Em nome dos Deuses

A Hermès equestrian product displayed at the Leather Forever exhibition, London, in 2012. Photo Mark O-Flaherty

Um produto equestre Hermès (original em vermelho e amarelo) apresentado na exposição Leather Forever, Londres, in 2012. (Foto: Mark O-Flaherty)

 

O uso de nomes pela companhia francesa de produtos de luxo, Hermès, tem sido um tema quente.

No Verão passado, a actriz e cantora britânica Jane Birkin cujo nome serviu de inspiração para a icónica carteira Birkin, um dos handbags mais vendidos em todo o mundo, impôs uma condição àquela casa. No centro da polémica estava um vídeo apresentado pela controversa organização pelos Direitos dos Animais, People for the Ethical Treatment of Animals (PETA). Os seus activistas denunciaram a criação e matança de crocodilos e aligatores que alegadamente seriam utilizados pela referida companhia no fabrico da famosa carteira. Entre os animais explorados para este fim, contam-se também avestruzes e lagartos, entre outros. Após 68,000 pessoas terem assinado uma petição lançada pelos activistas, Birkin fez uma exigência à companhia, no sentido de ver o seu nome retirado daquele produto. Emitiu a seguinte declaração:

“Having been alerted to the cruel practices endured by crocodiles during their slaughter for the production of Hermes bags carrying my name … I have asked Hermes Group to rename the Birkin until better practices responding to international norms can be implemented for the production of this bag”

“Tendo sido alertada para as práticas cruéis sofridas por crocodilos durante a sua matança para a produção da carteira Hermes que tem o meu nome … Eu pedi ao Grupo Hermes para dar outro nome à Birkin até que melhores práticas que correspondam às normas internacionais possam ser implementadas para a produção da carteira”

Partindo de um olhar atento à transcrição das palavras de Birkin em muitos websites, é notória a ausência de acentuação no nome Hermès. Esta é uma lacuna frequente, também em plataformas de vendas online, e tem causado outras polémicas. Aquele acento é o único elemento que permite distinguir a marca de produtos de luxo, Hermès, do nome do Deus Grego, Hermes. Infelizmente este detalhe não é contemplado na linguagem electrónica, o que dá lugar à apropriação indevida de um nome que é de domínio público e à monopolização daquelas plataformas, por parte da companhia francesa.

Talvez, o mais preocupante nestas situações seja a certeza de que ninguém pensou nas consequências da apropriação para todos os que querem usar determinada designação no seu devido contexto cultural e, muitas vezes, religioso. Uma das denúncias mais recentes foi feita por um politeísta autraliano, no seu website:

“A particular god whom I’ve be devoted towards is Hermes, naturally I like making art for him, but his name is a big issue when selling online because it is trademarked. Meaning, I am not allowed to use the gods name in both his cultural context and religious context.”

“Um deus em particular de quem tenho sido devoto é Hermes, naturalmente gosto de fazer arte para ele, mas o seu nome é um grande problema quando se vende online porque é uma marca comercial. Significa que eu não sou autorizado a usar o nome do deus nos seus contextos cultural e religioso.”

Na Europa, de acordo com as leis comunitárias, só pode ser banido de usar o nome Hermes aquele que comercializar as mesmas categorias de produtos que a marca Hermès. Algo semelhante é válido para os EUA. Resta encontrar uma forma de assinalar e fazer valer as diferenças no meio virtual, onde as consequências são reais para todos aqueles que vêem as suas lojas online serem fechadas, por causa de equívocos que tomam proporções ofensivas.

Apesar dos danos ocasionais, longe de discursos conservadores, muitos politeístas não são contra a utilização dos nomes dos deuses para fins comerciais, desde que os seus próprios interesses – também comerciais – não sejam ameaçados por monopólios geridos por máquinas de marketing, geralmente ignorantes, autómatas e por isso ineptas no plano intelectual, religioso, e espiritual. O propósito destes motores de polémica é apenas servir, seja quem for. Incluindo os Deuses! Não sendo justificação para apropriações, é esta consciência que, muito além de quaisquer interesses comerciais, regula a opinião de muitos politeístas.

No meio internáutico, nos canais noticiosos, nos blogs pessoais, nas mais variadas publicações, as divindades fazem-se notar, mantendo os seus nomes presentes no pensamento de leitores e consumidores. Nada é mais válido para Deuses indissociáveis e regentes do Comércio, da Comunicação, e das Viagens. Quem os tem por patronos deverá saber contar com a sua astúcia e os seus truques, ainda que isso aparentemente fira os seus interesses.

Compete aos cultores e politeístas, em geral, saberem cada vez mais tecer a teia a favor dos Deuses, numa Rede que é deles, argumentando para defenderem os seus direitos. Deverão procurar esclarecer, suscitar o interesse e promover o conhecimento aprofundado, em vez de tentarem controlar o incontrolável e arriscarem iniciar discursos raiados de intolerância para com aqueles que pouco mais conhecem do que clichés generalistas e mitologias psicologizadas. É importante ter em mente que eles, ou os seus descendentes, poderão vir a ser, em consciência, os politeístas e cultores de amanhã. Melhor do que ninguém, um Mensageiro sabe que por muitos caminhos…

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