causa de certas pessoas lá. Em quase todos os anos de existência da NR houve um grupo ou outro que rompeu, e, como um grupo francês de cultores no início de 2005, eles deixaram a NR por causa da “gangue do Beco Negro” que agora afirma ser a NR (ou seja, Sulla e seus aliados). Apesar dos contratempos desde 2008 que tem reduzido o nosso contacto entre os grupos, formaram-se novos grupos e / ou cresceram na Ucrânia, Rússia, Bulgária e Polónia. Houve um número crescente de cultores na Alemanha, com quem eu perdi contacto há anos. Com tudo isto eu estimo que existam pelo menos 10.000 cultores activos hoje, outros que praticam alguma forma de politeísmo romano, e depois há aqueles que combinam práticas Romanas e Gregas.”

Marco Orazio

 

Quem brinca com o fogo

A Veiled Vestal Virgin (detail) 1847, Raffaelle Monti 1

“A Virgem Vestal Velada” (detalhe), 1847, Raffaelle Monti.

 

Contemplei durante algum tempo, antes de incluir este comentário – agora, em bom português –  em Divina Mens. Penso que o caso em questão é demasiado caricato para ser ignorado. Desde o início, um clássico. Não quero fazer dele um alerta, mas um exemplo. Corro o risco de propagar ainda mais uma ideia pobre, mas apenas mais um pouco, porque o público deste espaço é um conjunto muito selecto de leitores, não diria “iluminados” mas inteligentes, cultos, informados e espiritualmente ricos (diz quem escreve e se inclui).

Decidi partir do pressuposto de que “Por muitos caminhos podemos chegar a Roma”, que é a metáfora para os percursos – muitas vezes sinuosos – que podem levar o indivíduo a uma existência um pouco mais esclarecida e, até, a qualquer religião e tradição legítima, que pelo menos não tenha origem na ignorância – e na ganância – de alguém ávido de protagonismo. Assim, em vez de tentar contrariar a máxima “Toda a publicidade é boa publicidade”, com que me deparei, optei por colocá-la ao serviço dos Deuses e dos aspirantes a Cultores, publicando uma análise à nova “tradição”.

Como é habitual com ideias e idiotas que não valem uma lasca de um chifre de Pan, apenas tomamos conhecimento do fenómeno porque a figura central acedeu aos seus contactos nos média para promover o seu projecto. Sem revelar as suas fontes históricas, conta apenas com a sua condição de “classicista” para conferir credibilidade às suas afirmações e reivindicações.

A criadora de New Vesta tem a presunção de achar que a sua prática espiritual privada, muito recente, constitui à partida não só uma tradição, mas uma nova religião. À semelhança do que acontece com a plataforma Nova Roma, que apesar de tudo tem um espectro mais lato e um nível muito superior a esta invenção de trazer por casa, cozinhada por Debra Macleod, a palavra new/nova indica que estamos perante um projecto de paganismo com sabor romano, criado de raiz. Nada mais deve à Religio Romana do que alguma inspiração, muito livre, para certas práticas e para um conto escrito, talvez, à luz da vela. É esta narrativa, que a autora afirma ser a memória de um acontecimento inusitado, ocorrido no passado, que está na base da referência a uma alegada tradição, da qual ela seria a derradeira guardiã.

Contos, cada um conta os que quer, mas foi esta declaração, o carácter comercial, e a insistência de Macleod em propagar a sua narrativa como se de uma verdade histórica se tratasse, que justificou alguns comentários muito pertinentes e bem-humorados dos Cultores mais atentos, incluindo daqueles que têm sólida formação e percursos académicos, com artigos publicados, nas áreas de Religião e Estudos Clássicos.

Bom, mas como em tudo há pontos positivos, pelo menos não parece estarmos perante um predador sexual disfarçado de líder espiritual, de qualquer variedade, e talvez Debra consiga guiar algumas mulheres e famílias no sentido de uma prática inofensiva, que poderá ser satisfatória para algumas pessoas.

Macleod deu uma entrevista reveladora, em que até a forma como aceitou as perguntas denota desconhecimento. Uma das plataformas que difundiram o projecto desta senhora foi o blog da comunidade Humanistic Paganism, que criou uma coluna onde dá voz aos seus membros e a amigos que “pensam como eles” (like-minded friends). Dando ampla expressão aos seus pontos-de-vista, e sem avaliar os seus telhados de vidro, a entrevistada não foi comedida nas críticas:

“HP: O que chama à religião que pratica?

