Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.

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Desfazer equívocos a bem da sensibilidade

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

Os Romanos são frequentemente considerados precursores da apropriação cultural. A verdade é que as palavras que usamos não são explícitas nem descritivas do que aconteceu no âmbito religioso. Em arqueologia é mais comum empregar-se a palavra aculturação. Segundo José d’Encarnação, que apresentou a palestra “Altar romano dedicado a Arantius Tanginiciaecus”, no passado dia 19 de Março, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, a aculturação religiosa terá sido “uma das mais sábias atitudes que a política organizativa dos Romanos soube adoptar”. Durante aquele evento foi apresentada uma ara de estética romana, proveniente da Beira Interior, dedicada a uma divindade indígena à qual foram atribuídos diversos epítetos e que é considerada um exemplo de “convivência pacífica entre Romanos e povos indígenas”.

Nem sempre a referida aculturação foi progressiva e em muitos casos nem sequer foi isso que aconteceu. Muito menos se tratou de apropriação. Longe de mim fazer aqui o que os ingleses chamariam cherry picking, em relação à palavra mais adequada. Não quero tentar relativizar a violência que terá resultado de decisões políticas dos Romanos da Antiguidade, mas é essencial entender que a expansão do Império Romano não teve uma motivação religiosa. A suposta apropriação de divindades pela religio Romana é uma incorrecção e denota desconhecimento acerca da natureza dos Deuses e do que seria considerado supertitio pela tradição Romana do Cultus Deorum. Antes de mais, é essencial usarmos a palavra correcta, que é incorporação, porque não implica a sugestão de que os Deuses possam ser comandados e subjectivizados.

Os Romanos sempre souberam como transferir o culto de uma divindade de outro povo e território para o seu panteão e os seus templos, com base na relação de respeito que estabeleceram com os Deuses e não como uma manifestação de conquista ou tentativa de humilhação do opositor. Eles nunca o fizeram por acharem que os seus Deuses não eram suficientes ou que a sua religião não era satisfatória, mas porque sempre foram flexíveis. Os Romanos reconheceram as divindades autóctones e quiseram assimilar muitas à sua tradição, sem proibir outras formas de culto. Um dos casos mais conhecidos é o da Deusa Juno de Veii, que através da cerimónia conhecida por evocatio foi convidada a proteger os Romanos antes da conquista daquela cidade. A Juno foi oferecido um culto e um templo em Roma que Ela aceitou ao favorecer os Romanos, passando desde então a ser uma das Deusas da tríade Capitolina mais conhecida, ao lado de Júpiter e Minerva. No entanto, sempre foi reconhecido o culto de Juno fora de Roma, sobretudo pelos Argives e o povo de Lavinium, que a reverenciava como Juno Sospita.

O evocatio realizado na religio Romana não pode ser entendido à luz das modernas “ciências Herméticas” e das religiões politeístas eclécticas que “trabalham” com os Deuses. Muito menos segundo o curioso conceito de “adaptabilidade cristã”, tantas vezes mencionado como sendo uma qualidade católica. A adaptabilidade cristã – católica – que regeu a era de perseguição formal dos cultores das religiões nacionais: que começou com a legislação contra os cultos antigos, a 350 da Era Comum; que foi reforçada no dia 23 de Novembro de 353, com o encerramento dos templos e a abolição dos sacrifícios sob pena de morte; e que culminou no Édito de Tessalónica, Cunctos Populos ou De Fide Catolica, a 27 de Fevereiro de 380, o qual estabeleceu a exclusividade do Cristianismo enquanto religião de um certo Império Romano, que nunca foi mais do que uma encenação de magnificência. A tal adaptabilidade que é demonstrada cada vez que alguém insiste em afirmar o desaparecimento das religiões autóctones, em particular as provenientes da Antiguidade Clássica. A mesma adaptabilidade que assegura que os católicos não se importam com as raízes e os elementos “pagãos” da sua religião, declarando que isso apenas a torna mais abrangente. Afinal, permite que os politeístas esqueçam os seus “deuses imaginários” e sejam cristianizados através da adoração de santos, o que é suposto servir-lhes de consolo.

