Guardiães de uma ilha

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

Sempre soube escutar os génios de lugar, mas foi na “grande ilha” que apurei esse instinto.

Nos últimos tempos, quando visito a Quinta da Regaleira, em Sintra, sinto-me incomodada com o ambiente do palácio. Isto não tem nada a ver com o facto de aquela arquitectura ecléctica – a la Portugal dos Pequeninos – não ser o meu cup of tea. A Álea dos Deuses permanece inalterada e os jardins escapam, mas não estão livres de uma tensão que me faz temer pela segurança dos visitantes que sobem às torres esguias e percorrem as grutas artificiais. Como estará a vigilância por aqueles lados? Talvez tenha a ver com a forma como o espaço está a ser explorado, para fins que em muitos casos não têm nada a ver com as premissas do lugar. Quem quer um espaço bonitinho para os seus eventos empresariais pode sempre ir à Lapa. Sloppiness é uma palavra que surge na minha mente e me leva a recear pelo “vermelho do veludo”. Falta atenção aos detalhes e, claro, uma residência daquelas sem grande parte do seu recheio original, ou à época, parece espoliada.

A propósito, não sei se daqui a uma década teremos a oportunidade de ver os delicados mosaicos da capela sem algum desgaste, tendo em conta os magotes de visitantes que entram e arrastam os sapatos por ali, antes de voltarem a sair como se não tivessem visto grande coisa. Ainda me lembro do tempo em que as pessoas dariam um dente da frente para lá entrarem e não se limitavam a passar vistoria, apenas porque o spot está indicado no roteiro turístico. Afinal, a quinta não esteve tantas décadas praticamente selada a lacre para ser dilapidada em menos de um quarto de século, com a ajuda de uma gestão com queda para o negócio da organização de eventos. Posso tentar encontrar apenas um motivo, mas o certo é que algo tem vindo a ser perturbado e não apenas porque o palácio está aberto ao público. Sei que sempre foi tão exaustivo como magnético, mesmo quando estava fechado. A primeira vez que eu tive a sorte de conseguir entrar foi em meados dos anos 90 e achei óptimo quando passou a ser visitável. Perdeu aquela aura solene e elitista dos espaços reservados aos doutos. No entanto, ali, como em qualquer lugar que passa a ser um ponto turístico, o equilíbrio é delicado.

Nullus locus sine Genius

“Nenhum lugar é sem um Génio”, escreveu Sérvio, em Virgilii Aeneidos Commentarius (Comentário à Eneida de Virgílio), 5, 95. Em Saturnalia, III, Macrobio deixou claro que cada cidade possui um Deus protector ou tutelar. Plínio confirmou isso mesmo, em Naturalis Historia (Historia Natural), XXVIII.

Se vivêssemos num mundo ideal, em que os arruaceiros não enchem um espaço sagrado com toneladas de lixo, em pleno solstício de Verão, nem sobem aos lintéis megalíticos, como se estivessem num viaduto qualquer, eu seria a favor da liberdade de circulação em Stonehenge, na Grã-Bretanha. Infelizmente, não conheci a planície de Salisbury no tempo em que não havia gradeamento em torno do monumento. Mesmo assim, valeu a pena pagar por visitas privadas de duas horas, em sistema de livre-trânsito, apesar dos mirones desbocados e da vigilância armada. Foram todos esquecidos, a partir do momento em que as pedras à nossa volta transformaram o som e as tocámos com reverência. Após um glorioso pôr-do-sol e também numa manhã quente e chuvosa, os corvos ficaram a observar-nos do alto das pedras, quando unimos as mãos para formarmos um círculo no centro do ‘ring’. Apesar de todas as confusões, violência, e polémicas, e ainda que os ‘gigantes’ venham a tombar, a minha experiência diz-me que é impossível oprimir ou aniquilar o génio daquele lugar.

Talvez o promontório de Tintagel seja dos locais mais mágicos, no sentido insólito do termo, onde o génio de lugar demonstra a sua presença através de imagens na paisagem e propicia eventos inesperados. É possível ver o seu rosto, a partir de determinados ângulos, à medida que subimos as escadinhas íngremes que levam ao átrio do castelo. Experiências como esta podem ter os dias contados, porque os visitantes vão passar a ser guiados através de uma ponte (com restrições de acessibilidade), directamente para o interior das ruínas. O antigo percurso estará disponível apenas num sentido, da ilha para o centro de visitantes. Assim decidiu o English Heritage, que é mesmo o único elemento inglês em Tintagel e que faz uma espécie de ocupação pacífica de um dos ex-libris da Cornualha. Pouco contribui para evitar a crescente “Disneyficação” do local, através da imposição de um imaginário revivalista Arturiano que atrai os turistas mais desinformados, mas que nada tem a ver com as origens da lenda nem com o folclore de Kernow.

Para quem se acostuma ao panorama grandioso e dramático da Cornualha e à suavidade das colinas sagradas do ‘Vale of Avalon’, entre as Quantock e as Mendip, a cidade de Bath pode não seduzir à primeira vista. Fica encafuada na paisagem, como se estivesse prestes a sumir-se pelo ralo. Mas há lugares que superam todas as expectativas e nos guiam noutras direcções, que sempre se insinuaram e apenas esperavam a nossa atenção. Muitas vezes, são aqueles que parecem atracções de somenos relevância, num itinerário pleno de lugares míticos, que sempre sonhámos visitar. Tendo em conta as minhas raízes portuguesas, noutra estância termal Romana, eu não devia ter ficado tão surpreendida com a familiaridade que senti ao chegar a The Roman Baths. O charme de um jantar gourmet, o quarteto a tocar ao vivo, os enormes lustres, e a fonte que dá o nome à deslumbrante Grand Pump Room, apenas aumentaram o encantamento. Para além disso, não há nada de que uma fã de Jane Austen – que cresceu em Seteais – não goste num cenário assim. Nunca pensei encontrar um lugar onde uma divindade tutelar, que neste caso é Sulis, estivesse tão reconfortada e se manifestasse com tamanha elegância. Sem dúvida, atenções não lhe têm faltado, ao longo de vários séculos em que a Cultura Clássica e as tradições autóctones foram preservadas e recriadas naquele microcosmos.

As caldas têm uma temperatura constante de 49ºC (120ºF) e são ricas em componentes minerais, sobretudo grandes quantidades de iões de sulfato de sódio, cálcio, e cloro. A maioria das nascentes de água quente da Grã-Bretanha emerge a temperaturas não superiores a 30ºC e por isso não são consideradas verdadeiras hot springs. Das onze caldas da ilha, cinco nascentes estão situadas em Bath e nas proximidades. Têm sido visitadas desde o Neolítico e na Idade do Ferro tornaram-se o foco de um culto local, que ganhou proeminência. Foi durante a ocupação Romana que o complexo com templo e balneário se formalizou sob o nome Aquae Sulis, em honra da divindade tutelar, que foi sincretizada com Minerva. O nome de Sulis, que não é de origem Romana, alude à visão (raíz proto-céltica) e ao sol (raíz proto-indo-europeia), e passou a ser usado como epíteto da Deusa capitolina.

