Verticordia

Venus and Cupid - Jean-Honore Fragonard

“Vénus e Cupido”; Jean-Honoré Fragonard (1760)

 

A Mitologia é fluida e, para os Romanos, tem uma vertente muito prática. Foi escrita por poetas e não por profetas, pelo que não é para ser lida como Escrituras. Um nome não indica necessariamente apenas uma divindade. Cada nome é como uma categoria ou “família” de deidades semelhantes, não uma entidade. É referente a diferentes deidades, todas dependentes do epíteto associado ao nome primário. É por esta razão que nivelar todos os aspectos relativos às divindades e categorizar as qualidades que são atribuíveis à mente e ao comportamento humanos é o mais popular exercício de empobrecimento, cultural, psicológico e espiritual.

Básico:

“Venvs Libitina. Um aspecto de Vénus associado à extinção da força vital. A deusa Romana do amor e da beleza, mas originalmente uma deusa da vegetação e patrona dos jardins e das vinhas. Mais tarde, sob a influência grega, foi assimilada a Afrodite e assumiu muitos dos seus aspectos. O seu culto originou na Ardea e Lavinium em Latium. O templo mais antigo a Vénus que se conhece data de 293 a. EC, e foi inaugurado a 18 de Agosto. Mais tarde, nesta data era observada a Vinalia Rustica (as festas de Venus Rustica).Um segundo festival, da Veneralia, foi celebrado a 1 de Abril, em honra de Venus Verticordia, que mais tarde se tornou protectora contra o vício. O seu templo foi construído em 114 a. EC. Depois da derrota Romana perto do Lago Trasum em 215 a. EC, um templo foi construído no Capitolium para Venus Erycina. Este templo foi oficialmente aberto a 23 de Abril, e um festival, a Vinalia Prioria, foi instituído para celebrar a ocasião. Vénus foi também mãe (por Mercúrio) de Cupido, deus do Amor.

Vénus era a deusa da castidade nas mulheres, apesar do facto de ter tido muitos romances com deuses e mortais. Como Vénus Genetrix, ela foi adorada como mãe (por Anquises) do herói Eneias, fundador do povo Latino; como Vénus Felix, aquela que traz boa sorte; como Vénus Victrix, aquela que traz a vitória; como a Vénus Verticordia, a protectora da castidade feminina. Vénus é também uma deusa da natureza, associada à chegada da Primavera.”

“Venvs Libitina. An aspect of Venvs associated with extinction of the life force. The Roman goddess of love and beauty, but originally a vegetation goddess and patroness of gardens and vineyards. Later, under Greek influence, she was equated with Aphrodite and assumed many of her aspects. Her cult originated from Ardea and Lavinium in Latium. The oldest temple known of Venus dates back to 293 BC, and was inaugurated on August 18. Later, on this date the Vinalia Rustica (lit as festas de Venus *Rustica) was observed. A second festival, that of the Veneralia), was celebrated on April 1 in honor of Venus Verticordia, who later became the protector against vice. Her temple was built in 114 BC. After the Roman defeat near Lake Trasum in 215 BC, a temple was built on the Capitol for Venus Erycina. This temple was officially opened on April 23, and a festival, the Vinalia Priora, was instituted to celebrate the occasion. (…) Venus was also the mother (by Mercury) of Cupid, god of love.

Venus was the goddess of chastity in women, despite the fact that she had many affairs with both gods and mortals. As Venus Genetrix, she was worshiped as the mother (by Anchises) of the hero Aeneas, the founder of the Roman people; as Venus Felix, the bringer of good fortune; as Venus Victrix, the bringer of victory; and as Venus Verticordia, the protector of feminine chastity.”

in “Who’s Who in the Ancient World”, by Betty Radice; Penguin Books, London; Revised edition (26 July 1973)

Estudo comparado da nomenclatura, etimologia & fenomenologia mítica (excertos):

«Os mitos históricos de transmissão oral são quase sempre pouco fidedignos no que respeita à veracidade dos nomes que quase sempre se reportam a trindades míticas. No caso de mitos fundadores, estas entidades míticas seriam quase sempre deuses primordiais.

