Semear o sonho

Hypnos,_British_Museum_No__267 b

“God Hypnos” ou Somnus, o deus do sono, para os romanos. British Museum No 267. Bronze encontrado em Perugia; uma reprodução de escultura grega, em mármore (Fotografia: Walters, Henry Beauchamp, 1915)

Muitas pessoas pensam que a religio é apenas um conjunto de compromissos com os Deuses, que envolvem rituais rigorosos e aborrecidos. O fundamento é de facto o compromisso com os Deuses, mas aprender os rituais da maneira correcta é apenas parte dele. Este é o aspecto “smartphone” do culto dos deuses, que é reconhecido de imediato. É como uma prescrição reproduzível em publicações e apps do tipo “rituais Romanos para totós”. Aprender a razão de ser do elemento ritual é outro aspecto, e fazer desse ritual uma segunda natureza é o que completa a fundação.

Alguns dos que são chamados aos ou pelos Deuses Romanos, desviam-se da riqueza do Cultus Deorum e movem-se para o eclectismo, procurando suprir as suas necessidades “espirituais”. Nesses contextos modernos, ao invés de terem uma tradição politeísta Romana, têm uma tradição politeísta ecléctica, em que adoptam alguns Deuses Romanos ou até mesmo todo o panteão. Estes modernos exploradores, na sua demanda, acreditam erradamente que qualquer elemento exterior ao ritual pode ser encarado como superstitio. Porém, este é um conceito relativo. É semelhante à superstição de hoje, mas inclui a componente “mágica”. O Cultus Deorum está cheio de componentes mágicos que são aceitáveis. As crenças Romanas, aos olhos das pessoas modernas, estão cheias de magia e misticismo. A superstição mágica que acarretava problemas para os antigos romanos era aquela que desconsiderava ou dispensava os Deuses ou que era prejudicial para os cidadãos e para os estados. Veja-se defixio.

Algumas técnicas de cura, por exemplo, são semelhantes às curas energéticas, populares nos dias de hoje. De acordo com a definição actual elas são mágicas, místicas, ou têm ambas as qualidades. Uma das mais antigas é incubatio, que pode ser usada para a obtenção de respostas e que é uma poderosa ferramenta de cura, quando associada a um lugar sagrado. Neste ponto, é importante perceber que a sacralidade de um lugar não depende da existência de um Templo. Os nossos ancestrais nem sempre tinham Templos, mas eles tinham sempre lugares sagrados. Nós criamos um espaço sagrado no local onde colocamos um lararium ou um sacellum, numa determinada dependência do nosso lar, mas existem muitos lugares, no seu estado natural, que são sagrados. Alguns são bem conhecidos, tanto na Península Itálica como na Península Ibérica, e mais além. Outros podem ser identificados por uma pessoa, apenas, e ser secretos.

Um ritual define o tom sagrado e abre a porta para esta dimensão, a música enche o espaço com a vibração sagrada, a alimentação frugal ilumina o corpo e a mente, a dança extática eleva a vibração, os exercícios de respiração aumentam a energia espiritual, e ligam-nos ao sagrado, aumentando a conexão com o Divino. Usar a visualização e repetição verbal ou mental necessária de um desejo, uma intenção, etc., contribui para focar a atenção e alcançar o objectivo ou resposta; neste caso, através do sonho, durante o sono. Depois de acordar, o indivíduo pode querer questionar acerca do que experienciou e precisar de auxílio de uma figura sacerdotal especializada na interpretação dos sonhos.

Integrando esta mentalidade, de acordo com as técnicas e o método escolhidos para “plantar a semente” do sonho, é possível vivenciar a profundidade da religião Romana, que transformará um indivíduo num Cultor Romano.

 

Incubando sonhos:

«Comum durante toda a antiguidade, a prática de incubatio, ou incubação do sonho, consistia em “dormir num templo ou lugar sagrado para fins oraculares.” Peregrinos costumam viajar distâncias consideráveis para alcançar tal templo ou santuário em busca de algum sonho ou visão divinamente inspirados. Dentro do próprio santuário, eles eram colocados sob os cuidados de sacerdotes. Estes oniromantes – versados em adivinhação de sonhos – preparavam o sono dos visitantes, oferecendo-lhes as águas milagrosas associadas ao santuário, junto com alguma planta soporífera ou mistura medicinal. O sono, por isso, se seguia. Responsáveis por manterem a “higiene do sonho” dos seus clientes – ou seja, mantendo seus corpos sonolentos e suas almas receptivas para que os sonhos pudessem chegar imperturbáveis – os sacerdotes dos sonhos serviam como intermediários entre o humano e o divino, entre o reino do consciente e o das telas cintilantes do próprio subconsciente.

Confinado a um cubículo ou Abaton (um dormitório restrito), o cliente visitante, o “consulente”, seria o receptor de algum sonho, alguma mensagem codificada, enviada por qualquer divindade que se homenageasse naquele santuário. Pode dizer-se que a divindade, o santuário, e as águas milagrosas associadas a esse santuário, juntos, formavam um único conjunto oracular. Dentro desse conjunto, o sacerdote, praticando uma forma de medicina sacerdotal, iria interpretar a visão recém-recebida do cliente em termos de conteúdo curativo ou divinatório. O sonho em si era considerado medicinal, se o cliente estivesse doente, ou revelador, se o cliente estivesse em busca de alguma visão esclarecedora. Em ambos os casos, o sonho era relativo à condição ou estado de espírito de quem vinha para consultar a divindade in situ.

(…)

Na verdade, o que poderia surpreender-nos hoje ao estudar oniromancia na antiguidade (assim como práticas comparáveis em sociedades tribais em todo o mundo como revelado pela etnologia moderna) é a ênfase quase exclusiva que os seus praticantes colocavam no futuro. Sonhos, visões, alucinações induzidas foram todos interpretados em termos da sua eventual aplicação na vida quotidiana. Como arautos do real, eles antecipavam a realidade, precedendo um evento. Podemos perceber que essas sociedades antigas foram orientadas – na sua disposição psíquica – em direcção à sua própria evolução. Eles olhavam em frente. Sob a rigorosa supervisão sacerdotal, as visões concedidas pelo Deus, que eles experienciavam no sono do templo anunciava o que estava para vir.

Nós, por outro lado, tendemos a olhar para trás, nas nossas interpretações de sonhos. Sob a orientação dos nossos próprios sacerdotes de sonhos, olhamos para essas “visitações psíquicas” na esperança de que elas desbloqueiem regiões inacessíveis da memória, dando-nos vislumbres do nosso passado demasiado encoberto. Aí, como sabemos, ainda se escondem os nossos anjos e demónios, as paisagens traumáticas da nossa infância, os eventos – ficcionais ou não – que constituem o nosso próprio ser. Nós olhamos para esses mundos de sonho privados na esperança de que, após devidamente interpretados, eles permitam libertarmo-nos de muitos pontos de fixação psíquica e penetrar, finalmente, a totalidade de um dado instante: o próprio presente.

(…)

Os sonhos foram, outrora, lidos como oráculos, como sinais do que estava iminente. Iluminações divinas, eles indicavam o futuro…»

in Sobin, Gustaf. Luminous Debris: Reflecting on Vestige in Provence and Languedoc. Berkeley: University of California Press, 1999.