Quem brinca com o fogo

A Veiled Vestal Virgin (detail) 1847, Raffaelle Monti 1

“A Virgem Vestal Velada” (detalhe), 1847, Raffaelle Monti.

 

Contemplei durante algum tempo, antes de incluir este comentário – agora, em bom português –  em Divina Mens. Penso que o caso em questão é demasiado caricato para ser ignorado. Desde o início, um clássico. Não quero fazer dele um alerta, mas um exemplo. Corro o risco de propagar ainda mais uma ideia pobre, mas apenas mais um pouco, porque o público deste espaço é um conjunto muito selecto de leitores, não diria “iluminados” mas inteligentes, cultos, informados e espiritualmente ricos (diz quem escreve e se inclui).

Decidi partir do pressuposto de que “Por muitos caminhos podemos chegar a Roma”, que é a metáfora para os percursos – muitas vezes sinuosos – que podem levar o indivíduo a uma existência um pouco mais esclarecida e, até, a qualquer religião e tradição legítima, que pelo menos não tenha origem na ignorância – e na ganância – de alguém ávido de protagonismo. Assim, em vez de tentar contrariar a máxima “Toda a publicidade é boa publicidade”, com que me deparei, optei por colocá-la ao serviço dos Deuses e dos aspirantes a Cultores, publicando uma análise à nova “tradição”.

Como é habitual com ideias e idiotas que não valem uma lasca de um chifre de Pan, apenas tomamos conhecimento do fenómeno porque a figura central acedeu aos seus contactos nos média para promover o seu projecto. Sem revelar as suas fontes históricas, conta apenas com a sua condição de “classicista” para conferir credibilidade às suas afirmações e reivindicações.

A criadora de New Vesta tem a presunção de achar que a sua prática espiritual privada, muito recente, constitui à partida não só uma tradição, mas uma nova religião. À semelhança do que acontece com a plataforma Nova Roma, que apesar de tudo tem um espectro mais lato e um nível muito superior a esta invenção de trazer por casa, cozinhada por Debra Macleod, a palavra new/nova indica que estamos perante um projecto de paganismo com sabor romano, criado de raiz. Nada mais deve à Religio Romana do que alguma inspiração, muito livre, para certas práticas e para um conto escrito, talvez, à luz da vela. É esta narrativa, que a autora afirma ser a memória de um acontecimento inusitado, ocorrido no passado, que está na base da referência a uma alegada tradição, da qual ela seria a derradeira guardiã.

Contos, cada um conta os que quer, mas foi esta declaração, o carácter comercial, e a insistência de Macleod em propagar a sua narrativa como se de uma verdade histórica se tratasse, que justificou alguns comentários muito pertinentes e bem-humorados dos Cultores mais atentos, incluindo daqueles que têm sólida formação e percursos académicos, com artigos publicados, nas áreas de Religião e Estudos Clássicos.

Bom, mas como em tudo há pontos positivos, pelo menos não parece estarmos perante um predador sexual disfarçado de líder espiritual, de qualquer variedade, e talvez Debra consiga guiar algumas mulheres e famílias no sentido de uma prática inofensiva, que poderá ser satisfatória para algumas pessoas.

Macleod deu uma entrevista reveladora, em que até a forma como aceitou as perguntas denota desconhecimento. Uma das plataformas que difundiram o projecto desta senhora foi o blog da comunidade Humanistic Paganism, que criou uma coluna onde dá voz aos seus membros e a amigos que “pensam como eles” (like-minded friends). Dando ampla expressão aos seus pontos-de-vista, e sem avaliar os seus telhados de vidro, a entrevistada não foi comedida nas críticas:

“HP: O que chama à religião que pratica?

DM: New Vesta. É uma reintrodução e renovação do antigo culto/tradição Romano(a) de Vesta, deusa da casa e fogo do lar.

HP: Se chama a si mesma “Pagã”, o que na sua religião é “Pagão”? Porque escolhe chamar-se “Pagã”? Se não chama “Pagã” a si mesma, porque não o faz?

DM: Eu chamo a mim mesma pagã. Para mim, é um termo simples e identificável, amplamente reconhecido que distingue a minha visão do mundo de uma visão do mundo Abraâmica ou monoteísta.

HP: Que outros termos (i.e., humanista, naturalista, ateísta, panteísta, bruxa, druida, xamã, etc.) usa para descrever a sua religião e porquê?