Sulis Minerva não está só associada à cura, mas também à agricultura, à fertilidade, ao ciclo reprodutivo feminino, e sobretudo à amamentação. Foram encontradas algumas miniaturas representando seios esculpidos em marfim, que estavam consagrados àquela Deusa. Terão sido usados por mães enquanto amamentavam e depois oferecidos em sinal de agradecimento por uma boa produção de leite materno. A associação com a fertilidade está relacionada com a riqueza mineral das águas e a vida vegetativa, de cor verde, que prolifera em redor das nascentes. Isto reforça a conexão solar do nome da Deusa, uma vez que é a combinação da água com a luz do sol que permite uma boa colheita. Estes atributos não costumam estar associados a Minerva e revelam mais acerca da natureza da divindade autóctone. Ela também favorece a profecia, através do aperfeiçoamento de artes divinatórias que, mais uma vez, utilizam a água das nascentes em conjunção com a luz solar. Sulis não foi venerada em nenhum outro lugar e não pode ser transportada para outros contextos, embora existam divindades tutelares que têm funções semelhantes. Com Minerva não acontece o mesmo.

As nascentes representam os limiares sagrados e têm óbvias conotações ctónicas, o que justifica a grande quantidade de defixiones (placas de maldições) encontradas em Bath. Emergindo das profundezas do submundo, elas forneceram águas quentes e frias, que eram essenciais para os banhos Romanos. Mesmo depois do culto ter entrado em declínio, o complexo continuou a ter importância para os habitantes. No século XVII recuperou a sua relevância nacional, quando a realeza e a aristocracia passaram a deslocar-se a Bath e a “tomar as águas” para manterem a saúde. Por volta de 1720, a vila começou a desenvolver-se e a ser frequentada por quem queria ver e ser visto, transformando-se num centro da moda, marcado pela arquitectura Georgiana que evoluiu a partir do revivalismo Palladiano e que ficou a cargo de nomes como John Wood the Elder, o seu filho John Wood the Younger, o arquitecto neoclássico Robert Adam, e Thomas Baldwin, entre muitos outros que se voltaram para a Roma Antiga em busca de inspiração. É dessa época o elegante spa que nos foi legado. No presente, o moderno Thermae Bath Spa inclui a Piscina Minerva, que é uma das principais atracções, e continua uma tradição de dois mil anos.

Segue uma lista de locais sagrados e muitos outros pontos de interesse que visitei e honrei, por várias vezes durante alguns anos, no sudoeste de Inglaterra e na Cornualha, onde cada genius loci é perceptível e se manifesta, por vezes de forma surpreendente:

Círculos de pedras (e henge), alinhamentos, subterrâneos (fogou), e complexos funerários:

Stonehenge, Wiltshire, England

Avebury stone circles, Wiltshire, England

Kennet Avenue, Avebury, Wiltshire, England

West Kennet Long Barrow, Avebury, Wiltshire, England

Stanton Drew stone circles, Somerset, England

Nine Maidens of Belston Tor (perto de necrópole da Idade do Bronze), Dartmoor, West Devon

Boscawen-Un, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mên-an-Tol, West Penwtih, Cornwall / Kernow

Boskednan stone cirlce (Nine Maidens, Nine Stones of Boskednan), Ding Dong, perto de Porthmeor, West Penwith, Cornwall / Kernow

The Merry Maidens, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lanyon Quoit, e West Lanyon Quoit (vestígios) entre Madron e Morvah, West Penwith, Cornwall / Kernow

Zennor Quoit, Zennor, West Penwith, Cornwall /Kernow

The Hurlers, St Cleer, Cornwall / Kernow

Carn Euny / Karn Uni, fogou, Sancreed, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Colinas sagradas, naturais e artificiais (mound), e figuras:

Silbury Hill, Avebury, Wiltshire, England

Glastonbury Tor, Somerset, England

Chalice Hill, Glastonbury, Somerset, England

Wearyall Hill, Glastonbury, Somerset, England

Lollover Hill, Compton Dundon, Somerset, England

Burrow Mump, (Southlake Moor), Burrowbridge, Taunton, Somerset, England

Cerne Abbas Giant, Dorset, England

Zennor Tor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Michael’s Mount / Karrek Loos, “the grey rock in the wood” of Lyonesse (inclui igreja medieval, castelo palaciano, e jardins), Marazion, Cornwall / Kernow

 

Bosques e vales, ribeiros e cascatas:

Dundon Beacon, Compton Dundon, Somerset, England

St Nectan’s Glen and Waterfall, Trethevy, Tintagel, Cornwall / Kernow

Peters Wood e Minster Wood, Valency Valley, Boscastle, Cornwall / Kernow

Rocky Valley (inclui baixo-relevo, na rocha, de labirinto cretense), Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Poços sagrados e fontes termais:

The Chalice Well, Glastonbury, Somerset, England

The Roman Baths, Bath, Somerset, England

Sancreed Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

Madron Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Enseadas (coves), praias, portos e cabos:

Prussia Cove (King’s Cove), Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

Marazion beach, Mount’s Bay, Conrwall / Kernow

Newlyn Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mousehole Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lamorna Cove, West Penwith, Cornwall / Kernow

Pednvounder beach, (Treen beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthcurno beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Sennen beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Land’s End, West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthzennor Cove, Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Ives beaches (Porthmeor beach, Porthgwidden beach, Bamaluz beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Gwithian beach, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernwo

Godrevy beach, Peter’s Point, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernow

Port Isaac, Cornwall / Kernow

Tintagel beach, Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Jardins:

Chalice Well Gardens, Glastonbury, Somerset, England

Morrab Gardens, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

Trengwainton Garden, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Micheals Mount Gardens, Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

 

Fortificações:

Maiden Castle, Dorset, England

Cadbury Castle, Somerset, England

Dundon Hill Hillfort, Compton Dundon, Somerset, England

Tintagel Castle, Cornwall / Kernow

 

Igrejas, abadias e catedrais:

Glastonbury Abbey (inclui ruína de St. Mary’s Chapel), Somerset, England

Church of St. John the Baptist, Glastonbury, Somerset, England

St. Mary’s Church, Glastonbury, Somerset, England

St. Michael’s Tower (ruína), Glastonbury Tor, Somerset, England

St. Micheal’s Church (ruína), Burrow Mump, Taunton, Somerset, England

Wells Cathedral (inclui um relógio astronómico), Somerset, England

St. Andrew’s Church, Compton Dundon, Somerset, England

Church of St. Mary the Virgin, Belstone, perto de Okehampton, Dartmoor, West Devon

Minster Church, Boscastle, Cornwall / Kernow

St. Senara’s Church (inclui relevo, em madeira, de uma sereia, Mermaid of Zennor), Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Posso ter esquecido algum e talvez volte para fazer rituais e outras visitas. Um dia.

