Vermelho, quente, e sagrado

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak and The Redvolution © Todos os direitos reservados)

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak © Todos os direitos reservados)

Quando o velho Departamento de Vendas dá o ar de sua graça, abuso é eufemismo.

Sem floreados, nas palavras de Sera Beak, que traduzi da forma mais leal que sei:

“Sacerdotisa, é isto:

Hoje recebi o que recebo várias vezes ao dia: um email a solicitar o meu apoio para promover o programa de auto-ajuda/espiritualidade/empoderamento de outras mulheres. Apesar de eu estar familiarizada com estes emails, este em particular gerou uma série de sentimentos.

O email foi escrito por uma “gestora de programa”, a convidar-me para me tornar uma afiliada (fazer dinheiro) promovendo junto da minha audiência um iminente Programa de Sacerdotisa virtual oferecido por duas mulheres que eu não conheço, que não se preocuparam em escrever-me uma nota pessoal, apresentando-me respeitosamente os seus corações, as suas almas e as suas missões.

O meu coração vermelho, quente, e sagrado contraiu-se de dor e uma feroz energia feminina aflorou do âmago da terra e serpenteou em torno de mim com um sibilo. A mensagem que segue é uma tentativa de traduzir este sibilo:

Oh, Fuck No! Hoje em dia, o patriarcado não só está a usar um disfarce de deusa, como conseguiu apoderar-se do arquétipo da sacerdotisa. Espeta um molho de penas no cabelo, faz uns rituais à luz a lua, aprende uma mão-cheia de artes femininas, pratica a quantidade apropriada de auto-reflexão, liberação sexual, trabalho de sombra e yoga asanas, não te esqueças de pagar a contribuição, e BAM – também tu podes ser iniciada como sacerdotisa (em um ano ou menos) e seguir em frente e prosperar como a mulher magicamente empoderada que estás a ser manipulada a tornar-te!

(suspiro)

Como já reparámos, “Sacerdotisa” transformou-se na mais recente tendência em títulos espirituais da moda espiritual. O que se esticou até “Yogini” voo para “Dakini” abriu as pernas à “Tantrika” e agora dança em torno de uma fogueira como “Sacerdotisa” (ainda melhor se listar tudo aquilo na sua tagline – juntando uma generosa porção de “Xamã”).

Ora, de todo o coração defendo e celebro o facto de cada mulher transportar o arquétipo da sacerdotisa, e eu não quero mais nada a não ser que as mulheres reclamem o seu direito natural de legitimar este percurso orgânico de Estarem ao Serviço, mas infelizmente, eu tenho encontrado poucas mulheres que estão genuinamente a encarnar este arquétipo da forma como o planeta tão desesperadamente precisa que ele seja encarnado neste momento.

É interessante que as mais autênticas sacerdotisas que tive o privilégio de conhecer nem sequer se auto-intitulem “sacerdotisas”. Não há necessidade de um “título” ou de um disfarce, uma marca ou uma campanha, uma sessão fotográfica, um vídeo, ou um website glamoroso. Não há necessidade de te atraírem para o seu campo ou para o teu Self.

Elas simplesmente são Quem Elas São e Oferecem Aquilo que Oferecem – e se tu não consegues sentir o Fogo Sagrado de onde elas vêm, do qual elas cuidam e que ajudam a reacender nos outros, então és tu que ficas a perder.

Todos sabemos que há verdadeiras, tremendas, ancestrais, eruptivas Iniciações de Sacerdotisas a decorrer neste preciso momento, por todo o planeta, e eu sou eternamente grata pelas corajosas (sobretudo) encobertas sacerdotisas que impulsionam estes intrépidos movimentos femininos. E, se elas estiverem a ser guiadas para-por nada nem ninguém excepto o único Gestor de Programa que precisam, A Grande Ela – eu fico radiante quando estas autênticas sacerdotisas partilham as suas ofertas publicamente (via websites, fotos, vídeos, programas, etc.), para que possamos encontrá-las, para que sintamos o que é ser-nos oferecido algo vindo do feminino, sem cordelinhos subtis amarrados, e para que seja possível dar-lhes o reconhecimento devido, o respeito E o apoio financeiro que merecem.

Mas, o email que eu recebi hoje lembrou-me que não importa as nossas melhores intenções, não importa se estamos mesmo a ser guiadas para reclamar este título publicamente e iniciarmos outras mulheres na sua própria memória do autêntico poder feminino – nós não podemos fazê-lo se estivermos a usar mal este atraente titulo para inflar a identidade ou a usar o poder que vem com o papel de “sacerdotisa” para atingir objectivos egocêntricos.

E representar e vender esta energia arquetípica sagrada da forma como este email (e a página de lançamento do website que o acompanhava) demonstrou, deixou-me ainda mais ciente de que nunca conseguiremos ser sacerdotisas para nós mesmas ou para outros se estivermos conscientemente a submetermo-nos – ou inconscientemente a agarrarmo-nos – às astutas garras do furtivo consumismo espiritual, do marketing pernicioso, e a um subtil sistema sintético que apesar de soar e parecer certo à superfície, está na verdade a vampirizar o nosso poder feminino e a perpetuar a nossa escravização.

Agora, para concluir o meu desafogo, eu vou inapropriadamente “acrescentar” uma das minhas citações favoritas acerca de sacerdotisas que vem do vibrante romance de Elizabeth Cunningham, “A Paixão de Maria Madalena”, na voz de Madalena:

“Eu não sei o que há com as sacerdotisas. Podes sempre dizer. Ou eu pelo menos posso…eu reconhecia uma mulher em autoridade quando via uma. A maioria das mulheres, uma vez por outra, preocupam-se em alguma medida em agradar aos homens ou às pessoas em geral [ou em tentarem “ser” alguém ou “fazer” alguma coisa que lhes traga fama, dinheiro, vantagens profissionais, atenção social ou reconhecimento espiritual]. As sacerdotisas não. O jogo delas é maior. Os seus olhos demonstram-no.”

 

Senhoras,

Nós precisamos de jogar um JOGO MAIOR

(do que aquele com o qual o mercado de auto-ajuda/espiritualidade está a tentar-nos).

E,

Atrevam-se a Demonstrá-Lo.

(não a dizê-Lo.)

Por outras palavras, nós precisamos fazer aquilo que cada célula dos nossos belos corpos deseja fazer com este retornado arquétipo da sacerdotisa:

Honrem-No,

Abracem-No,

Libertem-No,

E protejam-No como uma mãe ursa protege as crias,

E uma mulher selvagem protege o Sagrado.

BAM.”

 

O original, em inglês, foi publicado a 10 de Abril de 2015, no blog Rouge Awakening .

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