Metamorfoses

“Apolo”

“Apolo”; acrílico sobre tela, 200 x 230 cm; 2000. Nadir Afonso (1920-2013)

Os Deuses não morrem.

Não existem religiões mortas, fora de prazo, ou desaparecidas por não haver quem as pratique. Sobretudo, quando os nomes dos Deuses que lhes estão associados são mencionados e o legado das civilizações que sempre os veneraram perdura. Quem tem uma religião antiga, sem corpo sacerdotal, que foi descontinuada, reformada, ou reconstruida, não pratica uma “religião morta”. Os seus mitos não podem ser destituídos da sua função primordial, apenas porque é conveniente à mentalidade imperante e alguém afirma que deixaram de ser do domínio teológico e passaram a ser do domínio da literatura. Não se trata de reciclar uma embalagem porque o conteúdo inicial se esgotou, nem de utilizar o conteúdo para encher outro recipiente que nunca terá a capacidade de o conter.

Quando um público receptivo aceita a declaração de que uma religião da qual há memória, registos, e práticas duradouras, desapareceu ou é uma religião morta, está a deixar-se enganar e a promover a discriminação, sem contestar. No entanto, quando esse mesmo público se mostra ávido de arte, estudos, filmes, documentários, livros, bandas desenhadas, desenhos animados, espectáculos, sistemas de correspondências, teorias psicológicas, outras criações e produtos que façam menção aos mitos, às divindades, e às práticas religiosas ancestrais, é evidente que existe uma tentativa de colmatar uma enorme lacuna. No fundo, aquele mesmo público sabe que nada desapareceu e que continua a ser inevitavelmente atraído para aquele contexto.

O interesse pela literatura, a arte, a história da Antiguidade não causam estranheza. Continuam a inspirar-nos. Os sobrolhos só se erguem quando alguém afirma praticar uma religião que demasiadas pessoas fizeram e fazem questão de dar como morta, desaparecida, ou irrecuperável; como se a sua prática estivesse vedada aos seres humanos da actualidade. O facto é que, para a maioria, ler, dissecar, e adaptar os mitos é cultura, mas reconstruir e praticar as antigas religiões é inconcebível, incoerente, ou irracional.

O pensamento científico impõe a todos os teístas e a todas as pessoas que têm práticas religiosas um tremendo complexo mental. Existe uma necessidade constante de validar as divindades e o pensamento religioso através da ciência. Uma vez que não existem evidências validadas pelos métodos científicos, propagou-se a ideia de que as divindades são pensamentos aos quais as pessoas têm vindo a atribuir nomes, imagens, e qualidades, e que apenas têm lugar na imaginação humana. Tornou-se expectável que os seres humanos progridam do animismo para o politeísmo e para o henoteísmo, antes de atingirem o monoteísmo e poderem alcançar o ateísmo, eliminando das suas vidas qualquer prática de carácter religioso, mesmo que não-teísta.

Em vários aspectos, como ao nível da tecnologia, aquela perspectiva evolutiva faz sentido, mas é incorrecto e inapropriado assumir que o politeísmo se tornou obsoleto devido aos recentes desenvolvimentos teológicos ocidentais, ou que a teologia é ela mesma obsoleta, devido aos avanços científicos e ao conhecimento dos mecanismos da mente humana. Da mesma forma, é abusivo, presunçoso, e um tanto ridículo, que alguém que pensa que o divino tem origem na mente humana tente redefinir o propósito de um legado religioso, retirando-o do seu contexto original, para estar em conformidade com o pensamento dominante, ser aceite pela maioria, e servir interesses pessoais. Estranhamente, a deturpação dos factos nunca foi tão grande como na era da informação.

Com os movimentos New Age e a apropriação da mitologia e dos símbolos pela cultura popular surgiu a ideia de que o conhecimento ecléctico das divindades é o bastante. Verifica-se uma grande ignorância acerca da forma como elas foram continuamente veneradas, de forma lícita ou ocultada, durante milénios. Nos últimos séculos, surgiram diversos movimentos que tentaram sanear as divindades e sintetizar os seus cultos, através de sistemas modernos de correspondências. Quiseram transformá-las em conceitos, desprezando a sua natureza divina, a história, e as tradições que lhes estão associadas. Promoveram uma mentalidade pronto-a-usar que tem vindo a afastar as pessoas dessas mesmas divindades. É surpreendente que isto aconteça, quando a possibilidade de aceder às fontes históricas e de comunicar com os praticantes de diversas tradições religiosas nunca foi tão grande.

O problema é que as divindades, ao longo dos tempos, foram veneradas segundo preceitos específicos. Não podemos dissociar essas práticas da mentalidade de quem as aprimorou. É essencial considerarmos os nossos antepassados, o suficiente para queremos conhecer a sua forma de pensar e de viver. Só então conseguiremos respeitar as tradições religiosas e reconsiderar a forma como as divindades têm sido tratadas na era da informação. Numa tentativa de as enquadrar num mundo em que tudo deve ter uma definição científica, muitos procuram torná-las menos concretas. Passou a ser importante atribuir-lhes alguma função; educativa, lúdica, ou terapêutica. O divino é entendido como uma metáfora para a capacidade criativa dos seres humanos.

