Nem tudo é gravitas

 

Pormenor de lareira ladeadas por candeeiros em forma de ânfora. Vilas Romanas, em Casa & Decoração, Junho/Julho 1984 (Fotografia António Homem Cardoso)

Pormenor de lareira ladeada por candeeiros em forma de ânfora. Vilas Romanas, em Casa & Decoração, Junho/Julho 1984 (Fotografia: António Homem Cardoso)

 

Quando a ortopraxia reage com o ambiente, a vida quotidiana, as normas de segurança, os avanços tecnológicos, e os estudos científicos, é comum surgir um dilema. Como aos discipulae!

Muitos cultores ficam num impasse face aos mais pequenos detalhes relativos aos rituais da sacra privata, sem saberem se devem prescindir de certos elementos, adaptá-los às circunstâncias, ou manterem-se fiéis à veracidade histórica da sua traditio, mesmo que seja em prejuízo da desejável convivência, do conforto, e da saúde. As dúvidas surgem a cada momento e só é possível encontrar respostas através de uma boa dose de experimentação e da inestimável partilha entre cultores. O que pode resultar para um cultor que vive numa villa à beira-mar pode não servir a uma cultrix que aluga um minúsculo flat em Nova Iorque, ou a um estudante que partilha um quarto, num campus universitário.

Preferências à parte, um ponto de acordo é que o mais importante, apesar de todas as condicionantes, é perceber os princípios do Cultus Deorum. Costuma dizer-se que antes de mais nada deve estabelecer-se uma prática, porque a filosofia vem com o tempo. Com isto em mente, é importante colocar questões e aprender, não só as técnicas usadas na Antiguidade mas também como podemos adaptá-las à nossa realidade actual, aos nossos modos de vida e meios familiares.

No domínio das oferendas, existem várias situações que quase todos os cultores encontram, sendo as mais frequentes aquelas que de alguma forma transformam o ambiente doméstico. Nem todos os cultores têm a possibilidade de manter altares exteriores, em lugares que se prestem ao culto, que possam proteger e esperar encontrar intocados, depois dos rituais mais simples. Neste aspecto, as tradições politeístas nunca foram discretas. A utilização de espaços públicos é sempre muito restritiva e, nos casos mais infelizes, pode ser alvo de crítica e incompreensão. À falta de templos que ainda possam ser usados, que não tenham sido dessacralizados por usos mundanos e por outras religiões, muitos cultores preferem a privacidade doméstica. Nem aqueles que têm aras e templos privativos nas suas propriedades abdicam do lararium. É essencial e todos sabem o que é fazer oferendas no interior da sua casa.

Uma das dificuldades mais frequentes, que qualquer pessoa pode compreender, tem a ver com o uso de incenso e de outros elementos que devem arder junto dos mais variados altares. Este problema é partilhado por pessoas de muitas religiões e espiritualidades, e com diversos usos e costumes profanos. A polémica acerca da perigosidade do uso dos incensos, mesmo de grande qualidade, sobretudo na presença de crianças, tem sido aprofundada a cada ano. Muitas pessoas “espiritualizadas”, que parecem interessar-se por curas energéticas e estilos de vida saudáveis, ainda ignoram as evidências, mas basta consultar estudos e ler artigos para entender que um stick de incenso tem um nível considerável de toxicidade, que não deve ser desvalorizado.

No âmbito da religio Romana faz todo o sentido utilizar resinas e carvão em vez dos incensos orientais, porque estão mais de acordo com as práticas da Antiguidade. Não quer dizer que outras opções estejam excluídas, mas até a Igreja Católica privilegia o uso de resinas por essa razão. Apesar disso, muitas pessoas sentem-se desencorajadas de as usar, porque o ambiente doméstico, em particular a divisão da casa onde está o lararium, fica exaurido. Se há pessoas que procuram experimentar estados alterados de consciência através da inalação de fumos vários, outras há que preferem proteger a sua saúde. Até porque as doenças respiratórias afectam muitas pessoas, sem discriminação. Para não falar de estados interessantes, em que qualquer odor leva à náusea.

Para muitos cultores o ar saturado é simplesmente irrespirável, mesmo que tenham várias janelas abertas e estejam dispostos a sofrer com a corrente de ar, no auge do Inverno. Chega a ser ridículo. É um pouco como fazer fritos e grelhados numa cozinha sem exaustor, num pequeno apartamento, ou ter uma lareira que não funciona bem. A não ser que goste de criar um ambiente serrano, ninguém quer ter o quarto e a roupa a cheirar a fumeiro. De facto, para muitos, quer no domicílio quer durante uma viagem, o seu espaço pessoal está limitado a um quarto. Fica a sugestão de usar apenas um ou dois cristais, porque a questão tem pouco a ver com o que se usa e mais com a forma como é usado. O mesmo serve para os pauzinhos de incenso. Podem ser cortados em dois ou três pedaços mais pequenos e apagados ao fim de alguns instantes, em frente ao lararium. Outra opção que combina interior e exterior, muito útil para quem tem detectores de incêndio muito sensíveis é deixar o incenso arder do lado de fora da janela mais próxima do lararium ou do sacellum.

Como os cultores da Traditio de Numa sabem, os sacrifícios, sob a forma de oferendas, devem ser feitos em pietas, sem implicar sofrimento, vítimas sacrificiais, nem dispêndios incomportáveis. Que ninguém prejudique a saúde, as relações pessoais, ou o conforto do seu lar. Isso seria contraproducente. Estes detalhes fazem parte da nossa existência diária e também disto se faz o Cultus Deorum Romanorum.

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