Um recado

“Purim at Mea Shearim, Jerusalem, Israel” (Fotografia: Frederic Brenner)

Cada celebração traz oportunidades de purificação, reflexão e entendimento. O mês que precede o novo ano sacro é um tempo de conexão com os antepassados, dos familiares aos mais ancestrais. Para mim, a Parentália foi profundamente reveladora e permitiu-me aferir alguns pontos de vista, estudar, e descartar alguns preconceitos. Não mais usarei a datação ab urbe condita (ou seja, ‘desde a fundação da cidade’ de Roma), sabendo como é errónea e que no passado foi usada para fins propagandistas. Se alguém espera encontrar aqui uma grande admiradora do Império Romano vai ficar desapontado. Sou apenas uma politeísta e uma cultrix, no sentido Romano do termo. Tenho em conta a necessidade de honrar as minhas origens, não apenas através dos rituais, mas da minha conduta e de uma tomada de posição em situações que não devem passar despercebidas a ninguém.

Isto não é de agora, mas têm vindo a aumentar as manifestações de antissemitismo e não posso ficar indiferente à paranóia das Nações Unidas em relação a Israel, que é evidente em vários planos, desde o Conselho dos Direitos Humanos à UNESCO, a par de incongruências que me fazem temer pelo futuro, a muito curto prazo. Que Anna Perenna não nos falhe e que os ciclos sejam benéficos. Também no âmbito dos eventos feministas dos últimos meses, temos assistido à ingerência de propagandistas e até de uma terrorista condenada que procura legitimar a sua presença ilegal nos Estados Unidos da América, manipulando a opinião pública menos atenta ou apenas mais inclusiva e predisposta ao ódio pelos Judeus. Chegámos ao ponto em que uma dessas mulheres vociferou acerca de quem, segundo ela, pode e não pode ser considerado feminista!

Fica apenas uma nota a alertar para a necessidade de, tanto quanto possível, conhecermos a História e não permitirmos que os piores momentos, a começar pelos horrores que a Roma Antiga e a Igreja Católica trazem à nossa memória colectiva, sejam reescritos, reabilitados, e repetidos sob outras aparências e com novos requintes de malvadez.

 

Quando o intelecto se pompeia

peacock-roman-gentrification-a-painted-peacock-struts-across-the-wall-of-a-banqueting-hall-at-villa-a-photo-by-mimmo-jodice-corbis

Pavão pintado na parede do salão de banquetes da Villa di Poppea, Oplontis; fresco anterior a 79 da Era Comum, Segundo Estilo (Fotografia: Mimmo Jodice/Corbis)

Ao longo dos anos, que vão passando a ser décadas, tenho observado que a tendência para a comparação e a busca de correspondências, independentemente de onde possa levar, é uma forma de evasão ao politeísmo. Na tentativa de abarcarem todos os deuses ou, no caso do Movimento da Deusa, todas as deusas, as pessoas em questão caminham a passos largos para uma nivelação. Isto nem sempre acontece de forma consciente. A excessiva intelectualização das divindades e religiões, a tentativa de as assemelhar e categorizar, e a necessidade de mascarar o desconhecimento em relação à tradição Romana, debitando conclusões mal fundamentadas e baseadas em aparências, afasta esses estudiosos de deuses e deusas concretos e de uma prática religiosa tradicional e eficaz, dando lugar ao eclectismo de improviso, à popular visão arquetípica e a uma postura apenas historicista, quase sempre privada dos numina.

Como Nick Farrell notou, num artigo acerca das ameaças ao ocultismo, “O intelecto é incrivelmente lógico e se começares com uma ideia podes levá-la até ao ponto em que se torna absurda”. Estes processos terminam com discussões altamente teóricas, sem qualquer base experiencial, acerca de pseudoquestões, meras definições ou jogos de palavras, que se tornam entraves e são irrelevantes para quem está concentrado em aspectos práticos da tradição que de facto conhece. A propósito, a importância das fontes primárias para o Cultus Deorum Romanorum não deve ser substimada.