Ora, à “luz” desta mentalidade e da ignorância total acerca da natureza dos Deuses, a que tão bem serve o moderno conceito de arquétipo usado no jargão das “novas psicologias”, não é possível que alguém entenda que os Deuses não são comutáveis nem apropriáveis. Para além do insulto implícito, esta falha de compreensão é uma manifestação cristã residual que causa problemas a muitos politeístas recém-assumidos e pouco familiarizados com a religio. Se no caso de Juno estamos perante uma Deusa itálica, o mesmo não acontece com Afrodite, e isto reporta-me à situação de uma jovem que terá encontrado o Cultus Deorum, aparentemente, graças àquela Deusa do Olimpo. Duas semanas antes, ela tivera uma “epifania” acerca de uma divindade que sempre estivera presente na sua vida. Quando contactou os cultores pela primeira vez o seu tom era o de quem tinha acabado de se apaixonar por alguém que mal conhecia. A sua abordagem foi o mais sincera possível, tendo admitido saber muito pouco acerca dos Deuses Romanos, mas mostrando grande interesse em clarificar aquilo que parecia tratar-se de um mal-entendido ou de uma partida internáutica de Mercúrio. Afinal, ela teria sido guiada para um grupo de apoio de cultores Romanos onde começou por procurar informações acerca de…Afrodite!

De acordo com o seu testemunho, a jovem tinha sempre “trabalhado” com uma Deusa que nunca se preocupara em nomear. Acumulara uma colecção de conchas e búzios do mar, a sua cor favorita era verde-marinho, adorava maçãs, e quanto mais pensava na misteriosa Deusa mais necessidade tinha de estar perto de rosas. O seu altar estava coberto de conchas e incluía uma imagem do quadro “O Nascimento de Vénus”, que encontrara esquecida numa gaveta, em casa dos seus avós. Estes e outros aspectos levavam-na a crer estar perante Afrodite. No entanto, encontrava-se a clarificar as suas dúvidas junto de cultores tradicionais da religio Romana, o que impunha que ela descobrisse de uma vez por todas a quem queria dirigir-se. Porque o panteão Romano não inclui Afrodite (e Vénus, com quem partilha atributos, é muito mais arcaica). Naquele caso era crucial que a jovem se familiarizasse com os elementos presentes na sua vida e discernisse entre as duas Deusas. Precisava de saber se estaria a tomar uma pela outra, como é comum acontecer quando alguém tem um conhecimento enciclopédico das divindades ou pensa que a sua diversidade é apenas aparente e se resume a uma questão de nomenclatura. Este é um aspecto residual do pensamento monoteísta que atrapalha muitos novos politeístas, à medida que aprendem o culto dos Deuses, nas diversas tradições, ou quando querem estabelecer um culto ecléctico a muitos Deuses em simultâneo, à revelia de quaisquer preceitos religiosos tradicionais.

Aquela jovem foi prontamente informada da existência do politeísmo Helénico e das respectivas comunidades e grupos de apoio, onde poderia encontrar toda a informação acerca de Afrodite que desejasse. Só ela iria conseguir decifrar se estaria a usar o nome errado para Vénus, uma vez que por decalque cultural e limitação religiosa a maioria das pessoas exteriores ao verdadeiro politeísmo, e ao Cultus Deorum Romanorum, em particular, não se apercebe que todos os Deuses são distintos, por via da percepção, raízes e atitudes. Eles não devem ser confundidos, embora possam ser sincretizados. O melhor a fazer enquanto não se tem certeza do nome de uma divindade, que provavelmente será um patrono para toda a vida, é venerá-la “por qualquer que seja o seu nome”, até que esse seja revelado de forma inconfundível. No caso referido, a ligação marítima não é o suficiente para identificar a Deusa como sendo Afrodite. Seria errado que terceiros concluíssem isso, porque poderia levar a um afastamento da jovem da sua patrona, caso não se tratasse de Afrodite. Vénus também tem muitas qualidades marítimas, sobretudo na Sicília, e em particular em Eryx. Se a jovem decidisse reverenciar as duas Deusas ao mesmo tempo poderia acabar desorientada, a confundir os preceitos da tradição Helénica com os da tradição Romana, e a sentir que a sua adorada Deusa a teria abandonado. O que não quer dizer que uma cultrix não deva ter mais do que um patrono do panteão Romano, mas essa não era a situação da jovem, que estava a viver um dilema envolvendo não só duas Deusas mas duas tradições e a prática pessoal que tivera até aí.

Através deste episódio é possível perceber que o conceito de apropriação, à semelhança de conversão, é estranho ao Cultus Deorum Romanorum, e às tradições politeístas, em geral; embora alguns movimentos religiosos eclécticos não se preocupem muito em relação à forma como somam seguidores. Há situações que requerem circunspecção e sensibilidade, porque não serve a ninguém, muito menos a cada um dos Deuses e às diversas tradições religiosas herdadas da Antiguidade, tentar manipular as pessoas, tomando uma divindade por outra, e dizendo que tanto faz o nome que lhes chamem. O objectivo não é “conquistar” um rebanho – ou um exército – de “fiéis”, que neste caso seria composto por cultores fictícios e mal informados, que poderiam nem sequer ser politeístas. Porque é frequente a verdadeira mentalidade religiosa de cada um revelar-se nos detalhes, na forma como as pessoas se expressam e pensam, mesmo quando tentam aprender mais sobre uma tradição politeísta proveniente da Antiguidade. Muitas querem de facto apropriar divindades e elementos religiosos, sem abdicarem daquilo em que sempre acreditaram (sobretudo, quando não acreditam em quaisquer divindades e as tomam por conceitos), numa manobra de estilo ou tentando rebelarem-se um pouco perante a família, os amigos, o seu público, e a comunidade. Outras sempre “orbitaram” em torno de uma religião que precisava ser retomada e que tiveram de aprender a praticar, para transcenderem de vez o fascínio pelos livros de Mitologia ou de História da Religião. E isto não é coisa que aconteça de um dia para o outro, nem que se ponha de parte como uma peça de roupa que deixou de ser útil e passou de moda.