Na última metade de século, os terapeutas junguianos proliferaram. No presente, eles trabalham com arquétipos semelhantes a divindades, mas existem diferenças entre os dois. Em termos simples, os arquétipos são características muito generalizadas da experiência humana e têm definições vagas: Mãe, Guerreiro, Vítima, Rei. As divindades podem manifestar arquétipos, aos olhos de quem está acostumado a identificá-los em qualquer situação, mas as suas expressões são sempre particulares e têm um carácter específico, muito individualizado. Não são abstracções generalistas. Permitem a identificação de uma divindade e não de qualquer divindade ou do divino, em geral. Se falássemos de uma pessoa, seria uma pessoa com personalidade forte e grande capacidade de expressão, e não alguém que pode ser definido de acordo com um grupo, estatuto, talento, profissão, trauma, condição física, estado civil, sexo, género, ou faixa etária.

Essas manifestações ocorrem sempre em contextos culturais e locais apropriados. Não estão dependentes da presença e das acções humanas, mas podem ser potenciadas através de cultos tradicionais. Por esta razão, é comum surgirem entraves quando uma divindade é transportada para fora da sua cultura, do seu lugar de origem, para longe do seu povo e da tradição que lhe está associada. Promover essas manifestações noutros contextos requer mais esforço e empenho na reconstrução de um meio propício, o que nem sempre é possível. Isto não acontece com os padrões arquetípicos, aceites como universais.

No final do segundo século da Era Comum, Lucius Apuleius escreveu Metamorfoses ou O Asno de Ouro, acerca de um homem que foi transformado num asno e iniciado nos mistérios de Isis, a Deusa que por fim lhe restituiu a forma humana. Apulieus era um mestre sincretista. Ele identificou Isis como sendo Ceres, Vénus, Diana, Prosérpina, Minerva, Hécate e outras Deusas. Qualquer tentativa moderna de as categorizar seria inútil. Mencionou Deusas associadas a três reinos; celestial, terreste, e do submundo. Sugeriu ainda os arquétipos das Donzela (Kore), Mãe (Ceres), Amante (Vénus), e Rainha da Morte (Prosérpina), embora eles não estejam identificados. Apenas nós podemos reconhecê-los como tal, devido à nossa percepção dos padrões arquetípicos. É um processo que implica sugestão.

Tendo em mente as teorias de Jung, verificamos que os Deuses podem manifestar aqueles e outros padrões arquetípicos, os quais por vezes são sincrónicos com arquétipos activados em cada pessoa. Isso não é o mesmo que afirmar que os Deuses são, de facto, “as deusas e os deuses em cada um”. Os Deuses não estão em nós; activos, adormecidos, estagnados, nem mesmo ausentes; como se pudessem voltar a nós, ser gerados, regenerados, ou corporizados, a qualquer momento, devido a um estímulo, uma atracção, ou uma conjuntura de factores indefinida. A existência, acção, e intercedência dos Deuses não dependem do nosso autocontrolo. Eles não podem ser interiorizados, manipulados, geridos, usados, activados ou desactivados.

É crucial não confundir os Deuses – nem mesmo os padrões arquetípicos – com “deuses e deusas em cada um”. Este é um esquema de correspondências com potencial terapêutico e alegada dimensão espiritual, concebido pela analista junguiana Jean Shinoda Bolen, há cerca de trinta anos. A médica americana, outrora professora de psiquiatria, autora de treze livros, participante em três documentários aclamados e premiados (incluindo o vencedor de um Oscar da Academia), distinguida pela American Psychiatric Association, membro da Ms. Foundation for Women e da International Transpersonal Association, palestrante, representante, e fundadora de diversos eventos e movimentos, está para os Deuses um pouco como a psicóloga clínica americana Anodea Judith está para o Yoga Tântrico. Os seus livros tiveram ampla aceitação por proporem uma prática individual, não religiosa, que não requer a mediação de facilitadores nem de figuras sacerdotais.

As Deusas, ao contrário das “deusas em cada mulher”, não são fenómenos internos, biológicos e psicológicos, “padrões potenciais nas psiques das mulheres” que carecem de “activação”, que estão dependes de estímulos, das “hormonas, família, outras pessoas”, do “efeito combinado de elementos em interacção”, de um “momento particular” ou de “circunstâncias não escolhidas” para se manifestarem. Elas não representam doenças psíquicas, não são produtos da imaginação, estados de espírito, expressões do ego, ferramentas de autoconhecimento, auxiliares de diagnóstico, nem personagens alegóricas. O mesmo pode ser aplicado à versão “deuses em cada homem”. Os Deuses não têm de fazer sentido, ser credíveis, ou úteis. A sua existência não depende da existência humana. Ao contrário, “uma nova psicologia da mulher” e “uma nova psicologia do homem” dependem totalmente da existência humana.

De acordo com aquilo que os seres humanos sempre souberam reconhecer, os Deuses não dependem da atenção e da veneração humana para existirem, embora a descontinuidade do seu culto possa enfraquecer a sua conexão com o mundo. Os Deuses não estão particularmente interessados em observar, vigiar, ajudar, salvar, ou prejudicar os mortais. Têm a sua existência, mesmo quando ninguém interage com eles. São todos distintos e não apenas faces de uma divindade maior. São mais poderosos do que os seres humanos, alcançam mais e são mais inteligentes, porque não estão dependentes dos sentidos e do funcionamento saudável de um cérebro perecível. Estão menos vulneráveis às forças da natureza, as quais eles mesmos são. Os Deuses são dignos de veneração, com tudo o que isso implica. Compreender e tentar cumprir os preceitos do culto a cada um é um sinal de respeito. O contrário é um sinal de desrespeito, e a desconsideração pode criar ofensa.

