Rituais e Consciência

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

Nós temos pequenos tiranos dentro das nossas mentes. Se eles não forem trazidos a lume, criam todo o tipo de complicações e privam-nos de experiências enriquecedoras, que em nada são incompatíveis com a prática religiosa de cada um. Pode parecer que vou divagar um pouco acerca de um assunto que é vagamente do foro psicológico, mas não. Apenas quero notar que é benéfico termos uma noção do papel que os rituais em geral, e não apenas os religiosos, podem ter a vários níveis. Para este efeito, adiante, vou recorrer ao testemunho de uma facilitadora holística extremamente qualificada, com quem há mais de uma década aprendi a criar e partilhar espaço ritual, fora de qualquer contexto religioso.

Pessoas guiadas pela superstição (que não equivale à supertitio) nem sequer aceitariam receber reiki sem terem a certeza de não ser incompatível com os preceitos da sua religião. Por outro lado, muitas dispensam ou abandonam acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em favor de exorcismos, de várias denominações, que geralmente exacerbam sentimentos de solidão, culpa e desespero, muitas vezes com desfechos fatais. Não ajuda o facto de muitos desses rituais serem realizados à revelia de qualquer ordenação, por pessoas pouco capacitadas, ou mesmo abusadores que realizam o chamado “ministério interno”. Outras pessoas vão mais longe e recusam assistência médica aos filhos, como demonstração daquilo a que chamam “fé”. Estamos perante aquilo que extrapola a liberdade religiosa.

Cada cabeça sua sentença, mas é determinante perceber que os rituais podem não ter um carácter religioso. A maioria não tem, mas apesar disso ou exactamente por isso podem ser experiências valiosas e benéficas para qualquer pessoa, seja religiosa ou não. Eu nunca recebi – nem nunca me foi imposto – qualquer sacramento e só participei de ritos religiosos na idade adulta. Por isso, foi no âmbito da Criatividade que descobri o poder dos rituais e iniciei a minha experiência com o espaço ritual. Há quinze anos, recebi ferramentas que viriam a ser úteis ao longo da vida e que provaram ser inestimáveis, sobretudo nos últimos anos, quer a nível pessoal, quer para entender melhor a importância dos rituais religiosos. Com a preciosa e subtil orientação de Jessica Montgomery [1], aprendi a praticar magia que nada tem a ver com tradições esotéricas ou Paganismo moderno, e que não depende da leitura de livros ou da participação em conferências da Deusa. Tem a ver com Consciência.

O que é bom é para ser partilhado, ainda que seja apenas através de breves palavras e a título introdutório, a partir de uma entrevista que à semelhança de um workshop, de um curso intensivo, ou de uma palestra, não pode traduzir o que é ter o privilégio de aprender de forma orgânica, em ambiente propício, sem hora marcada, diariamente e ao longo de semanas, com a amiga ‘Jessica Blessica’, que nunca esqueço, e não apenas com um coach:

“Ritual pessoal e mudança consciente construindo uma nova consciência de propósito através de magia intencional”

«Muitas pessoas acham a ideia de ritual intimidatória e misteriosa. Todos fomos submetidos a rituais que têm tanto a ver com ordem – e tão pouco a ver com arte – que a vivacidade que procuramos raramente lá está. Rituais conduzidos em Latim ou cheios de gestos incompreensíveis ou oficiados por uma pessoa enquanto as restantes servem de audiência dificilmente nos fazem sentir revigorados. Para ser potente, o conteúdo tem de ser reconhecível. Mais importante é que as experiências curativas devem ser participativas. E se alguma vez esteve presente num “novo” casamento e não se sentiu comovido, provavelmente sofreu com o reverso da medalha. Na nossa rejeição de rituais vazios do passado, nós podemos negligenciar convenções antigas e poderosas a favor da nossa cosmologia privada, que acaba por parecer uma charada que mais ninguém entende. Para ser eficaz, qualquer experiência curativa precisa equilibrar significado pessoal e transpessoal – o “Eu” da perspectiva individual contrabalançado pelo “Nós” da humanidade partilhada. Quando as ferramentas do ritual se mantêm simples e acessíveis, cada um pode iniciar, honrar, enraizar, libertar ou renascer ao longo do ciclo de vida. Como uma prática holística, o ritual funciona para além da compreensão linear, evocando novos percursos neurais e estados do ser mais favoráveis. Através do ritual, para parafrasear Gandhi, é possível viver a mudança que desejamos ver no mundo.

Não há necessidade de adoptar sistemas exóticos ou ritos esotéricos. O nosso desejo de significado e profundidade é satisfeito por representações familiares de milagres quotidianos. A nossa consciência de criança compreende facilmente a brincadeira sagrada e pensa naturalmente em símbolos: ovo, rebento, pedra, chama, sino, ramo, água, cordão e itens simples semelhantes são poderosamente evocativos. Actos como partir, queimar, enterrar, unir, limpar, ungir ou adornar requerem pouca interpretação e, usados conscientemente, oferecem-nos tudo o que realmente precisamos de ter na nossa caixa de ferramentas rituais. Estados alterados são fáceis de alcançar através de canção, movimento, respiração, imersão, ingestão, jejum ou privação sensorial. Variações destes ingredientes básicos são encontradas em rituais por todo o planeta e ao longo dos séculos. Uma década a facilitar rituais com centenas de pessoas comuns convenceu-me que há alguma coisa orgânica neste tipo de expressão criativa. Catalisar as nossas aptidões naturais de auto-cura através de experiência intencional é algo que todos parecemos saber fazer, dada a oportunidade.»

[1] Jessica Montgomery, M.S.W.: “Tem um histórico de mais de vinte anos a orientar workshops de desenvolvimento pessoal e aconselhamento a estudantes. Ela tem um B.A. em Psicologia pela Reed College, um Summa Cum Laude M.S.W. em Trabalho Social Clínico pela Portland State University, e fez uma Pós-Graduação no Institute for Family Centered Therapy. Ela ganhou uma University Club Fellowship, e recebeu um American Association of University Women Award. Ela também teve treino especializado em Processo de Grupo, Trauma, Apego, Sexualidade e Intimidade, Terapia pela Arte, Competência Cultural, e Desenvolvimento Infantil. No seguimento de muitos anos de trabalho de apoio, Jessica iniciou o seu Hakomi and M.E.T.A. Training em 2004, e retomou a sua prática privada em 2006. A par do ensino de Hakomi em Portland, Jessica é uma facilitadora de Re-Criação do Self; está a desenvolver um Treino de Apego a nível local com Donna Roy, Jon Eisman e outros; e vai liderar a expansão das ofertas Hakomi na área de Seattle. Uma residente de Portland de longa data, Jessica é uma líder activa de uma comunidade intencional diversa empenhada em elevar a consciência.” Hakomi Institute Faculty

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