Ficção versus Religião

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Ilustração artística original de Richey Beckett na capa para vinil da banda sonora composta por Paul Giovanni, lançada no 40º aniversário do filme “The Wicker Man” (Robyn Hardy, 1973), pela Silva Screen Records (2013). Edição comemorativa limitada a 1000 cópias.

É frequente encontrarmos elementos de Ficção nas práticas de carácter religioso, individuais ou colectivas. Isto acontece em várias correntes do Paganismo moderno e também da espiritualidade de raiz cristã. Por vezes conjuga-se com influências New Age e as formas mais populares e comerciais de Xamanismo, que é consequência directa da visão universalista (ou imperialista) do mundo, essencialmente cosmopolita e do âmbito do paradigma tribalista urbano. Dada a importância da veracidade histórica e o respeito pelas fontes primárias, esta tendência não se manifesta no Reconstruccionismo religioso de qualquer cultura nem nas recuperadas religiões da Antiguidade Clássica.

É um facto que as personagens de romances, como The Mists of Avalon, e de trilogias tão proeminentes como Lord of the Rings, ganham muitas vezes um carácter deífico, passando a ser cultuadas ou tidas como guias espirituais, à semelhança do que acontece com antepassados, santos e entidades. As encenações religiosas, os rituais e sacrifícios, a cenografia do espaço sagrado ficcional e a caracterização de grupos sacerdotais representados em filmes e séries televisivas, como Practical Magic, King Arthur, The 13th Warrior, Gladiator, Vikings e Rome, de forma mais ou menos fiel a uma pesquisa histórica acurada, são muitas vezes adoptadas à risca ou com ligeiras adaptações livres. Alguns grupos chegam a incluir elementos de cenas emblemáticas de obras polémicas e incompreendidas como Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick ou clássicos do humorístico ‘mystery horror‘ britânico, como The Wicker Man, de Robin Hardy (1973, baseado no romance Ritual, de David Pinner, publicado em 1967). Dependendo do grau de alienação dos indivíduos envolvidos, o resultado pode resvalar para o plano do burlesco.

Uma ferramenta útil para os estudiosos de matérias que relacionam Religião e Cultura Visual, na sua vertente popular, é a Encyclopedia of Religion and Film (2011). No prefácio, Eric Michael Mazur observa:

“A maioria dos Americanos passa mais tempo a ver e a pensar acerca de filmes do que a frequentar a igreja ou a considerar ideias religiosas tradicionais.”

O autor e editor dos livros The Americanization of Religious Minorities (Johns Hopkins University Press, 1999), The Routledge Companion to Religion and Popular Culture (John C. Lyden, Editor, and Eric M. Mazur, Editor; Johns Hopkins University Press, 2014) e God in the Details: American Religion in Popular Culture (Eric M. Mazur, Editor, and Kate McCarthy, Editor; Routledge, 2010) refere:

“Este trabalho não se destina a ser um catálogo de todos os filmes feitos na história global da indústria cinematográfica que incluem, representem, abordem, ou mencionem religiões específicas ou religiões em geral.

“O objectivo desta enciclopédia não é catalogar todos os filmes religiosos – quaisquer que sejam – mas dar aos leitores algumas ferramentas de que possam necessitar para avaliarem produtos visuais para si mesmos e permitir-lhes criarem as suas próprias listas de filmes (como quer que as definam) em várias partes do mundo em relação a várias – mas não todas – as tradições religiosas (e como estas são representadas em filmes).”

Christine Hoff Kraemer é uma académica de Estudos Religiosos especializada em Paganismo contemporâneo, sexualidade, teologia, e cultura popular. Em “Gender Essentialism in Matriarchalist Utopian Fantasies: Are popular novels vehicles of sacred stories, or purely propaganda?”, ela procura responder a várias questões, sendo a primeira:

“Se o mito é indefensável como narrativa histórica, poderá ser usado como uma história sagrada, como sugere a teóloga feminista Starhawk?”

Neste paper publicado na revista (peer-reviewed) Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, Vol. 11, Nº 2 (2009), Kraemer defende que:

“Apesar da pesquisa arqueológica continuar a confirmar que a narrativa da Pré-história matriarcal é pouco suportada por evidências científicas, o uso a que se tem prestado na Ficção demonstra a sua contínua viabilidade como história sagrada.”

Em “Notes toward a Pagan Theology of Fiction” (17 de Maio de 2013, no blog Sermons from the Mound: Pagan Theology and Scholarship, Pagan Channel, Patheos) Kraemer abordou esta temática de forma descomplexada, não se excluindo da sua análise:

“Os Pagãos geralmente concordam que a Ficção tem poder espiritual. Nas suas entrevistas a Pagãos, Margot Adler (autora de Drawing Down the Moon) e Sarah Pike (autora de Earthy Bodies, Magical Selves) observaram que os Pagãos citavam com frequência a Ficção Científica e a Fantasia como inspirações importantes para a sua vida espiritual. Na disciplina de Estudos Religiosos, em geral, há imenso material acerca de como as pessoas têm usados romances, filmes e outros média para fins espirituais.

“Os meus estudos focam-se na forma como a Ficção com uma tónica religiosa tem inspirado a realidade das práticas comunitárias, e como de seguida os indivíduos voltam a ficcionar essas práticas comunitárias para conseguirem articular melhor e disseminar os seus valores religiosos. À semelhança do mito, que tende a focar-se mais na verdade espiritual ou cultural do que na verdade histórica (embora possa haver um evento histórico ou personalidade no cerne desses contos), os Pagãos normalmente usam Ficção para clarificarem valores, descrevendo experiências extáticas ou articulando esperanças de forma que sintam ser espiritualmente autêntica – um propósito para o qual as descrições em prosa histórica literal não são apropriadas.

“Apesar de eu mesma ter achado que a Ficção é religiosamente inspiradora (especialmente a Ficção que inclui a adoração de deidades históricas), em geral eu mantenho as personagens derivadas do entretenimento da cultura pop fora das minhas devoções. Há qualquer coisa de cativante na sugestão de diZerega que se lhe for dada suficiente atenção e energia, um pensamento-forma originalmente baseado numa narrativa da cultura pop pode tornar-se responsivo (ou, talvez, que um espírito pré-existente use o disfarce dessas imagens para estabelecer contacto com os humanos). No entanto, eu tendo a concordar com Galina Krasskova, que fazer da cultura pop o foco de uma prática espiritual poderia impedir-nos de formar uma relação com o parcialmente esquecido, mas potencialmente muito responsivo espírito do local onde estamos e dos nossos próprios ancestrais.”

“Eu preocupo-me que a Ficção possa ter uma qualidade escapista, e que envolver-me com ela de forma demasiado directa na minha vida espiritual possa distrair-me ainda mais do local.”

Esta conclusão remete-nos para o incontornável genius loci, o génio de lugar presente na Religião Romana e, sob várias outras designações, em muitas culturas autóctones. Sem limitações de género ou estética pré-estabelecida, talvez seja ele o nosso melhor guia, quando se trata de acedermos às nossas heranças energéticas, religiosas e culturais.

Fazendo jus ao “Museum”

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Recriação da vida quotidiana de uma ‘witch’, no MWM (Fotografia: © Museum of Witchcraft and Magic)

A chegada das primeiras chuvas, depois de um Verão sufocante, vem reactivar o que de mais orgânico existe na minha memória, que se relaciona com o estio e o “tempo impetuoso” que por vezes se manifesta de forma surpreendente e implacável.

