Amor sem limites

Alphonse Legros Diana huntress

“Diana, a caçadora”; Alphonse Legros (1837–1911)

Um aspecto que atrai bastantes pessoas para a Antiguidade Clássica e para o politeísmo, em particular para o culto dos Deuses Gregos, mas também dos Deuses Romanos, é a ideia de que aquelas sociedades aceitavam – e até promoviam, através de algumas divindades – a homossexualidade.

Se é válido afirmar que a antiga Roma não condenava as relações entre pessoas do mesmo sexo, também é verdade que este facto não significava uma aceitação. A diferença é que o Estado e a Religio não se imiscuíam na vida privada e sexual de ninguém, como veio a tornar-se norma após a ascensão do Cristianismo. No entanto, talvez ao contrário do que muitos possam ser levados a pensar, em parte devido a algumas cenas mais desbragadas em séries e filmes, a homossexualidade não podia ser assumida publicamente. As manifestações públicas de carácter sexual entre homens e entre mulheres não eram bem-vistas e nunca foram encorajadas.

Quanto à instituição do casamento, Matrimonium, estava reservada a casais heterossexuais e era, sobretudo, contractual. O que de facto se passava na intimidade não era averiguado. A cerimónia podia integrar elementos religiosos, mas isso era válido para qualquer matéria legal e não tinha o sentido espiritual que lhe foi atribuído no Cristianismo.

Na sociedade actual, felizmente, a maioria das pessoas não espera que ninguém pense estas questões da mesma forma que os nossos antepassados Romanos. Seja como for, os Cultores sabem que a Religio Romana é neutra neste aspecto, como é em muitas questões de ordem social. Não existe nenhuma razão para que os Cultores tomem qualquer posição contra ou a favor da homossexualidade, por motivos religiosos.

Não existem patronos Romanos para os indivíduos e os relacionamentos homossexuais. Qualquer associação de um Deus ou de uma Deusa a uma expressão da sexualidade, com base no sexo ou género, não passa de uma apropriação. O facto de determinadas divindades serem preferidas por pessoas solteiras, casadas, celibatárias, homossexuais, ou com qualquer vivência, não significa que estejam destinadas, ou restringidas, a ninguém em particular.

O casamento homossexual, como hoje o entendemos, nunca existiu na antiga Roma. Por isso, à partida, não podemos estabelecer nenhuma equivalência entre o modelo do passado e o presente. Quanto à Religio Romana, alguns podem achar que negligencia as necessidades de Cultores do mesmo sexo que desejam uma cerimónia religiosa para celebrar as suas uniões enquanto casais. Porém, no plano religioso não se trata de evitar a questão por não existir resposta para ela, mas sim de não haver nenhuma cerimónia específica para a união de casais com uma determinada vivência da sexualidade. Como referido, nem sequer era dada grande ênfase à cerimónia religiosa no contexto do Matromonium heterossexual, o único que era possível perante a sociedade.

Assim, como qualquer união conjugal estaria associada a Vénus, qualquer união de qualquer casal pode, hoje em dia, ser associada a Vénus. O facto de muitas mulheres homossexuais serem particularmente dedicadas a Diana não faz de Diana a Deusa certa para associar à união de lésbicas ou a nenhuma relação sexual entre ninguém. Por outro lado, o facto de Vénus estar associada ao Matrimonium não a torna a Deusa exclusiva dos heterossexuais que se casam. Nem o facto de Diana estar associada às companhias femininas e à ausência de relações sexuais a torna a Deusa das lésbicas, dos celibatários, ou das pessoas virgens (o que quer que se entenda por pessoa virgem), até porque seria um contra-senso. É fácil perceber. Não existe um Deus ou Deusa para as pessoas que desejem sexualmente e – ou – amem determinada pessoa, independentemente de quaisquer episódios mitológicos ou predilecção imperial por heróis ou divindades (sobretudo, Gregos).

Quando os Cultores, que partilham detalhes da sua sexualidade com o mundo, procuram cerimónias ancestrais específicas para pessoas com determinada vivência sexual e não encontram respostas que satisfaçam a sua necessidade de afirmação, também através de uma cerimónia religiosa, da sua sexualidade, podem sentir-se negligenciados. Contudo, não existe qualquer razão para se sentirem assim.

Se é possível e desejável invocar Vénus no contexto de uma relação sexual, do acto sexual, de qualquer manifestação amorosa, de uma cerimónia religiosa para celebrar qualquer união sentimental, e se não são impostas limitações à celebração de nenhuma união, não existe qualquer razão para achar que Religio Romana deveria ser menos neutra – ou mais pessoal, entenda-se como quiser – nesta questão. Nem que tal invocação a Vénus constituiria uma traição a quaisquer patronos pessoais.

O amor não tem limites e os Deuses muito menos, por isso, que ninguém se limite.

 

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