Perante os Deuses, as pessoas são como as crianças que tomam por certa a indulgência de quem as ama ou tolera a sua impertinência, enquanto lhes é mostrada, uma e outra vez, qual é a melhor forma de se relacionarem com eles. Para os Deuses não existe culpa nem perdão. Uma divindade deixará que alguém se engane, enquanto não aprende a forma correcta de agir. Depois, espera que esse alguém mude a sua forma de agir.

 

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O Rito dos Serpari

Il Rito dei Serpari, Cocullo. (Fotografia antiga, sem detalhes)

Il Rito dei Serpari, Cocullo. (Fotografia antiga, sem detalhes)

 

“Manter animais exóticos trancados em casa durante todas as suas vidas é cruel. As pessoas chamam-lhes animais de estimação e isso de alguma forma torna aquilo legítimo. As serpentes sempre viveram perto de nós, elas partilham a nossa necessidade de comida, água e abrigo. Nestas montanhas os nossos caminhos estão destinados a cruzar-se. Nós aprendemos a aceitar o nosso ambiente e ao manusearmos as serpentes removemos o medo e tornamo-las parte das nossas vidas. A nossa tradição não prejudica nada. Trata-se de aprender a confiar e a remover o medo das nossas vidas.”

Antonietta D’Omazio

Os rituais de origem ancestral existem em várias pequenas vilas e aldeias italianas. Na Sicília realiza-se um ritual à Magna Mater e na Ligúria mantêm-se ritos aos velhos Deuses, sob o manto das tradições cristãs. Muitas vezes é difícil obter detalhes, como se os cultos ancestrais não quisessem ser descobertos.

A tradição das serpentes resistiu à política Romana de centralização. Os Marsi eram famosos pelos seus dotes de as encantar, os quais tinham grande utilidade na desinfestação das ruas de Roma, onde as serpentes chegavam a ser uma praga. Eles formulavam panaceias a partir das cabeças das víboras e a sua magia era invocada para curar mordeduras venenosas. No presente, em Cocullo, os seus descendentes são seduzidos pela migração e temem pela continuidade do festival e pela preservação do verdadeiro significado da sua existência. Apenas lhes resta passar a tradição aos mais jovens e esperar que eles continuem a fazê-lo, a cada nova geração.

 

No Vale das Serpentes

Estes são excertos de uma reportagem feita em 2015, por Nadia Attura, para a revista Italia! Italy Travel and Life.

“Na região de Abruzzo, na Itália central, o antigo culto dos répteis ainda está bem vivo. Cocullo é uma aldeia medieval, a 900 metros de altitude, ao fundo dos vales de Marsica e Peligna, que fica isolada durante o inverno rigoroso dos Apeninos [onde está situada a Montanha de Vénus]. A sua localização remota ajudou a população a manter os seus costumes únicos. A transumância ainda existe e os pastores apascentam os rebanhos de ovelhas, deslocando-se desde os prados das planícies de Puglia, no sul, até às montanhas de rocha calcária de Abruzzo, a uma distância de mais de 350km. As estradas são pontuadas por antigos altares e megálitos, tholos, que servem de abrigo aos pastores.

“Il Rito dei Serpari, Festival dos Encantadores de Serpentes, é uma tradição que data de há mais de três mil anos, e as origens são atribuídas àquela tribo itálica, os Marsi, que adoravam a Deusa Angizia com serpentes. Para eles, Ela tornava as cobras inofensivas e protegia-os dos lobos, ursos, animais rábicos, e da malária. Quando os antigos Gregos e Romanos invadiram a região, as tribos continuaram o seu culto e os rituais, mas dedicaram-nos a Apolo. Finalmente, os cristãos santificaram o culto, dedicando a cerimónia a Santo Domenico, o santo padroeiro de Cocullo.

“Nas primeiras quintas-feiras de Maio, os habitantes de Cocullo vão para as ruas com as serpentes das montanhas. O festival honra a tradição dos ancestrais e o ambiente. Para estes encantadores de serpentes o festival é uma afirmação da sua identidade.

“As serpentes começam a ser capturadas no Dia do Pai, em Março. Elas vivem com as famílias durante seis semanas, no máximo, até ao fim do festival, e depois são restituídas aos locais onde foram encontradas. A competição entre encantadores é renhida e, em média, cada pessoa captura pelo menos duas serpentes. Os segredos são passados de mãe para filha e de pai para filho.

“Todas as serpentes levadas ao festival são registadas no salão de festas da aldeia, onde são pesadas e medidas. O governo local paga a todos os que levarem serpentes e as mais belas e raras são colocadas sobre uma estátua do santo e levadas pelas ruas, em procissão.

“Até 1940, o encantamento de serpentes era uma profissão remunerada: os serpari (homens serpente) eram pagos para eliminarem as possíveis ameaças em determinadas áreas. Em Itália é ilegal matar, capturar e manter os animais selvagens em cativeiro, mas a lei é tolerante com Cocullo. As organizações pelos Direitos dos Animais há muito que têm vindo a fazer campanha pelo fim da tradição, que dizem ser cruel.

“Os jornalistas têm reportado que o festival não é mais do que um esquema lucrativo, mas Cocullo não tem quaisquer atracções, comércio, ou hotelaria, à excepção de um bar e um serviço de caminhos-de-ferro pouco frequente e pouco fiável. Dificilmente é uma Meca do dinheiro.”

Mitos e miscelâneas

Em 1952, a modelo Regina Relang posou com um vestido da Sorelle Fontana Alta Moda, uma casa fundada em Roma por três irmãs estilistas, em 1943, que colaborou com a Sétima Arte. Ao lado a mão da estátua gigante do Imperador Constantino, no pátio do Palazzo dei Conservatori, também em Roma.