Dar de beber a quem tem sede

doves-watering-mosaic-from-the-house-of-the-doves-at-pompeii

‘Pombas a beber’- mosaico da Casa das Pombas, Pompeia (Museo Archeologico di Napoli)

O que não falta é quem queria vender-nos a fórmula do sucesso. Porém, no que diz respeito à Religio Romana do Cultus Deorum o sucesso perde o sentido que a maioria lhe atribui.

Por todo o lado encontramos dicas para cativar, manter e aumentar as audiências, os seguidores nas redes sociais, os membros de grupos de partilha, que muitas não são mais do que espaços de promoção pessoal ou corporativa. Devemos ser assíduos na publicação de imagens e artigos apelativos, mas somos aconselhados a não desenvolver, aprofundar, nem alongar muito as nossas intervenções online. Afinal, a maioria não escuta para entender, mas sim para reagir e retorquir. O importante deixa de ser o conteúdo e passa a ser a afluência, o movimento aparente que é produzido por um sem número de notificações que parecem comprovar a efervescente troca de ideias e, enfim, o sucesso de uma comunidade que se encontra sobretudo, ou apenas, no meio virtual. Para muitos, o que importa é que cada vez mais pombas venham beber da água que lhes dão.

Ora, esta lógica de gestão de trazer por casa não serve ao Cultus Deorum Romanorum e àqueles que, de forma altruísta, partilham o que aprenderam de fontes seguras e com a mais pura prática da sua tradição, ao longo de muitos anos e, em alguns casos, de décadas. Num artigo de 2015, Nick Farrell referiu o seguinte:

“Por medo de serem vistos como autocráticos, os professores permitem o bulling dos seus alunos ignorantes. É agora possível calar um professor que se atreva a referir que a adorada crença New Age de um aluno está errada. Foi-me dito online que é melhor que uma pessoa seja autorizada a distribuir as suas ideias ignorantes do que eu a questioná-las.”

Embora se referisse à degradação que o Ocultismo tem vindo a sofrer, é uma realidade que se verifica em diversos contextos. A explosiva receita de sucesso, que mistura a torrente de publicações não arbitradas e a censura daqueles que procuram moderar e esclarecer, em nada serve comunidades de pessoas que de facto querem aprender e expandir o seu conhecimento e prática de uma tradição religiosa como o Cultus Deorum Romanorum.

 

Ficção versus Religião

wickerman-vinyl-packshot-white2

Ilustração artística original de Richey Beckett na capa para vinil da banda sonora composta por Paul Giovanni, lançada no 40º aniversário do filme “The Wicker Man” (Robyn Hardy, 1973), pela Silva Screen Records (2013). Edição comemorativa limitada a 1000 cópias.

É frequente encontrarmos elementos de Ficção nas práticas de carácter religioso, individuais ou colectivas. Isto acontece em várias correntes do Paganismo moderno e também da espiritualidade de raiz cristã. Por vezes conjuga-se com influências New Age e as formas mais populares e comerciais de Xamanismo, que é consequência directa da visão universalista (ou imperialista) do mundo, essencialmente cosmopolita e do âmbito do paradigma tribalista urbano. Dada a importância da veracidade histórica e o respeito pelas fontes primárias, esta tendência não se manifesta no Reconstruccionismo religioso de qualquer cultura nem nas recuperadas religiões da Antiguidade Clássica.

É um facto que as personagens de romances, como The Mists of Avalon, e de trilogias tão proeminentes como Lord of the Rings, ganham muitas vezes um carácter deífico, passando a ser cultuadas ou tidas como guias espirituais, à semelhança do que acontece com antepassados, santos e entidades. As encenações religiosas, os rituais e sacrifícios, a cenografia do espaço sagrado ficcional e a caracterização de grupos sacerdotais representados em filmes e séries televisivas, como Practical Magic, King Arthur, The 13th Warrior, Gladiator, Vikings e Rome, de forma mais ou menos fiel a uma pesquisa histórica acurada, são muitas vezes adoptadas à risca ou com ligeiras adaptações livres. Alguns grupos chegam a incluir elementos de cenas emblemáticas de obras polémicas e incompreendidas como Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick ou clássicos do humorístico ‘mystery horror‘ britânico, como The Wicker Man, de Robin Hardy (1973, baseado no romance Ritual, de David Pinner, publicado em 1967). Dependendo do grau de alienação dos indivíduos envolvidos, o resultado pode resvalar para o plano do burlesco.