 

Aprendendo a sermos cultores

Cupidos e Psique fazendo sacríficos.‬ Fresco do quarto estilo de Pompeia (Casa dos Bronzes, VII 4, 59). 60 × 53 cm. Inv. No. 20879. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional

Cupidos e Psique fazendo sacríficos.‬ Fresco do quarto estilo de Pompeia (Casa dos Bronzes, VII 4, 59). 60 × 53 cm. Inv. No. 20879. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional

A escassez de manuais práticos acerca da religio Romana é normalmente apontada por aqueles que demonstram curiosidade pelas tradições religiosas Romanas como uma falha do Cultus Deorum Romanorum. Como se revelasse pouca iniciativa ou vontade dos cultores em propagarem a religio. Algumas pessoas, acostumadas a tradições e religiões derivadas do Ocultismo de raiz judaica e cristã podem pensar que se trata de um desses pactos secretos (mas não muito) que têm o estranho poder de atrair as multidões e os fracos de espírito sedentos de poder. De facto, o secretismo cobre todo tipo de lacunas, porque não importa se estamos a manter em segredo algum conhecimento precioso e intransmissível ou se nunca o soubemos, e se nada mais há a não ser brumas mentais e algum fogo-de-artifício ecléctico-simbolista, teosófico-templário, astrológico-científico, ióguico-iluminado, ou mitológico-literário. No caso da religio Romana, o que a protege e distingue não é o secretismo mas a simplicidade e, ao mesmo tempo, uma tal riqueza de conteúdo que chega a ser avassaladora. Se alguém tentar seduzir um público para a religio com base na promessa de uma transmissão de ensinamentos secretos e potentes, ou na obtenção de um determinado estatuto ou grau, então é óbvio que se trata de uma fraude. Claro que sempre existiram cultos subterrâneos, místicos, e de fusão, mas não se tratam do Cultus Deorum Romanorum.

Vou tentar desfiar um pouco esta enorme meada. Em qualquer livraria da vila de Glastonbury, em Somerset, onde coexistem cerca de uma centena de cultos e religiões, podemos estar certos de encontrar dezenas de manuais práticos, “how to books”, que asseguram ser possível, com uma boa dose de estilo, tornarmo-nos seguidores, devotos, e praticantes, de religiões e tradições mais ou menos antigas ou declaradamente modernas. Em qualquer livraria generalista e mesmo em alguns hipermercados, não é preciso procurar muito para encontrarmos guias práticos acerca de Wicca, Ásatrú, Druidismo, dicionários de Magia, Grimoires, Livros de Sombras, de São Cipriano, de orações, e vários livros introdutórios às religiões monoteístas Abraâmicas, ou politeístas maioritárias, como o Hinduísmo. Se quisermos um livro acerca da religião Romana é provável que nos indiquem a secção de História da Religião, ou nos mostrem livros de Mitologia concebidos para crianças e jovens. Porque existem apenas alguns livros dirigidos à prática actual de uma certa “religião Romana”, que nem sequer são credíveis. Apresentam versões adulteradas de práticas religiosas de inspiração Romana, corrompidas por aspectos derivados do Neoplatonismo e até da Franco-maçonaria, que segundo alguns as tornariam mais apelativas para as hordas de “seekers” que todos os dias erram pelos diversos ramos das espiritualidades modernas.

Convenhamos, a verdadeira – a única – religio Romana é uma pedra no sapato do Marketing espiritual. Não que sejam incompatíveis, mas o conflito de interesses é grande e de difícil resolução. Cada um poderá verificar por si que vários indivíduos têm tentado estar à altura do desafio, com pouco ou nenhum sucesso, e por vezes recorrendo a métodos ilícitos, desrespeitando o trabalho meritório dos cultores. Para entendermos o que poderia ser feito para alterar esta realidade é preciso sabermos quem são as pessoas que estariam habilitadas a escrever esses livros. Não basta serem académicos ou terem um mestrado em Divinity. É preciso que sejam cultores Romanos experientes, que pensem e vivam a religio com essa mentalidade e não com a mentalidade cristã, judaica, neopagã, oriental ou estritamente espiritual, enquanto usam uma toga. Nem é suficiente que sejam reconstrucionistas de um conceito de Romanitas, que alguns pretendem regenerar nos dias de hoje através da recriação de uma sociedade que copia as instituições políticas, económicas, militares, e também a sacra pública, da Roma Antiga.

