Elitistas e empertigados

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museuo Archeologico Nazionale

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museo Archeologico Nazionale di Napoli.

“É verdade, o vitriol não está confinado à internet. Na verdade, muita (não toda, mas grande parte) da minha experiência enquanto Pagã, ao encontrar outros Pagãos que não conheço, é caracterizada por indiferença, altivez, e paranóia – da parte deles. Eu costumava sentir-me desapontada, quando uma amiga dizia, “Oh, tens de conhecer a não-sei-quantos, ela é uma Druida” ou fosse o que fosse, e eu conhecia essa não-sei-quantos que era distante, paranóica, e competitiva – SE-CA! Bom, não se pode ter uma conversa decente quando se trata de competirmos acerca de seja lá o que for aquilo por que aparentemente estamos a competir. No ano passado, num festival, conheci uns Pagãos que um velho associado me assegurou serem mesmo interessantes e que simplesmente tinha de conhecer. Bem, eu nunca tinha conhecido gente tão glacial e antipática na minha vida. De facto, eu mal os ‘conheci’ uma vez que fizeram questão de me olhar de lado e ignorar. E porquê? Porque, posso apenas pensar, estavam terrivelmente preocupados com o estatuto deles em relação ao meu e ao de todas as outras pessoas. Eu acho que não estou a imaginar isso. Passei anos a lidar com grupos mágicos e Pagãos em que o prestígio e a hierarquia são importantes, apesar de isto nunca ser admitido nos círculos mais polidos, por isso penso que consigo detectar aquilo quando sou confrontada com a situação.

É disso que esta – esta hostilidade – se trata, trata-se de postura hierárquica. E da posse de conhecimento, ou do que se pensa ser conhecimento secreto, ligado a questões internas [e externas] de um grupo e seus afiliados, ou não-afiliados. Têm de espantar o [suposto] forasteiro. Simplesmente têm de fazê-lo! Especialmente se ele parece capaz de competir… competir por quê? Fãs, seguidores, prestígio, liderança, aumento da auto-estima… sei lá. Hierarquia e prestígio, “poder sobre”, são características que a Bruxaria Pagã finge não desejar. E eu estou certa que em algumas situações [ideais] não existe. (E a Bruxaria é tão mágica como grupos magic(k)os, por isso não se dêem ao trabalho de dizer “Oh, só aqueles grupos hierárquicos de magia cerimonial é que são assim”). Eu diria que na maior parte dos casos não há nada que um individuo ou um casal dominante goste mais do que ser – e manter-se como – “chefe” do grupo… quando o que deve acontecer é encorajarem os outros a desenvolverem-se e tornarem-se fantásticos… a graduarem-se e saírem da sombra dos “professores”. De qualquer forma, como disse Anton La Vey, se fingires que te envolveste em Bruxaria por qualquer razão a não ser poder, então estás a iludir-te.

Oh, e antes que alguém tenha um ataque apopléctico, deixem-me dizer que apesar de acima ter mencionado uma Druida, eu não estou a destacar nenhum “tipo” de Pagão em particular… o exemplo em que eu estava a pensar era uma Druida, mas o outro exemplo eram Wiccans (eu penso [ou eles pensam]). A manipulação hierárquica paranóica é evidente em muitos tipos de grupos Pagãos e Magic[k]os.”

Reparem que não fui eu que escrevi aquilo, se bem que podia ter sido e nem me ficava por aqueles exemplos. Eu apenas traduzi um comentário feito por Caroline Jane Tully [1], em Albion Calling, a 31 de Janeiro de 2013. Reporta-nos a uma realidade que tem directamente a ver com tradições alegadamente esotéricas. Essa é uma característica comum à maioria dos grupos do Paganismo moderno, especialmente naqueles com sabor cristão e nos que partilham raízes mais ou menos herméticas. O secretismo, as iniciações e as linhagens são aspectos centrais em muitos contextos. E são estes aspectos que mais atraem aqueles que procuram obter uma aparência de estatuto, que lhes permita projectar uma determinada imagem de si mesmos sobre todos os que os rodeiam. Na minha experiência como observadora, as pessoas mais empertigadas não são as que estiveram directamente ligadas aos fundadores deste ou daquele Paganismo. Sobretudo, porque estas aprenderam com as “mães” e os “pais” do Paganismo moderno a serem despretensiosas. Partilharam com eles o dia-a-dia, as coisas mais comezinhas, e até o sofrimento provocado pelas doenças que os afligiram na velhice. Sabem que seria absurdo entronizá-los e posarem de herdeiros perante a restante comunidade Pagã.

