Lares fora do lar

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Esta reflexão parte da experiência pessoal e não tem nada a ver com alegadas tradições nativas da Europa, noções de Soberania e de casamentos simbólicos entre uma Deusa e um Rei, a terra e as pessoas, a natureza e a cultura, o feminino e o masculino, e outras noções dualistas que são constantemente simplificadas para servirem as religiões modernas e o ideal ecológico dos nossos dias.

É uma relação muito especial a que estabelecemos com locais que se tornam uma “casa fora de casa”. Home away from home é a expressão mundialmente reconhecível. A forma como a afeição surge pode parecer inexplicável, mas não é raro encontrarmos os motivos na nossa infância. Pensemos um pouco nos estímulos mais fortes e agradáveis que a nossa percepção de criança expandia e assimilava. Não parecem iguais na idade adulta e, no entanto, nunca deixamos de os procurar e de tentar senti-los como da primeira vez que os experimentámos. É natural que essa ligação a um lugar longe do entorno habitual se deva mais ao facto de nele termos reencontrado, com renovada intensidade, os estímulos que recordamos com prazer do que por ser radicalmente diferente. Torna-se mais fácil estabelecer uma conexão profunda e há boas razões para que seja assim, em particular quando a nossa presença numa determinada região ou cidade se torna recorrente ao longo de anos, ainda que a título esporádico.

Na religio Romana conhecemos os Lares Familiares, guardiães indígenas da habitação onde residimos. Eles são distintos do génio de lugar, por estarem circunscritos à casa onde formamos o nosso lar. A celebração anual que lhes é dedicada coincide com as calendas deste mês de Maio. Ao contrário dos Penates, que são protectores da família, ligados à nossa genética e aos nossos ancestrais, os Lares não se movem connosco quando viajamos e nos hospedamos em diversos locais. Eles são os residentes por excelência e é em torno deles que o culto doméstico se realiza. Assim, é importante reconhecer a sua existência quando vivemos numa casa que se torna significativa, ainda que aí fiquemos apenas temporariamente. É o que acontece a alguém que faz house-sitting por um mês ou mais ou aluga temporariamente uma casa que gostaria que fosse sua. O mesmo é válido para os time-sharing e as casas de férias. Sempre que a permanência numa habitação deixe de ter um carácter de hospedagem e passe a ser considerável, estabelecemos uma ligação com ela. Esta interacção pode ser estabilizada e nutrida, se procedermos de acordo com os preceitos de diversas tradições, sejam elas teístas ou energéticas.

É surpreendente percebermos que uma relação com um lugar e com as casas que vamos habitando é aprofundada a um nível íntimo através das nossas vivências. Este aspecto pode ser sentido por todos, sobretudo quando os laços com um local se estreitam devido a relacionamentos e à experiência de partilharmos o espaço onde moramos. Porém, uma mulher pode experienciar isso de um modo muito visceral, ao nível da sua sexualidade. Para dar um exemplo extremo, quando um parto acontece fora do país de origem de uma mulher, num local que lhe é muito familiar e significativo para si, esse evento contribui imenso para reforçar a ligação que sente. O contrário também é válido e pode ter consequências nefastas, mais ou menos evidentes, quando a conexão não aconteceu ou não foi estabilizada. De qualquer forma, é sempre uma ocorrência indelével, sobretudo se o parto for domiciliar.

Por muito menos, podemos manter-nos conectados com os nossos “locais de poder”, durante toda a vida, ainda que as nossas relações pessoais e os nossos afectos se alterem, que mudemos de região e voltemos aos nossos países de origem. Tomaremos sempre como nossos os infortúnios e as alegrias dessa terra e do seu povo e vamos sempre estar a par de detalhes como a meteorologia. Isto é particularmente verdade se a nossa “casa fora de casa” se situar junto à costa atlântica, para os lados de Mount’s Bay, perto do ponto mais ocidental da Península de Penwith, e se for semelhante às memórias mais precoces que temos do lugar onde crescemos e queremos viver.

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