 

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A ocasião faz o Pagão

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

É natural que alguém queira mudar de vida quando se sente realizado durante a participação em círculos, festivais, conferências, viagens, e retiros com ênfase na Espiritualidade. Parece fácil passar de participante a orientador ou ceder à tentação de levar os “trabalhos mágicos” mais a sério. Ter ideias e iniciativas nesse sentido pode fazer alguém voltar a querer saltar da cama, logo de madrugada. Se a vida profissional é frustrante, oferece pouca segurança ou compete com a vida pessoal e familiar, muitos chegam à conclusão que não têm nada a perder se tentarem enveredar por outros caminhos. Sobretudo, se no horizonte está a promessa – ou a miragem – de uma vida ao ar livre, itinerante, artística, sem horários rígidos nem trânsito a horas de ponta, em que as relações humanas no seio de uma comunidade diversa parecem estar livres da competitividade do mercado de trabalho, plenas de entreajuda e ideais mais elevados.

Associar a vida religiosa, a espiritualidade, e as finanças pessoais é um dos mais atraentes becos sem saída da New Age, dos Novos Movimentos Religiosos, e do Paganismo. É muito comum encontrar quem encare a sua sustentabilidade como sendo interdependente da uma prática Pagã. Ou seja, “Sou Pagão, logo tenho um ganha-pão.” Desde quando? Porque, o facto de ser Pagão não torna ninguém um elemento da casta espiritual de uma “tribo” urbana, que vai zelar para que nada lhe falte. Nos dias que correm, qualquer um pode ter qualquer título (que não equivale a nenhuma certificação) e um ofício que lhe corresponda. Portanto, a oferta de serviços espirituais da mais variada ordem é bem maior do que a procura. A certo ponto, as comunidades esgotam-se em si mesmas e sem recursos financeiros só lhes resta voltarem à economia da troca directa.

Uma figura popular da Witchcraft como a “EnchantressSorita d’Este, que há mais de dez anos tinha uma carreira em Londres, da qual abdicou para se fixar em Glastonbury e gerir a sua própria editora, Avalonia, só conseguiu equilibrar ‘a barca’ porque estava no sítio e no momento certos, podia investir e sabia o que fazer. Financeiramente, não terá sido a melhor escolha possível, mas até ela está surpreendida por ter encontrado um estilo de vida e negócio viáveis, que lhe trouxeram muitos outros benefícios. Não pense alguém que escrever acerca da sua tradição ou espiritualidade pessoal e fazer pequenas edições dos seus livros e dos livros dos outros membros de covens ou groves vai ser sustentável, quanto mais um modo de vida. A ideia é romântica e parece haver clientela certa para oráculos e agendas lunares, em Sintra ou de Carcavelos a Carnaxide, mas se não se acautelarem, o mais certo é ficarem no prejuízo.

Mesmo em relação aos nichos mais populares, como o Druidismo, é preciso ter em conta que são muito vulneráveis às modas dos Paganismos modernos. De um modo geral, o mercado “Céltico” entrou em decadência, há cerca de uma década. Basta notar que em 2015, como em anos precedentes, nem na Grã-Bretanha conseguiram organizar The Druid Network Conference e outros eventos, por falta de público disposto a pagar para assistir, embora estivessem previstas as participações de figuras mais ou menos proeminentes. São excepções os Druid Camps, organizados em vários locais, por Philip Carr-Gomm (OBOD), como não poderia deixar de ser. O facto é que no Paganismo moderno, como nas recuperadas religiões da Antiguidade, não há infra-estruturas nem uma tradição de auto-financiamento, principalmente na Europa. Muitos Pagãos queixam-se de não terem acesso a uma série de benesses que existem nas religiões maioritárias, mas a verdade é que há poucos Pagãos dispostos a pagar a outros Pagãos, seja por não poderem, por ainda acharem que uma actividade espiritual não pode ter nada a ver com dinheiro, ou por desconfiança em relação a qualquer tipo de liderança ou organização. Gato escaldado…

É por causa deste cenário que vamos assistindo a metamorfoses súbitas, um pouco por todo o lado. É o fenómeno “clean-up”, em que as pessoas despem as suas personas espiritualizadas, deixam de tentar promover-se com base em qualificações dúbias e numa série de títulos que foram coleccionando e que listam de forma exaustiva em todos os cartazes relativos aos seus workshops e retiros. Começam a procurar formação credenciada numa área concreta ou a investir em pequenos negócios livres do ruido associado ao tema das espiritualidades. Em muitos casos, passam mesmo a negar qualquer associação à sua “encarnação” anterior, temendo que esse histórico dificulte a integração no mainstream ou no âmbito académico. Em situações menos radicais, apenas mudam de fantasia, em busca de novos públicos, passando da Bruxaria ao Yoga ou do Druidismo à “Arquetipologia” num ápice. Há um aspecto muito descartável em todas estas manifestações de sobrevivência.

Afinal, só porque alguém decidiu encarar uma actividade que deve ser remunerada como se fosse uma missão, não quer dizer que a sua comunidade tivesse de lhe suprir as necessidades básicas. Muitas pessoas defendem e contribuem para causas, de forma mais ou menos pública, sem estarem à espera, sequer, de um agradecimento. Quem tem seriedade, não se promove através de uma causa, nem conta com isso para se sustentar, ainda que apoie e ofereça informação acerca de determinados serviços. Uma religião e um movimento não têm de ser diferentes de qualquer causa. Infelizmente, há muitas minorias sob o pára-sol do Paganismo que confundem os factores. Isto degenera em problemas financeiros e frustração em relação à própria comunidade, da qual era esperado reconhecimento, a vários níveis. O problema nestes casos é sempre uma grande dose de precipitação e o facto de não preverem o óbvio. Porque nos movimentos e nas modas há sempre muita gente interessada, que “talvez” vá a uma série de eventos, mas que raramente confirma “inscrições” virtuais através de emails e transferências bancárias.

A responsabilidade por esta situação é, em grande parte, de quem oferece os seus “serviços Pagãos”. Porquê desvalorizar a necessidade de retorno financeiro? Porquê mentir de forma deliberada, para parecer desapegado, ou sentir-se culpado porque uma actividade gerou o mais pequeno lucro? Este é um aspecto residual muito cristão, com o sabor franciscano que está tão em voga, mas que a maioria prefere associar a filosofias do Oriente. Por outro lado, não seria mais saudável, recompensador, e honesto, separar bem as águas, sem querer transformar a mais comum leitura oracular ou massagem de relaxamento numa missão em territórios “místicos”, ainda que possam ter uma dimensão espiritual? Claro que isto não tem nada a ver com o Holismo, que não dispensa qualificações de excelência, as quais não se obtêm a não ser através de estudos formais. Ora, ao preço a que está a Educação e tendo em conta a entrega que exige, não se pode esperar que alguém certificado trabalhe de graça ou por quantias simbólicas, que mal dão para o combustível. Sobretudo, quando os profissionais não estão desesperados e os clientes (consumidores) podem pagar o valor justo por bens e serviços.