Os critérios que indicam que Vénus foi a arcaica Deusa Mãe esposa de Pan são resumidamente os seguintes:

–   A fonética da equação.

–  O facto de Pan ser considerado na mitologia clássica como um deus da fertilidade rural como Vénus (equivalente do par de indigestes Fauna & Flora). Além da sensualidade caprina Pan tinha as qualidades de um deus divertido e flautista, sexualmente fálico, atrevido e brejeiro.

–    Pan viria a ser o divino «cabrão» precisamente por ter sido esposo duma divina puta (< Potnia < Potinija) que era Vénus.

–    É reconhecível o carácter arcaizante da mitologia latina, quanto mais não seja pela persistência do nome de Caco para o deus do fogo, que se revelaria no par de deuses primordiais Fauno < Ki & An > Vénus!

–    Vulcano (< kur kano = deus Kian, ou Pan, do inferno que era o Kur)/Hefesto (< Kakiash, o deus Caco do fogo do inferno), que a mitologia reconhece como esposos de Vénus, são deuses do fogo primordial e por isso evoluções tardias de Kius/ Enki que, ao analisar a etimologia de Afrodite, se reconhece como pai e marido das deusas do amor.

As Vinalia (rústica) eram festas das vindimas consagrada à deusa dos amores que promoviam o precioso líquido que fazia jus à expressão: «vinum laetificat cor homnis». 

Vénus Libitina (< Urwi |< Urphi < Kar | Kikina > An Kar kika > Afrodite)

Veneralia, lit. festas de Verena & do Verão > «Venerar» => «Venalidade»

Assim, se a má fama da venalidade de Vénus advém dos seus amores mercenários com os recrutas de Marte, a verdade é que o nome que os lusitanos lhe puseram deriva da sua relação com o vinho e com a poda dos vinhedos que tinham por patroa a deusa Puta, quiçá não apenas de nome pois seria uma variante floral de Vénus. 

Pha era um dos nomes do deus da Luz primordial ou seja, do deus Protágono do Amor, e por isso filho de Vénus / Fauna. 

Fauna < Pha-una < *Kauna > Xoana > «Joana»

«Cona» < *Kauna < Ki-An.

Claro que, se insinua aqui a questão da persistência dos nomes dos maridos no nome de certos deuses romanos pois Vénus é formalmente um termo do género masculino tal como Juno. O mesmo se iria passar com Tellus que, embora herdada dos hititas, era ali Tella Huris, literalmente a Deusa Mãe telúrica.

Tella Huris < Kauris Talla < *Kurkulla.

Pois bem, a razão poderá ser meramente fonética, pelo menos no caso de Vénus, estando relacionado com uma persistência neste nome dum antigo radical -ish na mesma formaus dos nominativos masculinos em latim com queda do -a do género feminino que se manteve por exemplo em Befana:

Befana < Fewana < Phi-wana < *Kiki-Ana> Anish > Anat > Atena/Diana.

Claro que poderíamos ser tentados a ver neste paradigma mítico uma variante de Diana/Vénus mas a verdade é que Vénus deriva tão directamente de Fauno que se manteve foneticamente masculina, como que a querer evitar confundir-se com Fauna.

Faunus – Também chamado Lupercus (> Kurkurikus, relativo a Hércules); um Pan itálico.»

Venus | Erycina < Ary-kina < Kur-Hiki-An > *An-kur-kiki => Afrodite.

Venus | Felicit(as) < Felix < Pherix < Kerish => Ishtar => *An Kur-kiki = Afrodite.

Venus | Genetrix < Djiani-tarix < Ishanu-Kurish > Kiki-An Kur-Kiki => Kiki é Afrodite.

Venvs | Libitina < Urwitiana < *Urwatanu < Kur-kiki-an = *An-kur-kiki = Afrodite.

Venus | Rustica < Urash-Kika < *Ish-kur-Kika + (An) => Kiki-An Kur-Kiki = Kiki é Afrodite.

