Germinar sementes de comunidade

Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing by William Blake (c. 1785).

Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing by William Blake (c. 1785).

Mais do que as particularidades do lugar onde decorre um retiro, o que de melhor pode acontecer nestas ocasiões é a co-criação de um microcosmos e da comunidade que nele germina, como uma semente. Cada uma destas sementes é excepcional, devido às infinitas combinações de seres, humanos e de todos os outros, que formam a sua essência e que determinam o que dela brota.

Na sequência do texto da semana passada, surgiu a necessidade de clarificar que um retiro extrapola o lugar, o “centro”, as condições físicas, em que um grupo se reúne. A semente de comunidade que integra o retiro é o núcleo da energia, não o “centro de retiros” que o recebe, ainda que o ambiente condicione a forma como a semente germina. Na minha experiência, a relação entre a dinâmica da comunidade formada em cada retiro e os influxos, ou se preferirmos as vibrações, que emanam do espaço físico pode ser definida por simbiose.

Durante as peregrinações de duas a três semanas em que eu participava, nos verões do início do milénio, a nossa primeira base era sempre EarthSpirit, onde permanecíamos pelo menos uma semana. Por mais day-trips que fizéssemos por todo o Sudoeste de Inglaterra, era lá que ancorávamos e estabilizávamos as nossas energias. Ficámos a conhecer bem o nosso entorno, através de caminhadas por Lollover Hill, de madrugada, à tarde, e quando a lua permitia. Estávamos cercadas de colinas onde muitos ancestrais ergueram os seus fortes, caçaram os seus cervos, e observaram o vôo das aves. Em Dundon Beacon aprendemos a reconhecer orquídeas e borboletas. Não havia uma fronteira rígida entre espaço exterior e interior. No main-hall, em torno da comprida mesa, sentávamo-nos para partilhar refeições vegetarianas, ao pequeno-almoço e ao final do dia, e lembrávamos os momentos mais marcantes de passeios, meditações e rituais.

À nossa volta sentíamos a reconfortante presença das pedras que desde o século XVII formam o celeiro, que de uma maneira tão graciosa e eficaz se transformou para nos acolher. Acima das nossas cabeças víamos as grandes traves de madeira e o telhado, com as suas janelas voltadas ao céu. E no cimo das escadinhas, do lado direito, chegávamos às familiares águas-furtadas, ao estilo casa na árvore, onde as ‘miúdas’ como eu dormiam, conversavam e riam a bandeiras despregadas. Aí tínhamos das mesmas janelas com vista para o céu, que nunca nos deixavam dormir para além das sete da manhã. Deitar cedo (ou até tarde) e cedo erguer, não era um sacrifício num refúgio assim. Sobretudo, quando a tarefa do dia era uma peregrinação ou um ritual, mais ou menos espontâneo, numa das colinas de Glastonbury, em Stanton Drew, Avebury, West Kennet, Stonehenge, e noutros sacred sites menos conhecidos.

De regresso a EarthSpirit, surgiam sempre muitas oportunidades para tecermos melhor a rede invisível que nos unia em comunidade; quer fosse durante as actividades na meeting-room, quer através da comunhão criada por tarefas domésticas que fazíamos em conjunto. Também nessa altura não havia máquinas de lavar louça naquele centro de retiros. Nem sei se já há! A estadia prolongada permitia-nos organizar um esquema rotativo, em que duas ou três de nós lavavam, ferviam e secavam a louça de todo o grupo, à vez. As nossas roupas eram lavadas em conjunto numa potente máquina, que parecia prestes a levantar voo e que ficava no anexo da casa principal, onde o nosso anfitrião morava com a família. Era sempre uma alegria quando íamos estender tudo para o quintal, descalças pela relva fresca. Pode até soar demasiado romântico e bucólico, mas só para quem não viveu a simplicidade destes prazeres sem preço.

Por tudo isto, senti um golpe energético quando tivemos de deixar EarthSpirit pela primeira vez, para seguirmos viagem para a Cornualha. Com vinte e um aninhos, acabadinha de sair da faculdade, criativa mas um tanto formatada, estava completamente despreparada para lidar, ou sequer compreender, o que estava a passar-se comigo. Na última manhã, quando partirmos para uma última paragem em Glastonbury, antes de seguirmos para a Cornualha, debulhei-me em lágrimas. Foi como se estivessem a empurrar um pintainho para fora do ninho. Como se não bastasse ter de me despedir da paisagem daquela região e de lidar com o afastamento da vila de Glastonbury, com a qual sempre deixei muitas pontas soltas, ainda tive de sentir a subtil, mas gradual alteração na dinâmica da nossa pequena semente de comunidade, que tão bem tinha germinado em EarthSpirit. Tudo isto não obstante o meu enorme desejo de chegar a Tintagel e (re)conhecer a Cornualha.

Daí em diante, esperavam-nos dois encantadores hotéis à beira-mar e um outro, discreto e charmoso, em Bath. A dinâmica da nossa comunidade de pouco mais de dez mulheres não voltou a ser a mesma e o meu humor continuou a oscilar, entre a expectativa e a leve melancolia. Nesses locais, parecíamos e sentíamo-nos mais como um vulgar grupo de turistas. Sem o espaço nutridor de EarthSpirit, tivemos de aprender a voar sem rede. Apesar de confortáveis, esses ambientes não foram os ideais para que a nossa semente continuasse a germinar. Por isso aproveitávamos o tempo passado em Dartmoor, nas Hurlers, em St.Nectan’s Glen, Peter’s Wood, Rocky Valley, …, e nos muitos sacred sites de West Penwith; quer fosse um holy well no meio dos campos de urze ou um dos vários círculos de pedra. Muitas vezes, bastava darmos as mãos e olharmo-nos nos olhos para que a nossa semente de comunidade continuasse a germinar.

Nos anos seguintes, eu comecei a compreender e a lidar melhor com as alterações de vibração do espaço e com as consequentes variações na dinâmica de cada uma das pequenas comunidades que integrei, a cada peregrinação. Fui crescendo até estar preparada para começar a co-facilitar. Portanto, fazendo por um momento a ligação com o meu texto da semana passada, quando alguém com estas vivências partilha impressões mais terra-a-terra e faz algumas apreciações, reparos ou até críticas, que se querem construtivas, acerca deste ou daquele aspecto da realidade actual de muitos “centros de retiros”, não se deve pensar que está de alguma maneira a tentar comparar a experiência de ficar num desse locais com uma vulgar e asséptica ‘hotel experience’.

Ainda assim, é bom não esquecermos que a oferta de um centro de retiros não deixa de ser híbrida, a meio caminho entre um produto turístico – com todas as garantias de conforto, higiene e segurança – e um espaço sagrado, onde a sustentabilidade e o respeito por tudo aquilo que há de mais subtil se combinam, para promover a germinação de todas as pequenas sementes de comunidade que aí se reúnem.

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