Guardiães de uma ilha

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

Sempre soube escutar os génios de lugar, mas foi na “grande ilha” que apurei esse instinto.

Nos últimos tempos, quando visito a Quinta da Regaleira, em Sintra, sinto-me incomodada com o ambiente do palácio. Isto não tem nada a ver com o facto de aquela arquitectura ecléctica – a la Portugal dos Pequeninos – não ser o meu cup of tea. A Álea dos Deuses permanece inalterada e os jardins escapam, mas não estão livres de uma tensão que me faz temer pela segurança dos visitantes que sobem às torres esguias e percorrem as grutas artificiais. Como estará a vigilância por aqueles lados? Talvez tenha a ver com a forma como o espaço está a ser explorado, para fins que em muitos casos não têm nada a ver com as premissas do lugar. Quem quer um espaço bonitinho para os seus eventos empresariais pode sempre ir à Lapa. Sloppiness é uma palavra que surge na minha mente e me leva a recear pelo “vermelho do veludo”. Falta atenção aos detalhes e, claro, uma residência daquelas sem grande parte do seu recheio original, ou à época, parece espoliada.

A propósito, não sei se daqui a uma década teremos a oportunidade de ver os delicados mosaicos da capela sem algum desgaste, tendo em conta os magotes de visitantes que entram e arrastam os sapatos por ali, antes de voltarem a sair como se não tivessem visto grande coisa. Ainda me lembro do tempo em que as pessoas dariam um dente da frente para lá entrarem e não se limitavam a passar vistoria, apenas porque o spot está indicado no roteiro turístico. Afinal, a quinta não esteve tantas décadas praticamente selada a lacre para ser dilapidada em menos de um quarto de século, com a ajuda de uma gestão com queda para o negócio da organização de eventos. Posso tentar encontrar apenas um motivo, mas o certo é que algo tem vindo a ser perturbado e não apenas porque o palácio está aberto ao público. Sei que sempre foi tão exaustivo como magnético, mesmo quando estava fechado. A primeira vez que eu tive a sorte de conseguir entrar foi em meados dos anos 90 e achei óptimo quando passou a ser visitável. Perdeu aquela aura solene e elitista dos espaços reservados aos doutos. No entanto, ali, como em qualquer lugar que passa a ser um ponto turístico, o equilíbrio é delicado.

Nullus locus sine Genius

“Nenhum lugar é sem um Génio”, escreveu Sérvio, em Virgilii Aeneidos Commentarius (Comentário à Eneida de Virgílio), 5, 95. Em Saturnalia, III, Macrobio deixou claro que cada cidade possui um Deus protector ou tutelar. Plínio confirmou isso mesmo, em Naturalis Historia (Historia Natural), XXVIII.

Se vivêssemos num mundo ideal, em que os arruaceiros não enchem um espaço sagrado com toneladas de lixo, em pleno solstício de Verão, nem sobem aos lintéis megalíticos, como se estivessem num viaduto qualquer, eu seria a favor da liberdade de circulação em Stonehenge, na Grã-Bretanha. Infelizmente, não conheci a planície de Salisbury no tempo em que não havia gradeamento em torno do monumento. Mesmo assim, valeu a pena pagar por visitas privadas de duas horas, em sistema de livre-trânsito, apesar dos mirones desbocados e da vigilância armada. Foram todos esquecidos, a partir do momento em que as pedras à nossa volta transformaram o som e as tocámos com reverência. Após um glorioso pôr-do-sol e também numa manhã quente e chuvosa, os corvos ficaram a observar-nos do alto das pedras, quando unimos as mãos para formarmos um círculo no centro do ‘ring’. Apesar de todas as confusões, violência, e polémicas, e ainda que os ‘gigantes’ venham a tombar, a minha experiência diz-me que é impossível oprimir ou aniquilar o génio daquele lugar.

Talvez o promontório de Tintagel seja dos locais mais mágicos, no sentido insólito do termo, onde o génio de lugar demonstra a sua presença através de imagens na paisagem e propicia eventos inesperados. É possível ver o seu rosto, a partir de determinados ângulos, à medida que subimos as escadinhas íngremes que levam ao átrio do castelo. Experiências como esta podem ter os dias contados, porque os visitantes vão passar a ser guiados através de uma ponte (com restrições de acessibilidade), directamente para o interior das ruínas. O antigo percurso estará disponível apenas num sentido, da ilha para o centro de visitantes. Assim decidiu o English Heritage, que é mesmo o único elemento inglês em Tintagel e que faz uma espécie de ocupação pacífica de um dos ex-libris da Cornualha. Pouco contribui para evitar a crescente “Disneyficação” do local, através da imposição de um imaginário revivalista Arturiano que atrai os turistas mais desinformados, mas que nada tem a ver com as origens da lenda nem com o folclore de Kernow.