Esta é a época das transmutações e da sublimação. Assim, pensando em situações de grande impacto, reporto-me a acontecimentos com mais de uma década, que hoje podem ser olhados como agentes de mudança benéficos, ainda que na época tenham sido devastadores. Com o distanciamento que os anos e a geografia me permitem, observo também como alguns meios de comunicação usaram uma calamidade para redefinirem as razões pelas quais uma aldeia piscatória é conhecida em todo o mundo. Censuraram pontos de interesse incontornáveis, que o establishment continua a querer relegar para o mundo das sombras. Ou seja, tudo o que ainda não cabe na pretty picture de um Reino Unido pitoresco, próprio dos postais ilustrados que estamos à espera de encontrar à venda nas lojas mais cristãs do countryside.

Como é habitual, a BBC é a maior aliada de todos os que querem reescrever os factos, de forma a projectarem para o mundo a imagem idílica das “terras de sua Majestade”. Para alguns, é óbvio que estou a falar de Boscastle ou Kastel Boterel, no norte da Cornualha, e dos acontecimentos a que por pouco eu não assisti in loco, a 16 de Agosto de 2004. Os mesmos que foram relembrados em incontáveis artigos escritos por ocasião do décimo aniversário da flash flood, a cheia que destruiu grande parte da aldeia e de outros vales nas proximidades de Tintagel. Locais como Crackington Haven e Rocky Valley nem sequer foram mencionados nos noticiários. Exactamente por não serem tão conhecidos como a aldeia onde, desde 1960, existe um curioso museu que é acarinhado por muitos e detestado por alguns. O Museum of Witchcraft and Magic foi dos poucos edifícios poupados à destruição total. Apesar da sua localização mais próxima do mar e de ter sofrido muitos estragos, não foi arrastado pela enxurrada. Este facto excepcional não foi digno de nota em artigos com títulos sugestivos, como o da BBC News, “Boscastle: The village ‘washed on to the map’”, de 16 de Agosto de 2014, onde apenas foi feita um acanhada referência a um “Museum”, que só identificamos através do nome da colaboradora Carole Talboys.

Desapareceram do mapa setenta e cinco carros, cinco caravanas, vários barcos e seis edifícios, incluindo o centro de turismo junto ao parque de estacionamento e a loja cristã de lembranças que funcionava do lado oposto ao museu, no local onde agora existe uma simpática National Trust shop. Os detalhes relativos à violenta precipitação que se fez sentir durante algumas horas e às características geográficas que contribuíram para que o rio Valency se transformasse numa torrente estão amplamente registados. As operações de salvamento foram as que mais meios exigiram, depois da Segunda Guerra Mundial. Desde o primeiro momento, o piloto de um helicóptero da Sea King que sobrevoou a área afectada requisitou todos os meios aéreos disponíveis. Entre os Magnificent Seven, destacam-se os contributos de um helicóptero da Royal Air Force da Royal Marines Base de Chivenor, em Devon, que salvou cerca de sessenta pessoas, de outro da Royal Naval Air Station de Culdrose e da Cornwall Air Ambulance. Do balanço final não constou qualquer perda de vida humana nem ferido grave, graças a todos os esforços de inúmeros habitantes com grande presença de espírito, de cerca de cem bombeiros da Cornualha e de Devon e da Guarda Costeira.

Houve muitos heróis naquele dia e todos merecem ser recordados com gratidão. O que não é admissível é que aquela cheia terrível, que ganhou um lugar de destaque na História do Reino Unido, sirva de pretexto para o whitewashing do costume. Ou seja, para que se faça tabula rasa do papel que durante décadas o Museum of Witchcraft and Magic, inúmeros colaboradores no âmbito do Paganismo em geral, e histórias fatídicas de mulheres como Joan Wytte, desempenharam no quotidiano de Boscastle. A contribuição para a economia local pode ser avaliada pela média de 40,000 visitantes, nos anos anteriores à cheia, apesar da epidemia de Febre Aftosa que teve impacto no turismo da Grã-Bretanha. É imperativo que os leitores dos artigos censórios da BBC, que apenas descobriram a aldeia após a catástrofe, e os visitantes de todo o mundo que só lá foram depois de terminado o processo de reabilitação total, fiquem bem cientes da existência prévia daquele museu, apreciem-no ou não. Porque, em conjunto com o património natural de Valency Valley e de Peter’s Wood (NT), bem como de preciosidades espirituais e arquitectónicas como a evocativa Minster Church, o MWM sempre foi uma referência incontornável para iniciados em diversas tradições mágicas, viajantes esclarecidos, peregrinos cristãos progressistas e até os habituais holidaymakers.

Feita esta introdução, volto às minhas memórias de todas as visitas a Boscastle. A primeira aconteceu durante a Mists of Avalon Pilgrimage de 2001 e repetiu-se duas vezes. As imagens mais intensas que ainda guardo são de um dia de Verão que parecia não ter fim, em Agosto de 2004, poucos dias antes da tragédia. Nada fazia prever uma alteração tão súbita do clima e de tudo o que me rodeava, a não ser talvez os fortes ventos que durante aquela semana motivaram o encerramento provisório de Tintagel Castle. Depois de uma manhã e início de tarde passados em Port Isaac, Trevena, Rocky Valley e St. Nectan’s Glen, o mini-bus deixou mais um grupo da Sacred Journeys for Women junto ao caminho do bosque, que leva até à encantadora clareira de Minster Church. Após uma temporada em West Penwith, no sul da Cornualha, eu e um amigo, colaborador habitual da SJW, aceitámos o convite para mais uma partilha com o novo grupo de mulheres que tinha acabado de chegar à Cornualha, vindo de Glastonbury.

Finda a visita ao graveyard que cerca a pequena igreja, descemos em silêncio pelo “bosque de fadas e duendes”, até ao fundo do romântico vale onde o rio Valency era apenas um riacho cristalino. Descalça pela erva, estendi o meu xaile axadrezado na margem, sentei-me e acenei às outras mulheres que iam passando por mim. Quando cheguei ao ponto de encontro, no parque de estacionamento, a coordenadora avisou-me que o resto do grupo ficara para trás para ajudar uma das mulheres, que tinha torcido um tornozelo no sinuoso caminho do bosque. Devido ao atraso, era preciso que alguém familiarizado com o local fosse avisar o Graham King, o então proprietário e curador do MWM, para que ele soubesse o que se passava e pudesse contar com a visita do grupo, ainda durante aquela tarde. Assim, eu segui à frente e como sempre fui muito bem recebida no museu, com direito a visita gratuita em regime de livre-trânsito e à habitual troca de impressões acerca de algumas das peças mais interessantes da colecção. Não que o preço do bilhete fosse caro, bem pelo contrário, e eu sempre tive muito prazer em contribuir para o fundo que assegura a preservação do MWM.

O museu original foi fundado em 1951, na Ilha de Man, por Cecil H. Williamson. Ele empregou Gerald Gardner como ‘resident witch’, mas a amizade entre eles não durou, porque o reservado Williamson, que era fascinado pela Craft das “wayside witches” do West Country, nunca aprovou a prática Wicca do excêntrico Gardner. Após alguns anos, Cecil mudou o museu para Windsor, em Inglaterra, vendendo a Gardner o edifício e moinho conhecidos por ‘Witches Mill’. Para mais detalhes acerca destes e de muitos outros factos relacionados com estas figuras incontornáveis da Witchcraft contemporânea, recomendo a leitura dos livros de Philip Heselton, em particular “Gerald Gardner And the Cauldron of Inspiration: An Investigation into the Sources of Gardnerian Witchcraft”. Durante vários anos, Gardner e Williamson geriram museus separados, tendo Williamson mudado o local do seu museu para vários pontos do sul da Inglaterra, como a aldeia de Bourton-on-the-Water, em Cotswold, onde a comunidade cristã lhe fez a vida negra, com direito a ameaças de morte, gatos estrangulados e pendurados no seu quintal, e cocktails molotov atirados para o interior do museu. Por fim, acabou por se retirar para a Cornualha e se fixar em Boscastle, em 1960.