DM: New Vesta. É uma reintrodução e renovação do antigo culto/tradição Romano(a) de Vesta, deusa da casa e fogo do lar.

HP: Se chama a si mesma “Pagã”, o que na sua religião é “Pagão”? Porque escolhe chamar-se “Pagã”? Se não chama “Pagã” a si mesma, porque não o faz?

DM: Eu chamo a mim mesma pagã. Para mim, é um termo simples e identificável, amplamente reconhecido que distingue a minha visão do mundo de uma visão do mundo Abraâmica ou monoteísta.

HP: Que outros termos (i.e., humanista, naturalista, ateísta, panteísta, bruxa, druida, xamã, etc.) usa para descrever a sua religião e porquê?

DM: Eu penso que o termo paganismo humanista ou paganismo secular são óptimos para descrever a tradição New Vesta.

(…)

HP: Como fez a sua transição para a sua actual religião? Conte-nos um pouco acerca da sua jornada de fé.

DM: Eu vou tornar curta uma história muito, muito longa: Quando tinha 20 anos, viajei para Roma onde encontrei uma mulher que dizia ser uma sacerdotisa Vestal nas ruinas do antigo Templo de Vesta. Ela estava a arder uma vela e, depois de falarmos um pouco, ela deu-ma e pediu-me para a acender em todos os 1ª de Março (a data tradicional em que os antigos renovavam o fogo do templo de Vesta).

Quando voltei ao Canadá, embrulhei a vela e a memória enquanto continuei com a minha vida, indo para a universidade onde estudei os clássicos, e depois para a minha carreira de advogada. Eu progredi para o início da minha própria prática de meditação para casais. Vesta era totalmente irrelevante para mim naquele tempo.

Embora eu tivesse – e ainda tenha – um marido e crianças maravilhosos, eu às vezes senti que o meu casamento e a minha vida familiar não estavam à altura das minhas expectativas para a minha vida. A minha carreira – que me levava a estar sentada numa sala com casais miseráveis e quezilentos todos os dias também não ajudava. Foi um tempo em que dei por mim, pela primeira vez na minha vida, a pensar realmente na tradição de Vesta e em como durante tantos séculos trouxera significado, solidariedade e felicidade aos casamentos e vida familiar.

Então eu desenterrei a velha vela Vestal da cave da casa dos meus pais (onde tinha estado numa antiga mochila durante mais de duas décadas) e reacendi-a no 1º de Março, 2013. Já a reacendi três vezes – 2013, 2014 e 2015. Eu costumo usar a cera derretida para criar novas velas Vestal que dou às mulheres que desejam arder uma vela Vestal nas suas casas.”

A entrevista desenrola-se em torno do que Debra é, daquilo em que acredita, do que gosta e reprova, sobretudo em relação a práticas religiosas e comportamentos de outros Pagãos. Ou seja, tudo o que é subjectivo e, portanto, do foro pessoal, da sua sacra privata, e da tradição que ela quer instituir da porta de sua casa para dentro e entre as seguidoras que compram os seus livros, que frequentam as suas sessões, e a quem distribui – ou vende – velas que contêm um gotinha da cera de abelha da velhíssima vela romana que lhe foi dada na Cidade Eterna. Nada que importe a quem está interessado em aprender e praticar a Religio Romana e a legítima Traditio de Numa Pompilus ou qualquer tradição familiar ancestral. Debra conclui, no mesmo tom de censura que está presente em várias respostas, com o seguinte comentário acerca dos Pagãos, que talvez seja a denominação que ela reserva, também, aos Cultores:

“Eu penso que os Pagãos tendem a ser mais educados do que as comunidades de outras religiões e, apesar de isso ser óptimo, eu também penso que muitos Pagãos estão excessivamente ávidos de “exibir” uns aos outros o seu conhecimento acerca das suas e de outras tradições. É óptimo contribuir, clarificar questões; contudo, isto é frequentemente feito com um aberrante grau de arrogância. Eu esperava mais de uma multidão relativamente iluminada. Obrigada!”

