Desfazer equívocos a bem da sensibilidade

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

Os Romanos são frequentemente considerados precursores da apropriação cultural. A verdade é que as palavras que usamos não são explícitas nem descritivas do que aconteceu no âmbito religioso. Em arqueologia é mais comum empregar-se a palavra aculturação. Segundo José d’Encarnação, que apresentou a palestra “Altar romano dedicado a Arantius Tanginiciaecus”, no passado dia 19 de Março, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, a aculturação religiosa terá sido “uma das mais sábias atitudes que a política organizativa dos Romanos soube adoptar”. Durante aquele evento foi apresentada uma ara de estética romana, proveniente da Beira Interior, dedicada a uma divindade indígena à qual foram atribuídos diversos epítetos e que é considerada um exemplo de “convivência pacífica entre Romanos e povos indígenas”.

Nem sempre a referida aculturação foi progressiva e em muitos casos nem sequer foi isso que aconteceu. Muito menos se tratou de apropriação. Longe de mim fazer aqui o que os ingleses chamariam cherry picking, em relação à palavra mais adequada. Não quero tentar relativizar a violência que terá resultado de decisões políticas dos Romanos da Antiguidade, mas é essencial entender que a expansão do Império Romano não teve uma motivação religiosa. A suposta apropriação de divindades pela religio Romana é uma incorrecção e denota desconhecimento acerca da natureza dos Deuses e do que seria considerado supertitio pela tradição Romana do Cultus Deorum. Antes de mais, é essencial usarmos a palavra correcta, que é incorporação, porque não implica a sugestão de que os Deuses possam ser comandados e subjectivizados.

Os Romanos sempre souberam como transferir o culto de uma divindade de outro povo e território para o seu panteão e os seus templos, com base na relação de respeito que estabeleceram com os Deuses e não como uma manifestação de conquista ou tentativa de humilhação do opositor. Eles nunca o fizeram por acharem que os seus Deuses não eram suficientes ou que a sua religião não era satisfatória, mas porque sempre foram flexíveis. Os Romanos reconheceram as divindades autóctones e quiseram assimilar muitas à sua tradição, sem proibir outras formas de culto. Um dos casos mais conhecidos é o da Deusa Juno de Veii, que através da cerimónia conhecida por evocatio foi convidada a proteger os Romanos antes da conquista daquela cidade. A Juno foi oferecido um culto e um templo em Roma que Ela aceitou ao favorecer os Romanos, passando desde então a ser uma das Deusas da tríade Capitolina mais conhecida, ao lado de Júpiter e Minerva. No entanto, sempre foi reconhecido o culto de Juno fora de Roma, sobretudo pelos Argives e o povo de Lavinium, que a reverenciava como Juno Sospita.

O evocatio realizado na religio Romana não pode ser entendido à luz das modernas “ciências Herméticas” e das religiões politeístas eclécticas que “trabalham” com os Deuses. Muito menos segundo o curioso conceito de “adaptabilidade cristã”, tantas vezes mencionado como sendo uma qualidade católica. A adaptabilidade cristã – católica – que regeu a era de perseguição formal dos cultores das religiões nacionais: que começou com a legislação contra os cultos antigos, a 350 da Era Comum; que foi reforçada no dia 23 de Novembro de 353, com o encerramento dos templos e a abolição dos sacrifícios sob pena de morte; e que culminou no Édito de Tessalónica, Cunctos Populos ou De Fide Catolica, a 27 de Fevereiro de 380, o qual estabeleceu a exclusividade do Cristianismo enquanto religião de um certo Império Romano, que nunca foi mais do que uma encenação de magnificência. A tal adaptabilidade que é demonstrada cada vez que alguém insiste em afirmar o desaparecimento das religiões autóctones, em particular as provenientes da Antiguidade Clássica. A mesma adaptabilidade que assegura que os católicos não se importam com as raízes e os elementos “pagãos” da sua religião, declarando que isso apenas a torna mais abrangente. Afinal, permite que os politeístas esqueçam os seus “deuses imaginários” e sejam cristianizados através da adoração de santos, o que é suposto servir-lhes de consolo.

Ora, à “luz” desta mentalidade e da ignorância total acerca da natureza dos Deuses, a que tão bem serve o moderno conceito de arquétipo usado no jargão das “novas psicologias”, não é possível que alguém entenda que os Deuses não são comutáveis nem apropriáveis. Para além do insulto implícito, esta falha de compreensão é uma manifestação cristã residual que causa problemas a muitos politeístas recém-assumidos e pouco familiarizados com a religio. Se no caso de Juno estamos perante uma Deusa itálica, o mesmo não acontece com Afrodite, e isto reporta-me à situação de uma jovem que terá encontrado o Cultus Deorum, aparentemente, graças àquela Deusa do Olimpo. Duas semanas antes, ela tivera uma “epifania” acerca de uma divindade que sempre estivera presente na sua vida. Quando contactou os cultores pela primeira vez o seu tom era o de quem tinha acabado de se apaixonar por alguém que mal conhecia. A sua abordagem foi o mais sincera possível, tendo admitido saber muito pouco acerca dos Deuses Romanos, mas mostrando grande interesse em clarificar aquilo que parecia tratar-se de um mal-entendido ou de uma partida internáutica de Mercúrio. Afinal, ela teria sido guiada para um grupo de apoio de cultores Romanos onde começou por procurar informações acerca de…Afrodite!