Graham King comprou o museu a Williamson em 1996, depois de decidir fazer uma mudança de estilo de vida radical. Cecil Williamson viria a morrer em 1999, aos 90 anos de idade. Segundo King, ele era um homem fascinante, witch e cunning-man praticante de todos os tipos de magia, que fazia ‘trabalhos’ para os seus clientes. Terá sido agente do MI6, exercendo funções de conselheiro oculto dos serviços secretos britânicos, durante a guerra. Mais um caso surpreendente, a juntar ao de Doreen Valiente que, segundo a recente investigação de Heselton, foi um dos elementos do Bletchley staff a que Churchill se referiu como “the geese that laid the golden eggs and never cackled“.

Quando Graham King tomou conta do museu, herdou o esqueleto de Joan Wytte, uma mulher nascida em 1775 que foi apelidada de “Fighting Fairy Woman”, devido à sua estatura pequena e carácter quezilento. Ela era conhecida pela sua clarividência e as pessoas recorriam a ela para obterem profecias e curas. Terá realizado simpatias, em particular uma espécie de magia popular em que usava farrapos ou ‘clouties’ das roupas de pessoas enfermas. Atava-os a árvores junto dos muitos poços sagrados que existem naquela zona rural. A ideia era deixar o trapo desfazer-se até desaparecer, como a doença que se queria debelada. Antes de ser enterrado, o esqueleto de Joan foi analisado por especialistas forenses que confirmaram a sua idade de trinta e muitos anos. Concluíram que ela foi uma fumadora e que usava um cachimbo de barro. Devido a um grande abcesso no dente do ciso direito, terá desenvolvido uma atitude irascível na fase final da sua vida. Terá proferindo imprecações de forma indiscriminada, envolvendo-se em lutas onde demonstrava a sua extraordinária força física, que levantou suspeitas de possessão diabólica. Por fim, foi acusada, não de bruxaria mas de desordem pública e roubo, e encarcerada na medonha Bodmin Gaol. Aí, sucumbiu às deploráveis condições de vida, tendo morrido de broncopneumonia em 1813, antes mesmo de ir a julgamento.

Os seus ossos tornaram-se uma oddity, foram usados em sessões espíritas e várias outras práticas, antes de chegarem ao museu de Williamson. A verdade é que as ossadas humanas sempre foram usadas como atracções e os restos mortais de Joan Wytte estiveram expostos durante quarenta anos. Porém, partilhando da mentalidade que rege causas como a HAD – Honouring the Ancient Dead, os novos responsáveis do museu acharam por bem que lhe fosse concedido um enterro decente. Para além disso, o museu tinha vindo a ser alvo de fenómenos como poltergeist, pelo que foi pedido conselho a uma witch com mediunidade, que revelou que o espirito da falecida desejava ter uma cerimónia fúnebre. Assim, em 1998, com grande discrição, Graham e as pessoas da sua confiança enterraram-na respeitosamente num recanto bonito de um bosque da região. Algum tempo depois, colocaram perto desse lugar um memorial dedicado àquela que se tornou uma lenda local e é frequente encontrarem flores que visitantes anónimos deixam junto da lápide onde está gravado o seguinte epitáfio:

“Joan Wytte

Born 1775

Died 1813

In Bodmin Gaol

Buried 1998

No

Longer

Abused”

A maior parte dos museus recebe grants, apoios de patrocinadores, mas devido à sua temática o MWM não atrai esses padrinhos e subsiste apenas das receitas de bilheteira e de doações de particulares. Não se trata de um grande negócio e recorre à sua estimada Society of Friends. Cada amigo paga uma subscrição anual em troca da newsletter e de um evento anual, durante o qual algumas pessoas são convidadas a palestrar acerca de assuntos relevantes. As subscrições e doações são usadas na conservação dos arquivos e aquisição de espólio. Para além disso, é frequente o museu receber objectos, sobretudo ferramentas rituais de ocultistas falecidos e até colecções inteiras. Muito do trabalho de inventário e manutenção é realizado por voluntários ou pessoas que se deslocam ao museu para efectuarem pesquisas e aceitam este acordo de reciprocidade. Uma vez que a publicidade gratuita é sempre bem-vinda, o MWM sempre soube tirar o melhor partido dos média, chegando a receber alguns valores de companhias de Televisão. O objectivo é sempre fazer a mensagem do museu passar para o público e a prioridade é receber muitos visitantes, porque de facto a preservação e expansão daquela colecção, única no Reino Unido e no mundo, depende sobretudo da afluência sazonal, da Páscoa ao Halloween, sendo possível agendar algumas visitas excepcionais durante o resto do ano. Após a devastação das cheias, foram aplicados todos os esforços e um grande investimento na recuperação do museu, que reabriu ao público, como se nada se tivesse passado, no dia 25 de Março de 2005.

Naquele longínquo fim de tarde de Agosto, depois das despedidas e mesmo antes de partir de Boscastle rumo a Devon, eu ainda tive tempo de passar pelo posto de turismo que viria a ser arrasado. Comprei algumas lembranças e o livro “The Quest for King Arthur” (David Day, forward by Terry Jones; Michael O’Mara Books Limited). Mais um adorado título na minha biblioteca e menos um exemplar perdido, entre tantos goodies levados para o mar pelas águas inclementes da cheia do rio Valency, que transbordou apenas dias mais tarde. O choque e a tristeza foram indescritíveis, mas a esperança e a resiliência das gentes de Boscastle, em nome do bem comum, tornaram-se exemplos a seguir.

Genius loci de Merlin’s Cave

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Genius loci manifesta-se na encosta sul de Tintagel Castle

Existe uma pequena enseada ambiciosamente chamada “praia” de Tintagel, que é banhada pelo mar azul-turquesa. O mesmo que na nebulosidade parece cor de chumbo. Nos dias mais ensolarados e quentes faz-nos querer entrar na água. Porém, no lado oposto do promontório, onde esta fotografia foi tirada, o vento pode ser implacável e o caminho pode ficar interdito aos visitantes.

Eu tive a sorte de pisar cada degrau desse percurso íngreme, várias vezes. Entendo que a erosão é um problema que ameaça o local e que a subida é fisicamente exigente, mas não aceito o argumento segundo o qual a solução seja implantar uma ponte nos rochedos. Sobretudo, quando essa ponte não irá colmatar a falta de acessibilidade a visitantes com mobilidade limitada. Para além disso, terá de ser fechada sempre que os elementos assim o ditarem. Tendo em conta o que já assisti em Tintagel Castle, isso acontecerá muitas vezes, mesmo no pico do Verão. Apesar disso, o concurso público promovido com alarido pela imprensa apurou um projecto vencedor. A juntar a outras atrocidades, esse será o símbolo máximo da usurpação de um dos mais importantes monumentos da Cornualha pelo English Heritage.

Outra incongruência é que, apesar do risco de erosão, tenha sido permitida uma operação invasiva numa área geológica classificada como Site of Specific Scientific Interest. É de notar que as Lendas Arturianas têm sobrevivido bem, sem necessidade de esculpirem rostos imaginários nas rochas de lugares tão proeminentes e sagrados como os trílitos de Stonehenge ou os White Cliffs of Dover. Assim, porquê abrir uma excepção em Tintagel? Em qualquer outro monumento histórico isso seria considerado vandalismo, mas junto da entrada da chamada Merlin’s Cave aquele rosto indigente surgiu com o estatuto imedato de “intervenção artística”. O que se seguirá? Talvez Damien Hirst tenha uma ideia.

