Retiro, o que me faz espécie

The Green Man by Brian Froud

The Green Man by Brian Froud

Se calhar sou eu que sou esquisita, mas tenho para mim que no caminho da Consciência está o respeito por uma noção de auto-preservação que assenta no princípio da Higiene. E se para alguns “ascetas” esse conceito se restringe à higiene mental, chegando a ser notório o desleixo com a limpeza do corpo físico, outras pessoas ainda se preocupam com medidas de higiene que deveriam reger muitos dos alegados “centros de retiros” espalhados um pouco por todo o mundo.

O primeiro que visitei, por semanas em anos consecutivos, desde 2001, deve ter-me deixado mal habituada. Trata-se de EarthSpirit Centre, em Dundon, nas proximidades de Glastonbury, que tem crescido sob o cuidado permanente do nosso querido e inesquecível anfitrião, o Green Man David Taylor. Ele sempre foi receptivo a sugestões que tem vindo a implementar, com vista a uma maior sustentabilidade, segurança e conforto. São prova disso as distinções que o centro tem recebido e que o tornaram referência incontornável no Reino Unido. É um Green Tourism Award Winner, com a categoria Gold, Kindred Spirit Awards Winner, e Ethical – CSR – Green Business of the Year.

Em Portugal, a minha experiência de permanência em locais que se identificam como “centro de retiros” é pequena e acredito que ainda não conheci alguns dos melhores, mas do que conheci, no distrito de Lisboa, serviu para identificar onde é que eu traço o risco. Se visitar novos centros, não deixarei de colocar questões como:

– quantas pessoas se servem da mesma casa de banho, em particular da mesma sanita?

– com que regularidade, durante o retiro, os sanitários são desinfectados?

– o preço do retiro é mais baixo do que nos outros centros porque não inclui a limpeza?

– quais a medidas tomadas quanto à deambulação e saúde de animais domésticos?

– quais as práticas de desinfestação e sua regularidade?

– existe uma máquina de lavar – ou pelo menos escaldar – louça a altas temperaturas?

Sim, porque, quanto a esta última, qualquer chafarrica que sirva cafezinhos em louça não descartável é obrigada por lei a ter tal equipamento! Ora, como é que em “centros de retiros”, sendo que alguns deles são perfeitamente ad hoc e funcionam em instalações que não foram pensadas nesse sentido, não se considera o que devia ser uma prioridade absoluta?

Deixei a sugestão relativamente à máquina de lavar loiça em um – e apenas um – dos casos, em que o centro é gerido pelos proprietários do local, que muito empenho e recursos têm investido num espaço que é, de facto, um exemplo a seguir. A outros, que funcionam com grandes limitações de instalações e autonomia dos próprios arrendatários, e sem prejuízo da relevância das actividades desenvolvidas, prefiro simplesmente não voltar. Aplico eu mesma a máxima que ouvi há dias, de uma pessoa responsável por um desses locais; “fica com o que te serve e deixa o que não te serve”. Sem dúvida! Especialmente em determinadas fases da vida, que exigem todos os melhores cuidados. Em todo o caso, para os que não querem ou não possam investir em equipamento, talvez não fosse má ideia deixarem claro a quem os visita que é melhor levarem louça própria e identificável, que possam usar e lavar (no habitual lavatório, com água fria ou tépida), sem corrermos o risco de andarmos a fazer roleta-russa, sobretudo com talheres que podem estar mais ou menos “lavadinhos”, segundo o conceito de limpeza de cada um/a, mas que nunca são realmente esterilizados.

Talvez, no entendimento de alguns, nós, os participantes de retiros, ainda tenhamos de “evoluir” até ao ponto em que acreditaremos que os Elementares nos protegerão das hepatites e de outras afecções. Mas confesso, nem em locais muito humildes, na Índia, senti que houvesse tamanho laxismo. E nem é que eu não acredite que muitos se sentem pioneiros e que estão a fazer o melhor que podem, com toda a boa vontade, mas a verdade é que para ter uma porta aberta e dizer ao mundo que se fundou e se é responsável por um Centro de Retiros, é preciso mais do que um yurt, uma garagem ou umas tendinhas, e boas intenções.

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