As mil e uma Lupercálias

Festival da Lupercália, Andrea Camassei, 1635 (Museu do Prado)

Festival da Lupercália, Andrea Camassei, 1635 (Museu do Prado)

Num mundo tão carente de enlevos, com a entrada do Mensis Februarius parece que de repente surgem muitos apreciadores da Lupercália, mas será assim? E será que os cultores modernos deste ou daquele culto de inspiração Romana se importam que haja tanta gente a criar iniciativas vagamente inspiradas num festival Romano? Pelo menos uma vez por ano, pode sentir-se alguma estima popular pelo mais conhecido dos festivais de Roma. Ainda que o facto de ser conhecido não seja sinónimo de ser entendido no seu propósito e na sua raiz. É apenas um mote muito popular, devido ao emblemático animal que evoca e que serve de pretexto para uma noite de festa numa qualquer adega rústica ou para eventos de carácter mais ou menos íntimo e restrito. Nada que se assemelhe minimamente à misógina “tradição de fertilidade” praticada por jovens nobres besuntados de óleo e vestidos apenas com peles de ovinos, que saíam pelas ruas de Roma a chicotear as mulheres, jovens e até grávidas, usando espessos chicotes de pele.

A Lupercália era uma ocasião em que os sacerdotes Luperci sacrificavam cabras e um cão, mas nunca de acordo com a ancestral Tradição de Numa, que exclui todo o sangue. Há um manancial mais remoto, que vai do Neolítico à Grécia e à Ligúria, que relaciona as raízes da Lupercália com a cabra, para além da “loba” de Roma. Lembremos a figura de Faunus, duplo da mais ancestral Fauna, e do animal que este senhor dos rebanhos evoca. Em geral, estes factos são completamente desconhecidos ou descartados por aqueles para quem as associações com a sexualidade das “lobas” são muito mais apelativas. Mas também neste ponto, ao contrário da crença actual, o acto sexual não era uma oferenda aos Deuses Romanos e não fazia parte nem do culto público nem do culto privado. O sexo orgiástico tem tanto a ver com a Religião Romana como o “sexo tântrico” tem a ver com Tantra tradicional. Mas ambos vendem, sempre. Por isso, de certa forma, ainda pode haver alguma associação com a prostituição. Entenda-se que em Roma este degradante comércio não era visto com a carga negativa que mais tarde lhe foi associada, o que também não quer dizer fosse em circunstância alguma considerado sagrado e que possa ser saneado.

Seja como for, há sempre “animais de poder” mais populares do que outros. Chas Clifton, em Nature Religion for Real (originalmente publicado em GNOSIS 48, Verão 1998) observou; «Não deveriam as pessoas que se dão nomes mágicos de falcões e lobos e ursos pelo menos olhar um desses animais nos olhos, fora de um zoológico? E por que razão ninguém tem uma trepadeira de peito branco como animal de poder? Será porque essa ave não existe em nenhuma caixa de Animal Crackers? Será que as pessoas que reclamam essas associações estão realmente conectadas com esses animais no seu habitat ou estarão apenas a projectar o seu próprio desejo de poder?» Lá está! Alguém ainda quererá saber das cabras quando podem antes evocar as lobas? Sejam bem-vindos aos meandros dos xamanismos pós-imperialistas, da descontextualização e da apropriação cultural mais ou menos inocentes. Quanto a cultos ao Lobo, ao contrário da Creta Minóica, de Mecenas e da Grécia, em Itália o lobo fazia apenas parte da superstição, dos augúrios e magia popular e não existia nenhum culto específico a um Deus-Lobo ou Deusa-Loba. Apenas na Ligúria, Valeria Luperca pode ter-se assemelhado a uma deidade propriamente dita.