Para quem se acostuma ao panorama grandioso e dramático da Cornualha e à suavidade das colinas sagradas do ‘Vale of Avalon’, entre as Quantock e as Mendip, a cidade de Bath pode não seduzir à primeira vista. Fica encafuada na paisagem, como se estivesse prestes a sumir-se pelo ralo. Mas há lugares que superam todas as expectativas e nos guiam noutras direcções, que sempre se insinuaram e apenas esperavam a nossa atenção. Muitas vezes, são aqueles que parecem atracções de somenos relevância, num itinerário pleno de lugares míticos, que sempre sonhámos visitar. Tendo em conta as minhas raízes portuguesas, noutra estância termal Romana, eu não devia ter ficado tão surpreendida com a familiaridade que senti ao chegar a The Roman Baths. O charme de um jantar gourmet, o quarteto a tocar ao vivo, os enormes lustres, e a fonte que dá o nome à deslumbrante Grand Pump Room, apenas aumentaram o encantamento. Para além disso, não há nada de que uma fã de Jane Austen – que cresceu em Seteais – não goste num cenário assim. Nunca pensei encontrar um lugar onde uma divindade tutelar, que neste caso é Sulis, estivesse tão reconfortada e se manifestasse com tamanha elegância. Sem dúvida, atenções não lhe têm faltado, ao longo de vários séculos em que a Cultura Clássica e as tradições autóctones foram preservadas e recriadas naquele microcosmos.

As caldas têm uma temperatura constante de 49ºC (120ºF) e são ricas em componentes minerais, sobretudo grandes quantidades de iões de sulfato de sódio, cálcio, e cloro. A maioria das nascentes de água quente da Grã-Bretanha emerge a temperaturas não superiores a 30ºC e por isso não são consideradas verdadeiras hot springs. Das onze caldas da ilha, cinco nascentes estão situadas em Bath e nas proximidades. Têm sido visitadas desde o Neolítico e na Idade do Ferro tornaram-se o foco de um culto local, que ganhou proeminência. Foi durante a ocupação Romana que o complexo com templo e balneário se formalizou sob o nome Aquae Sulis, em honra da divindade tutelar, que foi sincretizada com Minerva. O nome de Sulis, que não é de origem Romana, alude à visão (raíz proto-céltica) e ao sol (raíz proto-indo-europeia), e passou a ser usado como epíteto da Deusa capitolina.

Sulis Minerva não está só associada à cura, mas também à agricultura, à fertilidade, ao ciclo reprodutivo feminino, e sobretudo à amamentação. Foram encontradas algumas miniaturas representando seios esculpidos em marfim, que estavam consagrados àquela Deusa. Terão sido usados por mães enquanto amamentavam e depois oferecidos em sinal de agradecimento por uma boa produção de leite materno. A associação com a fertilidade está relacionada com a riqueza mineral das águas e a vida vegetativa, de cor verde, que prolifera em redor das nascentes. Isto reforça a conexão solar do nome da Deusa, uma vez que é a combinação da água com a luz do sol que permite uma boa colheita. Estes atributos não costumam estar associados a Minerva e revelam mais acerca da natureza da divindade autóctone. Ela também favorece a profecia, através do aperfeiçoamento de artes divinatórias que, mais uma vez, utilizam a água das nascentes em conjunção com a luz solar. Sulis não foi venerada em nenhum outro lugar e não pode ser transportada para outros contextos, embora existam divindades tutelares que têm funções semelhantes. Com Minerva não acontece o mesmo.

As nascentes representam os limiares sagrados e têm óbvias conotações ctónicas, o que justifica a grande quantidade de defixiones (placas de maldições) encontradas em Bath. Emergindo das profundezas do submundo, elas forneceram águas quentes e frias, que eram essenciais para os banhos Romanos. Mesmo depois do culto ter entrado em declínio, o complexo continuou a ter importância para os habitantes. No século XVII recuperou a sua relevância nacional, quando a realeza e a aristocracia passaram a deslocar-se a Bath e a “tomar as águas” para manterem a saúde. Por volta de 1720, a vila começou a desenvolver-se e a ser frequentada por quem queria ver e ser visto, transformando-se num centro da moda, marcado pela arquitectura Georgiana que evoluiu a partir do revivalismo Palladiano e que ficou a cargo de nomes como John Wood the Elder, o seu filho John Wood the Younger, o arquitecto neoclássico Robert Adam, e Thomas Baldwin, entre muitos outros que se voltaram para a Roma Antiga em busca de inspiração. É dessa época o elegante spa que nos foi legado. No presente, o moderno Thermae Bath Spa inclui a Piscina Minerva, que é uma das principais atracções, e continua uma tradição de dois mil anos.

