Polémicas premeditadas

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Os cultores, e os politeístas de uma forma geral, devem deixar certos assuntos para depois. Não porque esses assuntos não tenham relevância, mas porque não são tão importantes como as nossas vidas privadas e tudo o resto que faz parte do quotidiano, como por exemplo prestar culto aos Deuses. Nas últimas semanas, as celebrações do novo Anno Sacro, a Calendas de Aprilis, e a Venerália, que celebrámos ontem, em honra de Vénus Verticórdia, mereceram mais atenção por parte dos cultores do que quaisquer polémicas. Os agitadores podem sempre esperar, mas se não quiserem também podem ir procurando outras colmeias onde consigam realmente semear a discórdia. Entretanto, para mim, o “depois” pode muito bem ser hoje.

Para alguns, o facto de haver pessoas que mantêm a religião livre de politiquices é um sinal de fascismo. Atentem nesta contradição! Porque o que finalmente vou comentar, ao fim de uma semana após ter estalado a polémica nos blogs internacionais, é uma tentativa de criar um clima de suspeição em relação aos – e entre os – politeístas de diversas tradições. É grave, mas não suscita a minha indignação. Dedico um post a este assunto porque, à semelhança de outras pessoas que entendem ser preciso repudiar as alegações que foram feitas, eu também sei que existe apenas uma pequena janela temporal para determinarmos qual vai ser o discurso nas próximas décadas, acerca do Politeísmo. E se queremos manter o foco nos Deuses e não nas politiquices que alguns elementos tentam imiscuir nas comunidades politeístas a que, na maior parte das vezes, nem sequer pertencem ou apenas fingem pertencer, sob pretexto de nos alertarem para os supostos perigos que espreitam a cada canto dos nossos fóruns, grupos, e comunidades locais, então temos de tomar uma posição. E esta tomada de posição tem esperado muito para acontecer. Temos aturado demasiadas impertinências. Não precisamos de manifestar revolta, porque o assunto só provoca o espanto de quem compreende que estamos perante pessoas que querem levar os outros para o seu campo de batalha, para jogarem o seu jogo, e lhes facilitarem a vida no que toca à difusão das suas ideologias. Porque é preciso entendermos que para esses elementos qualquer publicidade é boa publicidade. Adivinhem quem está a tentar radicalizar o Politeísmo?

Estando em Portugal, o mais provável é que eu seja a primeira pessoa a escrever em Tuga acerca do que aconteceu. Não por ser a única politeísta portuguesa que tomou conta da ocorrência, mas porque os outros que também juntam as suas vozes às muitas que têm reagido ao artigo do blog Gods&Radicals, preferem fazê-lo em inglês, por uma questão de acessibilidade, uma vez que interagem com outros politeístas de vários países. Eu também o faço em inglês, nos blogs e redes sociais, das poucas vezes que dedico cinco minutos a comentar, mas não faço questão que este espaço tenha impacto além das fronteiras lusófonas. Estou mais interessada em perceber como essas influências exteriores, e as polémicas geradas além-mares, poderão impactar a tímidas comunidades politeístas portuguesas. E no que diz respeito à intersecção entre Religião e Política, o nosso país tem características únicas, que determinam que a nossa reacção também seja distinta – mas não menos intensa – daquela que se observa nos Estados Unidos da América e no resto da Europa e do mundo.

Sob pena de espalhar um pouco mais a palavra dos agitadores (e porque ser agitador também é um direito que a todos assiste), passo a explicar que o post que está no centro da polémica intitula-se “Confronting the New Right”, ou “Confrontando a Nova Direita”, e é anónimo, apesar de ter sido escrito para o referido blog Gods&Radicals. Esta plataforma é dedicada ao “Pagan Anti-Capitalism”, ou “Anti-Capitalismo Pagão”, seja lá isso o que for. Portanto, estamos perante um grupo que não tem qualquer pudor em associar a sua religiosidade (ou a aparência de religiosidade) a uma ideologia. Pelo contrário, assume e cultiva essa associação, autodenominando-se uma “beautiful resistance”, ou “bela resistência”. O tom não deixa margem para equívocos. Não vou aqui referir os nomes de quem quer sobressair, até porque pouco importam no panorama nacional, mas uma simples pesquisa por parte dos leitores mais atentos a estes meandros será o suficiente para que percebam de quem se tratam as figuras de proa e qual tem vindo a ser o seu plano (a sua agenda).