Rituais e Consciência

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

Nós temos pequenos tiranos dentro das nossas mentes. Se eles não forem trazidos a lume, criam todo o tipo de complicações e privam-nos de experiências enriquecedoras, que em nada são incompatíveis com a prática religiosa de cada um. Pode parecer que vou divagar um pouco acerca de um assunto que é vagamente do foro psicológico, mas não. Apenas quero notar que é benéfico termos uma noção do papel que os rituais em geral, e não apenas os religiosos, podem ter a vários níveis. Para este efeito, adiante, vou recorrer ao testemunho de uma facilitadora holística extremamente qualificada, com quem há mais de uma década aprendi a criar e partilhar espaço ritual, fora de qualquer contexto religioso.

Pessoas guiadas pela superstição (que não equivale à supertitio) nem sequer aceitariam receber reiki sem terem a certeza de não ser incompatível com os preceitos da sua religião. Por outro lado, muitas dispensam ou abandonam acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em favor de exorcismos, de várias denominações, que geralmente exacerbam sentimentos de solidão, culpa e desespero, muitas vezes com desfechos fatais. Não ajuda o facto de muitos desses rituais serem realizados à revelia de qualquer ordenação, por pessoas pouco capacitadas, ou mesmo abusadores que realizam o chamado “ministério interno”. Outras pessoas vão mais longe e recusam assistência médica aos filhos, como demonstração daquilo a que chamam “fé”. Estamos perante aquilo que extrapola a liberdade religiosa.

Cada cabeça sua sentença, mas é determinante perceber que os rituais podem não ter um carácter religioso. A maioria não tem, mas apesar disso ou exactamente por isso podem ser experiências valiosas e benéficas para qualquer pessoa, seja religiosa ou não. Eu nunca recebi – nem nunca me foi imposto – qualquer sacramento e só participei de ritos religiosos na idade adulta. Por isso, foi no âmbito da Criatividade que descobri o poder dos rituais e iniciei a minha experiência com o espaço ritual. Há quinze anos, recebi ferramentas que viriam a ser úteis ao longo da vida e que provaram ser inestimáveis, sobretudo nos últimos anos, quer a nível pessoal, quer para entender melhor a importância dos rituais religiosos. Com a preciosa e subtil orientação de Jessica Montgomery [1], aprendi a praticar magia que nada tem a ver com tradições esotéricas ou Paganismo moderno, e que não depende da leitura de livros ou da participação em conferências da Deusa. Tem a ver com Consciência.

O que é bom é para ser partilhado, ainda que seja apenas através de breves palavras e a título introdutório, a partir de uma entrevista que à semelhança de um workshop, de um curso intensivo, ou de uma palestra, não pode traduzir o que é ter o privilégio de aprender de forma orgânica, em ambiente propício, sem hora marcada, diariamente e ao longo de semanas, com a amiga ‘Jessica Blessica’, que nunca esqueço, e não apenas com um coach:

“Ritual pessoal e mudança consciente construindo uma nova consciência de propósito através de magia intencional”

«Muitas pessoas acham a ideia de ritual intimidatória e misteriosa. Todos fomos submetidos a rituais que têm tanto a ver com ordem – e tão pouco a ver com arte – que a vivacidade que procuramos raramente lá está. Rituais conduzidos em Latim ou cheios de gestos incompreensíveis ou oficiados por uma pessoa enquanto as restantes servem de audiência dificilmente nos fazem sentir revigorados. Para ser potente, o conteúdo tem de ser reconhecível. Mais importante é que as experiências curativas devem ser participativas. E se alguma vez esteve presente num “novo” casamento e não se sentiu comovido, provavelmente sofreu com o reverso da medalha. Na nossa rejeição de rituais vazios do passado, nós podemos negligenciar convenções antigas e poderosas a favor da nossa cosmologia privada, que acaba por parecer uma charada que mais ninguém entende. Para ser eficaz, qualquer experiência curativa precisa equilibrar significado pessoal e transpessoal – o “Eu” da perspectiva individual contrabalançado pelo “Nós” da humanidade partilhada. Quando as ferramentas do ritual se mantêm simples e acessíveis, cada um pode iniciar, honrar, enraizar, libertar ou renascer ao longo do ciclo de vida. Como uma prática holística, o ritual funciona para além da compreensão linear, evocando novos percursos neurais e estados do ser mais favoráveis. Através do ritual, para parafrasear Gandhi, é possível viver a mudança que desejamos ver no mundo.

Não há necessidade de adoptar sistemas exóticos ou ritos esotéricos. O nosso desejo de significado e profundidade é satisfeito por representações familiares de milagres quotidianos. A nossa consciência de criança compreende facilmente a brincadeira sagrada e pensa naturalmente em símbolos: ovo, rebento, pedra, chama, sino, ramo, água, cordão e itens simples semelhantes são poderosamente evocativos. Actos como partir, queimar, enterrar, unir, limpar, ungir ou adornar requerem pouca interpretação e, usados conscientemente, oferecem-nos tudo o que realmente precisamos de ter na nossa caixa de ferramentas rituais. Estados alterados são fáceis de alcançar através de canção, movimento, respiração, imersão, ingestão, jejum ou privação sensorial. Variações destes ingredientes básicos são encontradas em rituais por todo o planeta e ao longo dos séculos. Uma década a facilitar rituais com centenas de pessoas comuns convenceu-me que há alguma coisa orgânica neste tipo de expressão criativa. Catalisar as nossas aptidões naturais de auto-cura através de experiência intencional é algo que todos parecemos saber fazer, dada a oportunidade.»

[1] Jessica Montgomery, M.S.W.: “Tem um histórico de mais de vinte anos a orientar workshops de desenvolvimento pessoal e aconselhamento a estudantes. Ela tem um B.A. em Psicologia pela Reed College, um Summa Cum Laude M.S.W. em Trabalho Social Clínico pela Portland State University, e fez uma Pós-Graduação no Institute for Family Centered Therapy. Ela ganhou uma University Club Fellowship, e recebeu um American Association of University Women Award. Ela também teve treino especializado em Processo de Grupo, Trauma, Apego, Sexualidade e Intimidade, Terapia pela Arte, Competência Cultural, e Desenvolvimento Infantil. No seguimento de muitos anos de trabalho de apoio, Jessica iniciou o seu Hakomi and M.E.T.A. Training em 2004, e retomou a sua prática privada em 2006. A par do ensino de Hakomi em Portland, Jessica é uma facilitadora de Re-Criação do Self; está a desenvolver um Treino de Apego a nível local com Donna Roy, Jon Eisman e outros; e vai liderar a expansão das ofertas Hakomi na área de Seattle. Uma residente de Portland de longa data, Jessica é uma líder activa de uma comunidade intencional diversa empenhada em elevar a consciência.” Hakomi Institute Faculty

Elitistas e empertigados

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museuo Archeologico Nazionale

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museo Archeologico Nazionale di Napoli.