Essas pessoas habilitadas existem, mas dificilmente iriam querer assinar um guia prático acerca da religio Romana dirigido ao comum dos “seekers” neo-pagãos, pseudo-budistas, meio-wiccan, pré-asatru, anti-cristãos, ou ex-católicos da actualidade. Antes de mais, porque também esses cultores e estudiosos mais experientes e qualificados tiveram o seu percurso, que foi muitas vezes idêntico ao de qualquer desses “seeker”, antes de chegarem à religio Romana. A forma como cada um – de nós, cultores – foi chamado para a religio é sempre pessoal e nem sequer tem de ser partilhada com os outros cultores, quanto mais com qualquer outra pessoa. Sabemos que a diferença da experiência da religio Romana começa na abordagem que, de preferência, e apesar de todos os estudos que devem ser lidos e desenvolvidos, não depende de um guia prático que amanhã poderá ser usado para acender fogueiras de Beltane. A transmissão de conteúdos e experiências entre cultores está a ser feita, de forma eficaz e gratuita, via fóruns, grupos e blogs, apesar de alguns atentados virtuais que resultam na dissolução súbita de grupos de facebook muito úteis e acessíveis, que rapidamente se reconstituem (procurem por Cultus Deorum).

Divina Mens, no entanto, não é o sítio mais indicado para aprender a prática da religio, passo a passo; primeiro, porque não é exclusivamente dedicado à religio Romana; segundo, porque tem uma dimensão pessoal, em jeito de comentário; e terceiro, porque não é suficientemente descritivo nesse sentido, uma vez que quem o escreve não tem ambições ao magistério nem ao sacerdócio. É possível ter aqui alguns vislumbres do que pode ser o quotidiano dos cultores, mas para uma aprendizagem sistemática existem outros blogs relativamente fiáveis, em inglês, italiano e espanhol, sendo que alguns são bilingues (visitem o blog Mea Pietas de Michael Anthony, o E Nos Lases Iuvate de Carmelo Cannarella, o Ad Maiora Vertite: Il blog sul Culto Romano, o Traditio Romana da Communitas Populi Romani, ou o Cultus Deorum de Costa Rica). Ainda não conheço um em Português, nem de Portugal nem do Brasil, e este não vai ser o primeiro. Apesar disso, espero conseguir deixar claro que a prática da religio Romana é muito exigente, porque há imenso a aprender, tem um tremendo lastro cerimonial e por isso requer um bom “músculo” ritual por parte dos cultores, devendo ser abordada com calma, humildade, e empenho. Por enquanto, tudo se torna mais difícil porque a maioria dos cultores não teve a oportunidade de aprender com os seus ancestrais, mas isso pode mudar nas próximas gerações, que serão livres para interiorizarem a religio de forma progressiva.

De maneira nenhuma o Cultus Deorum Romanorum se presta a abordagens levianas por parte de pessoas que não estão certas de que esta seja a sua herança e religião ou que pretendem ascender no contexto de uma comunidade que poderá dar-lhes uma oportunidade de protagonismo e lucro. A communitas começa a conhecer-se melhor e as pessoas ligam-se de forma cada vez mais estável, apesar de todos os “seekers” que os nossos olhares clínicos são capazes de identificar como sendo presenças apenas transitórias; uma vez que nada surpreende quem anda nestes percursos há duas ou mais décadas. Sabemos que amanhã a maioria será Wiccan ou voltará ao seu seio cristão, e que talvez não se fique por aí. Alguns irão completar um doutoramento qualquer e dar-se-ão por satisfeitos, sem que tenham alguma vez feito um único ritual com pés e cabeça. E isto é tão válido como qualquer outro percurso, mas nada tem de Romano. Entretanto, com a lua-cheia deste mês de Martius entrámos em pleno no novo Anno Sacro Romano e a assinalar este início de um novo ciclo, à semelhança do que tem vindo a acontecer por iniciativa da modesta Communitas Populi Romani, e não só em Roma, realizou-se esta manhã o Rito ad ANNA PERENNA – CPR MMDCCLXIX (11:30 all’entrata del Parco di Villa Glori su Piazzale del Parco della Rimembranza).