É que os tipos são fuinhas! A acusação, travestida de alerta acerca de – e simultaneamente dirigida a – várias comunidades politeístas, quer se definam Pagãs ou não, foi a de que existe uma tendência fascista inerente à natureza das mais diversas tradições. Depois de uma introdução em que é apresentada uma definição da tal “New Right” e afirmada a alegada influência dessa ideologia sobre as comunidades Pagãs, Politeístas, Heathenistas e Ocultistas, somos confrontados com uma análise detalhada das supostas vulnerabilidades de diversas tradições apolíticas ou que, segundo o/s autor/es do texto, apenas são apresentadas como apolíticas mas estarão imbuídas das ideias dessa tal “New Right”, sob disfarce de senso-comum, costumes, saberes tradicionais, ou a vontade dos Deuses. Ou seja, o que eles estão a insinuar é que se formos apolíticos é certo e sabido que essa é só uma forma de sermos ainda mais manipuláveis ou deliberadamente fascistas. Poupem-me! O que está ser feito não é um alerta, é uma associação directa que é preciso impugnar, desde já.

Como cultrix da religio Romana, Cultus Deorum Romanorum, vou continuar a oferecer esclarecimentos, à semelhança do que tem sido feito por outros politeístas que têm vindo a retomar as religiões que foram espezinhadas ao longo de milénios. Mas desde já, a título pessoal, como portuguesa que sou, eu não admito que ninguém – muito menos alguém que provavelmente nada sabe acerca da luta pela Liberdade em Portugal – tire ilações acerca das minhas opções políticas, de forma preconceituosa, com base na minha religiosidade. Se alguém não é capaz de discernir entre esses dois planos, esse alguém não sou eu, mas sim quem se dá ao desplante de insinuar que as minhas expressões de religiosidade politeísta e o meu apreço pela minha herança cultural podem denotar alguma inclinação política extremista.

Antes de prosseguir, abro um parêntese para sublinhar um detalhe que não deve passar despercebido. Nesse rol que foi mencionado, são apontadas as tradições Dianicas e da Espiritualidade da Deusa; Druídicas; Reconstrucionistas; Devocionais; Heathenistas, Asatru e Tradições Nórdicas; Ocultismo, Bruxaria (Witchcraft), e Tradições de Alta Magia. Ou seja, todos os principais sectores em que se inserem religiões e tradições específicas, como o Cultus Deorum Romanorum, o Politeísmo Helénico e, para dar um exemplo de uma religião moderna, a Wicca. No entanto, se continuarmos a ler, podemos ver que é feito o reparo de que estas tradições não estão alinhadas com a tal “New Right” (grande novidade), apesar de todos os alegados perigos e vulnerabilidades referidos. No seguimento desse reparo é feita uma menção explícita às tradições da OBOD – Order of Bards, Ovates and Druids (a qual desde cedo optei por não integrar, sobretudo devido à amizade colorida que a ordem tem com o Unitarian Universalism e com o conceito de “igrejas da floresta”, que me dá vontade de fugir), à Reclaiming (com a qual estou bem familiarizada, graças aos meus laços com o outro lado do Atlântico), e à Feri (que de tão jovem que é já nem é “do meu tempo”), entre outras não especificadas. Segundo o/s autor/es, estas tradições têm uma ênfase mais igualitária e não hierárquica do que as outras, o que as torna mais imunes às investidas da tal “New Right”. Ora, ora! Por que será que estas tradições estão a ser arredadas da fogueira? Não será porque os autores e dinamizadores do Gods&Radicals estão intimamente ligados a essas tradições? É verdade.