Fotografia de Regina Relang, de 1952. O modelo posou com um vestido da Sorelle Fontana Alta Moda, uma casa fundada em Roma, em 1943, por três irmãs estilistas  que colaboraram com a Sétima Arte. Ao lado a mão direita do Colosso de Constantino, a estátua gigante do imperador (c. 280–337), no pátio do Palazzo dei Conservatori, Musei Capitolini, também em Roma. (313-324 EC. Mármore, cm 166. De Roma, Basilica di Maxentius, 1486)

 

Quem sabe o significado de “greco-romano” ponha o dedo no ar!

“O nosso estudo não é um estudo do tipo Greco-Romano ou Romano-Grego, não é o Esoterismo em forma Romana, não é a guerra pela salvação do mundo com o uso de ritos pseudo-romanos, não nos baseamos nos autores de oito-novecentos, e não colocamos a hipótese de que os Romanos, Gregos, e Egípcios são a mesma coisa (porque não são), nós propomos um estudo de tipo académico (mas com a racionalidade teológica que lhe falta) sobre o culto exclusivamente Romano.”

Ad Maiora Vertite

 

Numa época em que o sofisma “greco-romano” ganhou estatuto de cultura geral, é sempre importante promover uma rectificação, ou neste caso reiterar o que foi escrito, na tentativa de alertar para o facto de existirem tradições estritamente Romanas, Latinas, Etruscas, e itálicas de um modo geral. Em nome da preservação de práticas que perduram, aquelas tradições podem e devem ser destrinçadas de influências gregas e da assimilação de elementos alógenos.

Com a tendência contemporânea para nivelar as tradições religiosas mundiais segundo o modelo enciclopédico, as teorias psicológicas, e os interesses comerciais, surgiu a necessidade de distinguir o que são, de facto, tradições e o que são elaborações mentais baseadas em fontes secundárias acerca das diversas tradições. Foi neste sentido que, há cerca de duas semanas, o académico americano Christopher Wallis, estudioso de sânscrito há mais de doze anos, publicou no seu website um texto acerca de “chakras”, à luz das fontes das tradições tântricas de yoga. Alertou para a presunção dos entendidos em yoga que – com ingenuidade ou de forma deliberada – propagam uma versão adulterada e customizada daquelas tradições, que nunca aprofundaram. Arrisquei traduzir alguns excertos e recomendo a leitura integral do texto original deste académico, que é o autor do livro Tantra Illuminated:

 

“Estou aqui para vos dizer duas coisas: primeiro, quando os autores modernos que escrevem acerca de chakras vos dizem que estão a apresentar ensinamentos antigos, eles estão a mentir – mas normalmente não sabem que estão, porque não conseguem avaliar a validade das suas fontes. Segundo, para aqueles que estão interessados, eu estou aqui para vos dar a conhecer um pouco daquilo que os conceitos de yoga significam no seu contexto original (porque eu sou um académico de sânscrito, e um mediador que prefere as formas tradicionais). Apenas vocês podem avaliar se isto vos traz algum benefício. Eu não estou a afirmar que o mais antigo é intrinsecamente melhor.

“O yogi educado deveria saber que todas as associações dos chakras a estados psicológicos são uma inovação moderna ocidental que começou com Jung. Talvez essas associações representem realidades experienciais para algumas pessoas (mas geralmente não sem sugestão). Certamente que não podemos encontrá-las nas fontes em sânscrito.

“Invocar a imagem e a energia de uma divindade específica num determinado chakra também é culturalmente específico, mas se os yogis ocidentais compreendessem o que aquelas divindades significam, a prática poderia ser significativa também para eles, apesar de provavelmente nunca ser tão significativa como para alguém que cresceu com aquelas divindades sendo ícones paradigmáticos inscritos na mente subconsciente.

“Assim, isto é o que eu espero que resulte deste texto: alguma humildade. Menos declarações de autoridade quando se trata de matérias realmente esotéricas. Talvez menos professores de yoga a tentarem ensinar aos seus alunos o que são os chakras. Ena, eu sinto-me humilde perante a complexidade das fontes originais, e isto depois de doze anos de estudo de sânscrito.

“Por isso, porque não tratar com mais cuidado as crenças que adquiriu acerca de yoga, mesmo enquanto continua a aprender? Vamos admitir que ainda não compreendemos realmente estas antigas práticas de yoga; e em vez de tentar ser uma autoridade numa versão simplificada daquelas práticas, pode convidar-se e aos seus alunos a olharem com mais clareza, mais honestidade, mais cuidado, e com menos juízos de valor a sua própria experiência interior.”

 

Eu não diria melhor e gostaria, tanto quanto possível, de transpor esta chamada de atenção para o plano das tradições europeias e para uma em particular. A tradição Romana é quase sempre tratada como mera apropriação de uma alegada “verdadeira” tradição, que seria grega. Está muito errado quem pensa assim, e muito nos conta acerca dos seus estudos quem se limita a repetir, transcrever, ou adaptar livremente, a partir de best-sellers acerca de famílias disfuncionais e outras peripécias “greco-romanas” ou “greco-latinas” sem contexto.

Quando alguém arrisca afirmar – e impingir aos mais vulneráveis – que os Deuses Romanos são Deuses Gregos que receberam nomes Romanos e que as ideias gregas acerca da estrutura do universo foram passadas aos Romanos, talvez devido a uma tremenda falta de imaginação dos povos itálicos, que não teriam cultura autóctone, só pode ter estudado a matéria nos glossários dos livros de mitologias, e de psicologias, do século passado. Logo na apresentação de tão presados “livros de ouro” podemos ler que as religiões da Antiguidade desapareceram, mas que os mitos, que já não pertencem à teologia mas sim à literatura, perduram no imaginário de todos os povos ocidentais, na poesia, nas belas-artes, na psicologia, e na psicanálise! Isto é quase uma transcrição e a sua incongruência é, sem dúvida, “culturalmente específica”.

