Presente de menina

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The Original Rider Waite Deck, by Arthur Edward Waite & Pamela Colman Smith. The Sun, XIX.

Findo o Outono, com todas as tarefas de jardinagem que lhe estão associadas, e terminada a Saturnália, a confecção da orange marmalade e do primeiro bolo-rei, tenho mais uma vez vagar para regressar ao blog, mesmo antes do Dies Natalis Solis Invicti. Em época de presentes, derivada da tradição da Sigillaria, recordo o primeiro Tarot que tive.

Criada entre livros, foi o meu pai que me ofereceu o meu primeiro livro acerca de Tarot e um baralho com os Arcanos Maiores e as Figuras. Eu tinha seis anos. Não foi prenda de aniversário nem natalícia. Foi noutro dia qualquer. O baralho era pequenino, de sete por cinco centímetros e meio, ideal para as mãozinhas de uma criança curiosa, que se fartou de brincar com ele. Assim fui aprendendo a linguagem do Tarot. Ao longo dos anos, vários outros baralhos vieram até mim. Durante a minha primeira viagem à Grã-Bretanha, em plena Mists of Avalon Pilgrimage, a Enid Williams, uma iniciada da Fellowship of Isis, ofereceu-me os seus próprios Motherpeace Tarot Book & Deck, de Vicki Noble e Karen Vogel. Só alguns anos mais tarde, quando tinha vinte e cinco anos, escolhi e comprei o meu próprio Tarot de eleição. Mas comprar baralhos de Tarot e um certo “tipo” de livros nem sempre é fácil.

Aos dezoito, quando era uma estudante de Design, no segundo ano da faculdade, ia muitas vezes ao Chiado. Por vezes, ia encontrar o meu pai na Bertrand, mas passava muito tempo sozinha, a explorar as livrarias circundantes. Numa tarde bonita, fui atraída pela fachada Deco da Livraria Aillaud & Lellos. Há algum tempo, li o seguinte, no blog “Aprender uma coisa nova por dia”, no post de 15 de Fevereiro de 2015, “Hoje quero aprender sobre – As livrarias antigas de Lisboa”:

“Subsiste na Rua do Carmo esta livraria que abriu portas em 1931. Vende livros de todos os géneros, mas sobretudo edições mais antigas e livros generalistas, e uma das suas duas montras oferece sempre livros a preços promocionais. A fachada da loja mantém a traça original, em pedra cinzenta, e as duas colunas que ladeiam a porta ostentam motivos gravados em estilo Art Deco.”

É bom saber, porque a minha experiência foi contrária, porque não encontrei “livros de todos os géneros”. Não voltei lá. Não quer dizer que não volte, mas ainda não aconteceu. Tivesse eu menos bons exemplos e força anímica, o que escutei naquela livraria podia ter-me desencaminhando de muitos e bons estudos.

O meu hábito sempre ficar a namorar os livros, mas assim que entrei o vendedor, que talvez não fosse um verdadeiro livreiro, perguntou-me logo o que eu procurava. Eu pedi que me indicasse a secção de Esoterismo, como é costume chamar a um conjunto muito heterogéneo de publicações de várias áreas de estudo, que partilham estantes com livretes de instruções e curiosidades mais ou menos duvidosos. De facto, não gosto da palavra aplicada ao contexto, mas não queria entrar em detalhes e esperava uma simples indicação. Em vez disso, o funcionário manteve as mãos atrás das costas, sem nunca desmanchar um sorriso cínico e respondeu; “Aqui, não vendemos esse tipo de livros.”

Fosse hoje, eu sei muito bem o que lhe diria, mas a minha reacção foi não ter reacção, porque pensava que aquele tipo de resposta, antiguinha, pertencia à década de cinquenta. Acerca dessa época, Doreen Valiente disse, numa entrevista FireHeart, em 1999:

“You couldn’t buy a pack of tarot cards in those days. Literally. I tried for ages before I was able to get a pack of tarot cards, and nowadays, you can buy any amount of packs of tarot cards.”

Ora, aquele era o ano de 1998! De resto, achei que qualquer palavra minha seria escusada, para além das estritamente necessárias, antes de me retirar. Com o meu mais doce sorriso, agradeci, cumprimentei, e saí. Ninguém me mandou descer o Chiado!

Acredito que, na verdade, o problema foi mais o tipo de atendimento do que a livraria e duvido que não tivesse encontrado, pelo menos, os livros do Paulo Cardoso ou o Livro de São Cipriano.

Um par de anos após o a minha primeria ‘Glastonbury experience’, onde todas as livrarias têm aquele “tipo” de livros, passei algumas semanas em Londres, onde visitei a mais antiga livraria de Ocultismo do mundo, a Atlantis Bookshop, Museum Street, Bloomsbury. Agradeço ao meu pai, por me ter dado aquele primeiro Tarot e a liberdade para explorar todo o “tipo” de livros que alegravam as estantes das livrarias e da nossa biblioteca doméstica, em qualquer idade, sem demais considerações. De tal forma que, confesso, eu lia Anaïs Nin aos onze anos. Oops! Mais não digo, nestes dias doces que pertencem às crianças, que se querem muito curiosas. E viva o Sol!