Please (Mr.Rhyd and co.), não me venham contar histórias da Carochinha acerca desta ou daquela sacrossanta comunidade Pagã moderna, composta por bons Pagãos, fadas e duendes, que querem orientar os “seekers”. De um modo geral, tenho boa impressão do papel que a OBOD, sobretudo na pessoa de Philip Carr-Gomm, tem tido na alargada comunidade Pagã, mas não consigo ignorar a espécie que me faz aquela expressão inspirada no Tao Te Ching, “leading by appearing to follow”, “liderar aparentando seguir”, que tanto ele como vários líderes de ordens druídicas gostam de usar. Em tempos, escutei de organizadores de viagens de grupo, workshops, e conferências da Deusa, que ninguém tinha nenhum lucro com todas essas actividades. Entretanto, está para ser inaugurada uma nova Goddess House em Glastonbury. E ainda bem, mas quem a pagou e vai manter? Enfim, ou anda muita gente a trabalhar para aquecer ou, então, areia nos olhos dos outros é refresco. É de notar que, a par da promoção dos cursos à distância da OBOD, há quem tenha trilhado carreiras na área editorial. Ninguém está a insinuar que obtêm grandes lucros com isso, mas do prestígio já não se livram. Porque haveriam de querer livrar-se? É o caso do mesmo Philip Carr-Gomm, formado em Psicologia e líder “informal” daquela “informal” ordem druídica. De alguma forma, o papel dele na OBOD justifica uma página de autor na maior rede social e vários livros editados por publishing houses como a Watkins Books, HarperCollins, Random House, Granta Books, entre outras, com direito a edições traduzidas em dezenas de idiomas. E para ficar tudo em família, também podemos assinalar a colaboração dele com Stephanie Carr-Gomm, na edição do The Druid Animal Oracle (Simon & Schuster, Fireside Books, USA and Australia 1994. Connections Publishing UK 1996). Portanto, a perder é que não ficam.

Para quem não sabe, os cerca de 10,000 druidas da Grã-Bretanha correspondem (roughly) a 0,01% da população do país. Àqueles druidas britânicos há que juntar os do resto do mundo, sobretudo dos Estados Unidos. A alguns pode parecer pouco, e sabemos que o Druidismo, nas suas diversas expressões e ordens é uma minoria religiosa, mas 0,01% num país como a Grã-Bretanha representa um público e justifica que haja editoras que estão dispostas a publicar, não só os livros de Carr-Gomm como de uma série de outros autores afectos à OBOD. Nenhuma editora o faria se não tivesse os custos cobertos nem qualquer perspectiva de retorno financeiro. Em Portugal (Zéfiro – Edições e Actividades Culturais Lda.) e em quase todos os países onde a ordem está presente também é assim e isso é perfeitamente legítimo, mas não podemos estar à espera que seja a OBOD, e os seus representantes “informais” que em cada país vão somando fama e seguidores, a lamentar as associações que foram feitas naquele artigo do Gods&Radicals, em relação à maioria das outras comunidades. Quanto mais alarmados ficarem todos aqueles que andam à deriva, ou saltitando nos diferentes ramos do açucarado Paganismo moderno, ou do “arquetipismo” pseudo-psicológico que nada tem a ver com Religião, mais seguidores terão a OBOD e os seus emergentes protagonistas locais.

Fechado que está aquele parêntese, voltemos agora ao cerne da questão. Que  os “Pagãos Anti-Capitalistas” não tentem definir a natureza e supostas vulnerabilidades da minha comunidade religiosa, à qual não pertencem, que não conhecem nem querem conhecer, mas que descrevem de forma a provocar inquietação e a obterem reacções que não tardam em usar contra nós, para nos fazerem parecer tão histéricos como as sufragistas aos olhos dos seus detractores. Passo a traduzir do texto original em inglês:

“Reconstrucionismo: Um dos locais mais significativos onde a New Right intersecta as crenças Pagãs. A ênfase em regressar a tradições ‘reconstruidas’ (e pouco compreendidas), fórmulas sociais e estruturas hierárquicas, assim como uma ênfase em recuperar a herança europeia são frequentemente problemáticas. Mais, tendências nacionalistas e de exclusivismo racial são frequentemente justificadas como sendo parte dos ‘costumes’.”

“Politeísmo Devocional: Similar aos problemas do Reconstrucionismo, mas com uma dimensão extra. Porque como alguns Politeístas Devocionais colocam a autoridade final nos ‘deuses’ e enfatizam as relações hierárquicas (entre humanos e deus, sacerdote e devoto), as questões éticas não podem ser questionadas pelas pessoas preocupadas por causa da ‘vontade dos deuses’.”

