Aprendendo a sermos cultores

Cupidos e Psique fazendo sacríficos.‬ Fresco do quarto estilo de Pompeia (Casa dos Bronzes, VII 4, 59). 60 × 53 cm. Inv. No. 20879. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional

Cupidos e Psique fazendo sacríficos.‬ Fresco do quarto estilo de Pompeia (Casa dos Bronzes, VII 4, 59). 60 × 53 cm. Inv. No. 20879. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional

A escassez de manuais práticos acerca da religio Romana é normalmente apontada por aqueles que demonstram curiosidade pelas tradições religiosas Romanas como uma falha do Cultus Deorum Romanorum. Como se revelasse pouca iniciativa ou vontade dos cultores em propagarem a religio. Algumas pessoas, acostumadas a tradições e religiões derivadas do Ocultismo de raiz judaica e cristã podem pensar que se trata de um desses pactos secretos (mas não muito) que têm o estranho poder de atrair as multidões e os fracos de espírito sedentos de poder. De facto, o secretismo cobre todo tipo de lacunas, porque não importa se estamos a manter em segredo algum conhecimento precioso e intransmissível ou se nunca o soubemos, e se nada mais há a não ser brumas mentais e algum fogo-de-artifício ecléctico-simbolista, teosófico-templário, astrológico-científico, ióguico-iluminado, ou mitológico-literário. No caso da religio Romana, o que a protege e distingue não é o secretismo mas a simplicidade e, ao mesmo tempo, uma tal riqueza de conteúdo que chega a ser avassaladora. Se alguém tentar seduzir um público para a religio com base na promessa de uma transmissão de ensinamentos secretos e potentes, ou na obtenção de um determinado estatuto ou grau, então é óbvio que se trata de uma fraude. Claro que sempre existiram cultos subterrâneos, místicos, e de fusão, mas não se tratam do Cultus Deorum Romanorum.

Vou tentar desfiar um pouco esta enorme meada. Em qualquer livraria da vila de Glastonbury, em Somerset, onde coexistem cerca de uma centena de cultos e religiões, podemos estar certos de encontrar dezenas de manuais práticos, “how to books”, que asseguram ser possível, com uma boa dose de estilo, tornarmo-nos seguidores, devotos, e praticantes, de religiões e tradições mais ou menos antigas ou declaradamente modernas. Em qualquer livraria generalista e mesmo em alguns hipermercados, não é preciso procurar muito para encontrarmos guias práticos acerca de Wicca, Ásatrú, Druidismo, dicionários de Magia, Grimoires, Livros de Sombras, de São Cipriano, de orações, e vários livros introdutórios às religiões monoteístas Abraâmicas, ou politeístas maioritárias, como o Hinduísmo. Se quisermos um livro acerca da religião Romana é provável que nos indiquem a secção de História da Religião, ou nos mostrem livros de Mitologia concebidos para crianças e jovens. Porque existem apenas alguns livros dirigidos à prática actual de uma certa “religião Romana”, que nem sequer são credíveis. Apresentam versões adulteradas de práticas religiosas de inspiração Romana, corrompidas por aspectos derivados do Neoplatonismo e até da Franco-maçonaria, que segundo alguns as tornariam mais apelativas para as hordas de “seekers” que todos os dias erram pelos diversos ramos das espiritualidades modernas.

Convenhamos, a verdadeira – a única – religio Romana é uma pedra no sapato do Marketing espiritual. Não que sejam incompatíveis, mas o conflito de interesses é grande e de difícil resolução. Cada um poderá verificar por si que vários indivíduos têm tentado estar à altura do desafio, com pouco ou nenhum sucesso, e por vezes recorrendo a métodos ilícitos, desrespeitando o trabalho meritório dos cultores. Para entendermos o que poderia ser feito para alterar esta realidade é preciso sabermos quem são as pessoas que estariam habilitadas a escrever esses livros. Não basta serem académicos ou terem um mestrado em Divinity. É preciso que sejam cultores Romanos experientes, que pensem e vivam a religio com essa mentalidade e não com a mentalidade cristã, judaica, neopagã, oriental ou estritamente espiritual, enquanto usam uma toga. Nem é suficiente que sejam reconstrucionistas de um conceito de Romanitas, que alguns pretendem regenerar nos dias de hoje através da recriação de uma sociedade que copia as instituições políticas, económicas, militares, e também a sacra pública, da Roma Antiga.