Uma ferramenta útil para os estudiosos de matérias que relacionam Religião e Cultura Visual, na sua vertente popular, é a Encyclopedia of Religion and Film (2011). No prefácio, Eric Michael Mazur observa:

“A maioria dos Americanos passa mais tempo a ver e a pensar acerca de filmes do que a frequentar a igreja ou a considerar ideias religiosas tradicionais.”

O autor e editor dos livros The Americanization of Religious Minorities (Johns Hopkins University Press, 1999), The Routledge Companion to Religion and Popular Culture (John C. Lyden, Editor, and Eric M. Mazur, Editor; Johns Hopkins University Press, 2014) e God in the Details: American Religion in Popular Culture (Eric M. Mazur, Editor, and Kate McCarthy, Editor; Routledge, 2010) refere:

“Este trabalho não se destina a ser um catálogo de todos os filmes feitos na história global da indústria cinematográfica que incluem, representem, abordem, ou mencionem religiões específicas ou religiões em geral.

“O objectivo desta enciclopédia não é catalogar todos os filmes religiosos – quaisquer que sejam – mas dar aos leitores algumas ferramentas de que possam necessitar para avaliarem produtos visuais para si mesmos e permitir-lhes criarem as suas próprias listas de filmes (como quer que as definam) em várias partes do mundo em relação a várias – mas não todas – as tradições religiosas (e como estas são representadas em filmes).”

Christine Hoff Kraemer é uma académica de Estudos Religiosos especializada em Paganismo contemporâneo, sexualidade, teologia, e cultura popular. Em “Gender Essentialism in Matriarchalist Utopian Fantasies: Are popular novels vehicles of sacred stories, or purely propaganda?”, ela procura responder a várias questões, sendo a primeira:

“Se o mito é indefensável como narrativa histórica, poderá ser usado como uma história sagrada, como sugere a teóloga feminista Starhawk?”

Neste paper publicado na revista (peer-reviewed) Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, Vol. 11, Nº 2 (2009), Kraemer defende que:

“Apesar da pesquisa arqueológica continuar a confirmar que a narrativa da Pré-história matriarcal é pouco suportada por evidências científicas, o uso a que se tem prestado na Ficção demonstra a sua contínua viabilidade como história sagrada.”

Em “Notes toward a Pagan Theology of Fiction” (17 de Maio de 2013, no blog Sermons from the Mound: Pagan Theology and Scholarship, Pagan Channel, Patheos) Kraemer abordou esta temática de forma descomplexada, não se excluindo da sua análise:

“Os Pagãos geralmente concordam que a Ficção tem poder espiritual. Nas suas entrevistas a Pagãos, Margot Adler (autora de Drawing Down the Moon) e Sarah Pike (autora de Earthy Bodies, Magical Selves) observaram que os Pagãos citavam com frequência a Ficção Científica e a Fantasia como inspirações importantes para a sua vida espiritual. Na disciplina de Estudos Religiosos, em geral, há imenso material acerca de como as pessoas têm usados romances, filmes e outros média para fins espirituais.

“Os meus estudos focam-se na forma como a Ficção com uma tónica religiosa tem inspirado a realidade das práticas comunitárias, e como de seguida os indivíduos voltam a ficcionar essas práticas comunitárias para conseguirem articular melhor e disseminar os seus valores religiosos. À semelhança do mito, que tende a focar-se mais na verdade espiritual ou cultural do que na verdade histórica (embora possa haver um evento histórico ou personalidade no cerne desses contos), os Pagãos normalmente usam Ficção para clarificarem valores, descrevendo experiências extáticas ou articulando esperanças de forma que sintam ser espiritualmente autêntica – um propósito para o qual as descrições em prosa histórica literal não são apropriadas.

“Apesar de eu mesma ter achado que a Ficção é religiosamente inspiradora (especialmente a Ficção que inclui a adoração de deidades históricas), em geral eu mantenho as personagens derivadas do entretenimento da cultura pop fora das minhas devoções. Há qualquer coisa de cativante na sugestão de diZerega que se lhe for dada suficiente atenção e energia, um pensamento-forma originalmente baseado numa narrativa da cultura pop pode tornar-se responsivo (ou, talvez, que um espírito pré-existente use o disfarce dessas imagens para estabelecer contacto com os humanos). No entanto, eu tendo a concordar com Galina Krasskova, que fazer da cultura pop o foco de uma prática espiritual poderia impedir-nos de formar uma relação com o parcialmente esquecido, mas potencialmente muito responsivo espírito do local onde estamos e dos nossos próprios ancestrais.”