Por esta altura, eu e qualquer pessoa que tenha visitado Tintagel Castle quando a presença do English Heritage se limitava à gift shop tem motivos para se sentir privilegiado. E que bom era dispensar a boleia da carrinha e seguir pelo caminho abaixo, da King Arthur Bookshop até à base do promontório, parando numa roulotte para comprar um cone de gelado mint/choc-chip e acabar descalça, a molhar os pés no mar! Outros tempos, que não eram ensombrados por estátuas do Darth Vader com dois metros e tal de altura e um nome ridículo que não quer dizer nada do que eles pensam, porque Gallos em Kernewek não é sinónimo de “poder” mas sim de habilidade ou capacidade de fazer alguma coisa. A maior intervenção que eu alguma vez fiz por lá foi guardar umas pedrinhas e seixos para recordação. So guilty…

É dessas visitas que eu guardo memórias de como a magia acontece e o genius loci de Tintagel Castle se manifesta. A cor azul-acinzentada da rocha que brilha com uma iridescência subtil e a luz, intensa e um pouco etérea, quando se mistura com a neblina marítima. Era assim que estava o ambiente, da última vez que lá estive. A maré estava baixa e eu desci até à praia na companhia de um amigo, que é músico profissional e se mudou de Londres para a Cornualha há mais de uma década, depois de muitos anos a sonhar fazê-lo. A caverna de tecto arqueado está situada abaixo do cabeço que se separou do promontório e liga a praia de seixos ao lado oposto, onde os raios de sol começavam a aparecer, logo após o meio-dia.

Caminhávamos com cuidado, olhos pregados ao chão, para compensar a súbita falta de luz e tentar ver onde pisávamos. Havia outros visitantes na caverna, mas não estava apinhada. Num instante, eu percebi que se tratava de um grupo de jovens mulheres norte-americanas, talvez um pouco mais novas do que eu. Quando estávamos a meio-caminho, olhando para a saída, vi que elas pararam quando estavam apenas um pouco mais adiante de nós. Foi como se tivessem planeado fazê-lo e reparei como assentiram em concordância, antes de começarem a entoar belas harmonias, num cântico que parecia de sereias. Seis silhuetas recortadas contra luz, num concerto para o qual eu nem sequer paguei bilhete!

Entretanto, eu pensei naquela figura cujo rosto apenas o vento e as ondas esculpiram e continuam a fustigar, do outro lado do rochedo. Imaginei que ele deveria estar encantado com aquelas vozes e com tudo o que de mágico acontece em Tintagel. Foi um daqueles momentos que não podem ser recriados. Uma dádiva que por alguma razão merecemos receber.

Eu serei para sempre tão grata!

Recomendo uma colecção de curtas-metragens acerca de Kernow e da Língua Kernewek, que está condensada em dois DVDs da autoria do Bardo do Gorsedh Kernow e produtor Denzil Monk. Inclui um documentário acerca da polémica ocupação (legalizada) de Tintagel Castle pelo English Heritage. O título é Tyskennow Kernow e os trailers podem ser vistos online:

Tyskennow Kernow – Trailer 1

Tyskennow Kernow – Trailer 2

 

Apropriação de Tintagel Castle

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“Tintagel”, William Trost Richards (1881)

Quando estive em Tintagel Castle pela última vez, durante a minha quarta visita, ainda não tinha começado o recente processo de “Disneyficação” levado a cabo pelo English Heritage.

“Myth, Magic and the Marketplace: The preservation and interpretation of Cornwall’s heritage within a spiritual tourism context” é um texto académico escrito em 2007 por Chantal Laws e Susan Stuart. Apesar de desactualizado e mal pesquisado, no que diz respeito a definições do âmbito dos Estudos Pagãos e dos Novos Movimentos Religiosos, se conseguirmos ler através do ruido, este é um registo realista acerca da intersecção da cultura popular com o abrangente conceito de “espiritualidade”, tal como está associado à chancela ‘Arturiana’ e ao marketing turístico em Tintagel. Foi exactamente por isso que me ocorreu que os cérebros do English Heritage (que desde Abril de 2015 se cindiu, dando lugar a numa nova organização chamada Historic England) devem tê-lo lido, para tirarem ideias.

Há quase três anos, tendo em conta o que estava a acontecer em Stonehenge, para mim era fácil prever o que está agora a passar-se em Tintagel. Foi nessa altura que eu recorri àquele ‘paper’ pela primeira vez, porque entendi o que as autoras tentaram definir com a expressão “espiritualidade Arturiana”. Afinal, eu pude experienciar esse fenómeno durante a minha primeira visita, no Verão de 2001. Isso foi antes de eu deixar de ser turista, sair à aventura e me mudar temporariamente para a Cornualha (Cornwall ou Kernow, na Língua Kernewek). Regressei várias vezes e fiquei sem pressa de partir. Pude estabelecer um contacto próximo com a população Cornish, à qual foi concedido estatuto de minoria étnica, em Abril de 2014. Fiz amigos entre os Bardos do Gorsedh Kernow, artistas, produtores e activistas pelos direitos daquele povo, que fizeram questão de regressar ao seu belíssimo ‘pais’ de origem, depois de anos a estudarem em Inglaterra, sem medo de enfrentarem os desafios impostos a quem teima em viver na Cornualha.

A aldeia de Trevena, Tre war Venydh, entretanto apelidada de Tintagel, devido ao famoso castelo nos rochedos, é um destino turístico doméstico, para famílias de todo o Reino Unido, para caminhantes do percurso costeiro, e para visitantes interessados nos Tintagel Cliffs, Site of Special Scientific Interest (SSSI), assim como nas atracções turísticas. A área apresenta desafios ao turista comum, devido a dificuldades de acesso físico ao promontório e à ilha, ao estado das ruinas e às escavações arqueológicas que aí têm lugar. No entanto, o estudo que referi concluiu que o chamado “turismo espiritual” é um segmento de mercado em crescimento e muito apetecível para quem explora o local e para toda a vila. Ou seja, a interacção entre espiritualidade, religião e turismo, alimentada pelo “conhecimento” romanceado da história de Tintagel Castle, que opõe Lenda e História, cria a possibilidade de uma experiência pós-moderna, a meio caminho entre o lazer e a peregrinação.

Surgiu a necessidade de o núcleo museológico, como instrumento ideológico e político que é, se adaptar a esta “franja espiritual” da audiência e expandir o ângulo de influência do imaginário Arturiano. Ora, o English Heritage, sendo uma poderosa alavanca da Propaganda Inglesa, sabe muito bem que Tintagel Castle é uma base estratégica para controlar a forma como a História é apresentada às hordas de turistas, “espiritualizados” ou não, britânicos ou estrangeiros, que vão em busca de entretenimento e não da verdadeira História da Cornualha, do povo de Kernow e, em particular, de Tintagel Castle. Nada de novo aqui! E foi precisamente isto que motivou a minha correspondência com Mr. Alex Page, do English Heritage (ler na íntegra, abaixo).

Esta “charity” independente, que tem crescentes liberdades para angariar fundos como melhor lhe aprouver, introduziu uma série de “inovações” no complexo de Tintagel Castle, de forma a tornar o local histórico mais apelativo para o grande público e a permitir um aumento do fluxo de visitantes. A juntar a um novo centro interpretativo, existem planos para uma ponte de ligação entre o promontório e a ilha, foi gravado um baixo-relevo representando o suposto rosto do lendário Merlin, espalharam várias placas de sinalização ao longo do percurso, cravaram na rocha uma estátua de bronze de grandes dimensões e discutível valor artístico, para além de muitas outras intervenções que violam os regulamentos do Scheduled Ancient Monument, do referido SSSI, da AONB (Area of Outstanding Natural Beauty), entre outros. Por fim, o que os responsáveis não tiveram em conta é que o mesmo estudo que mencionei também concluiu que no “turismo espiritual Arturiano” valoriza-se mais a qualidade da experiência e a autenticidade do que a quantidade de turistas, obrigando a uma abordagem sensível e sustentável.