“É verdade, o vitriol não está confinado à internet. Na verdade, muita (não toda, mas grande parte) da minha experiência enquanto Pagã, ao encontrar outros Pagãos que não conheço, é caracterizada por indiferença, altivez, e paranóia – da parte deles. Eu costumava sentir-me desapontada, quando uma amiga dizia, “Oh, tens de conhecer a não-sei-quantos, ela é uma Druida” ou fosse o que fosse, e eu conhecia essa não-sei-quantos que era distante, paranóica, e competitiva – SE-CA! Bom, não se pode ter uma conversa decente quando se trata de competirmos acerca de seja lá o que for aquilo por que aparentemente estamos a competir. No ano passado, num festival, conheci uns Pagãos que um velho associado me assegurou serem mesmo interessantes e que simplesmente tinha de conhecer. Bem, eu nunca tinha conhecido gente tão glacial e antipática na minha vida. De facto, eu mal os ‘conheci’ uma vez que fizeram questão de me olhar de lado e ignorar. E porquê? Porque, posso apenas pensar, estavam terrivelmente preocupados com o estatuto deles em relação ao meu e ao de todas as outras pessoas. Eu acho que não estou a imaginar isso. Passei anos a lidar com grupos mágicos e Pagãos em que o prestígio e a hierarquia são importantes, apesar de isto nunca ser admitido nos círculos mais polidos, por isso penso que consigo detectar aquilo quando sou confrontada com a situação.

É disso que esta – esta hostilidade – se trata, trata-se de postura hierárquica. E da posse de conhecimento, ou do que se pensa ser conhecimento secreto, ligado a questões internas [e externas] de um grupo e seus afiliados, ou não-afiliados. Têm de espantar o [suposto] forasteiro. Simplesmente têm de fazê-lo! Especialmente se ele parece capaz de competir… competir por quê? Fãs, seguidores, prestígio, liderança, aumento da auto-estima… sei lá. Hierarquia e prestígio, “poder sobre”, são características que a Bruxaria Pagã finge não desejar. E eu estou certa que em algumas situações [ideais] não existe. (E a Bruxaria é tão mágica como grupos magic(k)os, por isso não se dêem ao trabalho de dizer “Oh, só aqueles grupos hierárquicos de magia cerimonial é que são assim”). Eu diria que na maior parte dos casos não há nada que um individuo ou um casal dominante goste mais do que ser – e manter-se como – “chefe” do grupo… quando o que deve acontecer é encorajarem os outros a desenvolverem-se e tornarem-se fantásticos… a graduarem-se e saírem da sombra dos “professores”. De qualquer forma, como disse Anton La Vey, se fingires que te envolveste em Bruxaria por qualquer razão a não ser poder, então estás a iludir-te.

Oh, e antes que alguém tenha um ataque apopléctico, deixem-me dizer que apesar de acima ter mencionado uma Druida, eu não estou a destacar nenhum “tipo” de Pagão em particular… o exemplo em que eu estava a pensar era uma Druida, mas o outro exemplo eram Wiccans (eu penso [ou eles pensam]). A manipulação hierárquica paranóica é evidente em muitos tipos de grupos Pagãos e Magic[k]os.”

Reparem que não fui eu que escrevi aquilo, se bem que podia ter sido e nem me ficava por aqueles exemplos. Eu apenas traduzi um comentário feito por Caroline Jane Tully [1], em Albion Calling, a 31 de Janeiro de 2013. Reporta-nos a uma realidade que tem directamente a ver com tradições alegadamente esotéricas. Essa é uma característica comum à maioria dos grupos do Paganismo moderno, especialmente naqueles com sabor cristão e nos que partilham raízes mais ou menos herméticas. O secretismo, as iniciações e as linhagens são aspectos centrais em muitos contextos. E são estes aspectos que mais atraem aqueles que procuram obter uma aparência de estatuto, que lhes permita projectar uma determinada imagem de si mesmos sobre todos os que os rodeiam. Na minha experiência como observadora, as pessoas mais empertigadas não são as que estiveram directamente ligadas aos fundadores deste ou daquele Paganismo. Sobretudo, porque estas aprenderam com as “mães” e os “pais” do Paganismo moderno a serem despretensiosas. Partilharam com eles o dia-a-dia, as coisas mais comezinhas, e até o sofrimento provocado pelas doenças que os afligiram na velhice. Sabem que seria absurdo entronizá-los e posarem de herdeiros perante a restante comunidade Pagã.

O problema são aqueles que pouco ou nada têm a que se agarrar, nem a nível do que sabem nem das pessoas que conhecem. Tudo o que lhes resta é o faz-de-conta e, muitas vezes, o silêncio, que usam para parecerem superiores e inacessíveis. The wise are silentand busyand important; do tipo que nunca aprece, nunca está, nunca pode, nunca tem tempo. E se estes, que devem estar uns furos acima da ‘plebe’, não são sábios podem sempre tentar parecer, através daqueles silêncios. Mas há quem goste de os fazer falar, como nos contou a forest witch, artista sagrada, e herbalista tradicional, Sarah Anne Lawless, em Heathen Harvest:

“Penso que acertaste em cheio quando disseste manter uma imagem. Uma imagem, não a realidade. Com a popularidade da internet e a ascensão da cultura da celebridade, a imagem tornou-se mais importante do que a realidade. Quando os mágicos falam acerca de tudo o que os define, a sua imagem, eu afincadamente pergunto “isso é tudo fantástico, mas o que é que FAZ?”, até obter uma verdadeira resposta. Isto frequentemente acaba comigo a descobrir que um ocultista sombrio, satânico, obcecado por grimoires populares ou é um ocultista de cadeirão ou apenas pratica a bonitinha magia folclórica de jardim, que nada tem a ver com a imagem que projecta. O fulcro da questão, como eu percebi, é que a geração de mágicos mais jovens sente uma enorme pressão para parecer tão inteligente e interessante como os seus ídolos, em vez de serem eles mesmos. Alguns até estão tão empenhados em cultivar essa imagem que se esquecem daquilo em que realmente acreditam. Há ocultistas de cadeirão que lêem mas nada praticam e existem supostos Pagãos que acreditam mas nada praticam e a maioria encontra-se na internet. A forma de sair disto é ter uma prática pessoal, e sujar as mãos com alguma magia, para obterem experiência. Eu sou uma pessoa muito sociável e mantenho uma prática que é ao mesmo tempo pessoal e comunitária. É possível.”