Exactamente porque o património da Antiguidade é de todos e qualquer um é livre de o explorar como entender, é importante perceber que na tentativa de simplificar, sem conhecer a matéria em causa, pode perder-se o essencial. Mesmo que apenas no plano mitológico; o qual, apesar das barreiras mentais de muitos, não pode ser dissociado da Religião, uma vez que os mitos sempre foram processos – métodos – criados na mente humana para promover o relacionamento dos indivíduos com os Deuses, independentemente daquilo em que cada um acredite, porque isso é irrelevante para as tradições da Antiguidade.

Alguns cultores, talvez por amabilidade, preferem não elucidar aqueles, bem-intencionados, que acusam leviandade no tratamento destas questões. No entanto, um dos melhores contributos dos cultores de várias tradições europeias, de denominação étnica ou linguística, tem sido a clarificação de pontos essenciais para a compreensão da riqueza, ancestralidade, e diversidade das suas e de outras tradições. Isto tem vindo a acontecer, mas com algum atrito. Sobretudo com aqueles que preferem práticas eclécticas de inspiração incerta, mas que não querem dar parte fraca.

Muitos académicos, que em alguns casos também praticam tradições politeístas, optam por não as debater com seguidores de teorias psicológicas que parecem dar a qualquer pessoa que saiba que Carl Jung existiu a autoridade para se pronunciar acerca de qualquer tradição religiosa, mágica, e mística do mundo, baseando-se no princípio duvidoso (imperialista) da “universalidade”. Àqueles que usam estas ferramentas para abordarem temas “greco-romanos”, deixo a sugestão de passarem à prática, estabelecendo um culto politeísta a Divus Jung e aos seus divi acólitos mais vendáveis, inspirado no costume de deificação de pessoas (abordado no post anterior). Poderão criar altares e oferecer libações e incenso (podem usar pauzinhos orientais).

Sem ironia, se querem ir além das construções mentais acerca do que são as práticas religiosas “greco-romanas”, devem começar por inventar e manter uma prática religiosa que traduza esse conceito contemporâneo, conforme o idealizam. Aquela sugestão seria tão válida como qualquer outra, no contexto moderno do Paganismo. Talvez um dia, com toda a humildade, como tem acontecido a muitas pessoas bem-intencionadas, venham a estudar e a tornar-se cultores de Deuses, minimamente consistentes com alguma tradição ancestral. Enquanto praticantes, talvez possam oferecer mais do que divagações subjectivas – e juízos de valor – acerca da natureza do divino, à sombra de gíria psicologizada. Esta é apenas um escape conveniente para a falta de estudo e de prática. Talvez passem a abordar estas questões de uma perspectiva relacional e não apenas analítica, curiosa, ou “criativa” (se é que esta palavra ainda denota a qualidade de ser original).

O que quero deixar claro é que qualquer prática religiosa “greco-romana”, tal como a luta com o mesmo nome, não pode ser ancestral, por se tratar de uma definição moderna e por não existirem “deuses greco-romanos”, mas sim Deuses de diferentes origens, adorados segundo diversas tradições que se influenciam mutuamente. Na tentativa de generalizar, ou de simplificar com vista a cativar públicos menos esclarecidos, perdem-se os elementos indígenas que dão às diferentes tradições o seu carácter, deixando-nos perante um pastiche moderno, que nada deve à criatividade nem à Antiguidade, para além de uma vaga e deturpada inspiração.

Apesar de todas as evidências, outros interesses concorrem para o objectivo de afirmar a supremacia dos Deuses Gregos. Um dos mais influentes é o manifestado por alguns elementos mais radicais do Hellenismus, uma religião étnica que é mais popular e tem uma comunidade maior e mais activa do que a mui modesta e moderada communitas de cultores Deorum Romanorum. Em geral, as relações entre estas comunidades politeístas são de cooperação, mas existem sempre indivíduos, de parte a parte, que se revelam excepções e que não olham a meios para aumentarem o seu público.

O entendimento do mundo Romano pode ajudar-nos a compreender por que motivo parece ser tão difícil identificar uma tradição exclusivamente Romana. É essencial ter em conta que a linguagem popular na Roma Antiga era o Grego, estando o Latim reservado à elite mais educada. À semelhança do que acontece na actualidade, com as consequências do uso da Língua Inglesa e a influência anglo-saxónica a nível mundial, os cultos gregos fizeram parte da vida religiosa de Roma, pelo menos desde o século quinto antes da Era Comum. Para além da permeabilidade cultural que o uso popular do idioma grego permitia, a assimilação de cultos gregos, ou outros, por parte dos Romanos, através de alianças, tratados, ou conquista, era a pedra angular da sua política internacional, e uma característica basilar da sua supremacia. É também importante notar que a influência das colónias gregas do sul da Península Itálica e das ilhas era inevitável.

Isto não quer dizer que os cultos Romanos, Latinos, Etruscos e muitos outros cultos itálicos, como o que está na origem do Rito dei Serpari, não tenham permanecido incólumes. Por outro lado, a política de centralização Romana permitiu uma moderação das influências estrangeiras, salvaguardando os preceitos da religio Romana, que são a simplicidade, o pragmatismo e a relação contratual com os Deuses. É possível identificar as origens itálicas de vários Deuses Romanos, que nunca foram sincretizados com os Deuses Gregos. Alguns Deuses Romanos têm raízes muito mais arcaicas do que as dos Deuses Gregos que, apesar de mais tardios, continuam a ser mencionados como “originais”, em relação aos seus “correspondentes” Romanos.

