Mitos e miscelâneas

Em 1952, a modelo Regina Relang posou com um vestido da Sorelle Fontana Alta Moda, uma casa fundada em Roma por três irmãs estilistas, em 1943, que colaborou com a Sétima Arte. Ao lado a mão da estátua gigante do Imperador Constantino, no pátio do Palazzo dei Conservatori, também em Roma.

Fotografia de Regina Relang, de 1952. O modelo posou com um vestido da Sorelle Fontana Alta Moda, uma casa fundada em Roma, em 1943, por três irmãs estilistas  que colaboraram com a Sétima Arte. Ao lado a mão direita do Colosso de Constantino, a estátua gigante do imperador (c. 280–337), no pátio do Palazzo dei Conservatori, Musei Capitolini, também em Roma. (313-324 EC. Mármore, cm 166. De Roma, Basilica di Maxentius, 1486)

 

Quem sabe o significado de “greco-romano” ponha o dedo no ar!

“O nosso estudo não é um estudo do tipo Greco-Romano ou Romano-Grego, não é o Esoterismo em forma Romana, não é a guerra pela salvação do mundo com o uso de ritos pseudo-romanos, não nos baseamos nos autores de oito-novecentos, e não colocamos a hipótese de que os Romanos, Gregos, e Egípcios são a mesma coisa (porque não são), nós propomos um estudo de tipo académico (mas com a racionalidade teológica que lhe falta) sobre o culto exclusivamente Romano.”

Ad Maiora Vertite

 

Numa época em que o sofisma “greco-romano” ganhou estatuto de cultura geral, é sempre importante promover uma rectificação, ou neste caso reiterar o que foi escrito, na tentativa de alertar para o facto de existirem tradições estritamente Romanas, Latinas, Etruscas, e itálicas de um modo geral. Em nome da preservação de práticas que perduram, aquelas tradições podem e devem ser destrinçadas de influências gregas e da assimilação de elementos alógenos.

Com a tendência contemporânea para nivelar as tradições religiosas mundiais segundo o modelo enciclopédico, as teorias psicológicas, e os interesses comerciais, surgiu a necessidade de distinguir o que são, de facto, tradições e o que são elaborações mentais baseadas em fontes secundárias acerca das diversas tradições. Foi neste sentido que, há cerca de duas semanas, o académico americano Christopher Wallis, estudioso de sânscrito há mais de doze anos, publicou no seu website um texto acerca de “chakras”, à luz das fontes das tradições tântricas de yoga. Alertou para a presunção dos entendidos em yoga que – com ingenuidade ou de forma deliberada – propagam uma versão adulterada e customizada daquelas tradições, que nunca aprofundaram. Arrisquei traduzir alguns excertos e recomendo a leitura integral do texto original deste académico, que é o autor do livro Tantra Illuminated:

 

“Estou aqui para vos dizer duas coisas: primeiro, quando os autores modernos que escrevem acerca de chakras vos dizem que estão a apresentar ensinamentos antigos, eles estão a mentir – mas normalmente não sabem que estão, porque não conseguem avaliar a validade das suas fontes. Segundo, para aqueles que estão interessados, eu estou aqui para vos dar a conhecer um pouco daquilo que os conceitos de yoga significam no seu contexto original (porque eu sou um académico de sânscrito, e um mediador que prefere as formas tradicionais). Apenas vocês podem avaliar se isto vos traz algum benefício. Eu não estou a afirmar que o mais antigo é intrinsecamente melhor.

“O yogi educado deveria saber que todas as associações dos chakras a estados psicológicos são uma inovação moderna ocidental que começou com Jung. Talvez essas associações representem realidades experienciais para algumas pessoas (mas geralmente não sem sugestão). Certamente que não podemos encontrá-las nas fontes em sânscrito.

“Invocar a imagem e a energia de uma divindade específica num determinado chakra também é culturalmente específico, mas se os yogis ocidentais compreendessem o que aquelas divindades significam, a prática poderia ser significativa também para eles, apesar de provavelmente nunca ser tão significativa como para alguém que cresceu com aquelas divindades sendo ícones paradigmáticos inscritos na mente subconsciente.