Depois de ler apenas a introdução escrita no website de New Vesta, não é difícil perceber porque pessoas como Debra Macleod B.A., LL.B. se sentem decepcionadas com quem demonstra o seu conhecimento acerca das suas e de outras tradições, quer se identifique ou não como Pagão:

“A tradição de Vesta iluminou vidas e protegeu lares durante séculos

Até que foi banida & criminalizada durante a ascensão do Cristianismo

Mas a chama continuou a arder em segredo

Sustentada através dos tempos pelos devotados que a protegeram

Agora, esta tradição regressou para iluminar as casas modernas

Para dar um foco que fortaleça relacionamentos & solidariedade familiar

E para iluminar as vidas de todos os que a seguem”

Ou seja, a todos os que seguem Debra Macleod e consomem o seu produto espiritualizado.

Arrebatador, talvez, para as centenas que gostam da página New Vesta no facebook. No entanto, de acordo com uma verdadeira tradição familiar, da qual infelizmente resta apenas a oralidade – mas que é suportada pela História Nova, de Zosimus –, a Chama de Vesta foi extinta por Teodósio, o que resultou numa defixio dirigida à sobrinha do Imperador, Serena, e a toda a sua descendência, pela última das sacerdotisas de Vesta.

“O New fez-me parar – como em new age.

Vesta é intemporal e eterna. O “new” é palerma.

Para ela é uma ferramenta de marketing. Indicar o que não bate certo educa aqueles que podem não saber detalhes; afinal ela está a viver à conta de pessoas crédulas que não conhecem melhor. Infelizmente, ela espalha a sua BS [bullshit]. Talvez devêssemos comentar nos sites dela, esclarecê-la com delicadeza.

Esta é a Vestal que agora afirma ser a guardiã da Chama de Roma; talvez ela devesse estudar um pouco:

“Debra Macleod, B.A., LL.B. is a couples and family mediator, a top-selling marriage author-expert and a popular resource for major media in North America. She is the leading proponent of the New Vesta tradition and order. Her New Vesta book series and Add a Spark women’s seminars “spread the flame” into modern lives and homes.”

O blog dela.

Pergunto-me se ela estará casada e com filhos. O meu senso diz-me que ela não faz ideia de que existem pessoas, sacerdotisas de Vesta sérias que fizeram votos de castidade (pode até haver uma virgem algures), uma vez que ela não parece saber muito mais do que o rudimentar conhecimento ecléctico de Vesta. Provavelmente tem alguma coisa a ver com:

“On March 1st of 1989, a woman who claimed to be the last in this long line of Vestals visited the ruins of the Temple of Vesta in the Roman Forum. She carried a hand-crafted, aged beeswax candle that she said contained the Flame of Vesta. In an attempt to keep the “old ways” alive, she gifted this to a fellow visitor named Debra May Macleod.”

Uma Vela de Cera de Abelha que contém a Chama de Vesta. O meu “senso” raramente está errado. Aqui está um texto que ela escreveu no huff post que fala mais de Cristianismo do que de Vesta, a avó dela era uma católica devota e foi assim que ela recebeu a sua iniciação ao Mundo Romano de Vesta e por isso agora eu entendo porque é tão estranho.

Aqui está outra biografia completa que demonstra que ela nem suspeita que uma Sacerdotisa de Vesta tem de fazer um voto de Castidade – uma vez que ela é casada. Talvez como Terapeuta Conjugal (com uma graduação em Leis) a patrona dela seja a deusa errada mas claro que de uma perspectiva Cristã Vénus é pouco mais do que uma desavergonhada. Não a casta Mater Venus cujas indiscrições são expressões de emoções da paixão e do amor profundo que demonstram que nem os deuses conseguem conquistar as forças da natureza, as quais eles mesmos são.

Eu li três contextos diferentes, um que diz que ela vem de um passado Pentecostal rural [redneck], outro que diz um passado Católico, outro diz ateísta, nunca mencionados em simultâneo. Um diz que ela é advogada outro diz que ela é uma classicista, – novamente nunca mencionados em conjunto.

O cúmulo é isto, e eu ainda estou a engasgar-me ao descobrir finalmente o nome daquela misteriosa mulher:

“In March of 1989, Debra – then only twenty years old – was travelling in Europe and found herself drawn to the ruins of the ancient Temple of Vesta in the Roman Forum. It was here that she would meet one of the most remarkable women she would ever encounter in her life – the last living Vestal priestess whose first name was Camilla. The Vestal passed on to Debra, a “sworn atheist”, not just the spirit and teachings of the Vesta tradition, but also the sacred Flame of Vesta, now contained in an aged beeswax candle.”