A distinção dos Deuses segundo sexo e género, que será matéria para um próximo post (na sequência da leitura do trabalho de Elizabeth Colantoni), também foi impulsionado por influências exteriores, que popularizaram o conceito de genealogia aplicada aos Deuses, tão útil na elaboração de episódios mitológicos. Porém, talvez uma das razões mais prementes para insistirmos na distinção das tradições autóctones, pelo menos para os cultores da Traditio de Numa, seja a necessidade de preservar preceitos. Por exemplo, o de não realizar sacrifícios de sangue, os quais foram uma das principais importações de origem grega.

 

Homens mortais e honras divinas

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“O caso de César era especial. As honras do seu estatuto divino foram decretadas pelo Senado durante a sua vida (…) este estatuto lançou imenso prestígio sobre o seu herdeiro, o jovem Octávio, agora divi filius ” in Emperor Worship and Roman Religion, (pág 263), Ittai Gradel (Department of History, University of Copenhagen) Clarendon Press • Oxford, 2002. A couraça de Augustus, coberta com figuras que comunicam mensagens propagandistas (ver artigo). Augustus di Primaporta, século I da Era Comum, mármore, 2.03 metros de altura, Museu do Vaticano (Fotografia: Sailko – detalhe).

 

Uma crítica a um texto académico, as reflexões expostas por um cultor, e o acesso imediato ao livro em questão propiciaram a leitura do momento. É uma monografia acerca da adoração ao imperador na Religião Romana, que no sentido mais lato aborda a deificação de pessoas, como aconteceu a Hércules, Rómulo, e Julio César. Este assunto surgiu recentemente numa questão que me foi colocada por alguém exterior à religio:

“Eu tenho uma questão. Acreditam que os deuses são seres de facto, pessoas deíficas, ou alguma outra coisa, como representações de certos ideais?”

Aquilo, ou aqueles, em que alguém acredita, é subjectivo e por isso não pode haver apenas uma resposta à questão, que na verdade faz pouco sentido no contexto do Cultus Deorum, onde a crença não é uma noção central ou de todo relevante. A natureza contratual da religio determina que não se trata de acreditar, mas de cumprir, segundo o princípio “do ut des”. Não importa que o indivíduo acredite em seja o que ou quem for – ainda que possa acreditar –, mas sim que pratique aquilo a que se propõe, de acordo com a sua traditio e a sua intenção. Quando muito, é uma questão relacional e não de fé. É válida, mas não essencial.

A deificação de pessoas sempre foi um facto, tal como a antropomorfização dos Deuses. Alguns cultores podem sentir-se semelhantes aos Deuses e determinar graus do divino, nos quais é possível incluir pessoas, mas isto não quer dizer que todos os cultores sintam o mesmo ou pensem nestas questões. Grande parte dos conceitos e conclusões apresentados no livro e no texto que aqui partilho soam demasiado modernos, espirituais, renascentistas, e estão raiados de supertitio em mais do que um aspecto. Isto não põe em causa a qualidade do estudo académico, mas tem um carácter demasiado especulativo para ser levado à letra pelos cultores tradicionais.

Para além disso, a hipótese de endeusar pessoas, em qualquer época, porque as admiramos e estamos dispostos a escutar tudo o que têm para nos ensinar, sem questionar, ou mesmo contestar os seus ensinamentos, é suficiente para criar alguma perplexidade. Primeiro, porque estamos perante uma hierarquização que é cultivada por uma ou ambas as partes, e depois porque o indivíduo assume uma posição declaradamente lisonjeira em relação aos seus mentores, a quem pode até atribuir um carácter divino.

Admito que algumas pessoas – voluntária ou involuntariamente divinizadas e adoradas – (não todas, mas talvez as que de facto têm para dizer alguma coisa que valha a pena escutar e não se contentem em ser admiradas, bajuladas, e cegamente servidas) sentiriam profundo constrangimento ao saberem dessa “relação” idealizada por tão devoto pupilo. Como referido no texto, estamos perante alguém que “acredita” na proposta do autor, não só no sentido histórico mas religioso. Sabemos que acreditar num texto de pouco serve, no plano académico, onde os argumentos têm de ser defendidos com objectividade, mas não deixa de ser interessante que essa crença exista, no plano religioso. Na verdade, as fontes históricas – e os pareceres académicos, sejam eles sólidos ou não – são muitas vezes as bases dos mais variados cultos.

Sabemos que o princípio “primeiro entre iguais”, que soa contraditório, muitas vezes não passou de fachada, quando aplicado aos homens que se queriam homens. Se faz sentido sequer aplicá-lo aos Deuses, num contexto politeísta – e não henoteísta – é outra questão. Sobretudo, quando em alguns dos diferentes “graus” de “deuses”, se encontram pessoas, vivas ou mortas. Se partirmos do princípio que os Deuses são detentores do Poder e da Sabedoria, e que as pessoas na Antiguidade, de heróis a imperadores (entre eles ditadores), foram deificadas por terem poderes, sobretudo de vida ou morte, sobre os seus “iguais”, e se admitirmos que podemos deificar pessoas com os mais variados poderes, é legítimo questionarmos se ainda estamos perante o Cultus Deorum Romanorum ou um qualquer culto da personalidade, de personalidades, de sabedorias inquestionadas, e dos pequenos, médios, ou grandes poderes. Será uma boa questão para os cultores – ou simplesmente os indivíduos -, envolvidos nesses cultos, que como todos os incontáveis cultos são relativos e, por isso, irrelevantes para a communitas. Pelo menos, quando não são instituídos, a qualquer custo.