De acordo com o seu testemunho, a jovem tinha sempre “trabalhado” com uma Deusa que nunca se preocupara em nomear. Acumulara uma colecção de conchas e búzios do mar, a sua cor favorita era verde-marinho, adorava maçãs, e quanto mais pensava na misteriosa Deusa mais necessidade tinha de estar perto de rosas. O seu altar estava coberto de conchas e incluía uma imagem do quadro “O Nascimento de Vénus”, que encontrara esquecida numa gaveta, em casa dos seus avós. Estes e outros aspectos levavam-na a crer estar perante Afrodite. No entanto, encontrava-se a clarificar as suas dúvidas junto de cultores tradicionais da religio Romana, o que impunha que ela descobrisse de uma vez por todas a quem queria dirigir-se. Porque o panteão Romano não inclui Afrodite (e Vénus, com quem partilha atributos, é muito mais arcaica). Naquele caso era crucial que a jovem se familiarizasse com os elementos presentes na sua vida e discernisse entre as duas Deusas. Precisava de saber se estaria a tomar uma pela outra, como é comum acontecer quando alguém tem um conhecimento enciclopédico das divindades ou pensa que a sua diversidade é apenas aparente e se resume a uma questão de nomenclatura. Este é um aspecto residual do pensamento monoteísta que atrapalha muitos novos politeístas, à medida que aprendem o culto dos Deuses, nas diversas tradições, ou quando querem estabelecer um culto ecléctico a muitos Deuses em simultâneo, à revelia de quaisquer preceitos religiosos tradicionais.

Aquela jovem foi prontamente informada da existência do politeísmo Helénico e das respectivas comunidades e grupos de apoio, onde poderia encontrar toda a informação acerca de Afrodite que desejasse. Só ela iria conseguir decifrar se estaria a usar o nome errado para Vénus, uma vez que por decalque cultural e limitação religiosa a maioria das pessoas exteriores ao verdadeiro politeísmo, e ao Cultus Deorum Romanorum, em particular, não se apercebe que todos os Deuses são distintos, por via da percepção, raízes e atitudes. Eles não devem ser confundidos, embora possam ser sincretizados. O melhor a fazer enquanto não se tem certeza do nome de uma divindade, que provavelmente será um patrono para toda a vida, é venerá-la “por qualquer que seja o seu nome”, até que esse seja revelado de forma inconfundível. No caso referido, a ligação marítima não é o suficiente para identificar a Deusa como sendo Afrodite. Seria errado que terceiros concluíssem isso, porque poderia levar a um afastamento da jovem da sua patrona, caso não se tratasse de Afrodite. Vénus também tem muitas qualidades marítimas, sobretudo na Sicília, e em particular em Eryx. Se a jovem decidisse reverenciar as duas Deusas ao mesmo tempo poderia acabar desorientada, a confundir os preceitos da tradição Helénica com os da tradição Romana, e a sentir que a sua adorada Deusa a teria abandonado. O que não quer dizer que uma cultrix não deva ter mais do que um patrono do panteão Romano, mas essa não era a situação da jovem, que estava a viver um dilema envolvendo não só duas Deusas mas duas tradições e a prática pessoal que tivera até aí.

Através deste episódio é possível perceber que o conceito de apropriação, à semelhança de conversão, é estranho ao Cultus Deorum Romanorum, e às tradições politeístas, em geral; embora alguns movimentos religiosos eclécticos não se preocupem muito em relação à forma como somam seguidores. Há situações que requerem circunspecção e sensibilidade, porque não serve a ninguém, muito menos a cada um dos Deuses e às diversas tradições religiosas herdadas da Antiguidade, tentar manipular as pessoas, tomando uma divindade por outra, e dizendo que tanto faz o nome que lhes chamem. O objectivo não é “conquistar” um rebanho – ou um exército – de “fiéis”, que neste caso seria composto por cultores fictícios e mal informados, que poderiam nem sequer ser politeístas. Porque é frequente a verdadeira mentalidade religiosa de cada um revelar-se nos detalhes, na forma como as pessoas se expressam e pensam, mesmo quando tentam aprender mais sobre uma tradição politeísta proveniente da Antiguidade. Muitas querem de facto apropriar divindades e elementos religiosos, sem abdicarem daquilo em que sempre acreditaram (sobretudo, quando não acreditam em quaisquer divindades e as tomam por conceitos), numa manobra de estilo ou tentando rebelarem-se um pouco perante a família, os amigos, o seu público, e a comunidade. Outras sempre “orbitaram” em torno de uma religião que precisava ser retomada e que tiveram de aprender a praticar, para transcenderem de vez o fascínio pelos livros de Mitologia ou de História da Religião. E isto não é coisa que aconteça de um dia para o outro, nem que se ponha de parte como uma peça de roupa que deixou de ser útil e passou de moda.

 

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