Ficção versus Religião

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Ilustração artística original de Richey Beckett na capa para vinil da banda sonora composta por Paul Giovanni, lançada no 40º aniversário do filme “The Wicker Man” (Robyn Hardy, 1973), pela Silva Screen Records (2013). Edição comemorativa limitada a 1000 cópias.

É frequente encontrarmos elementos de Ficção nas práticas de carácter religioso, individuais ou colectivas. Isto acontece em várias correntes do Paganismo moderno e também da espiritualidade de raiz cristã. Por vezes conjuga-se com influências New Age e as formas mais populares e comerciais de Xamanismo, que é consequência directa da visão universalista (ou imperialista) do mundo, essencialmente cosmopolita e do âmbito do paradigma tribalista urbano. Dada a importância da veracidade histórica e o respeito pelas fontes primárias, esta tendência não se manifesta no Reconstruccionismo religioso de qualquer cultura nem nas recuperadas religiões da Antiguidade Clássica.

É um facto que as personagens de romances, como The Mists of Avalon, e de trilogias tão proeminentes como Lord of the Rings, ganham muitas vezes um carácter deífico, passando a ser cultuadas ou tidas como guias espirituais, à semelhança do que acontece com antepassados, santos e entidades. As encenações religiosas, os rituais e sacrifícios, a cenografia do espaço sagrado ficcional e a caracterização de grupos sacerdotais representados em filmes e séries televisivas, como Practical Magic, King Arthur, The 13th Warrior, Gladiator, Vikings e Rome, de forma mais ou menos fiel a uma pesquisa histórica acurada, são muitas vezes adoptadas à risca ou com ligeiras adaptações livres. Alguns grupos chegam a incluir elementos de cenas emblemáticas de obras polémicas e incompreendidas como Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick ou clássicos do humorístico ‘mystery horror‘ britânico, como The Wicker Man, de Robin Hardy (1973, baseado no romance Ritual, de David Pinner, publicado em 1967). Dependendo do grau de alienação dos indivíduos envolvidos, o resultado pode resvalar para o plano do burlesco.

Uma ferramenta útil para os estudiosos de matérias que relacionam Religião e Cultura Visual, na sua vertente popular, é a Encyclopedia of Religion and Film (2011). No prefácio, Eric Michael Mazur observa:

“A maioria dos Americanos passa mais tempo a ver e a pensar acerca de filmes do que a frequentar a igreja ou a considerar ideias religiosas tradicionais.”

O autor e editor dos livros The Americanization of Religious Minorities (Johns Hopkins University Press, 1999), The Routledge Companion to Religion and Popular Culture (John C. Lyden, Editor, and Eric M. Mazur, Editor; Johns Hopkins University Press, 2014) e God in the Details: American Religion in Popular Culture (Eric M. Mazur, Editor, and Kate McCarthy, Editor; Routledge, 2010) refere:

“Este trabalho não se destina a ser um catálogo de todos os filmes feitos na história global da indústria cinematográfica que incluem, representem, abordem, ou mencionem religiões específicas ou religiões em geral.

“O objectivo desta enciclopédia não é catalogar todos os filmes religiosos – quaisquer que sejam – mas dar aos leitores algumas ferramentas de que possam necessitar para avaliarem produtos visuais para si mesmos e permitir-lhes criarem as suas próprias listas de filmes (como quer que as definam) em várias partes do mundo em relação a várias – mas não todas – as tradições religiosas (e como estas são representadas em filmes).”

Christine Hoff Kraemer é uma académica de Estudos Religiosos especializada em Paganismo contemporâneo, sexualidade, teologia, e cultura popular. Em “Gender Essentialism in Matriarchalist Utopian Fantasies: Are popular novels vehicles of sacred stories, or purely propaganda?”, ela procura responder a várias questões, sendo a primeira:

“Se o mito é indefensável como narrativa histórica, poderá ser usado como uma história sagrada, como sugere a teóloga feminista Starhawk?”

Neste paper publicado na revista (peer-reviewed) Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, Vol. 11, Nº 2 (2009), Kraemer defende que:

“Apesar da pesquisa arqueológica continuar a confirmar que a narrativa da Pré-história matriarcal é pouco suportada por evidências científicas, o uso a que se tem prestado na Ficção demonstra a sua contínua viabilidade como história sagrada.”

Em “Notes toward a Pagan Theology of Fiction” (17 de Maio de 2013, no blog Sermons from the Mound: Pagan Theology and Scholarship, Pagan Channel, Patheos) Kraemer abordou esta temática de forma descomplexada, não se excluindo da sua análise:

“Os Pagãos geralmente concordam que a Ficção tem poder espiritual. Nas suas entrevistas a Pagãos, Margot Adler (autora de Drawing Down the Moon) e Sarah Pike (autora de Earthy Bodies, Magical Selves) observaram que os Pagãos citavam com frequência a Ficção Científica e a Fantasia como inspirações importantes para a sua vida espiritual. Na disciplina de Estudos Religiosos, em geral, há imenso material acerca de como as pessoas têm usados romances, filmes e outros média para fins espirituais.

“Os meus estudos focam-se na forma como a Ficção com uma tónica religiosa tem inspirado a realidade das práticas comunitárias, e como de seguida os indivíduos voltam a ficcionar essas práticas comunitárias para conseguirem articular melhor e disseminar os seus valores religiosos. À semelhança do mito, que tende a focar-se mais na verdade espiritual ou cultural do que na verdade histórica (embora possa haver um evento histórico ou personalidade no cerne desses contos), os Pagãos normalmente usam Ficção para clarificarem valores, descrevendo experiências extáticas ou articulando esperanças de forma que sintam ser espiritualmente autêntica – um propósito para o qual as descrições em prosa histórica literal não são apropriadas.

“Apesar de eu mesma ter achado que a Ficção é religiosamente inspiradora (especialmente a Ficção que inclui a adoração de deidades históricas), em geral eu mantenho as personagens derivadas do entretenimento da cultura pop fora das minhas devoções. Há qualquer coisa de cativante na sugestão de diZerega que se lhe for dada suficiente atenção e energia, um pensamento-forma originalmente baseado numa narrativa da cultura pop pode tornar-se responsivo (ou, talvez, que um espírito pré-existente use o disfarce dessas imagens para estabelecer contacto com os humanos). No entanto, eu tendo a concordar com Galina Krasskova, que fazer da cultura pop o foco de uma prática espiritual poderia impedir-nos de formar uma relação com o parcialmente esquecido, mas potencialmente muito responsivo espírito do local onde estamos e dos nossos próprios ancestrais.”

“Eu preocupo-me que a Ficção possa ter uma qualidade escapista, e que envolver-me com ela de forma demasiado directa na minha vida espiritual possa distrair-me ainda mais do local.”

Esta conclusão remete-nos para o incontornável genius loci, o génio de lugar presente na Religião Romana e, sob várias outras designações, em muitas culturas autóctones. Sem limitações de género ou estética pré-estabelecida, talvez seja ele o nosso melhor guia, quando se trata de acedermos às nossas heranças energéticas, religiosas e culturais.

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