Metamorfoses

“Apolo”

“Apolo”; acrílico sobre tela, 200 x 230 cm; 2000. Nadir Afonso (1920-2013)

Os Deuses não morrem.

Não existem religiões mortas, fora de prazo, ou desaparecidas por não haver quem as pratique. Sobretudo, quando os nomes dos Deuses que lhes estão associados são mencionados e o legado das civilizações que sempre os veneraram perdura. Quem tem uma religião antiga, sem corpo sacerdotal, que foi descontinuada, reformada, ou reconstruida, não pratica uma “religião morta”. Os seus mitos não podem ser destituídos da sua função primordial, apenas porque é conveniente à mentalidade imperante e alguém afirma que deixaram de ser do domínio teológico e passaram a ser do domínio da literatura. Não se trata de reciclar uma embalagem porque o conteúdo inicial se esgotou, nem de utilizar o conteúdo para encher outro recipiente que nunca terá a capacidade de o conter.

Quando um público receptivo aceita a declaração de que uma religião da qual há memória, registos, e práticas duradouras, desapareceu ou é uma religião morta, está a deixar-se enganar e a promover a discriminação, sem contestar. No entanto, quando esse mesmo público se mostra ávido de arte, estudos, filmes, documentários, livros, bandas desenhadas, desenhos animados, espectáculos, sistemas de correspondências, teorias psicológicas, outras criações e produtos que façam menção aos mitos, às divindades, e às práticas religiosas ancestrais, é evidente que existe uma tentativa de colmatar uma enorme lacuna. No fundo, aquele mesmo público sabe que nada desapareceu e que continua a ser inevitavelmente atraído para aquele contexto.

O interesse pela literatura, a arte, a história da Antiguidade não causam estranheza. Continuam a inspirar-nos. Os sobrolhos só se erguem quando alguém afirma praticar uma religião que demasiadas pessoas fizeram e fazem questão de dar como morta, desaparecida, ou irrecuperável; como se a sua prática estivesse vedada aos seres humanos da actualidade. O facto é que, para a maioria, ler, dissecar, e adaptar os mitos é cultura, mas reconstruir e praticar as antigas religiões é inconcebível, incoerente, ou irracional.

O pensamento científico impõe a todos os teístas e a todas as pessoas que têm práticas religiosas um tremendo complexo mental. Existe uma necessidade constante de validar as divindades e o pensamento religioso através da ciência. Uma vez que não existem evidências validadas pelos métodos científicos, propagou-se a ideia de que as divindades são pensamentos aos quais as pessoas têm vindo a atribuir nomes, imagens, e qualidades, e que apenas têm lugar na imaginação humana. Tornou-se expectável que os seres humanos progridam do animismo para o politeísmo e para o henoteísmo, antes de atingirem o monoteísmo e poderem alcançar o ateísmo, eliminando das suas vidas qualquer prática de carácter religioso, mesmo que não-teísta.

Em vários aspectos, como ao nível da tecnologia, aquela perspectiva evolutiva faz sentido, mas é incorrecto e inapropriado assumir que o politeísmo se tornou obsoleto devido aos recentes desenvolvimentos teológicos ocidentais, ou que a teologia é ela mesma obsoleta, devido aos avanços científicos e ao conhecimento dos mecanismos da mente humana. Da mesma forma, é abusivo, presunçoso, e um tanto ridículo, que alguém que pensa que o divino tem origem na mente humana tente redefinir o propósito de um legado religioso, retirando-o do seu contexto original, para estar em conformidade com o pensamento dominante, ser aceite pela maioria, e servir interesses pessoais. Estranhamente, a deturpação dos factos nunca foi tão grande como na era da informação.

Com os movimentos New Age e a apropriação da mitologia e dos símbolos pela cultura popular surgiu a ideia de que o conhecimento ecléctico das divindades é o bastante. Verifica-se uma grande ignorância acerca da forma como elas foram continuamente veneradas, de forma lícita ou ocultada, durante milénios. Nos últimos séculos, surgiram diversos movimentos que tentaram sanear as divindades e sintetizar os seus cultos, através de sistemas modernos de correspondências. Quiseram transformá-las em conceitos, desprezando a sua natureza divina, a história, e as tradições que lhes estão associadas. Promoveram uma mentalidade pronto-a-usar que tem vindo a afastar as pessoas dessas mesmas divindades. É surpreendente que isto aconteça, quando a possibilidade de aceder às fontes históricas e de comunicar com os praticantes de diversas tradições religiosas nunca foi tão grande.

O problema é que as divindades, ao longo dos tempos, foram veneradas segundo preceitos específicos. Não podemos dissociar essas práticas da mentalidade de quem as aprimorou. É essencial considerarmos os nossos antepassados, o suficiente para queremos conhecer a sua forma de pensar e de viver. Só então conseguiremos respeitar as tradições religiosas e reconsiderar a forma como as divindades têm sido tratadas na era da informação. Numa tentativa de as enquadrar num mundo em que tudo deve ter uma definição científica, muitos procuram torná-las menos concretas. Passou a ser importante atribuir-lhes alguma função; educativa, lúdica, ou terapêutica. O divino é entendido como uma metáfora para a capacidade criativa dos seres humanos.

Na última metade de século, os terapeutas junguianos proliferaram. No presente, eles trabalham com arquétipos semelhantes a divindades, mas existem diferenças entre os dois. Em termos simples, os arquétipos são características muito generalizadas da experiência humana e têm definições vagas: Mãe, Guerreiro, Vítima, Rei. As divindades podem manifestar arquétipos, aos olhos de quem está acostumado a identificá-los em qualquer situação, mas as suas expressões são sempre particulares e têm um carácter específico, muito individualizado. Não são abstracções generalistas. Permitem a identificação de uma divindade e não de qualquer divindade ou do divino, em geral. Se falássemos de uma pessoa, seria uma pessoa com personalidade forte e grande capacidade de expressão, e não alguém que pode ser definido de acordo com um grupo, estatuto, talento, profissão, trauma, condição física, estado civil, sexo, género, ou faixa etária.

