Genius loci de Merlin’s Cave

its-a-beautiful-day-isnt-it-lovely-to-feel-the-sun-on-our-faces-again

Genius loci manifesta-se na encosta sul de Tintagel Castle

Existe uma pequena enseada ambiciosamente chamada “praia” de Tintagel, que é banhada pelo mar azul-turquesa. O mesmo que na nebulosidade parece cor de chumbo. Nos dias mais ensolarados e quentes faz-nos querer entrar na água. Porém, no lado oposto do promontório, onde esta fotografia foi tirada, o vento pode ser implacável e o caminho pode ficar interdito aos visitantes.

Eu tive a sorte de pisar cada degrau desse percurso íngreme, várias vezes. Entendo que a erosão é um problema que ameaça o local e que a subida é fisicamente exigente, mas não aceito o argumento segundo o qual a solução seja implantar uma ponte nos rochedos. Sobretudo, quando essa ponte não irá colmatar a falta de acessibilidade a visitantes com mobilidade limitada. Para além disso, terá de ser fechada sempre que os elementos assim o ditarem. Tendo em conta o que já assisti em Tintagel Castle, isso acontecerá muitas vezes, mesmo no pico do Verão. Apesar disso, o concurso público promovido com alarido pela imprensa apurou um projecto vencedor. A juntar a outras atrocidades, esse será o símbolo máximo da usurpação de um dos mais importantes monumentos da Cornualha pelo English Heritage.

Outra incongruência é que, apesar do risco de erosão, tenha sido permitida uma operação invasiva numa área geológica classificada como Site of Specific Scientific Interest. É de notar que as Lendas Arturianas têm sobrevivido bem, sem necessidade de esculpirem rostos imaginários nas rochas de lugares tão proeminentes e sagrados como os trílitos de Stonehenge ou os White Cliffs of Dover. Assim, porquê abrir uma excepção em Tintagel? Em qualquer outro monumento histórico isso seria considerado vandalismo, mas junto da entrada da chamada Merlin’s Cave aquele rosto indigente surgiu com o estatuto imedato de “intervenção artística”. O que se seguirá? Talvez Damien Hirst tenha uma ideia.

Por esta altura, eu e qualquer pessoa que tenha visitado Tintagel Castle quando a presença do English Heritage se limitava à gift shop tem motivos para se sentir privilegiado. E que bom era dispensar a boleia da carrinha e seguir pelo caminho abaixo, da King Arthur Bookshop até à base do promontório, parando numa roulotte para comprar um cone de gelado mint/choc-chip e acabar descalça, a molhar os pés no mar! Outros tempos, que não eram ensombrados por estátuas do Darth Vader com dois metros e tal de altura e um nome ridículo que não quer dizer nada do que eles pensam, porque Gallos em Kernewek não é sinónimo de “poder” mas sim de habilidade ou capacidade de fazer alguma coisa. A maior intervenção que eu alguma vez fiz por lá foi guardar umas pedrinhas e seixos para recordação. So guilty…

É dessas visitas que eu guardo memórias de como a magia acontece e o genius loci de Tintagel Castle se manifesta. A cor azul-acinzentada da rocha que brilha com uma iridescência subtil e a luz, intensa e um pouco etérea, quando se mistura com a neblina marítima. Era assim que estava o ambiente, da última vez que lá estive. A maré estava baixa e eu desci até à praia na companhia de um amigo, que é músico profissional e se mudou de Londres para a Cornualha há mais de uma década, depois de muitos anos a sonhar fazê-lo. A caverna de tecto arqueado está situada abaixo do cabeço que se separou do promontório e liga a praia de seixos ao lado oposto, onde os raios de sol começavam a aparecer, logo após o meio-dia.

Caminhávamos com cuidado, olhos pregados ao chão, para compensar a súbita falta de luz e tentar ver onde pisávamos. Havia outros visitantes na caverna, mas não estava apinhada. Num instante, eu percebi que se tratava de um grupo de jovens mulheres norte-americanas, talvez um pouco mais novas do que eu. Quando estávamos a meio-caminho, olhando para a saída, vi que elas pararam quando estavam apenas um pouco mais adiante de nós. Foi como se tivessem planeado fazê-lo e reparei como assentiram em concordância, antes de começarem a entoar belas harmonias, num cântico que parecia de sereias. Seis silhuetas recortadas contra luz, num concerto para o qual eu nem sequer paguei bilhete!

Entretanto, eu pensei naquela figura cujo rosto apenas o vento e as ondas esculpiram e continuam a fustigar, do outro lado do rochedo. Imaginei que ele deveria estar encantado com aquelas vozes e com tudo o que de mágico acontece em Tintagel. Foi um daqueles momentos que não podem ser recriados. Uma dádiva que por alguma razão merecemos receber.

Eu serei para sempre tão grata!

Recomendo uma colecção de curtas-metragens acerca de Kernow e da Língua Kernewek, que está condensada em dois DVDs da autoria do Bardo do Gorsedh Kernow e produtor Denzil Monk. Inclui um documentário acerca da polémica ocupação (legalizada) de Tintagel Castle pelo English Heritage. O título é Tyskennow Kernow e os trailers podem ser vistos online:

Tyskennow Kernow – Trailer 1

Tyskennow Kernow – Trailer 2

 

Anúncios