“Nós Romanos somos muito superiores em religio, e com isto quero dizer no Culto dos Deuses…” Cícero, De Natura Deorum 2.8

Vermelho, quente, e sagrado

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak and The Redvolution © Todos os direitos reservados)

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak © Todos os direitos reservados)

Quando o velho Departamento de Vendas dá o ar de sua graça, abuso é eufemismo.

Sem floreados, nas palavras de Sera Beak, que traduzi da forma mais leal que sei:

“Sacerdotisa, é isto:

Hoje recebi o que recebo várias vezes ao dia: um email a solicitar o meu apoio para promover o programa de auto-ajuda/espiritualidade/empoderamento de outras mulheres. Apesar de eu estar familiarizada com estes emails, este em particular gerou uma série de sentimentos.

O email foi escrito por uma “gestora de programa”, a convidar-me para me tornar uma afiliada (fazer dinheiro) promovendo junto da minha audiência um iminente Programa de Sacerdotisa virtual oferecido por duas mulheres que eu não conheço, que não se preocuparam em escrever-me uma nota pessoal, apresentando-me respeitosamente os seus corações, as suas almas e as suas missões.

O meu coração vermelho, quente, e sagrado contraiu-se de dor e uma feroz energia feminina aflorou do âmago da terra e serpenteou em torno de mim com um sibilo. A mensagem que segue é uma tentativa de traduzir este sibilo:

Oh, Fuck No! Hoje em dia, o patriarcado não só está a usar um disfarce de deusa, como conseguiu apoderar-se do arquétipo da sacerdotisa. Espeta um molho de penas no cabelo, faz uns rituais à luz a lua, aprende uma mão-cheia de artes femininas, pratica a quantidade apropriada de auto-reflexão, liberação sexual, trabalho de sombra e yoga asanas, não te esqueças de pagar a contribuição, e BAM – também tu podes ser iniciada como sacerdotisa (em um ano ou menos) e seguir em frente e prosperar como a mulher magicamente empoderada que estás a ser manipulada a tornar-te!

(suspiro)

Como já reparámos, “Sacerdotisa” transformou-se na mais recente tendência em títulos espirituais da moda espiritual. O que se esticou até “Yogini” voo para “Dakini” abriu as pernas à “Tantrika” e agora dança em torno de uma fogueira como “Sacerdotisa” (ainda melhor se listar tudo aquilo na sua tagline – juntando uma generosa porção de “Xamã”).

Ora, de todo o coração defendo e celebro o facto de cada mulher transportar o arquétipo da sacerdotisa, e eu não quero mais nada a não ser que as mulheres reclamem o seu direito natural de legitimar este percurso orgânico de Estarem ao Serviço, mas infelizmente, eu tenho encontrado poucas mulheres que estão genuinamente a encarnar este arquétipo da forma como o planeta tão desesperadamente precisa que ele seja encarnado neste momento.

É interessante que as mais autênticas sacerdotisas que tive o privilégio de conhecer nem sequer se auto-intitulem “sacerdotisas”. Não há necessidade de um “título” ou de um disfarce, uma marca ou uma campanha, uma sessão fotográfica, um vídeo, ou um website glamoroso. Não há necessidade de te atraírem para o seu campo ou para o teu Self.

Elas simplesmente são Quem Elas São e Oferecem Aquilo que Oferecem – e se tu não consegues sentir o Fogo Sagrado de onde elas vêm, do qual elas cuidam e que ajudam a reacender nos outros, então és tu que ficas a perder.

Todos sabemos que há verdadeiras, tremendas, ancestrais, eruptivas Iniciações de Sacerdotisas a decorrer neste preciso momento, por todo o planeta, e eu sou eternamente grata pelas corajosas (sobretudo) encobertas sacerdotisas que impulsionam estes intrépidos movimentos femininos. E, se elas estiverem a ser guiadas para-por nada nem ninguém excepto o único Gestor de Programa que precisam, A Grande Ela – eu fico radiante quando estas autênticas sacerdotisas partilham as suas ofertas publicamente (via websites, fotos, vídeos, programas, etc.), para que possamos encontrá-las, para que sintamos o que é ser-nos oferecido algo vindo do feminino, sem cordelinhos subtis amarrados, e para que seja possível dar-lhes o reconhecimento devido, o respeito E o apoio financeiro que merecem.

Mas, o email que eu recebi hoje lembrou-me que não importa as nossas melhores intenções, não importa se estamos mesmo a ser guiadas para reclamar este título publicamente e iniciarmos outras mulheres na sua própria memória do autêntico poder feminino – nós não podemos fazê-lo se estivermos a usar mal este atraente titulo para inflar a identidade ou a usar o poder que vem com o papel de “sacerdotisa” para atingir objectivos egocêntricos.

