Quando o intelecto se pompeia

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Pavão pintado na parede do salão de banquetes da Villa di Poppea, Oplontis; fresco anterior a 79 da Era Comum, Segundo Estilo (Fotografia: Mimmo Jodice/Corbis)

Ao longo dos anos, que vão passando a ser décadas, tenho observado que a tendência para a comparação e a busca de correspondências, independentemente de onde possa levar, é uma forma de evasão ao politeísmo. Na tentativa de abarcarem todos os deuses ou, no caso do Movimento da Deusa, todas as deusas, as pessoas em questão caminham a passos largos para uma nivelação. Isto nem sempre acontece de forma consciente. A excessiva intelectualização das divindades e religiões, a tentativa de as assemelhar e categorizar, e a necessidade de mascarar o desconhecimento em relação à tradição Romana, debitando conclusões mal fundamentadas e baseadas em aparências, afasta esses estudiosos de deuses e deusas concretos e de uma prática religiosa tradicional e eficaz, dando lugar ao eclectismo de improviso, à popular visão arquetípica e a uma postura apenas historicista, quase sempre privada dos numina.

Como Nick Farrell notou, num artigo acerca das ameaças ao ocultismo, “O intelecto é incrivelmente lógico e se começares com uma ideia podes levá-la até ao ponto em que se torna absurda”. Estes processos terminam com discussões altamente teóricas, sem qualquer base experiencial, acerca de pseudoquestões, meras definições ou jogos de palavras, que se tornam entraves e são irrelevantes para quem está concentrado em aspectos práticos da tradição que de facto conhece. A propósito, a importância das fontes primárias para o Cultus Deorum Romanorum não deve ser substimada.

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Dar de beber a quem tem sede

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‘Pombas a beber’- mosaico da Casa das Pombas, Pompeia (Museo Archeologico di Napoli)

O que não falta é quem queria vender-nos a fórmula do sucesso. Porém, no que diz respeito à Religio Romana do Cultus Deorum o sucesso perde o sentido que a maioria lhe atribui.

Por todo o lado encontramos dicas para cativar, manter e aumentar as audiências, os seguidores nas redes sociais, os membros de grupos de partilha, que muitas não são mais do que espaços de promoção pessoal ou corporativa. Devemos ser assíduos na publicação de imagens e artigos apelativos, mas somos aconselhados a não desenvolver, aprofundar, nem alongar muito as nossas intervenções online. Afinal, a maioria não escuta para entender, mas sim para reagir e retorquir. O importante deixa de ser o conteúdo e passa a ser a afluência, o movimento aparente que é produzido por um sem número de notificações que parecem comprovar a efervescente troca de ideias e, enfim, o sucesso de uma comunidade que se encontra sobretudo, ou apenas, no meio virtual. Para muitos, o que importa é que cada vez mais pombas venham beber da água que lhes dão.

Ora, esta lógica de gestão de trazer por casa não serve ao Cultus Deorum Romanorum e àqueles que, de forma altruísta, partilham o que aprenderam de fontes seguras e com a mais pura prática da sua tradição, ao longo de muitos anos e, em alguns casos, de décadas. Num artigo de 2015, Nick Farrell referiu o seguinte:

“Por medo de serem vistos como autocráticos, os professores permitem o bulling dos seus alunos ignorantes. É agora possível calar um professor que se atreva a referir que a adorada crença New Age de um aluno está errada. Foi-me dito online que é melhor que uma pessoa seja autorizada a distribuir as suas ideias ignorantes do que eu a questioná-las.”

Embora se referisse à degradação que o Ocultismo tem vindo a sofrer, é uma realidade que se verifica em diversos contextos. A explosiva receita de sucesso, que mistura a torrente de publicações não arbitradas e a censura daqueles que procuram moderar e esclarecer, em nada serve comunidades de pessoas que de facto querem aprender e expandir o seu conhecimento e prática de uma tradição religiosa como o Cultus Deorum Romanorum.