Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.

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