E representar e vender esta energia arquetípica sagrada da forma como este email (e a página de lançamento do website que o acompanhava) demonstrou, deixou-me ainda mais ciente de que nunca conseguiremos ser sacerdotisas para nós mesmas ou para outros se estivermos conscientemente a submetermo-nos – ou inconscientemente a agarrarmo-nos – às astutas garras do furtivo consumismo espiritual, do marketing pernicioso, e a um subtil sistema sintético que apesar de soar e parecer certo à superfície, está na verdade a vampirizar o nosso poder feminino e a perpetuar a nossa escravização.

Agora, para concluir o meu desafogo, eu vou inapropriadamente “acrescentar” uma das minhas citações favoritas acerca de sacerdotisas que vem do vibrante romance de Elizabeth Cunningham, “A Paixão de Maria Madalena”, na voz de Madalena:

“Eu não sei o que há com as sacerdotisas. Podes sempre dizer. Ou eu pelo menos posso…eu reconhecia uma mulher em autoridade quando via uma. A maioria das mulheres, uma vez por outra, preocupam-se em alguma medida em agradar aos homens ou às pessoas em geral [ou em tentarem “ser” alguém ou “fazer” alguma coisa que lhes traga fama, dinheiro, vantagens profissionais, atenção social ou reconhecimento espiritual]. As sacerdotisas não. O jogo delas é maior. Os seus olhos demonstram-no.”

 

Senhoras,

Nós precisamos de jogar um JOGO MAIOR

(do que aquele com o qual o mercado de auto-ajuda/espiritualidade está a tentar-nos).

E,

Atrevam-se a Demonstrá-Lo.

(não a dizê-Lo.)

Por outras palavras, nós precisamos fazer aquilo que cada célula dos nossos belos corpos deseja fazer com este retornado arquétipo da sacerdotisa:

Honrem-No,

Abracem-No,

Libertem-No,

E protejam-No como uma mãe ursa protege as crias,

E uma mulher selvagem protege o Sagrado.

BAM.”

 

O original, em inglês, foi publicado a 10 de Abril de 2015, no blog Rouge Awakening .

Uma Romana “vecchio stile”

“Anna du Pire como Granida”; Bartholomeus van der Helst, óleo sobre tela, 70 x 58,5 cm, 1660, Galeria Nacional de Praga (Národní galerie v Praze).

“Anna du Pire como Granida”; Bartholomeus van der Helst, óleo sobre tela, 70 x 58,5 cm, 1660, Galeria Nacional de Praga (Národní galerie v Praze).

A cada Anno, a Anna de sempre.

É em Março que começa o ano e este é o MMDCCLXIX. A coincidir com as calendas de Martius, a Matronalia, em honra de Juno Lucina, protectora das mulheres, das crianças, e dos nascimentos, dá o mote dos inícios. Nos idos, no dia 15, de acordo com a primeira lua do antigo calendário lunar Romano, celebra-se a divindade ancestral que está relacionada com o desdobramento do ano, no seu fim e início.

A festa descrita por Ovídio é alegre, porque assinala a chegada da Primavera. A plebe é convocada para os bosques, na Via Flaminia, perto do Tibre. Cada homem deve beber tantas taças de vinho quantos os anos que quer viver. Sem dúvida, um evento popular. Não se poupa nas teatralidades e declamações, acompanhadas de gestos ágeis. O vinho corre como o rio, a comida é boa e o ambiente convida à lascívia, durante as festividades. Porque, afinal, a divindade é das mais antigas do panteão e evoca o abandono da rigidez moral e o gozo da vida, em todos os aspectos mais imediatos.

Dumezil associou-a ao ciclo anual da lua e das estações, um ser duradouro mas em movimento, devido à passagem do tempo. Ao que tudo indica, é originária da Etrúria e é comparável à Deusa provedora indiana Anna Purna (Annapurna).

Anna Perenna, mulher madura que sustém o povo com pão, mesmo durante a escassez, é misteriosa e propicia os actos de magia. Assim comprovam os vestígios de rituais e defixiones achados na fonte com o seu nome, encontrada em 1999, durante as escavações para a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, na esquina da Piazza Euclide e Via G. Dal Monte, no bairro de Parioli, no norte de Roma. O estudo dos cultos a Anna Perenna, tanto na Itália Central, em Roma, como em Buscemi, na Sicília, permite um entendimento mais abrangente da relação dos cultores com a religio. Graças a Ela, o mágico encontra o religioso e os limites revelam-se aparentes.

Bons augúrios e um feliz 69! 2769.

Reclamando a sacerdotisa

GREECE ANCIENT GODS

Uma sacerdotisa segura um ramo de oliveira enquanto participa nas cerimónias em honra de Zeus, no Templo de Zeus em Atenas. (Fotografia: Petros Giannakouris / The Associated Press Archives)

“Uma sacerdotisa é uma mulher que oficia rituais. Uma sacerdotisa oficia ritos sagrados e serve as necessidades espirituais da comunidade.”