“Assim, isto é o que eu espero que resulte deste texto: alguma humildade. Menos declarações de autoridade quando se trata de matérias realmente esotéricas. Talvez menos professores de yoga a tentarem ensinar aos seus alunos o que são os chakras. Ena, eu sinto-me humilde perante a complexidade das fontes originais, e isto depois de doze anos de estudo de sânscrito.

“Por isso, porque não tratar com mais cuidado as crenças que adquiriu acerca de yoga, mesmo enquanto continua a aprender? Vamos admitir que ainda não compreendemos realmente estas antigas práticas de yoga; e em vez de tentar ser uma autoridade numa versão simplificada daquelas práticas, pode convidar-se e aos seus alunos a olharem com mais clareza, mais honestidade, mais cuidado, e com menos juízos de valor a sua própria experiência interior.”

 

Eu não diria melhor e gostaria, tanto quanto possível, de transpor esta chamada de atenção para o plano das tradições europeias e para uma em particular. A tradição Romana é quase sempre tratada como mera apropriação de uma alegada “verdadeira” tradição, que seria grega. Está muito errado quem pensa assim, e muito nos conta acerca dos seus estudos quem se limita a repetir, transcrever, ou adaptar livremente, a partir de best-sellers acerca de famílias disfuncionais e outras peripécias “greco-romanas” ou “greco-latinas” sem contexto.

Quando alguém arrisca afirmar – e impingir aos mais vulneráveis – que os Deuses Romanos são Deuses Gregos que receberam nomes Romanos e que as ideias gregas acerca da estrutura do universo foram passadas aos Romanos, talvez devido a uma tremenda falta de imaginação dos povos itálicos, que não teriam cultura autóctone, só pode ter estudado a matéria nos glossários dos livros de mitologias, e de psicologias, do século passado. Logo na apresentação de tão presados “livros de ouro” podemos ler que as religiões da Antiguidade desapareceram, mas que os mitos, que já não pertencem à teologia mas sim à literatura, perduram no imaginário de todos os povos ocidentais, na poesia, nas belas-artes, na psicologia, e na psicanálise! Isto é quase uma transcrição e a sua incongruência é, sem dúvida, “culturalmente específica”.

Exactamente porque o património da Antiguidade é de todos e qualquer um é livre de o explorar como entender, é importante perceber que na tentativa de simplificar, sem conhecer a matéria em causa, pode perder-se o essencial. Mesmo que apenas no plano mitológico; o qual, apesar das barreiras mentais de muitos, não pode ser dissociado da Religião, uma vez que os mitos sempre foram processos – métodos – criados na mente humana para promover o relacionamento dos indivíduos com os Deuses, independentemente daquilo em que cada um acredite, porque isso é irrelevante para as tradições da Antiguidade.

Alguns cultores, talvez por amabilidade, preferem não elucidar aqueles, bem-intencionados, que acusam leviandade no tratamento destas questões. No entanto, um dos melhores contributos dos cultores de várias tradições europeias, de denominação étnica ou linguística, tem sido a clarificação de pontos essenciais para a compreensão da riqueza, ancestralidade, e diversidade das suas e de outras tradições. Isto tem vindo a acontecer, mas com algum atrito. Sobretudo com aqueles que preferem práticas eclécticas de inspiração incerta, mas que não querem dar parte fraca.

Muitos académicos, que em alguns casos também praticam tradições politeístas, optam por não as debater com seguidores de teorias psicológicas que parecem dar a qualquer pessoa que saiba que Carl Jung existiu a autoridade para se pronunciar acerca de qualquer tradição religiosa, mágica, e mística do mundo, baseando-se no princípio duvidoso (imperialista) da “universalidade”. Àqueles que usam estas ferramentas para abordarem temas “greco-romanos”, deixo a sugestão de passarem à prática, estabelecendo um culto politeísta a Divus Jung e aos seus divi acólitos mais vendáveis, inspirado no costume de deificação de pessoas (abordado no post anterior). Poderão criar altares e oferecer libações e incenso (podem usar pauzinhos orientais).