Sem aqueles subterfúgios, torna-se mais difícil sobressair – no sentido pejorativo do termo –, quando estamos numa tradição exotérica. Porém, na ausência de iniciações e linhagens, alguns carapaus de corrida – machos e fêmeas – encontram outras formas de se destacarem. Os despiques pseudo-académicos a que assistimos nas redes sociais são sempre bom entretenimento. É como ver alguém com o diploma da Universidade Google a debitar informação em termos médicos, em grupos de apoio.

Acerca de personagens semelhantes àquelas, Ethan Doyle White [2] escreveu, em comentário, no seu blog Albion Calling:

“Eles nunca revelaram nenhumas qualificações académicas próprias – nem PhDs, MAs, nem sequer BAs, nem parecem ter alguma vez publicado em revistas da especialidade – e no entanto continuam a pronunciar-se acerca de matérias académicas usando linguagem que parece transmitir autoridade. Eu encontrei indivíduos assim antes, tanto dentro do Paganismo como por todo o lado; pessoas que são bastante inteligentes e sabedoras, e que podem até ter algumas qualificações académicas, mas que gostam de se achar melhores do que os académicos profissionais ou semi-profissionais, que depois atacam de forma vil e muito pouco académica. Claro, a internet faculta o cenário perfeito para estes indivíduos; melhor do que os meandros das publicações de autor a que antes se encontravam confinados.”

À medida que os dissidentes de grupos se multiplicam, nas redes sociais aumentam os grupos-cogumelo ou os grupos-satélite ou os grupos-às-moscas, a par de blogs que dão voz a tudo o que é ecléctico. Jobs for the boys. Esses são os únicos lugares onde os sabichões podem ter a certeza de não encontrar oposição. Aí, usam o que aprenderam, sobretudo graças às pessoas cujos argumentos não conseguiram rebater, para impressionarem quem pouco sabe. Todos são bem-vindos! Talvez seja um aspecto residual do que lhes acontecia quando eram Wiccans ou Druidas ou Teletubbies, e se organizavam em covens e groves. Aqueles são os contextos onde há sempre a possibilidade de fundarem um grupinho só seu, mais ou menos em segredo, onde podem ter o papel principal, alegando praticar ritos antigos, sobretudo quando percebem pouco da tradição em causa, seja ela mais ou menos moderna.

[1] Caroline Jane Tully: Tem um Bachelor of Arts em Belas Artes pela Universidade de Monash e um Diploma de Graduação e Pós-Graduação em Estudos Clássicos e Arqueologia da Universidade de Melbourne, Austrália. Terminou o doutoramento em culto das árvores no Egeu pré-histórico e Mediterrâneo Oriental. Também está interessada na recepção do mundo antigo, em particular a recepção das antigas religiões egípcias e minoica.

[2] Ethan Doyle White: Um candidato a PhD da University College London com um interesse particular no desenvolvimento do culto, ritual e magia. A sua pesquisa publicada concentra-se em dois temas principais: religião pré-cristã na Europa, e a recepção, reinterpretação, e reutilização da Europa pré-cristã num contexto moderno (isto é no Paganismo contemporâneo). Embora tenha sido academicamente treinado nas disciplinas de Arqueologia, é um acérrimo defensor de perspectivas interdisciplinares, e a sua pesquisa intercepta os Estudos Religiosos, a História e o folclorismo. Publicou um livro académico [Wicca: History, Belief, and Community in Modern Pagan Witchcraft ], nove artigos em revistas académicas, e também vinte e quatro críticas em seis revistas diferentes.

Polémicas premeditadas

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Os cultores, e os politeístas de uma forma geral, devem deixar certos assuntos para depois. Não porque esses assuntos não tenham relevância, mas porque não são tão importantes como as nossas vidas privadas e tudo o resto que faz parte do quotidiano, como por exemplo prestar culto aos Deuses. Nas últimas semanas, as celebrações do novo Anno Sacro, a Calendas de Aprilis, e a Venerália, que celebrámos ontem, em honra de Vénus Verticórdia, mereceram mais atenção por parte dos cultores do que quaisquer polémicas. Os agitadores podem sempre esperar, mas se não quiserem também podem ir procurando outras colmeias onde consigam realmente semear a discórdia. Entretanto, para mim, o “depois” pode muito bem ser hoje.

Para alguns, o facto de haver pessoas que mantêm a religião livre de politiquices é um sinal de fascismo. Atentem nesta contradição! Porque o que finalmente vou comentar, ao fim de uma semana após ter estalado a polémica nos blogs internacionais, é uma tentativa de criar um clima de suspeição em relação aos – e entre os – politeístas de diversas tradições. É grave, mas não suscita a minha indignação. Dedico um post a este assunto porque, à semelhança de outras pessoas que entendem ser preciso repudiar as alegações que foram feitas, eu também sei que existe apenas uma pequena janela temporal para determinarmos qual vai ser o discurso nas próximas décadas, acerca do Politeísmo. E se queremos manter o foco nos Deuses e não nas politiquices que alguns elementos tentam imiscuir nas comunidades politeístas a que, na maior parte das vezes, nem sequer pertencem ou apenas fingem pertencer, sob pretexto de nos alertarem para os supostos perigos que espreitam a cada canto dos nossos fóruns, grupos, e comunidades locais, então temos de tomar uma posição. E esta tomada de posição tem esperado muito para acontecer. Temos aturado demasiadas impertinências. Não precisamos de manifestar revolta, porque o assunto só provoca o espanto de quem compreende que estamos perante pessoas que querem levar os outros para o seu campo de batalha, para jogarem o seu jogo, e lhes facilitarem a vida no que toca à difusão das suas ideologias. Porque é preciso entendermos que para esses elementos qualquer publicidade é boa publicidade. Adivinhem quem está a tentar radicalizar o Politeísmo?

Estando em Portugal, o mais provável é que eu seja a primeira pessoa a escrever em Tuga acerca do que aconteceu. Não por ser a única politeísta portuguesa que tomou conta da ocorrência, mas porque os outros que também juntam as suas vozes às muitas que têm reagido ao artigo do blog Gods&Radicals, preferem fazê-lo em inglês, por uma questão de acessibilidade, uma vez que interagem com outros politeístas de vários países. Eu também o faço em inglês, nos blogs e redes sociais, das poucas vezes que dedico cinco minutos a comentar, mas não faço questão que este espaço tenha impacto além das fronteiras lusófonas. Estou mais interessada em perceber como essas influências exteriores, e as polémicas geradas além-mares, poderão impactar a tímidas comunidades politeístas portuguesas. E no que diz respeito à intersecção entre Religião e Política, o nosso país tem características únicas, que determinam que a nossa reacção também seja distinta – mas não menos intensa – daquela que se observa nos Estados Unidos da América e no resto da Europa e do mundo.