Aqui deixo o comentário:

“Há algum tempo que tenho estado a ler um livro por Ittai Gradel, intitulado Emperor Worship and Roman Religion. Ele defendeu de forma convincente a sua visão do antigo conceito Romano de “deus” e a sua relação com a adoração humana na República e no Império. Eu queria partilhar a sua visão (na qual eu, por agora, acredito).

Gradel provou através de exemplos que a noção comum, seguida pela maioria dos estudiosos durante muito tempo (que o Culto Imperial foi uma importação grega e uma novidade em Roma) é falsa, e que a adoração de pessoas existia em Roma, mesmo na República, mas ele mostrou que este culto foi parte da sacra privada, não um Culto de Estado. Indivíduos e a comunidade adoraram pessoas, não apenas o Estado como um todo.

Com isso em mente, é interessante notar que isto só aconteceu na relação de um inferior para com um superior. O homem que estava numa situação em que outro homem tinha poder real e irrefutável ​​sobre ele poderia venerá-lo directamente para o honrar. Era distinto mas semelhante ao Culto do Genius. A relação entre um homem que adorava o génio de um outro homem era de uma natureza servil, adequada à do Clientes para com o seu Patrono. A relação entre um homem que adorava um outro homem foi a de um devoto para com a um deus, reconhecendo o poder do indivíduo sobre ele, mas assegurando uma relação de obrigações mútuas, em que o devoto faz oferendas ao outro e o honra e aquele, como qualquer deus, cuida dos melhores interesses do devoto.

Esta foi provavelmente uma das razões por que algumas honras divinas (pelo Senado e por municípios autónomos) foram rejeitadas pelos imperadores (e até mesmo por C. César o Ditador), pois eles tinham que moderar bem as suas relações com a sociedade e a responsabilidade que estas honras implicavam. A deificação do Imperador pelo Estado foi um processo natural, a esta luz, pois era somente quando um indivíduo se tornava mais poderosos do que qualquer outro dentro do Estado Romano tradicional que esta linha de pensamento coincidia com um culto de Estado. Isto foi tentado muitas vezes, muitos imperadores receberam a proposta de deificação pelo Senado e dos Municípios. A razão para a insistência do Senado em endeusar os imperadores poderia ser entendida como uma tentativa de manter a sua posição privilegiada de honra, pois se o Imperador é um Deus, então eles não são seus clientes, mas seus devotos e os melhores entre os homens, pois ele não é visto como apenas um homem.

Então por que nunca aceitavam eles a adoração de ESTADO? (Nem mesmo Calígula aceitou o Culto de Estado, e a sua adoração foi, como tradicionalmente, financiada a título privado) devido ao estigma de César… Eles temiam que a morte se seguisse, para aqueles que aceitassem o culto em vida, porque César fizera isso. Foi-lhe concedido o título de Divus Julius (O Deus Julius), enquanto ainda vivo, pouco antes de ser brutalmente assassinado. Assim, para os imperadores, colocarem-se como deuses do Estado seria demasiado próximo a uma monarquia (algo que durante muito tempo tentaram evitar parecer ser) e uma grande tentação para os rivais invejosos que queriam vê-los mortos.

Tudo isto fez Gradel ver que, numa perspectiva Romana, não havia tal coisa como uma “natureza divina”, separada e absoluta. Que a divindade não era uma questão de natureza, mas da RELAÇÃO. Um deus é um deus para ALGUÉM, não um Deus como uma espécie separada. Qualquer coisa / pessoa poderia ser venerada como um Deus. Para ser um deus o indivíduo simplesmente precisava ter poder sobre os outros e ser adorado por eles, como sendo (para eles e só para eles) um Deus.

Para mim, esta visão faz muito sentido e coloca a divindade em perspectiva. Qual é a diferença entre um espírito imortal humano, espíritos elementais locais, um deus local e um dos “Grandes Deuses”? Com isto, vemos que não há diferença de NATUREZA entre qualquer um deles, mas de grau. A única razão pela qual nenhum de nós é deus, mas antes os deuses são deuses é porque eles são infinitamente mais poderosos do que nós e foram legitimados como tal pelo tempo e pela prática, tendo seguidores até hoje. No fim, todos nós somos seres espirituais com o potencial inato para grandes coisas. Isso faz diminuir a importância e a honra dos Deuses? Pessoalmente não penso assim. Posso pensar em muitos grandes homens e mulheres que reverencio e que tenho em alta consideração, em cuja presença fico em silêncio respeitoso, a ouvir tudo o que eles têm para ensinar, e o facto de serem humanos não diminui em nada o meu respeito em relação a eles. Pelo contrário, isso ajuda-me a relacionar-me com eles. Eu sinto o mesmo em relação aos Deuses hoje em dia, porque sentir que somos da mesma espécie (seres espirituais com o mesmo potencial, ainda que não com o mesmo Poder ou Sabedoria) faz-me sentir como se eu pudesse relacionar-me com eles ainda mais, e ajuda-me a desejar esforçar-me para melhorar a mim mesmo como pessoa e realizar ao máximo o meu potencial.

Eu recomendo ler o trabalho de Gradel, mesmo se não concordar com ele.”

Victor Britto (Vitória, ES, Brasil). Grata pela partilha.

