Quando tudo o que brilha é glitter

Unapologetic! Goddess Hall, Glastonbury

Unapologetic! Goddess Hall, Glastonbury

Há dias, fui surpreendida por uma notícia insólita, veiculada pelo jornal britânico The Telegraph, ao qual costumo reservar uma boa dose de cepticismo (fica o link para Cambridge May Ball accused by pagan student of belittling her religion). No entanto, os factos descritos são reais e não apenas uma anedota, conquanto hilariantes. No centro de mais esta polémica, para não variar, está a popular religião contemporânea de raiz britânica, Wicca. E escrevo “popular” no sentido mais Pop possível! Detalhes à parte, a notícia reflecte uma tentativa boçal de tornar exclusivos dessa religião a simples menção, o usufruto de Património da Humanidade para fins de culto, a reprodução de imagética de domínio público, e a celebração pública de festas sazonais ancestrais, sob qualquer pretexto, mesmo que apenas de natureza civil ou académica. Este tipo de atitude alude aos piores exemplos de grupos extremistas e repressores, que no contexto amplo e distópico das religiões Abraâmicas, continuam a inspirar os actos mais deploráveis de que temos notícia.

Existe a necessidade de os mais desleixados e inseguros seguidores das mais variadas religiões e espiritualidades se instruírem acerca das origens dos aspectos que tomam para si, recorrendo a uma forma desabrida de apropriação cultural, mas que agora dizem querer defender de todos os “outros” – percepcionados como infames não-Wiccan e não-Pagãos – a quem acusam de diminuírem e desrespeitarem a sua tão jovem e problemática religião. Esta educação deve passar pelo claro discernimento do que são Propaganda, Estética, Cultura Popular, Ficção, e Imaginação, de modo a desencorajar o infeliz hábito de tentarem fundamentar os seus cultos em revisionismo falaciosos, pseudociência, historicismo e percepções pessoais. Deparamo-nos com esta atitude em inúmeros fóruns online e nas redes sociais, manifestada por figuras com mais ou menos destaque nas suas comunidades, que são seguidas por milhares de pessoas dispostas a aceitar e repetir, sem questionar, toda e qualquer asserção subjectiva apresentada em termos generalistas como verdade histórica e social.

Em muitos casos, a atitude mais sã e honesta seria assumirem, sem preconceito nem complexo de inferioridade, que a Fantasia e a ingénua apropriação cultural de tudo o que brilhe, como glitter, são as pedras basilares de filosofias, espiritualidades, ou religiões mais ou menos monetizáveis via workshops, cursos, iniciações, publicações, e performances ad hoc. Um bom exemplo disto é o que acontece no universo utópico do Goddess Hall, em Glastonbury cuja pintura da fachada não deixa dúvidas quanto à fonte de inspiração do principal foco de culto da Deusa naquela vila. Unapologetic! Nem os escândalos que envolvem o nome de Marion Zimmer Bradley arranham a utopia. É suicídio intelectual tentar argumentar com base em quaisquer fundamentos históricos (inexistentes), perante este tipo de fenómeno religioso.

Recordo um excerto das conclusões e sugiro a leitura integral de um texto académico muito mais abrangente, da autoria de Christine Hoff Kraemer. Por ser uma insider da Wicca, poderá servir de role-model àqueles a quem falte a motivação para a leitura aprofundada e o entendimento teológico da sua própria religião, que precisem de um estímulo para investirem na expansão das suas consciências, educação, e capacidade de encontrarem vias mais acertadas para o saudável crescimento espiritual, religioso e até cívico:

«Dado o facto de o Paganismo e o culto da Deusa contemporâneos colocarem o mito e a história sagrada no centro de suas práticas religiosas, sugiro que esse intercâmbio perpétuo entre a produção artística e o desenvolvimento desses novos movimentos religiosos seja uma parte essencial do seu sucesso. Os Pagãos e os adoradores da Deusa não se convertem a esses movimentos lendo teologia ou sendo convencidos pelo dogma. Muitas vezes, eles encontram um romance ou uma história que os inspira e que pode fornecer um quadro mitológico para as crenças espirituais e políticas que eles já possuem. As novelas populares, como as que eu examinei, tornaram-se importantes documentos missionários para o movimento Deusa, uma estratégia que também foi usada pelos antepassados ​​espirituais dos movimentos, os ocultistas como Gerald Gardner, Aleister Crowley e Dion Fortune.

A eficácia desta estratégia na propagação do Paganismo contemporâneo e do culto da Deusa leva-me a concordar fortemente com Eller quando identifica o desejo matriarcalista de historicidade como um impulso destrutivo. Numa cultura que valoriza a visão de mundo científica tanto quanto a nossa, basear a fé religiosa em erudição histórica desmascarada está a construir fundações em areia. Infelizmente, alguns adoradores da Deusa acreditam que a legitimidade histórica é a única coisa que justificará sua religião aos olhos dos outros. Gostaria, em vez disso, de advertir que um desejo tão grande de legitimidade histórica minará uma das maiores forças dos movimentos: a capacidade de adaptar livremente histórias poderosas para satisfazer as necessidades espirituais em mudança de quem se sente desamparado pela religião convencional. As histórias, e não os artefactos arqueológicos, são a fonte do empoderamento dos adoradores da Deusa; e é o poder dessas histórias que transformam romances como The Mists of Avalon em best-sellers, mesmo sem a promessa de que “isso realmente aconteceu”. Seria sábio que aqueles nos movimentos Pagãos feministas e contemporâneos deixassem de insistir na historicidade do matriarcado pré-histórico e, em vez disso, se concentrassem no poder presente dessas histórias para satisfazer espiritualmente os praticantes. O resultado seria um movimento mais forte que não precisaria sentir-se ameaçado por novas pesquisas, bem como um que entenda claramente a origem de seu apelo de uma sociedade que associe a religião convencional com a rígida moralidade e dogma. »

in Gender Essentialism in Matriarchalist Utopian Fantasies: Are popular novels vehicles of sacred stories, or purely propaganda?, Christine Hoff Kraemer [The Pomegranate 11.2 (2009) 240-259]

 

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