Segue uma lista de locais sagrados e muitos outros pontos de interesse que visitei e honrei, por várias vezes durante alguns anos, no sudoeste de Inglaterra e na Cornualha, onde cada genius loci é perceptível e se manifesta, por vezes de forma surpreendente:

Círculos de pedras (e henge), alinhamentos, subterrâneos (fogou), e complexos funerários:

Stonehenge, Wiltshire, England

Avebury stone circles, Wiltshire, England

Kennet Avenue, Avebury, Wiltshire, England

West Kennet Long Barrow, Avebury, Wiltshire, England

Stanton Drew stone circles, Somerset, England

Nine Maidens of Belston Tor (perto de necrópole da Idade do Bronze), Dartmoor, West Devon

Boscawen-Un, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mên-an-Tol, West Penwtih, Cornwall / Kernow

Boskednan stone cirlce (Nine Maidens, Nine Stones of Boskednan), Ding Dong, perto de Porthmeor, West Penwith, Cornwall / Kernow

The Merry Maidens, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lanyon Quoit, e West Lanyon Quoit (vestígios) entre Madron e Morvah, West Penwith, Cornwall / Kernow

Zennor Quoit, Zennor, West Penwith, Cornwall /Kernow

The Hurlers, St Cleer, Cornwall / Kernow

Carn Euny / Karn Uni, fogou, Sancreed, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Colinas sagradas, naturais e artificiais (mound), e figuras:

Silbury Hill, Avebury, Wiltshire, England

Glastonbury Tor, Somerset, England

Chalice Hill, Glastonbury, Somerset, England

Wearyall Hill, Glastonbury, Somerset, England

Lollover Hill, Compton Dundon, Somerset, England

Burrow Mump, (Southlake Moor), Burrowbridge, Taunton, Somerset, England

Cerne Abbas Giant, Dorset, England

Zennor Tor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Michael’s Mount / Karrek Loos, “the grey rock in the wood” of Lyonesse (inclui igreja medieval, castelo palaciano, e jardins), Marazion, Cornwall / Kernow

 

Bosques e vales, ribeiros e cascatas:

Dundon Beacon, Compton Dundon, Somerset, England

St Nectan’s Glen and Waterfall, Trethevy, Tintagel, Cornwall / Kernow

Peters Wood e Minster Wood, Valency Valley, Boscastle, Cornwall / Kernow

Rocky Valley (inclui baixo-relevo, na rocha, de labirinto cretense), Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Poços sagrados e fontes termais:

The Chalice Well, Glastonbury, Somerset, England

The Roman Baths, Bath, Somerset, England

Sancreed Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

Madron Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Enseadas (coves), praias, portos e cabos:

Prussia Cove (King’s Cove), Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

Marazion beach, Mount’s Bay, Conrwall / Kernow

Newlyn Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mousehole Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lamorna Cove, West Penwith, Cornwall / Kernow

Pednvounder beach, (Treen beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthcurno beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Sennen beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Land’s End, West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthzennor Cove, Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Ives beaches (Porthmeor beach, Porthgwidden beach, Bamaluz beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Gwithian beach, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernwo

Godrevy beach, Peter’s Point, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernow

Port Isaac, Cornwall / Kernow

Tintagel beach, Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Jardins:

Chalice Well Gardens, Glastonbury, Somerset, England

Morrab Gardens, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

Trengwainton Garden, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Micheals Mount Gardens, Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

 

Fortificações:

Maiden Castle, Dorset, England

Cadbury Castle, Somerset, England

Dundon Hill Hillfort, Compton Dundon, Somerset, England

Tintagel Castle, Cornwall / Kernow

 

Igrejas, abadias e catedrais:

Glastonbury Abbey (inclui ruína de St. Mary’s Chapel), Somerset, England

Church of St. John the Baptist, Glastonbury, Somerset, England

St. Mary’s Church, Glastonbury, Somerset, England

St. Michael’s Tower (ruína), Glastonbury Tor, Somerset, England

St. Micheal’s Church (ruína), Burrow Mump, Taunton, Somerset, England

Wells Cathedral (inclui um relógio astronómico), Somerset, England

St. Andrew’s Church, Compton Dundon, Somerset, England

Church of St. Mary the Virgin, Belstone, perto de Okehampton, Dartmoor, West Devon

Minster Church, Boscastle, Cornwall / Kernow

St. Senara’s Church (inclui relevo, em madeira, de uma sereia, Mermaid of Zennor), Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Posso ter esquecido algum e talvez volte para fazer rituais e outras visitas. Um dia.

 

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