Fazendo jus ao “Museum”

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Recriação da vida quotidiana de uma ‘witch’, no MWM (Fotografia: © Museum of Witchcraft and Magic)

A chegada das primeiras chuvas, depois de um Verão sufocante, vem reactivar o que de mais orgânico existe na minha memória, que se relaciona com o estio e o “tempo impetuoso” que por vezes se manifesta de forma surpreendente e implacável.

Esta é a época das transmutações e da sublimação. Assim, pensando em situações de grande impacto, reporto-me a acontecimentos com mais de uma década, que hoje podem ser olhados como agentes de mudança benéficos, ainda que na época tenham sido devastadores. Com o distanciamento que os anos e a geografia me permitem, observo também como alguns meios de comunicação usaram uma calamidade para redefinirem as razões pelas quais uma aldeia piscatória é conhecida em todo o mundo. Censuraram pontos de interesse incontornáveis, que o establishment continua a querer relegar para o mundo das sombras. Ou seja, tudo o que ainda não cabe na pretty picture de um Reino Unido pitoresco, próprio dos postais ilustrados que estamos à espera de encontrar à venda nas lojas mais cristãs do countryside.

Como é habitual, a BBC é a maior aliada de todos os que querem reescrever os factos, de forma a projectarem para o mundo a imagem idílica das “terras de sua Majestade”. Para alguns, é óbvio que estou a falar de Boscastle ou Kastel Boterel, no norte da Cornualha, e dos acontecimentos a que por pouco eu não assisti in loco, a 16 de Agosto de 2004. Os mesmos que foram relembrados em incontáveis artigos escritos por ocasião do décimo aniversário da flash flood, a cheia que destruiu grande parte da aldeia e de outros vales nas proximidades de Tintagel. Locais como Crackington Haven e Rocky Valley nem sequer foram mencionados nos noticiários. Exactamente por não serem tão conhecidos como a aldeia onde, desde 1960, existe um curioso museu que é acarinhado por muitos e detestado por alguns. O Museum of Witchcraft and Magic foi dos poucos edifícios poupados à destruição total. Apesar da sua localização mais próxima do mar e de ter sofrido muitos estragos, não foi arrastado pela enxurrada. Este facto excepcional não foi digno de nota em artigos com títulos sugestivos, como o da BBC News, “Boscastle: The village ‘washed on to the map’”, de 16 de Agosto de 2014, onde apenas foi feita um acanhada referência a um “Museum”, que só identificamos através do nome da colaboradora Carole Talboys.

Desapareceram do mapa setenta e cinco carros, cinco caravanas, vários barcos e seis edifícios, incluindo o centro de turismo junto ao parque de estacionamento e a loja cristã de lembranças que funcionava do lado oposto ao museu, no local onde agora existe uma simpática National Trust shop. Os detalhes relativos à violenta precipitação que se fez sentir durante algumas horas e às características geográficas que contribuíram para que o rio Valency se transformasse numa torrente estão amplamente registados. As operações de salvamento foram as que mais meios exigiram, depois da Segunda Guerra Mundial. Desde o primeiro momento, o piloto de um helicóptero da Sea King que sobrevoou a área afectada requisitou todos os meios aéreos disponíveis. Entre os Magnificent Seven, destacam-se os contributos de um helicóptero da Royal Air Force da Royal Marines Base de Chivenor, em Devon, que salvou cerca de sessenta pessoas, de outro da Royal Naval Air Station de Culdrose e da Cornwall Air Ambulance. Do balanço final não constou qualquer perda de vida humana nem ferido grave, graças a todos os esforços de inúmeros habitantes com grande presença de espírito, de cerca de cem bombeiros da Cornualha e de Devon e da Guarda Costeira.

Houve muitos heróis naquele dia e todos merecem ser recordados com gratidão. O que não é admissível é que aquela cheia terrível, que ganhou um lugar de destaque na História do Reino Unido, sirva de pretexto para o whitewashing do costume. Ou seja, para que se faça tabula rasa do papel que durante décadas o Museum of Witchcraft and Magic, inúmeros colaboradores no âmbito do Paganismo em geral, e histórias fatídicas de mulheres como Joan Wytte, desempenharam no quotidiano de Boscastle. A contribuição para a economia local pode ser avaliada pela média de 40,000 visitantes, nos anos anteriores à cheia, apesar da epidemia de Febre Aftosa que teve impacto no turismo da Grã-Bretanha. É imperativo que os leitores dos artigos censórios da BBC, que apenas descobriram a aldeia após a catástrofe, e os visitantes de todo o mundo que só lá foram depois de terminado o processo de reabilitação total, fiquem bem cientes da existência prévia daquele museu, apreciem-no ou não. Porque, em conjunto com o património natural de Valency Valley e de Peter’s Wood (NT), bem como de preciosidades espirituais e arquitectónicas como a evocativa Minster Church, o MWM sempre foi uma referência incontornável para iniciados em diversas tradições mágicas, viajantes esclarecidos, peregrinos cristãos progressistas e até os habituais holidaymakers.