– Primeiro, no que me diz respeito, e ainda que outros cultores não se importem de ser chamados Pagãos, eu não sou Pagã nem pagã, e não pratico nenhuma forma de Paganismo.

– Segundo, “crença” tem alguém para quem acreditar é a base da sua religião e não os cultores da religio Romana, onde o único voto é o de cumprirmos aquilo a que nos propomos diante dos Deuses, e não viver segundo Escrituras e Mandamentos. Só por isto, pode ver-se a falha de compreensão de quem escreveu aquilo.

– Terceiro, ninguém quer regressar a lado nenhum, apenas retomar, a título particular, comunitário, e não nacional, as religiões que foram proibidas, mas que no caso Romano podemos entender perfeitamente, desde que queiramos tomar conhecimento de pelo menos a ínfima parte da avassaladora quantidade de registos que os nossos ancestrais nos legaram. O facto de termos de ‘reconstruir’, ou apenas retomar o que foi bruscamente interrompido, e progressivamente dilapidado por quem desde então escreveu a História, só revela a natureza dos opressores.

– Quarto, essa necessidade de conhecer a mentalidade dos Romanos que fundaram a religio não advém de nenhuma intenção de reinstituir a velha ordem, de viver numa sociedade sequer semelhante à da Roma Antiga, de voltar à época em que havia escravos e em que as mulheres eram consideradas inferiores ou ficavam a cargo dos patres familias. Se pensássemos assim em relação ao Cristianismo, a existência de religiões cristãs na actualidade significaria que os cristãos ainda viveriam como no tempo das catacumbas, das Cruzadas, ou da Inquisição (no caso dos católicos). Esta analogia é para deixar claro que podemos ser pessoas dos nossos dias, sofisticadas e até visionárias, ao mesmo tempo que temos uma religião da Antiguidade ou autóctone de qualquer território europeu.

– Quinto, nunca existiram quaisquer questões de “exclusivismo racial” na religio Romana, nem no tempo da Roma Antiga nem nas actuais comunidades do Cultus Deorum. Aliás, como lusófonos que somos, nunca devemos esquecer que, ao contrário do que veio a acontecer, também por mãos dos nossos antepassados, durante o domínio do Cristianismo, a cor da pele nunca foi sinónimo de um determinado estatuto ou da ausência dele. Por outro lado, a noção de nacionalismo não se aplica a uma religião que é praticada por todo o mundo, com ênfase na sacra privata e não na sacra pública.

– Sexto, em relação ao que é referido no parágrafo dedicado ao Politeísmo Devocional, nem vou dar-me ao trabalho de explicar por que razão é absurdo achar que há algum perigo no facto de alguém consciente da sua autoridade espiritual estabelecer uma relação “hierarquizada” com qualquer divindade (e não com qualquer mortal, ainda que sacerdote). Pois, se os Deuses fossem criados pelas nossas mentes, como os arquétipos, e dependessem da nossa existência, como a psicologia, então é que não haveria relação nenhuma a não ser com os nossos ‘umbigos’ mentais. Mais, relembro que não são os politeístas que vivem de acordo com Mandamentos e Escrituras que sempre foram seleccionadas, reescritas, e usadas para deixar clara a ‘vontade de Deus’ (com D maiúsculo, if you please senhor/es autor/es, porque Ele, como Deuses e Deusas, pode muito bem existir e o respeito também está nestes detalhes).

Agora pergunto, onde é que estão a incompatibilidade, o problema, ou o perigo? Eu sei onde. Um pouco por todo o lado, em todas as instituições e comunidades, porque fascistas há em todas as esferas. Sobretudo, o problema está nas mentes manipuladoras de quem achou que lhes seria útil fazer uma análise tão exaustiva como negligente dos sectores Pagãos e/ou politeístas, e escreveu um rascunho como aquele, com o objectivo de dividir para reinar e difundir a sua ideologia Anti-Capitalista, que na tem a ver com Religião. Acredito que o pessoal na Gods&Radicals ainda ache que alguém devia agradecer-lhes pelo ‘alerta’ e por todas as dicas incluídas num ‘artigo’ que podia ter algum valor, se não tivesse sido escrito de forma tão ignorante, depreciativa, e tendenciosa.

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