Espiritualidade e feminismo de inspiração céltica

Viviane e Morgaine, interpretadas por Angelica Huston e Tamsin Egerton, na adaptação televisiva do romance de Marion Zimmer Bradley, Mists of Avalon, 2001, TNT.
Viviane e Morgaine, interpretadas por Angelica Huston e Tamsin Egerton, na adaptação televisiva do romance de Marion Zimmer Bradley, Mists of Avalon, 2001, TNT.

Este texto é a nona parte de um extenso artigo intitulado Dos Celtas ao meu Clã, que dá o nome a um separador onde incluirei os textos seguintes, que publicarei duas vezes por semana, ao longo de vários meses.

 

O facto de o Celta e o céltico serem conceitos muito flexíveis, que tanto permitem abranger como restringir, tem servido na perfeição a novas organizações e escolas de pensamento espiritual, ecologista, e artístico, de carácter geralmente benéfico. Desde os anos 60 e 70 disseminaram-se pelo mundo, através de correspondência postal e, depois, da internet. Foram criados vários programas iniciáticos em suportes escritos e audiovisuais, em inglês, por britânicos, irlandeses e estado-unidenses. Uns implicam contactos presenciais e retiros regulares nas Ilhas Britânicas, outros desenvolvem-se exclusivamente à distância. Surgiram vários representantes e afiliados por toda a Europa, Estados Unidos e Austrália, que lhes seguiram o exemplo, noutros idiomas, em versões traduzidas. Entretanto, há sempre quem produza propostas originais, em pequena escala, mais adaptadas às suas regiões, mas quase sempre afectas aos modelos internacionais. Mais uma vez, prevalece a ilusão de que o domínio céltico passa pelo crivo insular e que deve ser oficializado, dependendo da aceitação de algum clube moderno sediado nas Ilhas Britânicas. Ao contrário da Celtic League, é sempre sublinhado o carácter universalista destes programas.

A monetização de conceitos e títulos relativos à herança céltica é uma constante. Podem ser cultos religiosos, requerendo a dedicação exclusiva ou não a uma ou mais divindades, ou não-religiosos, estando sempre implícita a realização de práticas espirituais e celebrações anuais relativas a festivais sazonais e agrários. Cada um saberá se isto é ou não compatível com a sua religião, caso tenha uma. A importância dada aos eventos, que muitas vezes são palco para os talentos e discursos dos membros, acentua o carácter popular destes programas. Os “courses” criados por várias organizações geram centenas de sacerdotisas, sacerdotes, e milhares de bardos, ovates e druidas modernos. São acessíveis a todos os que possam pagar inscrições, matrículas, prestações, residências, viagens, a tutoria de um orientador, ou apenas os materiais de estudo.

Em alguns casos, como em qualquer instituição privada de ensino, o investimento é avultado. Existem vários graus de formação, extensos formulários de inscrição, com cláusulas estritas que regulam os pagamentos e demais deveres dos discentes. Por vezes, existem bolsas de estudo e descontos para pessoas com dificuldades financeiras comprovadas. Como não poderia deixar de ser, são recomendadas leituras, entre as quais de vários livros escritos e publicados pelos fundadores das organizações. A contrapartida é a disponibilização de uma plataforma, que pode ser a rampa de lançamento para membros que ambicionem o reconhecimento internacional do seu vínculo com uma alma mater ou linhagem moderna à qual se associam, quer tenham ou não completado uma formação.

É disso exemplo o Glastonbury Goddess Temple e suas ramificações, criado por Kathy Jones e as suas “cronies”, conforme escreveu Victoria Moore em Agosto de 2006, numa surpreendente reportagem, que eu não esperaria encontra no Daily Mail, intitulada The Golden middle class Goddesses. Em suma, mulheres criativas e empreendedoras que se estabeleceram na Meca dos místicos. Mulheres, de diversas regiões e vários países, afiliaram-se e importaram o conceito, fundando novos templos e dedicando-se à Deusa, sob muitos nomes e epítetos. As redes sociais vieram exacerbar esta tendência, levando o conceito a países tradicionalmente mais fechados a estes fenómenos, como Portugal. No presente, as sacerdotisas mais bem-sucedidas e reconhecidas viajam pela Europa e mais além, sendo convidadas a realizar os seus workshops e a participar nas muitas conferências que surgiram, seguindo o exemplo da Glastonbury Goddess Conference.