DM: Eu penso que o termo paganismo humanista ou paganismo secular são óptimos para descrever a tradição New Vesta.

(…)

HP: Como fez a sua transição para a sua actual religião? Conte-nos um pouco acerca da sua jornada de fé.

DM: Eu vou tornar curta uma história muito, muito longa: Quando tinha 20 anos, viajei para Roma onde encontrei uma mulher que dizia ser uma sacerdotisa Vestal nas ruinas do antigo Templo de Vesta. Ela estava a arder uma vela e, depois de falarmos um pouco, ela deu-ma e pediu-me para a acender em todos os 1ª de Março (a data tradicional em que os antigos renovavam o fogo do templo de Vesta).

Quando voltei ao Canadá, embrulhei a vela e a memória enquanto continuei com a minha vida, indo para a universidade onde estudei os clássicos, e depois para a minha carreira de advogada. Eu progredi para o início da minha própria prática de meditação para casais. Vesta era totalmente irrelevante para mim naquele tempo.

Embora eu tivesse – e ainda tenha – um marido e crianças maravilhosos, eu às vezes senti que o meu casamento e a minha vida familiar não estavam à altura das minhas expectativas para a minha vida. A minha carreira – que me levava a estar sentada numa sala com casais miseráveis e quezilentos todos os dias também não ajudava. Foi um tempo em que dei por mim, pela primeira vez na minha vida, a pensar realmente na tradição de Vesta e em como durante tantos séculos trouxera significado, solidariedade e felicidade aos casamentos e vida familiar.

Então eu desenterrei a velha vela Vestal da cave da casa dos meus pais (onde tinha estado numa antiga mochila durante mais de duas décadas) e reacendi-a no 1º de Março, 2013. Já a reacendi três vezes – 2013, 2014 e 2015. Eu costumo usar a cera derretida para criar novas velas Vestal que dou às mulheres que desejam arder uma vela Vestal nas suas casas.”

A entrevista desenrola-se em torno do que Debra é, daquilo em que acredita, do que gosta e reprova, sobretudo em relação a práticas religiosas e comportamentos de outros Pagãos. Ou seja, tudo o que é subjectivo e, portanto, do foro pessoal, da sua sacra privata, e da tradição que ela quer instituir da porta de sua casa para dentro e entre as seguidoras que compram os seus livros, que frequentam as suas sessões, e a quem distribui – ou vende – velas que contêm um gotinha da cera de abelha da velhíssima vela romana que lhe foi dada na Cidade Eterna. Nada que importe a quem está interessado em aprender e praticar a Religio Romana e a legítima Traditio de Numa Pompilus ou qualquer tradição familiar ancestral. Debra conclui, no mesmo tom de censura que está presente em várias respostas, com o seguinte comentário acerca dos Pagãos, que talvez seja a denominação que ela reserva, também, aos Cultores:

“Eu penso que os Pagãos tendem a ser mais educados do que as comunidades de outras religiões e, apesar de isso ser óptimo, eu também penso que muitos Pagãos estão excessivamente ávidos de “exibir” uns aos outros o seu conhecimento acerca das suas e de outras tradições. É óptimo contribuir, clarificar questões; contudo, isto é frequentemente feito com um aberrante grau de arrogância. Eu esperava mais de uma multidão relativamente iluminada. Obrigada!”

Depois de ler apenas a introdução escrita no website de New Vesta, não é difícil perceber porque pessoas como Debra Macleod B.A., LL.B. se sentem decepcionadas com quem demonstra o seu conhecimento acerca das suas e de outras tradições, quer se identifique ou não como Pagão:

“A tradição de Vesta iluminou vidas e protegeu lares durante séculos

Até que foi banida & criminalizada durante a ascensão do Cristianismo

Mas a chama continuou a arder em segredo

Sustentada através dos tempos pelos devotados que a protegeram

Agora, esta tradição regressou para iluminar as casas modernas

Para dar um foco que fortaleça relacionamentos & solidariedade familiar

E para iluminar as vidas de todos os que a seguem”

Ou seja, a todos os que seguem Debra Macleod e consomem o seu produto espiritualizado.

Arrebatador, talvez, para as centenas que gostam da página New Vesta no facebook. No entanto, de acordo com uma verdadeira tradição familiar, da qual infelizmente resta apenas a oralidade – mas que é suportada pela História Nova, de Zosimus –, a Chama de Vesta foi extinta por Teodósio, o que resultou numa defixio dirigida à sobrinha do Imperador, Serena, e a toda a sua descendência, pela última das sacerdotisas de Vesta.