Sob pena de espalhar um pouco mais a palavra dos agitadores (e porque ser agitador também é um direito que a todos assiste), passo a explicar que o post que está no centro da polémica intitula-se “Confronting the New Right”, ou “Confrontando a Nova Direita”, e é anónimo, apesar de ter sido escrito para o referido blog Gods&Radicals. Esta plataforma é dedicada ao “Pagan Anti-Capitalism”, ou “Anti-Capitalismo Pagão”, seja lá isso o que for. Portanto, estamos perante um grupo que não tem qualquer pudor em associar a sua religiosidade (ou a aparência de religiosidade) a uma ideologia. Pelo contrário, assume e cultiva essa associação, autodenominando-se uma “beautiful resistance”, ou “bela resistência”. O tom não deixa margem para equívocos. Não vou aqui referir os nomes de quem quer sobressair, até porque pouco importam no panorama nacional, mas uma simples pesquisa por parte dos leitores mais atentos a estes meandros será o suficiente para que percebam de quem se tratam as figuras de proa e qual tem vindo a ser o seu plano (a sua agenda).

É que os tipos são fuinhas! A acusação, travestida de alerta acerca de – e simultaneamente dirigida a – várias comunidades politeístas, quer se definam Pagãs ou não, foi a de que existe uma tendência fascista inerente à natureza das mais diversas tradições. Depois de uma introdução em que é apresentada uma definição da tal “New Right” e afirmada a alegada influência dessa ideologia sobre as comunidades Pagãs, Politeístas, Heathenistas e Ocultistas, somos confrontados com uma análise detalhada das supostas vulnerabilidades de diversas tradições apolíticas ou que, segundo o/s autor/es do texto, apenas são apresentadas como apolíticas mas estarão imbuídas das ideias dessa tal “New Right”, sob disfarce de senso-comum, costumes, saberes tradicionais, ou a vontade dos Deuses. Ou seja, o que eles estão a insinuar é que se formos apolíticos é certo e sabido que essa é só uma forma de sermos ainda mais manipuláveis ou deliberadamente fascistas. Poupem-me! O que está ser feito não é um alerta, é uma associação directa que é preciso impugnar, desde já.

Como cultrix da religio Romana, Cultus Deorum Romanorum, vou continuar a oferecer esclarecimentos, à semelhança do que tem sido feito por outros politeístas que têm vindo a retomar as religiões que foram espezinhadas ao longo de milénios. Mas desde já, a título pessoal, como portuguesa que sou, eu não admito que ninguém – muito menos alguém que provavelmente nada sabe acerca da luta pela Liberdade em Portugal – tire ilações acerca das minhas opções políticas, de forma preconceituosa, com base na minha religiosidade. Se alguém não é capaz de discernir entre esses dois planos, esse alguém não sou eu, mas sim quem se dá ao desplante de insinuar que as minhas expressões de religiosidade politeísta e o meu apreço pela minha herança cultural podem denotar alguma inclinação política extremista.

Antes de prosseguir, abro um parêntese para sublinhar um detalhe que não deve passar despercebido. Nesse rol que foi mencionado, são apontadas as tradições Dianicas e da Espiritualidade da Deusa; Druídicas; Reconstrucionistas; Devocionais; Heathenistas, Asatru e Tradições Nórdicas; Ocultismo, Bruxaria (Witchcraft), e Tradições de Alta Magia. Ou seja, todos os principais sectores em que se inserem religiões e tradições específicas, como o Cultus Deorum Romanorum, o Politeísmo Helénico e, para dar um exemplo de uma religião moderna, a Wicca. No entanto, se continuarmos a ler, podemos ver que é feito o reparo de que estas tradições não estão alinhadas com a tal “New Right” (grande novidade), apesar de todos os alegados perigos e vulnerabilidades referidos. No seguimento desse reparo é feita uma menção explícita às tradições da OBOD – Order of Bards, Ovates and Druids (a qual desde cedo optei por não integrar, sobretudo devido à amizade colorida que a ordem tem com o Unitarian Universalism e com o conceito de “igrejas da floresta”, que me dá vontade de fugir), à Reclaiming (com a qual estou bem familiarizada, graças aos meus laços com o outro lado do Atlântico), e à Feri (que de tão jovem que é já nem é “do meu tempo”), entre outras não especificadas. Segundo o/s autor/es, estas tradições têm uma ênfase mais igualitária e não hierárquica do que as outras, o que as torna mais imunes às investidas da tal “New Right”. Ora, ora! Por que será que estas tradições estão a ser arredadas da fogueira? Não será porque os autores e dinamizadores do Gods&Radicals estão intimamente ligados a essas tradições? É verdade.

Please (Mr.Rhyd and co.), não me venham contar histórias da Carochinha acerca desta ou daquela sacrossanta comunidade Pagã moderna, composta por bons Pagãos, fadas e duendes, que querem orientar os “seekers”. De um modo geral, tenho boa impressão do papel que a OBOD, sobretudo na pessoa de Philip Carr-Gomm, tem tido na alargada comunidade Pagã, mas não consigo ignorar a espécie que me faz aquela expressão inspirada no Tao Te Ching, “leading by appearing to follow”, “liderar aparentando seguir”, que tanto ele como vários líderes de ordens druídicas gostam de usar. Em tempos, escutei de organizadores de viagens de grupo, workshops, e conferências da Deusa, que ninguém tinha nenhum lucro com todas essas actividades. Entretanto, está para ser inaugurada uma nova Goddess House em Glastonbury. E ainda bem, mas quem a pagou e vai manter? Enfim, ou anda muita gente a trabalhar para aquecer ou, então, areia nos olhos dos outros é refresco. É de notar que, a par da promoção dos cursos à distância da OBOD, há quem tenha trilhado carreiras na área editorial. Ninguém está a insinuar que obtêm grandes lucros com isso, mas do prestígio já não se livram. Porque haveriam de querer livrar-se? É o caso do mesmo Philip Carr-Gomm, formado em Psicologia e líder “informal” daquela “informal” ordem druídica. De alguma forma, o papel dele na OBOD justifica uma página de autor na maior rede social e vários livros editados por publishing houses como a Watkins Books, HarperCollins, Random House, Granta Books, entre outras, com direito a edições traduzidas em dezenas de idiomas. E para ficar tudo em família, também podemos assinalar a colaboração dele com Stephanie Carr-Gomm, na edição do The Druid Animal Oracle (Simon & Schuster, Fireside Books, USA and Australia 1994. Connections Publishing UK 1996). Portanto, a perder é que não ficam.