Grande classicista, o nome da última sacerdotisa Vestal vivente é Camilla. Que conveniente.

Esta senhora está errada e é extremamente ignorante e não merece mais o nosso tempo.”

Jenna Rose Brent

“Parece que não é à própria chama que ela dá importância mas a esta vela que lhe foi dada e que ela pode ou não ainda possuir, mas com a qual eu sei que ela acende o stock de velas vestal, como que para abençoá-las e espalhar a chama por outros lares. Definitivamente um conceito new age, contudo no meu próprio sacellum eu não mantenho a lucerna de óleo acesa a não ser durante os rituais. Mas lá está…eu não sou um conselheiro matrimonial com um passado BDMS [bondage, dominance, masochism, sadism] a fingir ser a “Vestalis Maxima” por isso…”

Mikey Frenzie

 

Verticordia

Venus and Cupid - Jean-Honore Fragonard

“Vénus e Cupido”; Jean-Honoré Fragonard (1760)

 

A Mitologia é fluida e, para os Romanos, tem uma vertente muito prática. Foi escrita por poetas e não por profetas, pelo que não é para ser lida como Escrituras. Um nome não indica necessariamente apenas uma divindade. Cada nome é como uma categoria ou “família” de deidades semelhantes, não uma entidade. É referente a diferentes deidades, todas dependentes do epíteto associado ao nome primário. É por esta razão que nivelar todos os aspectos relativos às divindades e categorizar as qualidades que são atribuíveis à mente e ao comportamento humanos é o mais popular exercício de empobrecimento, cultural, psicológico e espiritual.

Básico:

“Venvs Libitina. Um aspecto de Vénus associado à extinção da força vital. A deusa Romana do amor e da beleza, mas originalmente uma deusa da vegetação e patrona dos jardins e das vinhas. Mais tarde, sob a influência grega, foi assimilada a Afrodite e assumiu muitos dos seus aspectos. O seu culto originou na Ardea e Lavinium em Latium. O templo mais antigo a Vénus que se conhece data de 293 a. EC, e foi inaugurado a 18 de Agosto. Mais tarde, nesta data era observada a Vinalia Rustica (as festas de Venus Rustica).Um segundo festival, da Veneralia, foi celebrado a 1 de Abril, em honra de Venus Verticordia, que mais tarde se tornou protectora contra o vício. O seu templo foi construído em 114 a. EC. Depois da derrota Romana perto do Lago Trasum em 215 a. EC, um templo foi construído no Capitolium para Venus Erycina. Este templo foi oficialmente aberto a 23 de Abril, e um festival, a Vinalia Prioria, foi instituído para celebrar a ocasião. Vénus foi também mãe (por Mercúrio) de Cupido, deus do Amor.

Vénus era a deusa da castidade nas mulheres, apesar do facto de ter tido muitos romances com deuses e mortais. Como Vénus Genetrix, ela foi adorada como mãe (por Anquises) do herói Eneias, fundador do povo Latino; como Vénus Felix, aquela que traz boa sorte; como Vénus Victrix, aquela que traz a vitória; como a Vénus Verticordia, a protectora da castidade feminina. Vénus é também uma deusa da natureza, associada à chegada da Primavera.”

“Venvs Libitina. An aspect of Venvs associated with extinction of the life force. The Roman goddess of love and beauty, but originally a vegetation goddess and patroness of gardens and vineyards. Later, under Greek influence, she was equated with Aphrodite and assumed many of her aspects. Her cult originated from Ardea and Lavinium in Latium. The oldest temple known of Venus dates back to 293 BC, and was inaugurated on August 18. Later, on this date the Vinalia Rustica (lit as festas de Venus *Rustica) was observed. A second festival, that of the Veneralia), was celebrated on April 1 in honor of Venus Verticordia, who later became the protector against vice. Her temple was built in 114 BC. After the Roman defeat near Lake Trasum in 215 BC, a temple was built on the Capitol for Venus Erycina. This temple was officially opened on April 23, and a festival, the Vinalia Priora, was instituted to celebrate the occasion. (…) Venus was also the mother (by Mercury) of Cupid, god of love.

