O Rito dos Serpari

Il Rito dei Serpari, Cocullo. (Fotografia antiga, sem detalhes)

Il Rito dei Serpari, Cocullo. (Fotografia antiga, sem detalhes)

 

“Manter animais exóticos trancados em casa durante todas as suas vidas é cruel. As pessoas chamam-lhes animais de estimação e isso de alguma forma torna aquilo legítimo. As serpentes sempre viveram perto de nós, elas partilham a nossa necessidade de comida, água e abrigo. Nestas montanhas os nossos caminhos estão destinados a cruzar-se. Nós aprendemos a aceitar o nosso ambiente e ao manusearmos as serpentes removemos o medo e tornamo-las parte das nossas vidas. A nossa tradição não prejudica nada. Trata-se de aprender a confiar e a remover o medo das nossas vidas.”

Antonietta D’Omazio

Os rituais de origem ancestral existem em várias pequenas vilas e aldeias italianas. Na Sicília realiza-se um ritual à Magna Mater e na Ligúria mantêm-se ritos aos velhos Deuses, sob o manto das tradições cristãs. Muitas vezes é difícil obter detalhes, como se os cultos ancestrais não quisessem ser descobertos.

A tradição das serpentes resistiu à política Romana de centralização. Os Marsi eram famosos pelos seus dotes de as encantar, os quais tinham grande utilidade na desinfestação das ruas de Roma, onde as serpentes chegavam a ser uma praga. Eles formulavam panaceias a partir das cabeças das víboras e a sua magia era invocada para curar mordeduras venenosas. No presente, em Cocullo, os seus descendentes são seduzidos pela migração e temem pela continuidade do festival e pela preservação do verdadeiro significado da sua existência. Apenas lhes resta passar a tradição aos mais jovens e esperar que eles continuem a fazê-lo, a cada nova geração.

 

No Vale das Serpentes

Estes são excertos de uma reportagem feita em 2015, por Nadia Attura, para a revista Italia! Italy Travel and Life.

“Na região de Abruzzo, na Itália central, o antigo culto dos répteis ainda está bem vivo. Cocullo é uma aldeia medieval, a 900 metros de altitude, ao fundo dos vales de Marsica e Peligna, que fica isolada durante o inverno rigoroso dos Apeninos [onde está situada a Montanha de Vénus]. A sua localização remota ajudou a população a manter os seus costumes únicos. A transumância ainda existe e os pastores apascentam os rebanhos de ovelhas, deslocando-se desde os prados das planícies de Puglia, no sul, até às montanhas de rocha calcária de Abruzzo, a uma distância de mais de 350km. As estradas são pontuadas por antigos altares e megálitos, tholos, que servem de abrigo aos pastores.

“Il Rito dei Serpari, Festival dos Encantadores de Serpentes, é uma tradição que data de há mais de três mil anos, e as origens são atribuídas àquela tribo itálica, os Marsi, que adoravam a Deusa Angizia com serpentes. Para eles, Ela tornava as cobras inofensivas e protegia-os dos lobos, ursos, animais rábicos, e da malária. Quando os antigos Gregos e Romanos invadiram a região, as tribos continuaram o seu culto e os rituais, mas dedicaram-nos a Apolo. Finalmente, os cristãos santificaram o culto, dedicando a cerimónia a Santo Domenico, o santo padroeiro de Cocullo.

“Nas primeiras quintas-feiras de Maio, os habitantes de Cocullo vão para as ruas com as serpentes das montanhas. O festival honra a tradição dos ancestrais e o ambiente. Para estes encantadores de serpentes o festival é uma afirmação da sua identidade.

“As serpentes começam a ser capturadas no Dia do Pai, em Março. Elas vivem com as famílias durante seis semanas, no máximo, até ao fim do festival, e depois são restituídas aos locais onde foram encontradas. A competição entre encantadores é renhida e, em média, cada pessoa captura pelo menos duas serpentes. Os segredos são passados de mãe para filha e de pai para filho.

“Todas as serpentes levadas ao festival são registadas no salão de festas da aldeia, onde são pesadas e medidas. O governo local paga a todos os que levarem serpentes e as mais belas e raras são colocadas sobre uma estátua do santo e levadas pelas ruas, em procissão.

“Até 1940, o encantamento de serpentes era uma profissão remunerada: os serpari (homens serpente) eram pagos para eliminarem as possíveis ameaças em determinadas áreas. Em Itália é ilegal matar, capturar e manter os animais selvagens em cativeiro, mas a lei é tolerante com Cocullo. As organizações pelos Direitos dos Animais há muito que têm vindo a fazer campanha pelo fim da tradição, que dizem ser cruel.

“Os jornalistas têm reportado que o festival não é mais do que um esquema lucrativo, mas Cocullo não tem quaisquer atracções, comércio, ou hotelaria, à excepção de um bar e um serviço de caminhos-de-ferro pouco frequente e pouco fiável. Dificilmente é uma Meca do dinheiro.”

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