Essas pessoas habilitadas existem, mas dificilmente iriam querer assinar um guia prático acerca da religio Romana dirigido ao comum dos “seekers” neo-pagãos, pseudo-budistas, meio-wiccan, pré-asatru, anti-cristãos, ou ex-católicos da actualidade. Antes de mais, porque também esses cultores e estudiosos mais experientes e qualificados tiveram o seu percurso, que foi muitas vezes idêntico ao de qualquer desses “seeker”, antes de chegarem à religio Romana. A forma como cada um – de nós, cultores – foi chamado para a religio é sempre pessoal e nem sequer tem de ser partilhada com os outros cultores, quanto mais com qualquer outra pessoa. Sabemos que a diferença da experiência da religio Romana começa na abordagem que, de preferência, e apesar de todos os estudos que devem ser lidos e desenvolvidos, não depende de um guia prático que amanhã poderá ser usado para acender fogueiras de Beltane. A transmissão de conteúdos e experiências entre cultores está a ser feita, de forma eficaz e gratuita, via fóruns, grupos e blogs, apesar de alguns atentados virtuais que resultam na dissolução súbita de grupos de facebook muito úteis e acessíveis, que rapidamente se reconstituem (procurem por Cultus Deorum).

Divina Mens, no entanto, não é o sítio mais indicado para aprender a prática da religio, passo a passo; primeiro, porque não é exclusivamente dedicado à religio Romana; segundo, porque tem uma dimensão pessoal, em jeito de comentário; e terceiro, porque não é suficientemente descritivo nesse sentido, uma vez que quem o escreve não tem ambições ao magistério nem ao sacerdócio. É possível ter aqui alguns vislumbres do que pode ser o quotidiano dos cultores, mas para uma aprendizagem sistemática existem outros blogs relativamente fiáveis, em inglês, italiano e espanhol, sendo que alguns são bilingues (visitem o blog Mea Pietas de Michael Anthony, o E Nos Lases Iuvate de Carmelo Cannarella, o Ad Maiora Vertite: Il blog sul Culto Romano, o Traditio Romana da Communitas Populi Romani, ou o Cultus Deorum de Costa Rica). Ainda não conheço um em Português, nem de Portugal nem do Brasil, e este não vai ser o primeiro. Apesar disso, espero conseguir deixar claro que a prática da religio Romana é muito exigente, porque há imenso a aprender, tem um tremendo lastro cerimonial e por isso requer um bom “músculo” ritual por parte dos cultores, devendo ser abordada com calma, humildade, e empenho. Por enquanto, tudo se torna mais difícil porque a maioria dos cultores não teve a oportunidade de aprender com os seus ancestrais, mas isso pode mudar nas próximas gerações, que serão livres para interiorizarem a religio de forma progressiva.

De maneira nenhuma o Cultus Deorum Romanorum se presta a abordagens levianas por parte de pessoas que não estão certas de que esta seja a sua herança e religião ou que pretendem ascender no contexto de uma comunidade que poderá dar-lhes uma oportunidade de protagonismo e lucro. A communitas começa a conhecer-se melhor e as pessoas ligam-se de forma cada vez mais estável, apesar de todos os “seekers” que os nossos olhares clínicos são capazes de identificar como sendo presenças apenas transitórias; uma vez que nada surpreende quem anda nestes percursos há duas ou mais décadas. Sabemos que amanhã a maioria será Wiccan ou voltará ao seu seio cristão, e que talvez não se fique por aí. Alguns irão completar um doutoramento qualquer e dar-se-ão por satisfeitos, sem que tenham alguma vez feito um único ritual com pés e cabeça. E isto é tão válido como qualquer outro percurso, mas nada tem de Romano. Entretanto, com a lua-cheia deste mês de Martius entrámos em pleno no novo Anno Sacro Romano e a assinalar este início de um novo ciclo, à semelhança do que tem vindo a acontecer por iniciativa da modesta Communitas Populi Romani, e não só em Roma, realizou-se esta manhã o Rito ad ANNA PERENNA – CPR MMDCCLXIX (11:30 all’entrata del Parco di Villa Glori su Piazzale del Parco della Rimembranza).

“Nós Romanos somos muito superiores em religio, e com isto quero dizer no Culto dos Deuses…” Cícero, De Natura Deorum 2.8

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