Enquanto Dies Religiosus, a Lupercália, que corresponde agora ao dia 15 de Fevereiro, e apenas a este, só fazia sentido na Roma Antiga, no local da gruta de Lupercal, no monte Palatino. Os cultores de hoje sabem disso e, na verdade, são poucos os que dedicam algum ritual específico a este festival. É apenas um entre centenas de festivais e os cultores não fariam mais nada na vida se os celebrassem todos. Em geral, limitam-se a assinalar aqueles directamente relacionados com os seus patronos e ancestrais. Para além disso, a Lupercália, com as suas incoerências e origens pré-históricas, nem sequer é importante para o culto privado, destacando-se mais a Parentália, que também decorre em Fevereiro, durante nove dias, e que é uma oportunidade de excelência para honrar os parentes e os demais ancestrais. Também a Fornacália, em honra da deusa Fornax, se torna mais interessante para os cultores que em suas casas fazem pão caseiro no seu próprio forno. Também neste caso tem surgido distorção, com muita gente a sexualizar de forma absurda mais este festival e a dizer “Fornicália”, com todas as associações que esse falso nome evoca. A maioria das pessoas nem imagina as invenções de que os cultores vão tendo conhecimento. Algumas, mais uma vez à semelhança do “neotantra” (ver Neotantra vs. Tantra: 6 Key Difference) são até promovidas como terapias sexuais, as quais justificam sempre alguma forma de câmbio. Tudo isto contribui para uma certa popularidade, mas claro que não tem nada a ver com nenhuma forma de culto ou tradição.

Para entender a Lupercália é preciso conhecer o Ano Sacro Romano. O Mensis Februarius deve ser de purificação, para preparar a entrada no novo ano, que se inicia em Março. É nesse mês que se assinalam outros festivais, como a Matronália, dedicada a Juno Lucina, também com uma curiosa associação à cabra. Trata-se de um festival muito mais propício ao culto privado, e estritamente feminino, ao contrário da Lupercália. Qualquer grávida interessada em propiciar o momento do parto deveria aprender mais acerca deste Dies Religiosus tão especial, que no entanto é largamente ignorado nos dias que correm, mesmo no âmbito dos Paganismos e dos cultos da Deusa, sempre prontos a “resgatar” (leia-se apropriar) festivais de fertilidade. Mais uma vez, porquê exacerbar a Lupercália, com este nome tão Romano, que evoca imagens de sangue sacrificial, chicotes, sacerdotes e prostitutas de Roma? Era um festival daquela cidade, mas depois veio o Dia de São Valentim e blá blá blá. Quem conta um conto acrescenta um ponto.

Mesmo seguindo por vias mais desbragadas, temos outras festas ainda mais primordiais, como aquela dedicada a Anna Perenna, a senhora da abundância e dos perpétuos retornos. Mas aqui não há gato, que é como quem diz, não há lobas. E, vá-se lá entender porquê, a madura Anna Perenna não vende tão bem a ideia de “sexualidade selvagem” como as ditas. As celebrações coincidiam com os Idos de Março, mais conhecidos pela associação ao assassinato de Júlio César. Aconteciam na noite da primeira lua cheia do calendário lunar Romano. Junto à fonte de Anna Perenna e pelos campos às portas de Roma, multiplicavam-se os festins, incentivava-se a embriaguez e a sexualidade libertina. Nada tinha a ver com o culto privado e, enquanto a Lupercália estava relacionada com a prostituição, por associação à “loba” de Roma que amamentou Rómulo e Remo, o antiquíssimo Feriae Annae Perennae era apreciado pela plebe, sem restrições. Porém, devia ser totalmente evitado pelas classes altas e por qualquer pessoa respeitável.

Enfim, muitos destes festivais e celebrações locais estavam imbuídos de misoginia e preconceitos de classe que não fazem qualquer sentido no mundo actual e devem ser descartados do mais comum culto privado. O que não impede que qualquer pessoa celebre o que bem entender, da forma que mais lhe aprouver, sem que isso tenha um carácter religioso ou espiritual. Chamem-lhe terapias ou festas populares, por mais injustificado que seja esse fascínio por uma certa Lupercália, que nada deve ao passado Romano para além do nome. Ninguém se ofende, porque há heranças que são de todos, mas quando teremos novos nomes para iniciativas realmente emancipadas? Seria positivo, porque o nome de um festival Romano pode ser só uma palavra, mas é antigo, tem o seu poder ou a sua carga, e não pode ser simplesmente descontextualizado, por melhores que sejam as intenções.

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