“The legend that King Arthur never died is still extant, and it is said that he haunts the dark Tintagel cliffs and the ruins of the old castle where he was born in the form of a red-legged chough.”

in “North Cornwall Fairies and Legends” (Notes), by Enys Tregarthen, Author of ‘The Piskey-Purse’. With introduction by Howard Fox, F.G.S. Illustrated 1906, London Wells Gardner, Darton & Co., Ltd.

 

Recomendo vivamente a leitura atenta dos seguintes artigos e fontes:

“The Tintagel Controversy”, Dr. Tehmina Goskar (31 March, 2016)

“Authority, authenticity and interpretation at Tintagel”, Dr Tehmina Gorkar (29 June, 2016)

“A Cultural Insult a day”, Chris Dunkerley (Cornish Bard, Kevrenor), Australia, 26 April, 2016

Kernow Matters To Us

The Cornish are a Nation – an information page run by ‘Kernow Matters’ NGO

 

Segue a minha correspondência com Mr. Alex Page, do English Heritage:

26 April 2016

“Dear Mr. Page,

I’m writing from Lisbon, Portugal, to urge you to consider the way Tintagel Castle is being managed. I generally trust the English Heritage discernment and I don’t have the ambition to change your views, but I ask you to take notice of mine, on this matter.

I grew up in Sintra, a UNESCO World Heritage Cultural Landscape, and though I’ve always been critical of several less than optimal aspects concerning the management of its many historical sites, I’ve never had a reason to pen a letter such as this. I consider the situation at Tintagel to be an extreme one. I’ve refrained from writing to the English Heritage in previous years, about Stonehenge, where I’ve been, on the occasions of rather private group visits. I will refrain no more, when it comes to Tintagel Castle.

Since 2001, I’ve travelled to and lived sporadically in Cornwall and I’ve been a recurrent visitor of the site. One of the times I’ve been there, in July 2004, I couldn’t actually visit the castle because the path had been closed, due to strong winds. Despite any inconvenient, I’ve always felt honoured and privileged to have experienced an undisturbed Tintagel Castle. As for its connections to the Arthurian legends and whimsical characters, I’m more than happy to purchase as many glossy books as I can from the EH shop, but I don’t need any other stimuli for imagination. Doubtlessly, the best souvenir I keep is a memory of the dignity that is intrinsic to one of the most prominent historical places in Cornwall and the United Kingdom.

Although the English Heritage is getting worldwide attention, as the media reports on a number of superfluities being added to the site, this kind of publicity is hardly good publicity. Personally, I will continue to travel to Cornwall and visit the many historical sites, gardens, and other places of outstanding natural beauty, but I’m sad to inform you that I will avoid the ornaments that have been imposed onto Tintagel Castle. Especially, I shall not visit the site if the proposed bridge is built, because it won’t significantly improve the accessibility, while it will interfere, appallingly, with the magnificence of the headland and island. As a visual designer, I don’t need to replace the glorious image I keep in my mind with a substandard one.

Finally, I sincerely hope the people of Cornwall will be heard.

Kind regards”

A resposta de Mr. Alex Page:

10 May 2016

“Hello,

As you know, Tintagel Castle has a rich and varied history and, following the opening of a well-received exhibition in 2015, we have now launched a new outdoor interpretation scheme that will help people to further understand the history and legends of this internationally important site. The scheme contains a number of interpretation panels across the site telling the history of Tintagel from the 5th century to more recent times, as well as several artistic installations inspired by the site’s legends.

Tintagel Castle has a unique story, where archaeology, history and legend are intertwined – all of which are now explored on site. Since the Middle Ages, Tintagel’s legends and literary associations have played a key role in shaping the castle, and the importance of these legends is widely acknowledged by historians and archaeologists. We believe that understanding how these legends shaped Tintagel’s history is crucial to understanding the site, and our interpretation both explains this and places these legends within the context of the site’s overall history and significance. The exhibition we launched last year was praised both for its use of the Cornish language as well as its contents. Combined with the new interpretation, visitors to Tintagel can now get an even better overview of its history – from the artefacts discovered there to the legends associated with it.

We strongly believe that the new interpretation elements are not so large that they will negatively impact on the visual appeal of the site, whose massive and rugged character will essentially be un-changed. The majority of the scheme makes use of traditional methods of interpretation, with panels placed across the site exploring 1500 years of Tintagel’s history. There are a few Arthurian inspired artistic pieces including the carving of Merlin’s face which is a small, discreet element of the scheme, tucked away amongst rocks of the beach and haven and designed to complement its natural setting. The area of the site where it is located is constantly changing due to exposure to the elements and we believe that the carving will be a temporary installation, weathered away over time by the wind and waves. The sculpture, titled Gallos (‘power’ in Cornish) is inspired by both the legend of King Arthur and the historic kings and royal figures associated with Tintagel. Feedback to date from people who have visited and seen these pieces in the context of the whole scheme has been very complimentary.

The scheme was submitted for all of the necessary permissions and consents. We commissioned archaeological, ecological and geological surveys/assessments and consulted with Historic England, Natural England and the Tintagel Parish Council. We did not receive any objections, and any mitigation measures required as part of the consent are in hand and the site will be monitored, as recommended. The scheme was also available for all to comment on via the Cornwall Council Planning website and ultimately Cornwall Council made the decision. The proposed new pedestrian bridge is following a very transparent public engagement route, and to date we have held an on-line, and public, exhibition. Both were well received with thousands viewing and commenting on the concepts. The bridge will continue with our aim to help people better understand the Dark and Middle Age period of the site and will vastly improve access and reduce congestion.

Thank you again for writing to me about your concerns. I would like to reassure you that we take our role as caretakers of these sites very seriously and consider all elements very carefully when developing our interpretation.

Yours sincerely,

Alex Page.

 

Historic Properties Director – West

Tel 0117 975 0727 or 07747559940

Fax 0117 975 0701

English Heritage cares for over 400 historic monuments, buildings and sites – from world famous prehistoric sites to grand medieval castles, from Roman forts on the edges of empire to cold war bunkers. Through these we bring the story of England to life for over 10 million visitors each year.

The English Heritage Trust is a charity, no. 1140351, and a company, no. 07447221, registered in England.

This e-mail (and any attachments) is confidential and may contain personal views which are not the views of English Heritage unless specifically stated. If you have received it in error, please delete it from your system and notify the sender immediately. Do not use, copy or disclose the information in any way nor act in reliance on it. Any information sent to English Heritage may become publicly available.”

Finalmente, a minha contra-resposta:

12 May 2016

“Dear Mr. Page,

Thank you for your comprehensive reply. However, I’m afraid you said nothing about accessibility and some of your words work against you. My views remain unchanged, so let’s agree to disagree.

As you know, the duty of the English Heritage is to preserve historical places. Therefore, please, leave the legend to Literature and oral tradition. Metaphorically, it may be valid that legend shaped Tintagel Castle’s history, but the site was not developed because of any legend and, physically, does not reflect their imagery. If the English Heritage needs a place to create an interpretation centre that would precede the visit to the site itself, where panels and artistic installations can be included, maybe Tintagel Parish can indicate a park or garden where the objective can be better achieved. I have nothing against large sculptures, but they belong elsewhere, not on the site and if you think their interference is minimal, I may as well think it is excessive, because that’s subjective. I couldn’t be less interested in the mob’s opinions, frankly. I rather acknowledge the statement and credibility of a large group of independent historians. The English Heritage should not manage a place like Tintagel Castle to try to please a fee-paying public eager to be entertained. Your apologetic need to stress that the elements are “not so large” and that so-called Merlin’s face is a “temporary installation” only confirms that those elements are superfluous add-ons. Historically, and romantically, Tintagel Castle is what it is. What is physically there is visible. What is not physically there is simply inexistent and leaves fertile space for imagination.