Glastonbury, que enfrenta cada vez mais uma dura realidade suburbana, deve a sua popularidade actual ao festival de música com o mesmo nome, que se realiza em Pilton, e a vários bestsellers que perpetuam a associação de origem medieval a Avalon. A maior parte das pessoas não conhece nem se interessa pelas razões por detrás desta realidade, mas sabe que uma chancela assim pode ser uma mais-valia para o sucesso de oficinas, peregrinações, retiros, eventos, e publicações. Curiosamente, Jones, que foi pesquisadora científica da BBC, não teve qualquer constrangimento de natureza científica quando fundou um templo e uma tradição sacerdotal, moderna e local. Reclama raízes primordiais, mas foi inspirada de forma inequívoca pelo romance Mists of Avalon, da polémica Marion Zimmer Bradley.

O poder da indústria do entretenimento, ou como muitas preferem dizer, o poder da Deusa que se manifesta através da indústria do entretenimento, também tem um papel central na atracção de público para esta espiritualidade. Mais do que isso, para muitas mulheres este é um modo de vida, de serviço sagrado, que tem o mérito de permitir a sua auto-suficiência a nível financeiro. Porém, uma vez que o vínculo àquela autora americana se tornou pejorativo, nem todas as sacerdotisas e seguidoras o reconhecem. Baseiam-se noutras fontes, a partir das quais criam novas tradições e cultos de inspiração céltica. Jones dedicou-se a Ana, uma divindade céltica, que para si é The Goddess ou uma das suas “faces”. Na abordagem ao culto da Deusa, seja qual for a divindade ou personagem central, as associações ao masculino, o contexto étnico ou literário são secundarizados ou descartados, sendo muitas vezes reajustados e ficcionados, para dar ou restituir protagonismo ao Sagrado Feminino.

As adaptações contemporâneas do imaginário do Graal, que derivou do e sublimou o simbolismo pré-cristão da “taça da soberania”, reporta-nos ao poder do Sagrado Feminino. A “Mulher Celta” inspira autênticas tradições e linhagens modernas. Seria feminista e sexualmente liberada, espiritualmente poderosa, independente, com diversas características físicas que desafiam os cânones ocidentais da beleza feminina, que os consideram marcas de fealdade, sinais de desleixo, e indícios de doença. O historicismo chega a ser usado para reabilitar a figura da prostituta e vender a noção de sexo fora dos trâmites matrimoniais, por iniciativa da mulher. Esta actividade seria sagrada, no âmbito de um mítico sacerdócio feminino. Como podemos comprovar, em apêndice, nada disto tem fundamento. À semelhança do que acontece com as Amazonas, seria mais legítimo se os criadores da mítica “Mulher Celta” a limitassem ao plano arquetípico e não insistissem em reclamá-la como uma realidade histórica.

À excepção de uma certa rainha Boudica dos Icenos, figura histórica que pertence ao folclore britânico e dificilmente foi uma mulher céltica, a imaginação é o limite. O argumento dos crentes neste e noutros mitos célticos modernos é que se não existem vestígios nem provas documentais é porque terão sido destruídos (pelo patriarcado) ou porque ainda não foram encontrados. Portanto, numa lógica distorcida, quem afirma que a “mulher celta feminista” não tem fundamento histórico, deve provar a sua inexistência. Ora, isto é impossível, porque não se pode provar pela negativa. Assim, compete a quem faz uma afirmação apresentar comprovativo da veracidade daquilo que, de outra forma, não passa de uma hipótese, que pode mesmo ser contrária aos factos apurados. É certo que as mulheres dos povos célticos existiram, com direitos e deveres atípicos, comparativamente a outras sociedades, mas não há vestígios da tal “mulher celta feminista” e a actual Irlanda católica não é, com certeza, um oásis no deserto para a causa do empoderamento feminino.

Outro traço frequente em organizações e programas que difundem e se apresentam como guardiães de uma “sabedoria céltica”, mais ou menos “selvagem”, são os indícios de secretismo, comuns a tudo o que é criado para estimular a curiosidade e o desejo de pertença a uma comunidade restrita de iniciados. Têm à dianteira pessoas “escolhidas” ou “destinadas”, que seguem muitas vezes o principio “leading by appearing to follow”, que gerem os aspectos administrativos, comerciais, e financeiros, com uma postura altruísta e sem hierarquias evidentes. Ao mesmo tempo, constroem a sua reputação pessoal e expandem o seu público e os seus negócios. Os talentos e dons são celebrados e é incentivada a conquista da prosperidade através de alguma forma de auto-expressão, da produção artística, da publicação de livros e oráculos, de práticas terapêuticas, divinatórias, ou de uma actividade sacerdotal auto-sustentável.

Portanto, por mais válido que seja nos dias que correm, o que tem tudo isto a ver com os Celtas? Antes de encontrarmos a resposta a esta pergunta, valerá a pena deter-me um pouco mais na realidade “druídica” actual. Será este o assunto dos três textos subsequentes.