Essas manifestações ocorrem sempre em contextos culturais e locais apropriados. Não estão dependentes da presença e das acções humanas, mas podem ser potenciadas através de cultos tradicionais. Por esta razão, é comum surgirem entraves quando uma divindade é transportada para fora da sua cultura, do seu lugar de origem, para longe do seu povo e da tradição que lhe está associada. Promover essas manifestações noutros contextos requer mais esforço e empenho na reconstrução de um meio propício, o que nem sempre é possível. Isto não acontece com os padrões arquetípicos, aceites como universais.

No final do segundo século da Era Comum, Lucius Apuleius escreveu Metamorfoses ou O Asno de Ouro, acerca de um homem que foi transformado num asno e iniciado nos mistérios de Isis, a Deusa que por fim lhe restituiu a forma humana. Apulieus era um mestre sincretista. Ele identificou Isis como sendo Ceres, Vénus, Diana, Prosérpina, Minerva, Hécate e outras Deusas. Qualquer tentativa moderna de as categorizar seria inútil. Mencionou Deusas associadas a três reinos; celestial, terreste, e do submundo. Sugeriu ainda os arquétipos das Donzela (Kore), Mãe (Ceres), Amante (Vénus), e Rainha da Morte (Prosérpina), embora eles não estejam identificados. Apenas nós podemos reconhecê-los como tal, devido à nossa percepção dos padrões arquetípicos. É um processo que implica sugestão.

Tendo em mente as teorias de Jung, verificamos que os Deuses podem manifestar aqueles e outros padrões arquetípicos, os quais por vezes são sincrónicos com arquétipos activados em cada pessoa. Isso não é o mesmo que afirmar que os Deuses são, de facto, “as deusas e os deuses em cada um”. Os Deuses não estão em nós; activos, adormecidos, estagnados, nem mesmo ausentes; como se pudessem voltar a nós, ser gerados, regenerados, ou corporizados, a qualquer momento, devido a um estímulo, uma atracção, ou uma conjuntura de factores indefinida. A existência, acção, e intercedência dos Deuses não dependem do nosso autocontrolo. Eles não podem ser interiorizados, manipulados, geridos, usados, activados ou desactivados.

É crucial não confundir os Deuses – nem mesmo os padrões arquetípicos – com “deuses e deusas em cada um”. Este é um esquema de correspondências com potencial terapêutico e alegada dimensão espiritual, concebido pela analista junguiana Jean Shinoda Bolen, há cerca de trinta anos. A médica americana, outrora professora de psiquiatria, autora de treze livros, participante em três documentários aclamados e premiados (incluindo o vencedor de um Oscar da Academia), distinguida pela American Psychiatric Association, membro da Ms. Foundation for Women e da International Transpersonal Association, palestrante, representante, e fundadora de diversos eventos e movimentos, está para os Deuses um pouco como a psicóloga clínica americana Anodea Judith está para o Yoga Tântrico. Os seus livros tiveram ampla aceitação por proporem uma prática individual, não religiosa, que não requer a mediação de facilitadores nem de figuras sacerdotais.

As Deusas, ao contrário das “deusas em cada mulher”, não são fenómenos internos, biológicos e psicológicos, “padrões potenciais nas psiques das mulheres” que carecem de “activação”, que estão dependes de estímulos, das “hormonas, família, outras pessoas”, do “efeito combinado de elementos em interacção”, de um “momento particular” ou de “circunstâncias não escolhidas” para se manifestarem. Elas não representam doenças psíquicas, não são produtos da imaginação, estados de espírito, expressões do ego, ferramentas de autoconhecimento, auxiliares de diagnóstico, nem personagens alegóricas. O mesmo pode ser aplicado à versão “deuses em cada homem”. Os Deuses não têm de fazer sentido, ser credíveis, ou úteis. A sua existência não depende da existência humana. Ao contrário, “uma nova psicologia da mulher” e “uma nova psicologia do homem” dependem totalmente da existência humana.

De acordo com aquilo que os seres humanos sempre souberam reconhecer, os Deuses não dependem da atenção e da veneração humana para existirem, embora a descontinuidade do seu culto possa enfraquecer a sua conexão com o mundo. Os Deuses não estão particularmente interessados em observar, vigiar, ajudar, salvar, ou prejudicar os mortais. Têm a sua existência, mesmo quando ninguém interage com eles. São todos distintos e não apenas faces de uma divindade maior. São mais poderosos do que os seres humanos, alcançam mais e são mais inteligentes, porque não estão dependentes dos sentidos e do funcionamento saudável de um cérebro perecível. Estão menos vulneráveis às forças da natureza, as quais eles mesmos são. Os Deuses são dignos de veneração, com tudo o que isso implica. Compreender e tentar cumprir os preceitos do culto a cada um é um sinal de respeito. O contrário é um sinal de desrespeito, e a desconsideração pode criar ofensa.

Perante os Deuses, as pessoas são como as crianças que tomam por certa a indulgência de quem as ama ou tolera a sua impertinência, enquanto lhes é mostrada, uma e outra vez, qual é a melhor forma de se relacionarem com eles. Para os Deuses não existe culpa nem perdão. Uma divindade deixará que alguém se engane, enquanto não aprende a forma correcta de agir. Depois, espera que esse alguém mude a sua forma de agir.

 

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