Nem tudo é gravitas

 

Pormenor de lareira ladeadas por candeeiros em forma de ânfora. Vilas Romanas, em Casa & Decoração, Junho/Julho 1984 (Fotografia António Homem Cardoso)

Pormenor de lareira ladeada por candeeiros em forma de ânfora. Vilas Romanas, em Casa & Decoração, Junho/Julho 1984 (Fotografia: António Homem Cardoso)

 

Quando a ortopraxia reage com o ambiente, a vida quotidiana, as normas de segurança, os avanços tecnológicos, e os estudos científicos, é comum surgir um dilema. Como aos discipulae!

Muitos cultores ficam num impasse face aos mais pequenos detalhes relativos aos rituais da sacra privata, sem saberem se devem prescindir de certos elementos, adaptá-los às circunstâncias, ou manterem-se fiéis à veracidade histórica da sua traditio, mesmo que seja em prejuízo da desejável convivência, do conforto, e da saúde. As dúvidas surgem a cada momento e só é possível encontrar respostas através de uma boa dose de experimentação e da inestimável partilha entre cultores. O que pode resultar para um cultor que vive numa villa à beira-mar pode não servir a uma cultrix que aluga um minúsculo flat em Nova Iorque, ou a um estudante que partilha um quarto, num campus universitário.

Preferências à parte, um ponto de acordo é que o mais importante, apesar de todas as condicionantes, é perceber os princípios do Cultus Deorum. Costuma dizer-se que antes de mais nada deve estabelecer-se uma prática, porque a filosofia vem com o tempo. Com isto em mente, é importante colocar questões e aprender, não só as técnicas usadas na Antiguidade mas também como podemos adaptá-las à nossa realidade actual, aos nossos modos de vida e meios familiares.

No domínio das oferendas, existem várias situações que quase todos os cultores encontram, sendo as mais frequentes aquelas que de alguma forma transformam o ambiente doméstico. Nem todos os cultores têm a possibilidade de manter altares exteriores, em lugares que se prestem ao culto, que possam proteger e esperar encontrar intocados, depois dos rituais mais simples. Neste aspecto, as tradições politeístas nunca foram discretas. A utilização de espaços públicos é sempre muito restritiva e, nos casos mais infelizes, pode ser alvo de crítica e incompreensão. À falta de templos que ainda possam ser usados, que não tenham sido dessacralizados por usos mundanos e por outras religiões, muitos cultores preferem a privacidade doméstica. Nem aqueles que têm aras e templos privativos nas suas propriedades abdicam do lararium. É essencial e todos sabem o que é fazer oferendas no interior da sua casa.

Uma das dificuldades mais frequentes, que qualquer pessoa pode compreender, tem a ver com o uso de incenso e de outros elementos que devem arder junto dos mais variados altares. Este problema é partilhado por pessoas de muitas religiões e espiritualidades, e com diversos usos e costumes profanos. A polémica acerca da perigosidade do uso dos incensos, mesmo de grande qualidade, sobretudo na presença de crianças, tem sido aprofundada a cada ano. Muitas pessoas “espiritualizadas”, que parecem interessar-se por curas energéticas e estilos de vida saudáveis, ainda ignoram as evidências, mas basta consultar estudos e ler artigos para entender que um stick de incenso tem um nível considerável de toxicidade, que não deve ser desvalorizado.

No âmbito da religio Romana faz todo o sentido utilizar resinas e carvão em vez dos incensos orientais, porque estão mais de acordo com as práticas da Antiguidade. Não quer dizer que outras opções estejam excluídas, mas até a Igreja Católica privilegia o uso de resinas por essa razão. Apesar disso, muitas pessoas sentem-se desencorajadas de as usar, porque o ambiente doméstico, em particular a divisão da casa onde está o lararium, fica exaurido. Se há pessoas que procuram experimentar estados alterados de consciência através da inalação de fumos vários, outras há que preferem proteger a sua saúde. Até porque as doenças respiratórias afectam muitas pessoas, sem discriminação. Para não falar de estados interessantes, em que qualquer odor leva à náusea.

Para muitos cultores o ar saturado é simplesmente irrespirável, mesmo que tenham várias janelas abertas e estejam dispostos a sofrer com a corrente de ar, no auge do Inverno. Chega a ser ridículo. É um pouco como fazer fritos e grelhados numa cozinha sem exaustor, num pequeno apartamento, ou ter uma lareira que não funciona bem. A não ser que goste de criar um ambiente serrano, ninguém quer ter o quarto e a roupa a cheirar a fumeiro. De facto, para muitos, quer no domicílio quer durante uma viagem, o seu espaço pessoal está limitado a um quarto. Fica a sugestão de usar apenas um ou dois cristais, porque a questão tem pouco a ver com o que se usa e mais com a forma como é usado. O mesmo serve para os pauzinhos de incenso. Podem ser cortados em dois ou três pedaços mais pequenos e apagados ao fim de alguns instantes, em frente ao lararium. Outra opção que combina interior e exterior, muito útil para quem tem detectores de incêndio muito sensíveis é deixar o incenso arder do lado de fora da janela mais próxima do lararium ou do sacellum.

Como os cultores da Traditio de Numa sabem, os sacrifícios, sob a forma de oferendas, devem ser feitos em pietas, sem implicar sofrimento, vítimas sacrificiais, nem dispêndios incomportáveis. Que ninguém prejudique a saúde, as relações pessoais, ou o conforto do seu lar. Isso seria contraproducente. Estes detalhes fazem parte da nossa existência diária e também disto se faz o Cultus Deorum Romanorum.