Esta é uma definição de sacerdotisa. Pode parecer demasiado resumida ou mesmo incompleta, por não contemplar uma dimensão interior de quem é, ou pelo menos sente ser, no mais íntimo de si, uma sacerdotisa. A objectividade não permite interpretações ambíguas, deixando claro que ter uma função sacerdotal requer uma acção e não apenas o reconhecimento de uma vocação ou a experiência do arquétipo da Sacerdotisa. O mesmo é válido para qualquer outro ofício. Com a necessidade de desempenhar tarefas surge a possibilidade de errar. Na sociedade que não perdoa o erro é muito comum encontrarmos pessoas que se sentem sacerdotisas mas que não são, por puro medo de errar.

Devido à erosão da autoconfiança feminina, durante milénios, e à certeza de serem alvos preferenciais do patriarcado, ainda vigente, muitas potenciais sacerdotisas escolhem não manifestar a sua natureza. A consciência da responsabilidade, associada a vários obstáculos externos, que historicamente têm sido impostos às mulheres, remete muitas vocações para o plano dos desejos, dos chamamentos a que poucas atendem. A maioria não saberia que passos dar no sentido da concretização e as que arriscam tentar podem ser confrontadas com competitividade feroz por parte de outras mulheres, que operam com base no ego. Este é o resultado mais evidente de séculos de medo, opressão e violência, que provocaram fragmentação e resultaram no isolamento e na desconfiança entre as mulheres. A maioria acabou por confiar mais nos seus opressores e detractores do que em si mesma e entregou-lhes a sua autoridade espiritual e os seus filhos.

Outro aspecto que inibe muitas pessoas, sem diferença de sexo e género, é o aparente conflito entre as funções de orientação moral e espiritual e as posições de poder. As mulheres, em particular, desde a Antiguidade foram destituídas das suas funções de mediadoras espirituais no seio das suas comunidades. Ficaram impedidas de ascenderem nas hierarquias religiosas imperantes, acabando restringidas aos cultos domésticos ou estritamente femininos, que exigiam votos de castidade. No presente, muitas mulheres acreditam que só é possível ascenderem a determinados graus sacerdotais por via das instituições religiosas cristãs ou em alguns sítios de Poder – por vezes, nebulosos –, onde a união em torno do Sagrado Feminino permite a realização regular e descomplexada de rituais públicos de várias tradições.

A ideia de sacerdotisa aproxima-se muitas vezes da ideia de fada ou de personagens de romances protagonizados por mulheres feéricas, poderosas, ou implacáveis, que terão existido num local entre mundos, velado, restrito, ou simplesmente metafórico, mas com tremendo impacto no mundo exterior e nos fados dos outros mortais. Por outro lado, verifica-se uma vulgarização do uso de títulos sacerdotais dissociados das respectivas funções, sem que as auto-intituladas e até as ordenadas se revelem figuras sacerdotais, de facto. As sacerdotisas, como os gurus, tornaram-se meros clichés. Em muitos contextos é repetido que todas somos sacerdotisas, e que todos somos professores, mas a verdade é que não somos.

Existem requisitos indispensáveis para alguém poder exercer bem determinadas funções, forças de expressão à parte. Não basta acordar a sentir-se sacerdotisa, recordar alegadas vidas passadas em que terá sido sacerdotisa, acumular estudos universitários e iniciações, nem cumprir um percurso que culmina numa ordenação formal, que confere credibilidade, reconhecimento público, e poder. Esses são apenas estágios em processos longos que não oferecem quaisquer garantias de sucesso. Não basta experimentar o manto sacerdotal, para ver como lhe fica – e quanto pode render-lhe –, pensando que é possível mergulhar apenas o dedinho do pé no glamoroso lago das sacerdotisas, sem correr o risco de cair à água, ou ao pântano, antes de saber nadar ou pelo menos manter-se à tona.

As verdadeiras “Mulheres da Liberdade”, “Senhoras da Magia”, “Sacerdotisas do Poder” sabem que as suas funções não se coadunam com sentimentos de superioridade, em relação aos machos ou às outras fêmeas de qualquer espécie, muito menos à ostentação de títulos, graus, ou ordenações. Elas sabem que nem sequer se trata de ter a intenção, ou a pretensão, de dinamizar eventos, entreter audiências, ou ensinar alguém. Elas também sabem que o essencial é serem responsáveis pelas suas acções, aconteça o que acontecer, no exercício das suas funções. Note-se a ênfase na componente prática.