“Eu preocupo-me que a Ficção possa ter uma qualidade escapista, e que envolver-me com ela de forma demasiado directa na minha vida espiritual possa distrair-me ainda mais do local.”

Esta conclusão remete-nos para o incontornável genius loci, o génio de lugar presente na Religião Romana e, sob várias outras designações, em muitas culturas autóctones. Sem limitações de género ou estética pré-estabelecida, talvez seja ele o nosso melhor guia, quando se trata de acedermos às nossas heranças energéticas, religiosas e culturais.

Genius loci de Merlin’s Cave

its-a-beautiful-day-isnt-it-lovely-to-feel-the-sun-on-our-faces-again

Genius loci manifesta-se na encosta sul de Tintagel Castle

Existe uma pequena enseada ambiciosamente chamada “praia” de Tintagel, que é banhada pelo mar azul-turquesa. O mesmo que na nebulosidade parece cor de chumbo. Nos dias mais ensolarados e quentes faz-nos querer entrar na água. Porém, no lado oposto do promontório, onde esta fotografia foi tirada, o vento pode ser implacável e o caminho pode ficar interdito aos visitantes.

Eu tive a sorte de pisar cada degrau desse percurso íngreme, várias vezes. Entendo que a erosão é um problema que ameaça o local e que a subida é fisicamente exigente, mas não aceito o argumento segundo o qual a solução seja implantar uma ponte nos rochedos. Sobretudo, quando essa ponte não irá colmatar a falta de acessibilidade a visitantes com mobilidade limitada. Para além disso, terá de ser fechada sempre que os elementos assim o ditarem. Tendo em conta o que já assisti em Tintagel Castle, isso acontecerá muitas vezes, mesmo no pico do Verão. Apesar disso, o concurso público promovido com alarido pela imprensa apurou um projecto vencedor. A juntar a outras atrocidades, esse será o símbolo máximo da usurpação de um dos mais importantes monumentos da Cornualha pelo English Heritage.

Outra incongruência é que, apesar do risco de erosão, tenha sido permitida uma operação invasiva numa área geológica classificada como Site of Specific Scientific Interest. É de notar que as Lendas Arturianas têm sobrevivido bem, sem necessidade de esculpirem rostos imaginários nas rochas de lugares tão proeminentes e sagrados como os trílitos de Stonehenge ou os White Cliffs of Dover. Assim, porquê abrir uma excepção em Tintagel? Em qualquer outro monumento histórico isso seria considerado vandalismo, mas junto da entrada da chamada Merlin’s Cave aquele rosto indigente surgiu com o estatuto imedato de “intervenção artística”. O que se seguirá? Talvez Damien Hirst tenha uma ideia.

Por esta altura, eu e qualquer pessoa que tenha visitado Tintagel Castle quando a presença do English Heritage se limitava à gift shop tem motivos para se sentir privilegiado. E que bom era dispensar a boleia da carrinha e seguir pelo caminho abaixo, da King Arthur Bookshop até à base do promontório, parando numa roulotte para comprar um cone de gelado mint/choc-chip e acabar descalça, a molhar os pés no mar! Outros tempos, que não eram ensombrados por estátuas do Darth Vader com dois metros e tal de altura e um nome ridículo que não quer dizer nada do que eles pensam, porque Gallos em Kernewek não é sinónimo de “poder” mas sim de habilidade ou capacidade de fazer alguma coisa. A maior intervenção que eu alguma vez fiz por lá foi guardar umas pedrinhas e seixos para recordação. So guilty…

É dessas visitas que eu guardo memórias de como a magia acontece e o genius loci de Tintagel Castle se manifesta. A cor azul-acinzentada da rocha que brilha com uma iridescência subtil e a luz, intensa e um pouco etérea, quando se mistura com a neblina marítima. Era assim que estava o ambiente, da última vez que lá estive. A maré estava baixa e eu desci até à praia na companhia de um amigo, que é músico profissional e se mudou de Londres para a Cornualha há mais de uma década, depois de muitos anos a sonhar fazê-lo. A caverna de tecto arqueado está situada abaixo do cabeço que se separou do promontório e liga a praia de seixos ao lado oposto, onde os raios de sol começavam a aparecer, logo após o meio-dia.

