Homens mortais e honras divinas

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“O caso de César era especial. As honras do seu estatuto divino foram decretadas pelo Senado durante a sua vida (…) este estatuto lançou imenso prestígio sobre o seu herdeiro, o jovem Octávio, agora divi filius ” in Emperor Worship and Roman Religion, (pág 263), Ittai Gradel (Department of History, University of Copenhagen) Clarendon Press • Oxford, 2002. A couraça de Augustus, coberta com figuras que comunicam mensagens propagandistas (ver artigo). Augustus di Primaporta, século I da Era Comum, mármore, 2.03 metros de altura, Museu do Vaticano (Fotografia: Sailko – detalhe).

 

Uma crítica a um texto académico, as reflexões expostas por um cultor, e o acesso imediato ao livro em questão propiciaram a leitura do momento. É uma monografia acerca da adoração ao imperador na Religião Romana, que no sentido mais lato aborda a deificação de pessoas, como aconteceu a Hércules, Rómulo, e Julio César. Este assunto surgiu recentemente numa questão que me foi colocada por alguém exterior à religio:

“Eu tenho uma questão. Acreditam que os deuses são seres de facto, pessoas deíficas, ou alguma outra coisa, como representações de certos ideais?”

Aquilo, ou aqueles, em que alguém acredita, é subjectivo e por isso não pode haver apenas uma resposta à questão, que na verdade faz pouco sentido no contexto do Cultus Deorum, onde a crença não é uma noção central ou de todo relevante. A natureza contratual da religio determina que não se trata de acreditar, mas de cumprir, segundo o princípio “do ut des”. Não importa que o indivíduo acredite em seja o que ou quem for – ainda que possa acreditar –, mas sim que pratique aquilo a que se propõe, de acordo com a sua traditio e a sua intenção. Quando muito, é uma questão relacional e não de fé. É válida, mas não essencial.

A deificação de pessoas sempre foi um facto, tal como a antropomorfização dos Deuses. Alguns cultores podem sentir-se semelhantes aos Deuses e determinar graus do divino, nos quais é possível incluir pessoas, mas isto não quer dizer que todos os cultores sintam o mesmo ou pensem nestas questões. Grande parte dos conceitos e conclusões apresentados no livro e no texto que aqui partilho soam demasiado modernos, espirituais, renascentistas, e estão raiados de supertitio em mais do que um aspecto. Isto não põe em causa a qualidade do estudo académico, mas tem um carácter demasiado especulativo para ser levado à letra pelos cultores tradicionais.

Para além disso, a hipótese de endeusar pessoas, em qualquer época, porque as admiramos e estamos dispostos a escutar tudo o que têm para nos ensinar, sem questionar, ou mesmo contestar os seus ensinamentos, é suficiente para criar alguma perplexidade. Primeiro, porque estamos perante uma hierarquização que é cultivada por uma ou ambas as partes, e depois porque o indivíduo assume uma posição declaradamente lisonjeira em relação aos seus mentores, a quem pode até atribuir um carácter divino.

Admito que algumas pessoas – voluntária ou involuntariamente divinizadas e adoradas – (não todas, mas talvez as que de facto têm para dizer alguma coisa que valha a pena escutar e não se contentem em ser admiradas, bajuladas, e cegamente servidas) sentiriam profundo constrangimento ao saberem dessa “relação” idealizada por tão devoto pupilo. Como referido no texto, estamos perante alguém que “acredita” na proposta do autor, não só no sentido histórico mas religioso. Sabemos que acreditar num texto de pouco serve, no plano académico, onde os argumentos têm de ser defendidos com objectividade, mas não deixa de ser interessante que essa crença exista, no plano religioso. Na verdade, as fontes históricas – e os pareceres académicos, sejam eles sólidos ou não – são muitas vezes as bases dos mais variados cultos.

Sabemos que o princípio “primeiro entre iguais”, que soa contraditório, muitas vezes não passou de fachada, quando aplicado aos homens que se queriam homens. Se faz sentido sequer aplicá-lo aos Deuses, num contexto politeísta – e não henoteísta – é outra questão. Sobretudo, quando em alguns dos diferentes “graus” de “deuses”, se encontram pessoas, vivas ou mortas. Se partirmos do princípio que os Deuses são detentores do Poder e da Sabedoria, e que as pessoas na Antiguidade, de heróis a imperadores (entre eles ditadores), foram deificadas por terem poderes, sobretudo de vida ou morte, sobre os seus “iguais”, e se admitirmos que podemos deificar pessoas com os mais variados poderes, é legítimo questionarmos se ainda estamos perante o Cultus Deorum Romanorum ou um qualquer culto da personalidade, de personalidades, de sabedorias inquestionadas, e dos pequenos, médios, ou grandes poderes. Será uma boa questão para os cultores – ou simplesmente os indivíduos -, envolvidos nesses cultos, que como todos os incontáveis cultos são relativos e, por isso, irrelevantes para a communitas. Pelo menos, quando não são instituídos, a qualquer custo.