O problema são aqueles que pouco ou nada têm a que se agarrar, nem a nível do que sabem nem das pessoas que conhecem. Tudo o que lhes resta é o faz-de-conta e, muitas vezes, o silêncio, que usam para parecerem superiores e inacessíveis. The wise are silentand busyand important; do tipo que nunca aprece, nunca está, nunca pode, nunca tem tempo. E se estes, que devem estar uns furos acima da ‘plebe’, não são sábios podem sempre tentar parecer, através daqueles silêncios. Mas há quem goste de os fazer falar, como nos contou a forest witch, artista sagrada, e herbalista tradicional, Sarah Anne Lawless, em Heathen Harvest:

“Penso que acertaste em cheio quando disseste manter uma imagem. Uma imagem, não a realidade. Com a popularidade da internet e a ascensão da cultura da celebridade, a imagem tornou-se mais importante do que a realidade. Quando os mágicos falam acerca de tudo o que os define, a sua imagem, eu afincadamente pergunto “isso é tudo fantástico, mas o que é que FAZ?”, até obter uma verdadeira resposta. Isto frequentemente acaba comigo a descobrir que um ocultista sombrio, satânico, obcecado por grimoires populares ou é um ocultista de cadeirão ou apenas pratica a bonitinha magia folclórica de jardim, que nada tem a ver com a imagem que projecta. O fulcro da questão, como eu percebi, é que a geração de mágicos mais jovens sente uma enorme pressão para parecer tão inteligente e interessante como os seus ídolos, em vez de serem eles mesmos. Alguns até estão tão empenhados em cultivar essa imagem que se esquecem daquilo em que realmente acreditam. Há ocultistas de cadeirão que lêem mas nada praticam e existem supostos Pagãos que acreditam mas nada praticam e a maioria encontra-se na internet. A forma de sair disto é ter uma prática pessoal, e sujar as mãos com alguma magia, para obterem experiência. Eu sou uma pessoa muito sociável e mantenho uma prática que é ao mesmo tempo pessoal e comunitária. É possível.”

Sem aqueles subterfúgios, torna-se mais difícil sobressair – no sentido pejorativo do termo –, quando estamos numa tradição exotérica. Porém, na ausência de iniciações e linhagens, alguns carapaus de corrida – machos e fêmeas – encontram outras formas de se destacarem. Os despiques pseudo-académicos a que assistimos nas redes sociais são sempre bom entretenimento. É como ver alguém com o diploma da Universidade Google a debitar informação em termos médicos, em grupos de apoio.

Acerca de personagens semelhantes àquelas, Ethan Doyle White [2] escreveu, em comentário, no seu blog Albion Calling:

“Eles nunca revelaram nenhumas qualificações académicas próprias – nem PhDs, MAs, nem sequer BAs, nem parecem ter alguma vez publicado em revistas da especialidade – e no entanto continuam a pronunciar-se acerca de matérias académicas usando linguagem que parece transmitir autoridade. Eu encontrei indivíduos assim antes, tanto dentro do Paganismo como por todo o lado; pessoas que são bastante inteligentes e sabedoras, e que podem até ter algumas qualificações académicas, mas que gostam de se achar melhores do que os académicos profissionais ou semi-profissionais, que depois atacam de forma vil e muito pouco académica. Claro, a internet faculta o cenário perfeito para estes indivíduos; melhor do que os meandros das publicações de autor a que antes se encontravam confinados.”

À medida que os dissidentes de grupos se multiplicam, nas redes sociais aumentam os grupos-cogumelo ou os grupos-satélite ou os grupos-às-moscas, a par de blogs que dão voz a tudo o que é ecléctico. Jobs for the boys. Esses são os únicos lugares onde os sabichões podem ter a certeza de não encontrar oposição. Aí, usam o que aprenderam, sobretudo graças às pessoas cujos argumentos não conseguiram rebater, para impressionarem quem pouco sabe. Todos são bem-vindos! Talvez seja um aspecto residual do que lhes acontecia quando eram Wiccans ou Druidas ou Teletubbies, e se organizavam em covens e groves. Aqueles são os contextos onde há sempre a possibilidade de fundarem um grupinho só seu, mais ou menos em segredo, onde podem ter o papel principal, alegando praticar ritos antigos, sobretudo quando percebem pouco da tradição em causa, seja ela mais ou menos moderna.

[1] Caroline Jane Tully: Tem um Bachelor of Arts em Belas Artes pela Universidade de Monash e um Diploma de Graduação e Pós-Graduação em Estudos Clássicos e Arqueologia da Universidade de Melbourne, Austrália. Terminou o doutoramento em culto das árvores no Egeu pré-histórico e Mediterrâneo Oriental. Também está interessada na recepção do mundo antigo, em particular a recepção das antigas religiões egípcias e minoica.

[2] Ethan Doyle White: Um candidato a PhD da University College London com um interesse particular no desenvolvimento do culto, ritual e magia. A sua pesquisa publicada concentra-se em dois temas principais: religião pré-cristã na Europa, e a recepção, reinterpretação, e reutilização da Europa pré-cristã num contexto moderno (isto é no Paganismo contemporâneo). Embora tenha sido academicamente treinado nas disciplinas de Arqueologia, é um acérrimo defensor de perspectivas interdisciplinares, e a sua pesquisa intercepta os Estudos Religiosos, a História e o folclorismo. Publicou um livro académico [Wicca: History, Belief, and Community in Modern Pagan Witchcraft ], nove artigos em revistas académicas, e também vinte e quatro críticas em seis revistas diferentes.

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