As for the term “Dark Age”:

“Medieval historiography has eschewed this outdated term for 30 years or more. It is therefore disappointing that EH has carved it into a slate slab at the site. This is not good interpretation as it is going to perpetuate a very outmoded and unsubstantiated view of the past.” Dr Tehmina Goskar, in The Tintagel Controversy.

I will leave you with the words of Henry Jenner, in Tintagel Castle in History and Romance (1927):

“Altogether, Tintagel Castle, considering how famous it is, especially in modern imitations of Arthurian romances, has singularly little history and not much romance attached to it, when one comes to sum it up, and it was probably not really the scene of the one incident that brought it into notice. Historically and romantically Tintagel Castle is rather a fraud.”

Maybe the English Heritage could find a way to include those words in its “scheme”, as they too are part of Tintagel Castle’s story. I wrote story, not History.

Best wishes”

 

Avalon e as sombras de Marion

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Exemplar autografado por Marion Zimmer Bradley do seu best-seller “The Mists of Avalon”; Alfred A. Knopf, New York, 1982

Neste momento, estou num hiato de duas semanas entre retiros que, de uma forma ou de outra, nos convidam a revisitar as sombras do Sagrado Feminino.

No passado domingo, durante uma deliciosa refeição na companhia da tripulação e dos restantes passageiros que viajaram na Shamanic Airlines, veio à baila o assunto das sacerdotisas, do marketing associado à chancela de ‘Avalon’, da minha experiência pessoal de quase vinte anos com o universo de Glastonbury, e do nome de Marion Zimmer Bradley. Quando eu referi o escândalo de alegada pedofilia que envolve a escritora e que fez correr muita tinta virtual em 2014, sobretudo nos blogs e média internacionais, algumas pessoas atentas, cultas e informadas que estavam à mesa sofreram um choque. Na verdade, ficaram espantadas que tal notícia tivesse escapado ao seu radar. Portanto, é um facto que é preciso continuar a comentar o assunto, sobretudo em português, uma vez que eu não me lembro de ter lido sequer uma pequena nota no nosso idioma acerca disto, muito menos da parte de quem costuma invocar a escritora ou daqueles que agora detêm os direitos de publicação da sua obra no nosso país. Entretanto, o nome de Marion Zimmer Bradley continua a ser mencionado, sem que seja feito nenhum reparo referente aos factos chocantes.

Se é errado descartar a autora e o seu incontornável best-seller de uma forma hipócrita, é ainda pior continuar a usar o seu nome e o poder que os seus livros ainda têm sobre um público fantasioso e largamente desinformado, ao mesmo tempo que se faz uma espécie de acordo tácito a favor de um pacto de silêncio acerca das fortes alegações que foram feitas. Porém, agora estou em crer que muitas pessoas – sobretudo mulheres inevitavelmente inspiradas por aquele e outros best-sellers com a chancela ‘Avalon’ – permanecem vítimas do seu próprio desconhecimento, ou mesmo na conveniente incerteza de que isto não seja apenas um boato mal-intencionado lançado ao mundo por uma perturbada, traumatizada ou até vingativa Moira Greyland, em relação à sua própria mãe, a autora de “As Brumas de Avalon”, que em inglês tem o sonante título “The Mists of Avalon”:

 

“Olá Deirdre.

É muito pior do que isso.

A primeira vez que ela me molestou, eu tinha três anos. A última vez, eu tinha doze anos, e estava capaz de seguir o meu caminho.

Eu pus o Walter na cadeia por molestar um menino. Eu tinha tentado intervir quando ele tinha 13, dizendo à mãe e à Lisa, e elas apenas o afastaram para o apartamento dele.

Eu estava a viver parcialmente em sofás, desde os meus dez anos de idade por causa das drogas sem controle, das orgias e do constante fluxo de pessoas que entravam e saiam da nossa “casa” de família.

Nada disto devia ser uma novidade. O Walter era um violador em série com muitas, muitas, muitas vítimas (eu mencionei 22 aos polícias) mas a Marion era muito, mas muito pior. Ela era cruel e violenta, bem como completamente louca sexualmente. Eu não sou a sua única vítima, nem as raparigas foram as suas únicas vítimas.

Quem me dera ter melhores notícias.”

Moira Greyland

 

Ora, o melindre que estas acusações de pedofilia causaram foi agravado pelo facto de estarmos perante uma escritora com um tom francamente feminista, ou como prefiro dizer “anti-masculino”, que relega os homens, esses fracos, carentes e emasculados irmãozinhos mais novos, para um plano meramente secundário, que em nada pode competir com a superioridade das mulheres que os manipulam a seu bel-prazer. Talvez, uma metáfora para o que aconteceu aos meninos sexualmente abusados, alegadamente, tanto por Marion como pelo seu marido Walter Breen. Não, o nosso choque não tem a mesma dimensão daquele que sofremos quando descobrimos que outros autores e figuras proeminentes eram pedófilos que até escreviam sobre fadas e mundos de encantar. Porque esses eram homens e, infelizmente, quase todas as notícias de pedofilia nos forçam a encarar essa triste realidade no masculino. O problema é que este golpe surgiu de onde menos esperávamos, no feminino, e é por isso que parece doer mais. E o pior é que a acusada morreu e com ela a possibilidade de se fazer justiça, em relação ao que terá realmente acontecido.

Eu não convivo bem com o número de pessoas que agora dizem coisas como; “Eu sempre senti algo escuro / pesado / errado enquanto lia os livros dela.” ou “Eu mal consegui acabar de os ler!” ou “Nunca me passou pela cabeça comprar os livros dela!” Francamente, que pessoas tão sensíveis! Será por isso que um segredo tão horrível ficou escondido durante tantos anos? Assim que tudo veio finalmente a lume, as manifestações de incredulidade, indignação e profunda tristeza sucederam-se:

“Eu estou a ficar muito irritada. Não porque outro pedófilo foi exposto, mas porque ela e os abusos do seu marido estão a ser associados ao Paganismo. Vamos lá dar mais uma pedra à direita religiosa, para que eles a possam atirar a nós!

Não, eu não sou uma fã da Bradley e nunca fui. Tentei ler as Brumas e dei por mim a sentir raiva, apenas porque havia algo que fez disparar o meu alarme, e agora eu sei porquê.

Eu sou Pagã e tenho sido há quase 50 anos. Eu aprendi acerca das minhas práticas e crenças através de professores e não de livros. Eu não fui atraída para o Paganismo por causa de algo que alguém escreveu, mas porque sabia que era onde eu pertencia, desde muito jovem. Dito isto, não, eu não estou a criticar ninguém que tenha sido atraído para o caminho Pagão porque leu algo que o despertou para um lado seu com o qual tinha de se conectar. Encontrar o seu caminho é sempre pessoal.

O que eu estou a tentar dizer é que este assunto cria ligações perigosas. Ele permite que a direita religiosa aponte o dedo aos Pagãos e diga que somos os monstros que sempre nos acusaram de ser. Sim, a Bradley e o seu marido precisam de ser vistos como as pessoas doentes que eram e condenados pela dor que infligiram às vítimas dos seus abusos. Ela usou a sua fama para ganhar acesso às crianças e isso é uma coisa horrível, mas como todos os pedófilos ela usou o que tinha para conseguir o que queria.

Eu vivi por 10 anos em abuso sexual e muitos mais anos de abuso físico e mental. O meu agressor era católico, mas isso não faz de todos os católicos abusadores. Assim como Bradley, sendo uma agressora e Pagã não faz de todos os Pagãos abusadores, mas devido ao facto de ela ter sido um ícone para muitos Pagãos, ao discutirmos que ela foi descoberta como sendo um pedófilo estamos a formar um link que não precisamos nem queremos.”

Kathy Krauss O’Leary

 

“Para seu governo, fui eu quem expôs a história de Moira, e eu sou Pagã.