Caminhávamos com cuidado, olhos pregados ao chão, para compensar a súbita falta de luz e tentar ver onde pisávamos. Havia outros visitantes na caverna, mas não estava apinhada. Num instante, eu percebi que se tratava de um grupo de jovens mulheres norte-americanas, talvez um pouco mais novas do que eu. Quando estávamos a meio-caminho, olhando para a saída, vi que elas pararam quando estavam apenas um pouco mais adiante de nós. Foi como se tivessem planeado fazê-lo e reparei como assentiram em concordância, antes de começarem a entoar belas harmonias, num cântico que parecia de sereias. Seis silhuetas recortadas contra luz, num concerto para o qual eu nem sequer paguei bilhete!

Entretanto, eu pensei naquela figura cujo rosto apenas o vento e as ondas esculpiram e continuam a fustigar, do outro lado do rochedo. Imaginei que ele deveria estar encantado com aquelas vozes e com tudo o que de mágico acontece em Tintagel. Foi um daqueles momentos que não podem ser recriados. Uma dádiva que por alguma razão merecemos receber.

Eu serei para sempre tão grata!

Recomendo uma colecção de curtas-metragens acerca de Kernow e da Língua Kernewek, que está condensada em dois DVDs da autoria do Bardo do Gorsedh Kernow e produtor Denzil Monk. Inclui um documentário acerca da polémica ocupação (legalizada) de Tintagel Castle pelo English Heritage. O título é Tyskennow Kernow e os trailers podem ser vistos online:

Tyskennow Kernow – Trailer 1

Tyskennow Kernow – Trailer 2

 

Apropriação de Tintagel Castle

tintagel-castle-painting

“Tintagel”, William Trost Richards (1881)

Quando estive em Tintagel Castle pela última vez, durante a minha quarta visita, ainda não tinha começado o recente processo de “Disneyficação” levado a cabo pelo English Heritage.

“Myth, Magic and the Marketplace: The preservation and interpretation of Cornwall’s heritage within a spiritual tourism context” é um texto académico escrito em 2007 por Chantal Laws e Susan Stuart. Apesar de desactualizado e mal pesquisado, no que diz respeito a definições do âmbito dos Estudos Pagãos e dos Novos Movimentos Religiosos, se conseguirmos ler através do ruido, este é um registo realista acerca da intersecção da cultura popular com o abrangente conceito de “espiritualidade”, tal como está associado à chancela ‘Arturiana’ e ao marketing turístico em Tintagel. Foi exactamente por isso que me ocorreu que os cérebros do English Heritage (que desde Abril de 2015 se cindiu, dando lugar a numa nova organização chamada Historic England) devem tê-lo lido, para tirarem ideias.

Há quase três anos, tendo em conta o que estava a acontecer em Stonehenge, para mim era fácil prever o que está agora a passar-se em Tintagel. Foi nessa altura que eu recorri àquele ‘paper’ pela primeira vez, porque entendi o que as autoras tentaram definir com a expressão “espiritualidade Arturiana”. Afinal, eu pude experienciar esse fenómeno durante a minha primeira visita, no Verão de 2001. Isso foi antes de eu deixar de ser turista, sair à aventura e me mudar temporariamente para a Cornualha (Cornwall ou Kernow, na Língua Kernewek). Regressei várias vezes e fiquei sem pressa de partir. Pude estabelecer um contacto próximo com a população Cornish, à qual foi concedido estatuto de minoria étnica, em Abril de 2014. Fiz amigos entre os Bardos do Gorsedh Kernow, artistas, produtores e activistas pelos direitos daquele povo, que fizeram questão de regressar ao seu belíssimo ‘pais’ de origem, depois de anos a estudarem em Inglaterra, sem medo de enfrentarem os desafios impostos a quem teima em viver na Cornualha.