Venus was the goddess of chastity in women, despite the fact that she had many affairs with both gods and mortals. As Venus Genetrix, she was worshiped as the mother (by Anchises) of the hero Aeneas, the founder of the Roman people; as Venus Felix, the bringer of good fortune; as Venus Victrix, the bringer of victory; and as Venus Verticordia, the protector of feminine chastity.”

in “Who’s Who in the Ancient World”, by Betty Radice; Penguin Books, London; Revised edition (26 July 1973)

Estudo comparado da nomenclatura, etimologia & fenomenologia mítica (excertos):

«Os mitos históricos de transmissão oral são quase sempre pouco fidedignos no que respeita à veracidade dos nomes que quase sempre se reportam a trindades míticas. No caso de mitos fundadores, estas entidades míticas seriam quase sempre deuses primordiais.

Os critérios que indicam que Vénus foi a arcaica Deusa Mãe esposa de Pan são resumidamente os seguintes:

–   A fonética da equação.

–  O facto de Pan ser considerado na mitologia clássica como um deus da fertilidade rural como Vénus (equivalente do par de indigestes Fauna & Flora). Além da sensualidade caprina Pan tinha as qualidades de um deus divertido e flautista, sexualmente fálico, atrevido e brejeiro.

–    Pan viria a ser o divino «cabrão» precisamente por ter sido esposo duma divina puta (< Potnia < Potinija) que era Vénus.

–    É reconhecível o carácter arcaizante da mitologia latina, quanto mais não seja pela persistência do nome de Caco para o deus do fogo, que se revelaria no par de deuses primordiais Fauno < Ki & An > Vénus!

–    Vulcano (< kur kano = deus Kian, ou Pan, do inferno que era o Kur)/Hefesto (< Kakiash, o deus Caco do fogo do inferno), que a mitologia reconhece como esposos de Vénus, são deuses do fogo primordial e por isso evoluções tardias de Kius/ Enki que, ao analisar a etimologia de Afrodite, se reconhece como pai e marido das deusas do amor.

As Vinalia (rústica) eram festas das vindimas consagrada à deusa dos amores que promoviam o precioso líquido que fazia jus à expressão: «vinum laetificat cor homnis». 

Vénus Libitina (< Urwi |< Urphi < Kar | Kikina > An Kar kika > Afrodite)

Veneralia, lit. festas de Verena & do Verão > «Venerar» => «Venalidade»

Assim, se a má fama da venalidade de Vénus advém dos seus amores mercenários com os recrutas de Marte, a verdade é que o nome que os lusitanos lhe puseram deriva da sua relação com o vinho e com a poda dos vinhedos que tinham por patroa a deusa Puta, quiçá não apenas de nome pois seria uma variante floral de Vénus. 

Pha era um dos nomes do deus da Luz primordial ou seja, do deus Protágono do Amor, e por isso filho de Vénus / Fauna. 

Fauna < Pha-una < *Kauna > Xoana > «Joana»

«Cona» < *Kauna < Ki-An.

Claro que, se insinua aqui a questão da persistência dos nomes dos maridos no nome de certos deuses romanos pois Vénus é formalmente um termo do género masculino tal como Juno. O mesmo se iria passar com Tellus que, embora herdada dos hititas, era ali Tella Huris, literalmente a Deusa Mãe telúrica.

Tella Huris < Kauris Talla < *Kurkulla.

Pois bem, a razão poderá ser meramente fonética, pelo menos no caso de Vénus, estando relacionado com uma persistência neste nome dum antigo radical -ish na mesma formaus dos nominativos masculinos em latim com queda do -a do género feminino que se manteve por exemplo em Befana:

Befana < Fewana < Phi-wana < *Kiki-Ana> Anish > Anat > Atena/Diana.

Claro que poderíamos ser tentados a ver neste paradigma mítico uma variante de Diana/Vénus mas a verdade é que Vénus deriva tão directamente de Fauno que se manteve foneticamente masculina, como que a querer evitar confundir-se com Fauna.

Faunus – Também chamado Lupercus (> Kurkurikus, relativo a Hércules); um Pan itálico.»

Venus | Erycina < Ary-kina < Kur-Hiki-An > *An-kur-kiki => Afrodite.

Venus | Felicit(as) < Felix < Pherix < Kerish => Ishtar => *An Kur-kiki = Afrodite.

Venus | Genetrix < Djiani-tarix < Ishanu-Kurish > Kiki-An Kur-Kiki => Kiki é Afrodite.

Venvs | Libitina < Urwitiana < *Urwatanu < Kur-kiki-an = *An-kur-kiki = Afrodite.