Sem ironia, se querem ir além das construções mentais acerca do que são as práticas religiosas “greco-romanas”, devem começar por inventar e manter uma prática religiosa que traduza esse conceito contemporâneo, conforme o idealizam. Aquela sugestão seria tão válida como qualquer outra, no contexto moderno do Paganismo. Talvez um dia, com toda a humildade, como tem acontecido a muitas pessoas bem-intencionadas, venham a estudar e a tornar-se cultores de Deuses, minimamente consistentes com alguma tradição ancestral. Enquanto praticantes, talvez possam oferecer mais do que divagações subjectivas – e juízos de valor – acerca da natureza do divino, à sombra de gíria psicologizada. Esta é apenas um escape conveniente para a falta de estudo e de prática. Talvez passem a abordar estas questões de uma perspectiva relacional e não apenas analítica, curiosa, ou “criativa” (se é que esta palavra ainda denota a qualidade de ser original).

O que quero deixar claro é que qualquer prática religiosa “greco-romana”, tal como a luta com o mesmo nome, não pode ser ancestral, por se tratar de uma definição moderna e por não existirem “deuses greco-romanos”, mas sim Deuses de diferentes origens, adorados segundo diversas tradições que se influenciam mutuamente. Na tentativa de generalizar, ou de simplificar com vista a cativar públicos menos esclarecidos, perdem-se os elementos indígenas que dão às diferentes tradições o seu carácter, deixando-nos perante um pastiche moderno, que nada deve à criatividade nem à Antiguidade, para além de uma vaga e deturpada inspiração.

Apesar de todas as evidências, outros interesses concorrem para o objectivo de afirmar a supremacia dos Deuses Gregos. Um dos mais influentes é o manifestado por alguns elementos mais radicais do Hellenismus, uma religião étnica que é mais popular e tem uma comunidade maior e mais activa do que a mui modesta e moderada communitas de cultores Deorum Romanorum. Em geral, as relações entre estas comunidades politeístas são de cooperação, mas existem sempre indivíduos, de parte a parte, que se revelam excepções e que não olham a meios para aumentarem o seu público.

O entendimento do mundo Romano pode ajudar-nos a compreender por que motivo parece ser tão difícil identificar uma tradição exclusivamente Romana. É essencial ter em conta que a linguagem popular na Roma Antiga era o Grego, estando o Latim reservado à elite mais educada. À semelhança do que acontece na actualidade, com as consequências do uso da Língua Inglesa e a influência anglo-saxónica a nível mundial, os cultos gregos fizeram parte da vida religiosa de Roma, pelo menos desde o século quinto antes da Era Comum. Para além da permeabilidade cultural que o uso popular do idioma grego permitia, a assimilação de cultos gregos, ou outros, por parte dos Romanos, através de alianças, tratados, ou conquista, era a pedra angular da sua política internacional, e uma característica basilar da sua supremacia. É também importante notar que a influência das colónias gregas do sul da Península Itálica e das ilhas era inevitável.

Isto não quer dizer que os cultos Romanos, Latinos, Etruscos e muitos outros cultos itálicos, como o que está na origem do Rito dei Serpari, não tenham permanecido incólumes. Por outro lado, a política de centralização Romana permitiu uma moderação das influências estrangeiras, salvaguardando os preceitos da religio Romana, que são a simplicidade, o pragmatismo e a relação contratual com os Deuses. É possível identificar as origens itálicas de vários Deuses Romanos, que nunca foram sincretizados com os Deuses Gregos. Alguns Deuses Romanos têm raízes muito mais arcaicas do que as dos Deuses Gregos que, apesar de mais tardios, continuam a ser mencionados como “originais”, em relação aos seus “correspondentes” Romanos.

A distinção dos Deuses segundo sexo e género, que será matéria para um próximo post (na sequência da leitura do trabalho de Elizabeth Colantoni), também foi impulsionado por influências exteriores, que popularizaram o conceito de genealogia aplicada aos Deuses, tão útil na elaboração de episódios mitológicos. Porém, talvez uma das razões mais prementes para insistirmos na distinção das tradições autóctones, pelo menos para os cultores da Traditio de Numa, seja a necessidade de preservar preceitos. Por exemplo, o de não realizar sacrifícios de sangue, os quais foram uma das principais importações de origem grega.

 

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