Para quem não sabe, os cerca de 10,000 druidas da Grã-Bretanha correspondem (roughly) a 0,01% da população do país. Àqueles druidas britânicos há que juntar os do resto do mundo, sobretudo dos Estados Unidos. A alguns pode parecer pouco, e sabemos que o Druidismo, nas suas diversas expressões e ordens é uma minoria religiosa, mas 0,01% num país como a Grã-Bretanha representa um público e justifica que haja editoras que estão dispostas a publicar, não só os livros de Carr-Gomm como de uma série de outros autores afectos à OBOD. Nenhuma editora o faria se não tivesse os custos cobertos nem qualquer perspectiva de retorno financeiro. Em Portugal (Zéfiro – Edições e Actividades Culturais Lda.) e em quase todos os países onde a ordem está presente também é assim e isso é perfeitamente legítimo, mas não podemos estar à espera que seja a OBOD, e os seus representantes “informais” que em cada país vão somando fama e seguidores, a lamentar as associações que foram feitas naquele artigo do Gods&Radicals, em relação à maioria das outras comunidades. Quanto mais alarmados ficarem todos aqueles que andam à deriva, ou saltitando nos diferentes ramos do açucarado Paganismo moderno, ou do “arquetipismo” pseudo-psicológico que nada tem a ver com Religião, mais seguidores terão a OBOD e os seus emergentes protagonistas locais.

Fechado que está aquele parêntese, voltemos agora ao cerne da questão. Que  os “Pagãos Anti-Capitalistas” não tentem definir a natureza e supostas vulnerabilidades da minha comunidade religiosa, à qual não pertencem, que não conhecem nem querem conhecer, mas que descrevem de forma a provocar inquietação e a obterem reacções que não tardam em usar contra nós, para nos fazerem parecer tão histéricos como as sufragistas aos olhos dos seus detractores. Passo a traduzir do texto original em inglês:

“Reconstrucionismo: Um dos locais mais significativos onde a New Right intersecta as crenças Pagãs. A ênfase em regressar a tradições ‘reconstruidas’ (e pouco compreendidas), fórmulas sociais e estruturas hierárquicas, assim como uma ênfase em recuperar a herança europeia são frequentemente problemáticas. Mais, tendências nacionalistas e de exclusivismo racial são frequentemente justificadas como sendo parte dos ‘costumes’.”

“Politeísmo Devocional: Similar aos problemas do Reconstrucionismo, mas com uma dimensão extra. Porque como alguns Politeístas Devocionais colocam a autoridade final nos ‘deuses’ e enfatizam as relações hierárquicas (entre humanos e deus, sacerdote e devoto), as questões éticas não podem ser questionadas pelas pessoas preocupadas por causa da ‘vontade dos deuses’.”

– Primeiro, no que me diz respeito, e ainda que outros cultores não se importem de ser chamados Pagãos, eu não sou Pagã nem pagã, e não pratico nenhuma forma de Paganismo.

– Segundo, “crença” tem alguém para quem acreditar é a base da sua religião e não os cultores da religio Romana, onde o único voto é o de cumprirmos aquilo a que nos propomos diante dos Deuses, e não viver segundo Escrituras e Mandamentos. Só por isto, pode ver-se a falha de compreensão de quem escreveu aquilo.

– Terceiro, ninguém quer regressar a lado nenhum, apenas retomar, a título particular, comunitário, e não nacional, as religiões que foram proibidas, mas que no caso Romano podemos entender perfeitamente, desde que queiramos tomar conhecimento de pelo menos a ínfima parte da avassaladora quantidade de registos que os nossos ancestrais nos legaram. O facto de termos de ‘reconstruir’, ou apenas retomar o que foi bruscamente interrompido, e progressivamente dilapidado por quem desde então escreveu a História, só revela a natureza dos opressores.

– Quarto, essa necessidade de conhecer a mentalidade dos Romanos que fundaram a religio não advém de nenhuma intenção de reinstituir a velha ordem, de viver numa sociedade sequer semelhante à da Roma Antiga, de voltar à época em que havia escravos e em que as mulheres eram consideradas inferiores ou ficavam a cargo dos patres familias. Se pensássemos assim em relação ao Cristianismo, a existência de religiões cristãs na actualidade significaria que os cristãos ainda viveriam como no tempo das catacumbas, das Cruzadas, ou da Inquisição (no caso dos católicos). Esta analogia é para deixar claro que podemos ser pessoas dos nossos dias, sofisticadas e até visionárias, ao mesmo tempo que temos uma religião da Antiguidade ou autóctone de qualquer território europeu.

– Quinto, nunca existiram quaisquer questões de “exclusivismo racial” na religio Romana, nem no tempo da Roma Antiga nem nas actuais comunidades do Cultus Deorum. Aliás, como lusófonos que somos, nunca devemos esquecer que, ao contrário do que veio a acontecer, também por mãos dos nossos antepassados, durante o domínio do Cristianismo, a cor da pele nunca foi sinónimo de um determinado estatuto ou da ausência dele. Por outro lado, a noção de nacionalismo não se aplica a uma religião que é praticada por todo o mundo, com ênfase na sacra privata e não na sacra pública.

– Sexto, em relação ao que é referido no parágrafo dedicado ao Politeísmo Devocional, nem vou dar-me ao trabalho de explicar por que razão é absurdo achar que há algum perigo no facto de alguém consciente da sua autoridade espiritual estabelecer uma relação “hierarquizada” com qualquer divindade (e não com qualquer mortal, ainda que sacerdote). Pois, se os Deuses fossem criados pelas nossas mentes, como os arquétipos, e dependessem da nossa existência, como a psicologia, então é que não haveria relação nenhuma a não ser com os nossos ‘umbigos’ mentais. Mais, relembro que não são os politeístas que vivem de acordo com Mandamentos e Escrituras que sempre foram seleccionadas, reescritas, e usadas para deixar clara a ‘vontade de Deus’ (com D maiúsculo, if you please senhor/es autor/es, porque Ele, como Deuses e Deusas, pode muito bem existir e o respeito também está nestes detalhes).

Agora pergunto, onde é que estão a incompatibilidade, o problema, ou o perigo? Eu sei onde. Um pouco por todo o lado, em todas as instituições e comunidades, porque fascistas há em todas as esferas. Sobretudo, o problema está nas mentes manipuladoras de quem achou que lhes seria útil fazer uma análise tão exaustiva como negligente dos sectores Pagãos e/ou politeístas, e escreveu um rascunho como aquele, com o objectivo de dividir para reinar e difundir a sua ideologia Anti-Capitalista, que na tem a ver com Religião. Acredito que o pessoal na Gods&Radicals ainda ache que alguém devia agradecer-lhes pelo ‘alerta’ e por todas as dicas incluídas num ‘artigo’ que podia ter algum valor, se não tivesse sido escrito de forma tão ignorante, depreciativa, e tendenciosa.