Existem várias narrativas possíveis e eu não podia impedir as pessoas de pensarem, mas isso não era razão para impedir que a história fosse contada.

Já agora, está preocupada com aquilo que o Paganismo PARECE?

Umm, por que não se preocupa antes com o estado de Moira e do irmão dela?”

Deirdre Saoirse Moen

 

“Eu não ligava nenhuma ao livro e não idolatrava a MZB, por isso eu não tenho o sentimento de perda e traição que muitos amantes do livro parecem estar a expressar. O que eu estou é triste. Porque, apesar de todas as nossas grandes intenções, dos altos ideais espirituais e sociais, ainda somos apenas pessoas – com tudo de bom, mau e feio de qualquer outra comunidade. A minha desilusão vem do fim da suposição ingénua de que este tipo de coisa não poderia acontecer aqui, connosco, na nossa comunidade. Nós somos melhor do que isto, não somos? Aparentemente não e isso é triste.

Eu olhava para os abusos e a hipocrisia das comunidades Católica, Batista e outras e sentia-me grata por este “tipo de coisa” não acontecer na nossa comunidade, porque eu acreditava que cuidamos uns dos outros e nos regemos por um padrão mais elevado. Muitas pessoas dizem o que fazem e agora está claro como a luz do dia que alguns de nós não fazem o que dizem. E isso deixa-me profundamente triste.

Claro, todos nós somos seres humanos imperfeitos, mas mesmo assim eu costumava acreditar que somos um grupo de indivíduos que tinha mais do que uma parcela de autoconsciência. Parecia que todos a quem já acudi, não importa o quão casualmente, acabariam por dar a volta e que iriarmos discutir as questões que cada um tem. Mas uma coisa é ter alguns problemas, outra bem diferente é ser um predador numa comunidade que tem sido tão aberta e crédula. Faz-me perguntar quantos mais de nós terão cometido crimes hediondos contra os mais vulneráveis da nossa comunidade.

Muitas pessoas deixam o mainstream, as religiões patriarcais, e encontrar-nos e acreditam que somos melhores, mais esclarecidos, mais confiável do que o que eles deixaram. Eles acreditam que somos uma comunidade onde podem ser livres para serem vulneráveis, onde podem crescer e curar-se. A nossa comunidade não tem o tipo de marcadores que as religiões patriarcais têm, que facilitam uma cultura de abuso e silêncio e, no entanto, lá está. Acho que é hora de limpar o orvalho dos meus óculos e perceber que somos apenas como todos os outros. E isso deixa-me triste. ”

Zanna Russell

 

Já lá vai o tempo em que os livros eram lançados à fogueira e eu, que sempre estive ligada ao mundo do Livro e sei em primeira mão o quão importante a obra de Zimmer Bradley é para o volume de vendas das editoras que em cada país detêm os direitos de publicação, defendo que todos os livros devem ser preservados, ainda que o seu conteúdo possa ser nefasto e que os seus autores tenham sido pessoas execráveis. Ainda que seja humanamente difícil, acredito que é possível discernir entre a obra e a mão que segura a pena ou clica no teclado. Não seria a favor da interdição de nenhuma obra, muito menos de romances que, apesar de qualquer negrume inerente ao enredo e às personagens, não são perniciosos. Muitos de nós que os lemos, fizemo-lo em tenra idade e sobrevivemos, por vezes, a múltiplas releituras. Conquanto tenhamos tido o privilégio de aceder a obras Arturianas, de Ficção e outras, relativas ao imaginário de Avalon, de qualidade muito superior, ainda assim relembramos esta ou aquela passagem das ‘Brumas’ e voltamos a esfolhear o livro. Muitos leitores viram a série televisiva e têm opiniões acerca de como a obra foi adaptada ao pequeno ecrã, sabendo que provavelmente nunca chegará ao Cinema. Talvez tenhamos pensado em sugeri-lo aos jovens da geração Harry Potter e Eclipse, que se deixaram enredar por outras teias. Entretanto, ficamos na dúvida se será acertado perpetuar a influência de um livro escrito por uma alegada pedófila. Para alguns, não restam dúvidas de qual a decisão a tomar.

Convenhamos que, sem a obra mais conhecida de Marion Zimmer Bradley:

– não existiriam tantas X, Y e Z de Avalon;

– que obras precedentes, de autores como Dion Fortune (“Avalon of the Heart”) e Geoffrey Ashe (“King Arthur’s Avalon – The Story of Glastonbury”), teriam permanecido nas brumas, inacessíveis às massas, relegadas para o plano de obras de culto de uma minoria mais esclarecida;

– que obras posteriores, de autores tão populares como Jean Shinoda Bolen (“Travessia para Avalon”) e Stephen Lawhead (“O Ciclo Pendragon”), talvez não tivessem sido publicadas ou, sequer, escritas da forma como foram, nem alcançado o volume de vendas que se verificou;

– que Glastonbury não seria o que é hoje, uma vez que todos os que de alguma forma interagiram com este contexto e com a chancela de ‘Avalon’, sem excepção, ainda que nunca tenham lido uma linha do que Marion Zimmer Bradley escreveu e se sintam repelidos pelo simples facto de ela ter sido uma máquina de best-sellers ou uma pseudo-Pagã que na verdade nunca renunciou ao Cristianismo e cujas cinzas foram espalhadas pelo Tor (for fuck sake), têm beneficiado, directa ou indirectamente da máquina de marketing gerada pelo fenómeno “The Mists of Avalon” e por muitos outros livros que mencionam a vila.

Congratulo Sorita D’Este, por ter sido uma das poucas pessoas em Glastonbury que se manifestaram publicamente acerca das acusações, lamentando “Mists of Avalon…oh oh dear”, “Mists of Avalon will never mean the same thing again.” Também Danu Forest dirigiu palavras de pesar e advertência a todos os que criaram uma “religião” a partir dos livros da autora. Os silêncios mais gritantes vieram mesmo daquelas pessoas que escolheram plasmar imagens inspiradas pelo livro nas pinturas ornamentais da casa que alberga o Glastonbury Goddess Temple, que sempre se apresentaram como uma transposição da “irmandade de sacerdotisas da Deusa e de Avalon” para a realidade dos dias de hoje, e que devem muita da sua popularidade ao sucesso da obra de Zimmer Bradley.

A título pessoal, em Junho de 2014, desde que tomei conhecimento da primeira troca de correspondência entre Moira e Deirdre Saoirse Moen, no meio bloguista, ainda antes de o assunto ter chegado a jornais como o The Guardian e o Washington Post, eu partilhei com os mais próximos a depravação que estava a emergir, de dia para dia. Porque a minha vida também foi tocada pelas ‘Mists’ e não teria tomado o mesmo rumo:

– se aos treze anos, após ter lido “A Casa da Floresta”, eu não tivesse pegado no primeiro de quatro volumes da edição portuguesa de “As Brumas de Avalon”, que algumas colegas de escola e várias mulheres que eu conhecia tinham lido e elogiado;

– se aos dezasseis anos, depois de devorar mais livros semelhantes e outros acerca de “passagens” para Avalon e muito mais, eu não tivesse descoberto que no mundo real, na ilha que sempre me fascinou, existe – mesmo – uma vila chamada Glastonbury. Um local onde foi criado um “espelho do Cálice” e preservado um poço sagrado, no meio de um jardim que pode ser visitado. Onde, ó delícia das delícias, existe mesmo uma estranha colina labiríntica (e não em espiral) que é o famoso Tor, bem como várias outras colinas mencionadas no romance de Zimmer Bradley (que afinal não é lá muito original). Vila essa onde até havia uma University of Avalon, que entretanto mudou de nome para se tornar Isle of Avalon Foundation. O mesmo local onde mora uma mulher chamada Kathy Jones, que nos finais dos anos noventa apareceu no Travel Channel a contar que sobreviveu a um cancro da mama graças à Senhora de Avalon e às águas ferruginosas da Nascente Vermelha. A mesma mulher que desenvolveu pela primeira vez a ideia romanceada por Zimmer Bradley de uma irmandade de sacerdotisas da Deusa e de Avalon, que encontrou receptividade em imensas mulheres, por todo o mundo. As mesmas que muitas vezes se esquecem que ninguém precisa da permissão de ninguém para fundar templos a qualquer divindade, porque ninguém detém direitos particulares em relação ao conceito de templo, de sacerdotisas da Deusa, nem de Avalon;

