A ocasião faz o Pagão

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

É natural que alguém queira mudar de vida quando se sente realizado durante a participação em círculos, festivais, conferências, viagens, e retiros com ênfase na Espiritualidade. Parece fácil passar de participante a orientador ou ceder à tentação de levar os “trabalhos mágicos” mais a sério. Ter ideias e iniciativas nesse sentido pode fazer alguém voltar a querer saltar da cama, logo de madrugada. Se a vida profissional é frustrante, oferece pouca segurança ou compete com a vida pessoal e familiar, muitos chegam à conclusão que não têm nada a perder se tentarem enveredar por outros caminhos. Sobretudo, se no horizonte está a promessa – ou a miragem – de uma vida ao ar livre, itinerante, artística, sem horários rígidos nem trânsito a horas de ponta, em que as relações humanas no seio de uma comunidade diversa parecem estar livres da competitividade do mercado de trabalho, plenas de entreajuda e ideais mais elevados.

Associar a vida religiosa, a espiritualidade, e as finanças pessoais é um dos mais atraentes becos sem saída da New Age, dos Novos Movimentos Religiosos, e do Paganismo. É muito comum encontrar quem encare a sua sustentabilidade como sendo interdependente da uma prática Pagã. Ou seja, “Sou Pagão, logo tenho um ganha-pão.” Desde quando? Porque, o facto de ser Pagão não torna ninguém um elemento da casta espiritual de uma “tribo” urbana, que vai zelar para que nada lhe falte. Nos dias que correm, qualquer um pode ter qualquer título (que não equivale a nenhuma certificação) e um ofício que lhe corresponda. Portanto, a oferta de serviços espirituais da mais variada ordem é bem maior do que a procura. A certo ponto, as comunidades esgotam-se em si mesmas e sem recursos financeiros só lhes resta voltarem à economia da troca directa.

Uma figura popular da Witchcraft como a “EnchantressSorita d’Este, que há mais de dez anos tinha uma carreira em Londres, da qual abdicou para se fixar em Glastonbury e gerir a sua própria editora, Avalonia, só conseguiu equilibrar ‘a barca’ porque estava no sítio e no momento certos, podia investir e sabia o que fazer. Financeiramente, não terá sido a melhor escolha possível, mas até ela está surpreendida por ter encontrado um estilo de vida e negócio viáveis, que lhe trouxeram muitos outros benefícios. Não pense alguém que escrever acerca da sua tradição ou espiritualidade pessoal e fazer pequenas edições dos seus livros e dos livros dos outros membros de covens ou groves vai ser sustentável, quanto mais um modo de vida. A ideia é romântica e parece haver clientela certa para oráculos e agendas lunares, em Sintra ou de Carcavelos a Carnaxide, mas se não se acautelarem, o mais certo é ficarem no prejuízo.

Mesmo em relação aos nichos mais populares, como o Druidismo, é preciso ter em conta que são muito vulneráveis às modas dos Paganismos modernos. De um modo geral, o mercado “Céltico” entrou em decadência, há cerca de uma década. Basta notar que em 2015, como em anos precedentes, nem na Grã-Bretanha conseguiram organizar The Druid Network Conference e outros eventos, por falta de público disposto a pagar para assistir, embora estivessem previstas as participações de figuras mais ou menos proeminentes. São excepções os Druid Camps, organizados em vários locais, por Philip Carr-Gomm (OBOD), como não poderia deixar de ser. O facto é que no Paganismo moderno, como nas recuperadas religiões da Antiguidade, não há infra-estruturas nem uma tradição de auto-financiamento, principalmente na Europa. Muitos Pagãos queixam-se de não terem acesso a uma série de benesses que existem nas religiões maioritárias, mas a verdade é que há poucos Pagãos dispostos a pagar a outros Pagãos, seja por não poderem, por ainda acharem que uma actividade espiritual não pode ter nada a ver com dinheiro, ou por desconfiança em relação a qualquer tipo de liderança ou organização. Gato escaldado…

É por causa deste cenário que vamos assistindo a metamorfoses súbitas, um pouco por todo o lado. É o fenómeno “clean-up”, em que as pessoas despem as suas personas espiritualizadas, deixam de tentar promover-se com base em qualificações dúbias e numa série de títulos que foram coleccionando e que listam de forma exaustiva em todos os cartazes relativos aos seus workshops e retiros. Começam a procurar formação credenciada numa área concreta ou a investir em pequenos negócios livres do ruido associado ao tema das espiritualidades. Em muitos casos, passam mesmo a negar qualquer associação à sua “encarnação” anterior, temendo que esse histórico dificulte a integração no mainstream ou no âmbito académico. Em situações menos radicais, apenas mudam de fantasia, em busca de novos públicos, passando da Bruxaria ao Yoga ou do Druidismo à “Arquetipologia” num ápice. Há um aspecto muito descartável em todas estas manifestações de sobrevivência.

Afinal, só porque alguém decidiu encarar uma actividade que deve ser remunerada como se fosse uma missão, não quer dizer que a sua comunidade tivesse de lhe suprir as necessidades básicas. Muitas pessoas defendem e contribuem para causas, de forma mais ou menos pública, sem estarem à espera, sequer, de um agradecimento. Quem tem seriedade, não se promove através de uma causa, nem conta com isso para se sustentar, ainda que apoie e ofereça informação acerca de determinados serviços. Uma religião e um movimento não têm de ser diferentes de qualquer causa. Infelizmente, há muitas minorias sob o pára-sol do Paganismo que confundem os factores. Isto degenera em problemas financeiros e frustração em relação à própria comunidade, da qual era esperado reconhecimento, a vários níveis. O problema nestes casos é sempre uma grande dose de precipitação e o facto de não preverem o óbvio. Porque nos movimentos e nas modas há sempre muita gente interessada, que “talvez” vá a uma série de eventos, mas que raramente confirma “inscrições” virtuais através de emails e transferências bancárias.

A responsabilidade por esta situação é, em grande parte, de quem oferece os seus “serviços Pagãos”. Porquê desvalorizar a necessidade de retorno financeiro? Porquê mentir de forma deliberada, para parecer desapegado, ou sentir-se culpado porque uma actividade gerou o mais pequeno lucro? Este é um aspecto residual muito cristão, com o sabor franciscano que está tão em voga, mas que a maioria prefere associar a filosofias do Oriente. Por outro lado, não seria mais saudável, recompensador, e honesto, separar bem as águas, sem querer transformar a mais comum leitura oracular ou massagem de relaxamento numa missão em territórios “místicos”, ainda que possam ter uma dimensão espiritual? Claro que isto não tem nada a ver com o Holismo, que não dispensa qualificações de excelência, as quais não se obtêm a não ser através de estudos formais. Ora, ao preço a que está a Educação e tendo em conta a entrega que exige, não se pode esperar que alguém certificado trabalhe de graça ou por quantias simbólicas, que mal dão para o combustível. Sobretudo, quando os profissionais não estão desesperados e os clientes (consumidores) podem pagar o valor justo por bens e serviços.

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