Feita esta introdução, volto às minhas memórias de todas as visitas a Boscastle. A primeira aconteceu durante a Mists of Avalon Pilgrimage de 2001 e repetiu-se duas vezes. As imagens mais intensas que ainda guardo são de um dia de Verão que parecia não ter fim, em Agosto de 2004, poucos dias antes da tragédia. Nada fazia prever uma alteração tão súbita do clima e de tudo o que me rodeava, a não ser talvez os fortes ventos que durante aquela semana motivaram o encerramento provisório de Tintagel Castle. Depois de uma manhã e início de tarde passados em Port Isaac, Trevena, Rocky Valley e St. Nectan’s Glen, o mini-bus deixou mais um grupo da Sacred Journeys for Women junto ao caminho do bosque, que leva até à encantadora clareira de Minster Church. Após uma temporada em West Penwith, no sul da Cornualha, eu e um amigo, colaborador habitual da SJW, aceitámos o convite para mais uma partilha com o novo grupo de mulheres que tinha acabado de chegar à Cornualha, vindo de Glastonbury.

Finda a visita ao graveyard que cerca a pequena igreja, descemos em silêncio pelo “bosque de fadas e duendes”, até ao fundo do romântico vale onde o rio Valency era apenas um riacho cristalino. Descalça pela erva, estendi o meu xaile axadrezado na margem, sentei-me e acenei às outras mulheres que iam passando por mim. Quando cheguei ao ponto de encontro, no parque de estacionamento, a coordenadora avisou-me que o resto do grupo ficara para trás para ajudar uma das mulheres, que tinha torcido um tornozelo no sinuoso caminho do bosque. Devido ao atraso, era preciso que alguém familiarizado com o local fosse avisar o Graham King, o então proprietário e curador do MWM, para que ele soubesse o que se passava e pudesse contar com a visita do grupo, ainda durante aquela tarde. Assim, eu segui à frente e como sempre fui muito bem recebida no museu, com direito a visita gratuita em regime de livre-trânsito e à habitual troca de impressões acerca de algumas das peças mais interessantes da colecção. Não que o preço do bilhete fosse caro, bem pelo contrário, e eu sempre tive muito prazer em contribuir para o fundo que assegura a preservação do MWM.

O museu original foi fundado em 1951, na Ilha de Man, por Cecil H. Williamson. Ele empregou Gerald Gardner como ‘resident witch’, mas a amizade entre eles não durou, porque o reservado Williamson, que era fascinado pela Craft das “wayside witches” do West Country, nunca aprovou a prática Wicca do excêntrico Gardner. Após alguns anos, Cecil mudou o museu para Windsor, em Inglaterra, vendendo a Gardner o edifício e moinho conhecidos por ‘Witches Mill’. Para mais detalhes acerca destes e de muitos outros factos relacionados com estas figuras incontornáveis da Witchcraft contemporânea, recomendo a leitura dos livros de Philip Heselton, em particular “Gerald Gardner And the Cauldron of Inspiration: An Investigation into the Sources of Gardnerian Witchcraft”. Durante vários anos, Gardner e Williamson geriram museus separados, tendo Williamson mudado o local do seu museu para vários pontos do sul da Inglaterra, como a aldeia de Bourton-on-the-Water, em Cotswold, onde a comunidade cristã lhe fez a vida negra, com direito a ameaças de morte, gatos estrangulados e pendurados no seu quintal, e cocktails molotov atirados para o interior do museu. Por fim, acabou por se retirar para a Cornualha e se fixar em Boscastle, em 1960.

Graham King comprou o museu a Williamson em 1996, depois de decidir fazer uma mudança de estilo de vida radical. Cecil Williamson viria a morrer em 1999, aos 90 anos de idade. Segundo King, ele era um homem fascinante, witch e cunning-man praticante de todos os tipos de magia, que fazia ‘trabalhos’ para os seus clientes. Terá sido agente do MI6, exercendo funções de conselheiro oculto dos serviços secretos britânicos, durante a guerra. Mais um caso surpreendente, a juntar ao de Doreen Valiente que, segundo a recente investigação de Heselton, foi um dos elementos do Bletchley staff a que Churchill se referiu como “the geese that laid the golden eggs and never cackled“.