Aqui deixo o comentário:

“Há algum tempo que tenho estado a ler um livro por Ittai Gradel, intitulado Emperor Worship and Roman Religion. Ele defendeu de forma convincente a sua visão do antigo conceito Romano de “deus” e a sua relação com a adoração humana na República e no Império. Eu queria partilhar a sua visão (na qual eu, por agora, acredito).

Gradel provou através de exemplos que a noção comum, seguida pela maioria dos estudiosos durante muito tempo (que o Culto Imperial foi uma importação grega e uma novidade em Roma) é falsa, e que a adoração de pessoas existia em Roma, mesmo na República, mas ele mostrou que este culto foi parte da sacra privada, não um Culto de Estado. Indivíduos e a comunidade adoraram pessoas, não apenas o Estado como um todo.

Com isso em mente, é interessante notar que isto só aconteceu na relação de um inferior para com um superior. O homem que estava numa situação em que outro homem tinha poder real e irrefutável ​​sobre ele poderia venerá-lo directamente para o honrar. Era distinto mas semelhante ao Culto do Genius. A relação entre um homem que adorava o génio de um outro homem era de uma natureza servil, adequada à do Clientes para com o seu Patrono. A relação entre um homem que adorava um outro homem foi a de um devoto para com a um deus, reconhecendo o poder do indivíduo sobre ele, mas assegurando uma relação de obrigações mútuas, em que o devoto faz oferendas ao outro e o honra e aquele, como qualquer deus, cuida dos melhores interesses do devoto.

Esta foi provavelmente uma das razões por que algumas honras divinas (pelo Senado e por municípios autónomos) foram rejeitadas pelos imperadores (e até mesmo por C. César o Ditador), pois eles tinham que moderar bem as suas relações com a sociedade e a responsabilidade que estas honras implicavam. A deificação do Imperador pelo Estado foi um processo natural, a esta luz, pois era somente quando um indivíduo se tornava mais poderosos do que qualquer outro dentro do Estado Romano tradicional que esta linha de pensamento coincidia com um culto de Estado. Isto foi tentado muitas vezes, muitos imperadores receberam a proposta de deificação pelo Senado e dos Municípios. A razão para a insistência do Senado em endeusar os imperadores poderia ser entendida como uma tentativa de manter a sua posição privilegiada de honra, pois se o Imperador é um Deus, então eles não são seus clientes, mas seus devotos e os melhores entre os homens, pois ele não é visto como apenas um homem.

Então por que nunca aceitavam eles a adoração de ESTADO? (Nem mesmo Calígula aceitou o Culto de Estado, e a sua adoração foi, como tradicionalmente, financiada a título privado) devido ao estigma de César… Eles temiam que a morte se seguisse, para aqueles que aceitassem o culto em vida, porque César fizera isso. Foi-lhe concedido o título de Divus Julius (O Deus Julius), enquanto ainda vivo, pouco antes de ser brutalmente assassinado. Assim, para os imperadores, colocarem-se como deuses do Estado seria demasiado próximo a uma monarquia (algo que durante muito tempo tentaram evitar parecer ser) e uma grande tentação para os rivais invejosos que queriam vê-los mortos.

Tudo isto fez Gradel ver que, numa perspectiva Romana, não havia tal coisa como uma “natureza divina”, separada e absoluta. Que a divindade não era uma questão de natureza, mas da RELAÇÃO. Um deus é um deus para ALGUÉM, não um Deus como uma espécie separada. Qualquer coisa / pessoa poderia ser venerada como um Deus. Para ser um deus o indivíduo simplesmente precisava ter poder sobre os outros e ser adorado por eles, como sendo (para eles e só para eles) um Deus.

Para mim, esta visão faz muito sentido e coloca a divindade em perspectiva. Qual é a diferença entre um espírito imortal humano, espíritos elementais locais, um deus local e um dos “Grandes Deuses”? Com isto, vemos que não há diferença de NATUREZA entre qualquer um deles, mas de grau. A única razão pela qual nenhum de nós é deus, mas antes os deuses são deuses é porque eles são infinitamente mais poderosos do que nós e foram legitimados como tal pelo tempo e pela prática, tendo seguidores até hoje. No fim, todos nós somos seres espirituais com o potencial inato para grandes coisas. Isso faz diminuir a importância e a honra dos Deuses? Pessoalmente não penso assim. Posso pensar em muitos grandes homens e mulheres que reverencio e que tenho em alta consideração, em cuja presença fico em silêncio respeitoso, a ouvir tudo o que eles têm para ensinar, e o facto de serem humanos não diminui em nada o meu respeito em relação a eles. Pelo contrário, isso ajuda-me a relacionar-me com eles. Eu sinto o mesmo em relação aos Deuses hoje em dia, porque sentir que somos da mesma espécie (seres espirituais com o mesmo potencial, ainda que não com o mesmo Poder ou Sabedoria) faz-me sentir como se eu pudesse relacionar-me com eles ainda mais, e ajuda-me a desejar esforçar-me para melhorar a mim mesmo como pessoa e realizar ao máximo o meu potencial.

Eu recomendo ler o trabalho de Gradel, mesmo se não concordar com ele.”

Victor Britto (Vitória, ES, Brasil). Grata pela partilha.

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