Fontes de perdição

 

Thank you to one of our visitors who captured this misty shot of the Fountain of Love earlier this week, showing us that this grisly autumn weather has its upsides too... Cliveden National Trust

Fonte do Amor, nos jardins de Cliveden House, em Buckinghamshire, Inglaterra; autoria de Thomas Waldo Story (1855–1915), datada de 1897, esculpida em Roma, em mármore de Carrara. Foi uma encomenda de William Waldorf Astor, primeiro Visconde de Astor. (Fotografia publicada por Cliveden National Trust, com o comentário: “Thank you to one of our visitors who captured this misty shot of the Fountain of Love earlier this week, showing us that this grisly autumn weather has its upsides too…”

 

O excerto que segue é da popular mas nem sempre fiável – ou no mínimo ambígua – Wikipedia, que é o maior recurso para estudantes do ensino obrigatório, politeístas eclécticos, e os mais variados geradores de conteúdos (especializados em apontamentos em tom jornalístico, acerca das origens do Natal, que inundam as publicações e os websites nesta época festiva):

 

«Embora o Dies Natalis Solis Invicti seja objeto de uma grande dose de especulação acadêmica,[carece de fontes?] a única fonte antiga para isso é uma menção no Cronógrafo de 354 e o estudioso moderno do Sol Steven Hijmans argumenta que não há evidência que essa celebração anteceda a do Natal:[26] “Enquanto o solstício de inverno em torno de 25 de dezembro foi bem estabelecido no calendário imperial romano, não há nenhuma evidência de que uma celebração religiosa do Sol naquele dia antecedia a celebração de Natal e nenhuma que indica que Aureliano teve parte na sua instituição”»

Na introdução de “One God: Pagan Monotheism in the Roman Empire” os editores Stephen Mitchell e Peter Van Nuffelen referem como a “prevalência do monoteísmo” contaminou toda a pesquisa acerca das religiões politeístas pré-cristãs:

“… Por esta razão as diferenças entre o politeísmo greco-romano e o monoteísmo judaico, cristão, ou islâmico, que dominaram as nossas próprias experiências e cultura religiosas desde o fim da Antiguidade, representam um sério desafio para a nossa compreensão do passado. Vemos a antiga religião através de um filtro de suposições, experiências e preconceito. O monoteísmo contém seus próprios juízos de valor assimilados. Estes têm sempre influência sobre o paganismo politeísta e por vezes distorcem o estudo académico da antiga religião. ”

Jason Pitzl-Waters menciona, no seu artigo “Politheism, Monotheism and Schollarship”, de 7 de Agosto de 2011:

«Livros como “One God” parecem questionar se o monoteísmo como um sistema de religião deve ser inerentemente intolerante, ou se foram apenas “aspectos concomitantes de mudança religiosa que estavam imbuídos no monoteísmo” que causaram tal mudança no sentido de intolerância religiosa. Para o egiptólogo alemão Jan Assmann, que lançou “The Price of Monotheism”, em 2009, tudo se resume ao que eu chamo de “Mosaic Distinction” que criou uma distinção entre as religiões “verdadeiras” e religiões “falsas”. “Esta mudança não tem apenas repercussões teológicas, no sentido em que ela transforma a maneira como as pessoas pensam sobre o divino. Também tem uma dimensão política, uma vez que transforma religiões culturalmente específicas em religiões mundiais. […] O que me parece crucial não é a distinção entre o Deus Único e muitos deuses, mas a distinção entre verdade e falsidade na religião, entre o verdadeiro deus e falsos deuses, doutrinas verdadeiras e doutrinas falsas, conhecimento e ignorância, crença e incredulidade “. Para Assmann a história está cheia de “momentos monoteístas”, onde esta distinção entre a verdadeira e a falsa religião aumenta para causar o caos e a destruição.»

São apontamentos como estes que faltam nas “fontes” populares que estão ao nível do boato, de forma a abordar questões essenciais para dissipar o preconceito, o encobrimento e a incompreensão da apropriação cultural, que impedem a verdadeira inclusão, sem distorção nem desvalorização – e muito menos “psicologização” – das tradições primordiais e religiões geradas na Antiguidade Clássica, que perduram e evoluem no quotidiano actual.