Quando Graham King tomou conta do museu, herdou o esqueleto de Joan Wytte, uma mulher nascida em 1775 que foi apelidada de “Fighting Fairy Woman”, devido à sua estatura pequena e carácter quezilento. Ela era conhecida pela sua clarividência e as pessoas recorriam a ela para obterem profecias e curas. Terá realizado simpatias, em particular uma espécie de magia popular em que usava farrapos ou ‘clouties’ das roupas de pessoas enfermas. Atava-os a árvores junto dos muitos poços sagrados que existem naquela zona rural. A ideia era deixar o trapo desfazer-se até desaparecer, como a doença que se queria debelada. Antes de ser enterrado, o esqueleto de Joan foi analisado por especialistas forenses que confirmaram a sua idade de trinta e muitos anos. Concluíram que ela foi uma fumadora e que usava um cachimbo de barro. Devido a um grande abcesso no dente do ciso direito, terá desenvolvido uma atitude irascível na fase final da sua vida. Terá proferindo imprecações de forma indiscriminada, envolvendo-se em lutas onde demonstrava a sua extraordinária força física, que levantou suspeitas de possessão diabólica. Por fim, foi acusada, não de bruxaria mas de desordem pública e roubo, e encarcerada na medonha Bodmin Gaol. Aí, sucumbiu às deploráveis condições de vida, tendo morrido de broncopneumonia em 1813, antes mesmo de ir a julgamento.

Os seus ossos tornaram-se uma oddity, foram usados em sessões espíritas e várias outras práticas, antes de chegarem ao museu de Williamson. A verdade é que as ossadas humanas sempre foram usadas como atracções e os restos mortais de Joan Wytte estiveram expostos durante quarenta anos. Porém, partilhando da mentalidade que rege causas como a HAD – Honouring the Ancient Dead, os novos responsáveis do museu acharam por bem que lhe fosse concedido um enterro decente. Para além disso, o museu tinha vindo a ser alvo de fenómenos como poltergeist, pelo que foi pedido conselho a uma witch com mediunidade, que revelou que o espirito da falecida desejava ter uma cerimónia fúnebre. Assim, em 1998, com grande discrição, Graham e as pessoas da sua confiança enterraram-na respeitosamente num recanto bonito de um bosque da região. Algum tempo depois, colocaram perto desse lugar um memorial dedicado àquela que se tornou uma lenda local e é frequente encontrarem flores que visitantes anónimos deixam junto da lápide onde está gravado o seguinte epitáfio:

“Joan Wytte

Born 1775

Died 1813

In Bodmin Gaol

Buried 1998

No

Longer

Abused”

A maior parte dos museus recebe grants, apoios de patrocinadores, mas devido à sua temática o MWM não atrai esses padrinhos e subsiste apenas das receitas de bilheteira e de doações de particulares. Não se trata de um grande negócio e recorre à sua estimada Society of Friends. Cada amigo paga uma subscrição anual em troca da newsletter e de um evento anual, durante o qual algumas pessoas são convidadas a palestrar acerca de assuntos relevantes. As subscrições e doações são usadas na conservação dos arquivos e aquisição de espólio. Para além disso, é frequente o museu receber objectos, sobretudo ferramentas rituais de ocultistas falecidos e até colecções inteiras. Muito do trabalho de inventário e manutenção é realizado por voluntários ou pessoas que se deslocam ao museu para efectuarem pesquisas e aceitam este acordo de reciprocidade. Uma vez que a publicidade gratuita é sempre bem-vinda, o MWM sempre soube tirar o melhor partido dos média, chegando a receber alguns valores de companhias de Televisão. O objectivo é sempre fazer a mensagem do museu passar para o público e a prioridade é receber muitos visitantes, porque de facto a preservação e expansão daquela colecção, única no Reino Unido e no mundo, depende sobretudo da afluência sazonal, da Páscoa ao Halloween, sendo possível agendar algumas visitas excepcionais durante o resto do ano. Após a devastação das cheias, foram aplicados todos os esforços e um grande investimento na recuperação do museu, que reabriu ao público, como se nada se tivesse passado, no dia 25 de Março de 2005.

Naquele longínquo fim de tarde de Agosto, depois das despedidas e mesmo antes de partir de Boscastle rumo a Devon, eu ainda tive tempo de passar pelo posto de turismo que viria a ser arrasado. Comprei algumas lembranças e o livro “The Quest for King Arthur” (David Day, forward by Terry Jones; Michael O’Mara Books Limited). Mais um adorado título na minha biblioteca e menos um exemplar perdido, entre tantos goodies levados para o mar pelas águas inclementes da cheia do rio Valency, que transbordou apenas dias mais tarde. O choque e a tristeza foram indescritíveis, mas a esperança e a resiliência das gentes de Boscastle, em nome do bem comum, tornaram-se exemplos a seguir.

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