A aldeia de Trevena, Tre war Venydh, entretanto apelidada de Tintagel, devido ao famoso castelo nos rochedos, é um destino turístico doméstico, para famílias de todo o Reino Unido, para caminhantes do percurso costeiro, e para visitantes interessados nos Tintagel Cliffs, Site of Special Scientific Interest (SSSI), assim como nas atracções turísticas. A área apresenta desafios ao turista comum, devido a dificuldades de acesso físico ao promontório e à ilha, ao estado das ruinas e às escavações arqueológicas que aí têm lugar. No entanto, o estudo que referi concluiu que o chamado “turismo espiritual” é um segmento de mercado em crescimento e muito apetecível para quem explora o local e para toda a vila. Ou seja, a interacção entre espiritualidade, religião e turismo, alimentada pelo “conhecimento” romanceado da história de Tintagel Castle, que opõe Lenda e História, cria a possibilidade de uma experiência pós-moderna, a meio caminho entre o lazer e a peregrinação.

Surgiu a necessidade de o núcleo museológico, como instrumento ideológico e político que é, se adaptar a esta “franja espiritual” da audiência e expandir o ângulo de influência do imaginário Arturiano. Ora, o English Heritage, sendo uma poderosa alavanca da Propaganda Inglesa, sabe muito bem que Tintagel Castle é uma base estratégica para controlar a forma como a História é apresentada às hordas de turistas, “espiritualizados” ou não, britânicos ou estrangeiros, que vão em busca de entretenimento e não da verdadeira História da Cornualha, do povo de Kernow e, em particular, de Tintagel Castle. Nada de novo aqui! E foi precisamente isto que motivou a minha correspondência com Mr. Alex Page, do English Heritage (ler na íntegra, abaixo).

Esta “charity” independente, que tem crescentes liberdades para angariar fundos como melhor lhe aprouver, introduziu uma série de “inovações” no complexo de Tintagel Castle, de forma a tornar o local histórico mais apelativo para o grande público e a permitir um aumento do fluxo de visitantes. A juntar a um novo centro interpretativo, existem planos para uma ponte de ligação entre o promontório e a ilha, foi gravado um baixo-relevo representando o suposto rosto do lendário Merlin, espalharam várias placas de sinalização ao longo do percurso, cravaram na rocha uma estátua de bronze de grandes dimensões e discutível valor artístico, para além de muitas outras intervenções que violam os regulamentos do Scheduled Ancient Monument, do referido SSSI, da AONB (Area of Outstanding Natural Beauty), entre outros. Por fim, o que os responsáveis não tiveram em conta é que o mesmo estudo que mencionei também concluiu que no “turismo espiritual Arturiano” valoriza-se mais a qualidade da experiência e a autenticidade do que a quantidade de turistas, obrigando a uma abordagem sensível e sustentável.

“The legend that King Arthur never died is still extant, and it is said that he haunts the dark Tintagel cliffs and the ruins of the old castle where he was born in the form of a red-legged chough.”

in “North Cornwall Fairies and Legends” (Notes), by Enys Tregarthen, Author of ‘The Piskey-Purse’. With introduction by Howard Fox, F.G.S. Illustrated 1906, London Wells Gardner, Darton & Co., Ltd.

 

Recomendo vivamente a leitura atenta dos seguintes artigos e fontes:

“The Tintagel Controversy”, Dr. Tehmina Goskar (31 March, 2016)

“Authority, authenticity and interpretation at Tintagel”, Dr Tehmina Gorkar (29 June, 2016)

“A Cultural Insult a day”, Chris Dunkerley (Cornish Bard, Kevrenor), Australia, 26 April, 2016

Kernow Matters To Us

The Cornish are a Nation – an information page run by ‘Kernow Matters’ NGO

 

Segue a minha correspondência com Mr. Alex Page, do English Heritage:

26 April 2016

“Dear Mr. Page,

I’m writing from Lisbon, Portugal, to urge you to consider the way Tintagel Castle is being managed. I generally trust the English Heritage discernment and I don’t have the ambition to change your views, but I ask you to take notice of mine, on this matter.