“O New fez-me parar – como em new age.

Vesta é intemporal e eterna. O “new” é palerma.

Para ela é uma ferramenta de marketing. Indicar o que não bate certo educa aqueles que podem não saber detalhes; afinal ela está a viver à conta de pessoas crédulas que não conhecem melhor. Infelizmente, ela espalha a sua BS [bullshit]. Talvez devêssemos comentar nos sites dela, esclarecê-la com delicadeza.

Esta é a Vestal que agora afirma ser a guardiã da Chama de Roma; talvez ela devesse estudar um pouco:

“Debra Macleod, B.A., LL.B. is a couples and family mediator, a top-selling marriage author-expert and a popular resource for major media in North America. She is the leading proponent of the New Vesta tradition and order. Her New Vesta book series and Add a Spark women’s seminars “spread the flame” into modern lives and homes.”

O blog dela.

Pergunto-me se ela estará casada e com filhos. O meu senso diz-me que ela não faz ideia de que existem pessoas, sacerdotisas de Vesta sérias que fizeram votos de castidade (pode até haver uma virgem algures), uma vez que ela não parece saber muito mais do que o rudimentar conhecimento ecléctico de Vesta. Provavelmente tem alguma coisa a ver com:

“On March 1st of 1989, a woman who claimed to be the last in this long line of Vestals visited the ruins of the Temple of Vesta in the Roman Forum. She carried a hand-crafted, aged beeswax candle that she said contained the Flame of Vesta. In an attempt to keep the “old ways” alive, she gifted this to a fellow visitor named Debra May Macleod.”

Uma Vela de Cera de Abelha que contém a Chama de Vesta. O meu “senso” raramente está errado. Aqui está um texto que ela escreveu no huff post que fala mais de Cristianismo do que de Vesta, a avó dela era uma católica devota e foi assim que ela recebeu a sua iniciação ao Mundo Romano de Vesta e por isso agora eu entendo porque é tão estranho.

Aqui está outra biografia completa que demonstra que ela nem suspeita que uma Sacerdotisa de Vesta tem de fazer um voto de Castidade – uma vez que ela é casada. Talvez como Terapeuta Conjugal (com uma graduação em Leis) a patrona dela seja a deusa errada mas claro que de uma perspectiva Cristã Vénus é pouco mais do que uma desavergonhada. Não a casta Mater Venus cujas indiscrições são expressões de emoções da paixão e do amor profundo que demonstram que nem os deuses conseguem conquistar as forças da natureza, as quais eles mesmos são.

Eu li três contextos diferentes, um que diz que ela vem de um passado Pentecostal rural [redneck], outro que diz um passado Católico, outro diz ateísta, nunca mencionados em simultâneo. Um diz que ela é advogada outro diz que ela é uma classicista, – novamente nunca mencionados em conjunto.

O cúmulo é isto, e eu ainda estou a engasgar-me ao descobrir finalmente o nome daquela misteriosa mulher:

“In March of 1989, Debra – then only twenty years old – was travelling in Europe and found herself drawn to the ruins of the ancient Temple of Vesta in the Roman Forum. It was here that she would meet one of the most remarkable women she would ever encounter in her life – the last living Vestal priestess whose first name was Camilla. The Vestal passed on to Debra, a “sworn atheist”, not just the spirit and teachings of the Vesta tradition, but also the sacred Flame of Vesta, now contained in an aged beeswax candle.”

Grande classicista, o nome da última sacerdotisa Vestal vivente é Camilla. Que conveniente.

Esta senhora está errada e é extremamente ignorante e não merece mais o nosso tempo.”

Jenna Rose Brent

“Parece que não é à própria chama que ela dá importância mas a esta vela que lhe foi dada e que ela pode ou não ainda possuir, mas com a qual eu sei que ela acende o stock de velas vestal, como que para abençoá-las e espalhar a chama por outros lares. Definitivamente um conceito new age, contudo no meu próprio sacellum eu não mantenho a lucerna de óleo acesa a não ser durante os rituais. Mas lá está…eu não sou um conselheiro matrimonial com um passado BDMS [bondage, dominance, masochism, sadism] a fingir ser a “Vestalis Maxima” por isso…”

Mikey Frenzie

 

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