– se aos dezanove anos, em 1999, eu não tivesse enviado um fax para o escritório da Sacred Journeys for Women, na California, a pedir informações sobre a Mists of Avalon Pilgrimage;

– se aos vinte e um, depois de adiar por um ano a minha viagem, eu não tivesse finalmente ido ao encontro de uma ‘irmandade’ livre e muito especial que não pediu licença a ninguém para se chamar Sheela-na-Gig Sisterhood;

– se aos vinte e muitos, depois de perceber de que é feito o “Reino Unido” e aberto os olhos para questões como a Apropriação Cultural, eu não tivesse aprendido muito mais acerca de Glastonbury e da razão histórica porque se diz que esse é o local que mais se relaciona com Avalon, da qual tanto se fala sem nada se saber a respeito da origem francesa do nome e das fontes históricas onde a associação da mítica ilha com Glastonbury foi feita pela primeira vez, com recurso a argumentos linguísticos e outros detalhes circunstanciais, para servir interesses económicos que ainda hoje existem.

Eu poderia abster-me de abordar estes assuntos outra vez, depois de os ter mencionado brevemente em “Girl talk para todos”, e dizer que Avalon deixou de ser a minha praia, porque segui para outros jardins, mas isso não seria verdade. Com todo o conhecimento de causa, e respeitando quem “chegou” muito depois, esta será sempre a minha praia. Dado o meu percurso, que por muitos anos guardei para o meu círculo mais íntimo, sei que tenho o dever de dizer algumas palavras acerca destes factos, especialmente em Portugal, onde quase sempre a maioria “descobre a pólvora depois da guerra”. Eu nunca iria querer passar adiante e esquecer-me de tudo o que li, estudei e vivi graças à palavra escrita de Marion Zimmer Bradley. Sou a favor de que os seus livros continuem disponíveis, mas que sejam citados e vendidos com todas as cartas na mesa, em relação à vida da autora, para que os leitores menos avisados possam decidir lê-los ou não, por este ou aquele motivo.

Quanto à pedofilia e à forma como algumas pessoas repetem que não devemos julgar acções de pessoas de outros tempos e de contextos díspares do nosso, eu discordo. Para dar um exemplo Romano, por mais que eu admire e me apoie nos escritos de Cícero, não ignoro o facto de ele ter manifestado um interesse e saciado o desejo muito particular por meninas pré-adolescentes ou muito jovens e não estou disposta a aceitar que alguém tenha um estatuto especial, apenas porque é uma figura pública, criativa ou excêntrica. O abuso sexual, em particular o de crianças e jovens, é condenável em qualquer época e circunstância.

Como diz Deirdre Saoirse Moen, que se correspondeu com Moira e expôs todos os detalhes com a permissão dela, “não há palavras” para os poemas que se seguem. O primeiro foi escrito logo após a morte de Marion Zimmer Bradley e o segundo veio a público em 2014, o que nos deixa a pensar na quantidade de pessoas bem próximas da escritora, incluindo Diana L. Paxton, que fez o corta-e-cola de todo o material que a autora das ‘Brumas’ deixou escrito, tornando possível o lançamento póstumo de “A Sacerdotiza de Avalon” e “Os Corvos de Avalon”, que sem surpresa também foram best-sellers durante a primeira década deste milénio.

Mother’s Hands

© 2000 Moira Stern (Moira Greyland) in “honor” of my mother, Marion Zimmer Bradley

 

I lost my mother late last year

Her epitaph I’m writing here

Of all the things I should hold dear

Remember Mother’s hands

 

Hands to strangle, hands to crush

Hands to make her children blush

Hands to batter, hands to choke

Make me scared of other folk

 

But ashes for me, and dust to dust

If I can’t even trust

Mother’s hands.

 

They sent me sprawling across a room

The bathtub nearly spelled my doom

Explaining my persistent gloom

Remember Mother’s hands.

 

And hands that touched me way down there

I still pretend that I don’t care

Hands that ripped my soul apart

My healing goes in stop and start

 

Never a mark did she leave on me

No concrete proof of cruelty

But a cross-shaped scar I can barely see

The knife in Mother’s hands.

 

So Mother’s day it comes and goes

No Hallmark pretense, deep red rose

Except blood-red with her actions goes

It drips off Mother’s hands.

 

The worst of all my mother did

Was evil to a little kid

The mother cat she stoned to death

She told to me with even breath

 

And no remorse was ever seen

Reality was in between

Her books, her world, that was her life

The rest of us a source of strife.

 

She told me that I was not real

So how could she think I would feel

But how could she look in my eyes

And not feel anguish at my cries?

 

And so I give you Mother’s hands

Two evil, base, corrupted hands

And lest her memory forget

I’m still afraid of getting wet.

 

The bathtub scene makes me see red

With water closing over my head

No little girl should fear to die

Her mother’s fury in her eye!

 

But both her hands were choking me

And underwater again I’d be

I think she liked her little game

But I will never be the same

 

I’m still the girl who quakes within

And tries to rip off all her skin

I’m scared of water, scared of the dark

My mother’s vicious, brutal mark.

 

In self-admiring tones she told

Of self restraint in a story old.

For twice near death she’d beaten me,

And now she wants my sympathy.

 

I’ve gone along for quite awhile,

Never meant to make you smile

But here and now I make my stand

I really hate my mother’s hands.

They Did Their Best

By Moira Greyland

 

The cry of our day is to smile as we say

Something pat that sounds like understanding

And those of us left who still cry when bereft

Risk guilt trips upon our heads landing

 

Something pat that sounds like understanding

So the ones of us left Who still cry when bereft

Risk guilt trips upon our heads landing

 

For the party line now Is to claim that somehow

Everybody somehow did their best

So the ones who did wrong Goes the new New Age song

Aren’t to blame, we should lay this to rest.

 

But it’s lies, there are villains who are still out there killing

Or else for our courts there’s no need

Our jails are not filled With innocents willed

By a system corrupted with greed.

 

My mother did her best, yes she really did her best

To drown me for not being her willing lover

My daddy did his best, oh he really did his best

And forced his preteen boyfriends to bend over.

 

Some people are sick, like to make people suffer

Some people just turn a blind eye

But pretending a monster is ribbons and lace

May condemn a small child to die.

 

My husband was a cop and much child abuse had stopped

Like the mom who put her baby on the stove

She threw him out of sight but the smell she couldn’t hide

And she didn’t come out smelling like a rose.

 

Did that mommy do her best? Would you tell that little one

“Forgive her dear, she must have been insane”

Would you tell that to those burns, To that lie will you return

And hurt those shining eyes so full of pain?

 

A victim does his best, a victim does her best

To love and live and give up grief and malice

But when we had no love, but what came down from

Above It’s surprising we have not become more callous.

 

And how to learn to cope And not give up all my hope

Is painful far enough without your lies

But if you had seen me then With blood pouring off my skin

Would you have turned a deaf ear to my cries??

 

And told me “Mommy did her best, yes, she really did her best

So stop crying and stop bleeding and forgive her

To cut you she’s the right, and to throw you out of sight

And not love you till you sexually deliver!!