Quem não quiser, não for requisitada, ou não estiver preparada para oficiar cerimónias, de acordo com a sua tradição religiosa ou de modo assumidamente improvisado, pode participar de círculos de partilha, escrever textos acerca deste e de outros assuntos, ou simplesmente tecer um espaço no qual o sagrado possa manifestar-se. Afinal, há muito trabalho que deve ser feito em silêncio, sem depender do rufar dos tambores, da dança extática, e dos rituais públicos.

O maior desafio de qualquer pessoa que se dirige a uma figura sacerdotal, com o intuito de aprender os preceitos de uma tradição ou de recorrer ao auxílio de um mediador que facilite a sua conexão com a dimensão divina, de um modo geral, é assumir a sua responsabilidade no que advém dessa escolha e da forma como usa as informações que lhe são transmitidas. Os maiores desafios para um mediador, que pode ser ou não ser um mentor moral para alguém, tanto é o de zelar pela sua tradição como o de não reter informações que tem o dever de transmitir, na tentativa de forjar um estatuto que não possui, gerando uma aura de superioridade e mistério.

Não menos importante em qualquer mentor é a capacidade de reconhecer quando certa pessoa se revela inepta para o percurso a que se propôs e quando precisa de ser redireccionada para outro percurso ou para outro mentor. O que não falta são pessoas dispostas a manterem outras na sua sombra, apenas para alimentarem o seu ego e obterem dividendos. Estas situações podem tomar contornos criminais e justificar o recurso a medidas que assegurem a integridade física e anímica de quem procura indivíduos que se revelam impostores ou, na melhor das hipóteses, que estão pouco conscientes do mal que a sua falta de preparação pode provocar a pessoas imaturas, crédulas, intimidadas, ou desesperadas.

O que pode surpreender é que o oposto aconteça com mais frequência. É cada vez mais real a necessidade de proteger figuras sacerdotais independentes, mediadores psíquicos, mentores de minorias religiosas, e todas as pessoas honestas que prestem serviços oraculares, facilitem meditações orientadas, curas energéticas, rituais públicos, ou cursos introdutórios a inúmeras disciplinas do âmbito do Oculto, ainda que de forma gratuita. Estes profissionais estão particularmente expostos a juízos de valor, acusações de burla, difamação e injúria, por parte de concorrentes gananciosos e, sobretudo, de clientes e discípulos insatisfeitos. Muitos preferem descredibilizar e arrasar a reputação de alguém, em vez de assumirem que as suas escolhas foram feitas de livre e espontânea vontade.

Acontece que o requisito essencial para alguém realizar funções sacerdotais é exactamente a qualidade que falta a grande parte das pessoas que procuram serviços ou mentores que os orientem na sua vida pessoal ou no caminho para o almejado sucesso, no inescrupuloso mercado das espiritualidades e mais além. A principal causa para a existência de uma cultura da desresponsabilização, face às consequências de escolhas pessoais, pode bem ser o desrespeito pela autoridade espiritual de cada um, que começa em tenra idade. As consagrações às diversas divindades e religiões, durante a infância, é um abuso que carece reconhecimento público e jurídico.

Existe uma diferença crucial entre introduzir uma criança às práticas religiosas, tradições familiares, usos e costumes da sua e de outras sociedades, e em definir um percurso religioso ou não-religioso que lhe é imposto como uma doutrina. Desde a infância, a maioria ou é ensinada a desconsiderar por completo qualquer prática religiosa ou, ao contrário, a não questionar, a atender com assiduidade, e até a assumir papéis em ritos religiosos inibidores, realizados por adultos estranhos ao seu círculo afectivo, que não têm qualquer formação específica para interagirem com crianças, durante o desempenho das suas funções sacerdotais. Crescem vulneráveis a situações que propiciam o abuso da sua autoridade espiritual e abdicam dela, sem que cheguem sequer a ter plena consciência da sua existência e do papel que ela pode ter na protecção contra abusos de outra ordem, ao longo de toda a vida.

Sem uma prática pessoal sólida, que promova o autoconhecimento, a preservação da integridade espiritual, a liberdade religiosa de cada indivíduo, e o serviço ponderado a favor de uma comunidade, não é possível assumir funções sacerdotais. Quando alguém assume posturas degradantes, quer face a outras figuras sacerdotais, quer em relação a uma ou mais divindades, aceita ser subjugado, e atribui a outrem a responsabilidade pelas consequências dos seus actos, não pode exercer aquelas funções. Estamos perante uma pessoa desequilibrada, capaz de ferir a si e aos outros, com base numa convicção, em nome de interesses pessoais, de um suposto poder supremo ou força irresistível, perante a qual é servil. Infelizmente, ainda é comum encontrar quem pense que qualquer filosofia que ensine as pessoas a pensarem por si é perigosa para o próprio indivíduo, ameaça as hierarquias e aqueles que temem as suas sombras.