Venus | Rustica < Urash-Kika < *Ish-kur-Kika + (An) => Kiki-An Kur-Kiki = Kiki é Afrodite.

Venus | Verti-cordia < | Werti < Pher-Thi < Phur-ki < Kurki | + Kur-Deia, lit. «a deusa de coração verde»? como a *Kiphura do Kur ? <= Kur-ki-Kur-Kiki + An => 2(*An-kur-kiki) = redundância de Afrodite.

Venus | Victrix < Wika-tarix < Kiki-Kur-Kiki + (An) => Kiki é Afrodite.

Fordicalia = Fordic + alia, lit. «as festas da deusa virtual *Fordica» de nome não muito distante do Deusa Mãe ibérica Frobida mas que já era desconhecida como tal pela mitologia romana que nos ficou registada. No entanto, para que a virtual *Fordica fosse quase Afrodite só teria sido necessário que tivesse tido também *Afordica o que corresponde a um passo fonético muito curto, pelo que ficamos com a convicção de que Afrodite foi inicialmente a Deusa Mãe nascida da espuma das águas do profundo mar primordial péri-mediterrânico.

Com óbvias ressonâncias e conotações de fertilidade com Afrodite existiram ainda no panteão romano:

–    Fluonia (< Phru-anya < An-kurya, deusa tipicamente feminina por ser um epíteto de Mena, a deusa da menstruação) e

–    Frutesca (< aphrodesica < Kurkishca > Iscur-ica, relativa a Ishtar, = Inana a «a deusa da boa e farta fruta»);

–   Fulgora (< Frukaura < Kurkura, variante da deusa da aurora votada às funções de protectora do bom tempo e dos dias soalheiros);

–    Furnax < Phur-Anash, lit. «Atenas dos curros cretenses»

–    Furrina.

Etimologicamente a fonética do nome de Furrina faz-nos suspeitar que teria sido *Phur-Hurina < Phuerphurina < *Kurkurana > o que nos reporta para uma variante purpurina de Ana Perene.

Ana Perene = Ana Pher-Ena, «a que transporta os deuses, de ano a ano»! Já Kur-Kurana seria «a deusa do céu que vai da montanha do nascente aos montes do poente» < Anna Furrinna < Anaphuranina < Ana-Kur-Ana.

«Sr.ª das Furnas» > Ana-phurna > Annapurna.

São precisamente estas divagações linguísticas que nos fazem concluir que a maioria dos termos da linguagem provêm das épocas mais remotas da oralidade e são derivações, por analogia e por metáfora, de frases e pedaços de conceitos relativos a invocações mágico-religiosas que teriam sido usadas outrora em cultos míticos muito mais arcaicos, elaborados numa linguagem monossilábica estruturalmente muito mais simples e intuitiva, e, por isso, muito mais facilmente universal do que as linguagens posteriores à confusão das línguas do «mito da torre de Babel».

A persistência fóssil destas estruturas linguísticas arcaicas nos nomes e epítetos dos deuses antigos releva a lei universal do conservadorismo empedernido de todas as instituições culturais, particularmente quando mágico-religiosas ou dependentes da oralidade. De facto a única garantia que as culturas da oralidade tinham da reprodução fiel do que fora positivo no passado era o apego fanático à tradição como única estratégia disponível contra a lei natural da entropia da memória que tende para a rápida e progressiva morte informativa por esquecimento e amnésia.

Em conclusão, os latinos não se poderiam nunca ter enganado quando traduziam o nome de Afrodite por Vénus, ou seja quando encontraram em Vénus da Lavínia a mesma entidade mítica que tinha o nome de Afrodite na Hélade, porque a composição semântica original das invocações de ambas as deidades teriam sido as mesmas! O certo é que o conceito semântico implícito no termo em proto-linguagem *Na / Ka-Kiki-Kur-Kiki não seria mais do que uma bela, intuitiva e ingénua descrição figurativa do ciclo solar quotidiano que começava no céu (An) do meio dia, descia ao regaço do horizonte oriental da Terra (mãe) (Kiki), passava a noite na escuridão dos infernos (Kur) para voltar a renascer no horizonte simétrico e oposto do mesmo regaço da Terra (mãe) a Sr.ª da Aurora.»

in “Imperium Numinibus In Nomine Domine, Mitemologia racional”