Venus | Verti-cordia < | Werti < Pher-Thi < Phur-ki < Kurki | + Kur-Deia, lit. «a deusa de coração verde»? como a *Kiphura do Kur ? <= Kur-ki-Kur-Kiki + An => 2(*An-kur-kiki) = redundância de Afrodite.

Venus | Victrix < Wika-tarix < Kiki-Kur-Kiki + (An) => Kiki é Afrodite.

Fordicalia = Fordic + alia, lit. «as festas da deusa virtual *Fordica» de nome não muito distante do Deusa Mãe ibérica Frobida mas que já era desconhecida como tal pela mitologia romana que nos ficou registada. No entanto, para que a virtual *Fordica fosse quase Afrodite só teria sido necessário que tivesse tido também *Afordica o que corresponde a um passo fonético muito curto, pelo que ficamos com a convicção de que Afrodite foi inicialmente a Deusa Mãe nascida da espuma das águas do profundo mar primordial péri-mediterrânico.

Com óbvias ressonâncias e conotações de fertilidade com Afrodite existiram ainda no panteão romano:

–    Fluonia (< Phru-anya < An-kurya, deusa tipicamente feminina por ser um epíteto de Mena, a deusa da menstruação) e

–    Frutesca (< aphrodesica < Kurkishca > Iscur-ica, relativa a Ishtar, = Inana a «a deusa da boa e farta fruta»);

–   Fulgora (< Frukaura < Kurkura, variante da deusa da aurora votada às funções de protectora do bom tempo e dos dias soalheiros);

–    Furnax < Phur-Anash, lit. «Atenas dos curros cretenses»

–    Furrina.

Etimologicamente a fonética do nome de Furrina faz-nos suspeitar que teria sido *Phur-Hurina < Phuerphurina < *Kurkurana > o que nos reporta para uma variante purpurina de Ana Perene.

Ana Perene = Ana Pher-Ena, «a que transporta os deuses, de ano a ano»! Já Kur-Kurana seria «a deusa do céu que vai da montanha do nascente aos montes do poente» < Anna Furrinna < Anaphuranina < Ana-Kur-Ana.

«Sr.ª das Furnas» > Ana-phurna > Annapurna.

São precisamente estas divagações linguísticas que nos fazem concluir que a maioria dos termos da linguagem provêm das épocas mais remotas da oralidade e são derivações, por analogia e por metáfora, de frases e pedaços de conceitos relativos a invocações mágico-religiosas que teriam sido usadas outrora em cultos míticos muito mais arcaicos, elaborados numa linguagem monossilábica estruturalmente muito mais simples e intuitiva, e, por isso, muito mais facilmente universal do que as linguagens posteriores à confusão das línguas do «mito da torre de Babel».

A persistência fóssil destas estruturas linguísticas arcaicas nos nomes e epítetos dos deuses antigos releva a lei universal do conservadorismo empedernido de todas as instituições culturais, particularmente quando mágico-religiosas ou dependentes da oralidade. De facto a única garantia que as culturas da oralidade tinham da reprodução fiel do que fora positivo no passado era o apego fanático à tradição como única estratégia disponível contra a lei natural da entropia da memória que tende para a rápida e progressiva morte informativa por esquecimento e amnésia.

Em conclusão, os latinos não se poderiam nunca ter enganado quando traduziam o nome de Afrodite por Vénus, ou seja quando encontraram em Vénus da Lavínia a mesma entidade mítica que tinha o nome de Afrodite na Hélade, porque a composição semântica original das invocações de ambas as deidades teriam sido as mesmas! O certo é que o conceito semântico implícito no termo em proto-linguagem *Na / Ka-Kiki-Kur-Kiki não seria mais do que uma bela, intuitiva e ingénua descrição figurativa do ciclo solar quotidiano que começava no céu (An) do meio dia, descia ao regaço do horizonte oriental da Terra (mãe) (Kiki), passava a noite na escuridão dos infernos (Kur) para voltar a renascer no horizonte simétrico e oposto do mesmo regaço da Terra (mãe) a Sr.ª da Aurora.»

in “Imperium Numinibus In Nomine Domine, Mitemologia racional”

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