I grew up in Sintra, a UNESCO World Heritage Cultural Landscape, and though I’ve always been critical of several less than optimal aspects concerning the management of its many historical sites, I’ve never had a reason to pen a letter such as this. I consider the situation at Tintagel to be an extreme one. I’ve refrained from writing to the English Heritage in previous years, about Stonehenge, where I’ve been, on the occasions of rather private group visits. I will refrain no more, when it comes to Tintagel Castle.

Since 2001, I’ve travelled to and lived sporadically in Cornwall and I’ve been a recurrent visitor of the site. One of the times I’ve been there, in July 2004, I couldn’t actually visit the castle because the path had been closed, due to strong winds. Despite any inconvenient, I’ve always felt honoured and privileged to have experienced an undisturbed Tintagel Castle. As for its connections to the Arthurian legends and whimsical characters, I’m more than happy to purchase as many glossy books as I can from the EH shop, but I don’t need any other stimuli for imagination. Doubtlessly, the best souvenir I keep is a memory of the dignity that is intrinsic to one of the most prominent historical places in Cornwall and the United Kingdom.

Although the English Heritage is getting worldwide attention, as the media reports on a number of superfluities being added to the site, this kind of publicity is hardly good publicity. Personally, I will continue to travel to Cornwall and visit the many historical sites, gardens, and other places of outstanding natural beauty, but I’m sad to inform you that I will avoid the ornaments that have been imposed onto Tintagel Castle. Especially, I shall not visit the site if the proposed bridge is built, because it won’t significantly improve the accessibility, while it will interfere, appallingly, with the magnificence of the headland and island. As a visual designer, I don’t need to replace the glorious image I keep in my mind with a substandard one.

Finally, I sincerely hope the people of Cornwall will be heard.

Kind regards”

A resposta de Mr. Alex Page:

10 May 2016

“Hello,

As you know, Tintagel Castle has a rich and varied history and, following the opening of a well-received exhibition in 2015, we have now launched a new outdoor interpretation scheme that will help people to further understand the history and legends of this internationally important site. The scheme contains a number of interpretation panels across the site telling the history of Tintagel from the 5th century to more recent times, as well as several artistic installations inspired by the site’s legends.

Tintagel Castle has a unique story, where archaeology, history and legend are intertwined – all of which are now explored on site. Since the Middle Ages, Tintagel’s legends and literary associations have played a key role in shaping the castle, and the importance of these legends is widely acknowledged by historians and archaeologists. We believe that understanding how these legends shaped Tintagel’s history is crucial to understanding the site, and our interpretation both explains this and places these legends within the context of the site’s overall history and significance. The exhibition we launched last year was praised both for its use of the Cornish language as well as its contents. Combined with the new interpretation, visitors to Tintagel can now get an even better overview of its history – from the artefacts discovered there to the legends associated with it.

We strongly believe that the new interpretation elements are not so large that they will negatively impact on the visual appeal of the site, whose massive and rugged character will essentially be un-changed. The majority of the scheme makes use of traditional methods of interpretation, with panels placed across the site exploring 1500 years of Tintagel’s history. There are a few Arthurian inspired artistic pieces including the carving of Merlin’s face which is a small, discreet element of the scheme, tucked away amongst rocks of the beach and haven and designed to complement its natural setting. The area of the site where it is located is constantly changing due to exposure to the elements and we believe that the carving will be a temporary installation, weathered away over time by the wind and waves. The sculpture, titled Gallos (‘power’ in Cornish) is inspired by both the legend of King Arthur and the historic kings and royal figures associated with Tintagel. Feedback to date from people who have visited and seen these pieces in the context of the whole scheme has been very complimentary.

The scheme was submitted for all of the necessary permissions and consents. We commissioned archaeological, ecological and geological surveys/assessments and consulted with Historic England, Natural England and the Tintagel Parish Council. We did not receive any objections, and any mitigation measures required as part of the consent are in hand and the site will be monitored, as recommended. The scheme was also available for all to comment on via the Cornwall Council Planning website and ultimately Cornwall Council made the decision. The proposed new pedestrian bridge is following a very transparent public engagement route, and to date we have held an on-line, and public, exhibition. Both were well received with thousands viewing and commenting on the concepts. The bridge will continue with our aim to help people better understand the Dark and Middle Age period of the site and will vastly improve access and reduce congestion.

Thank you again for writing to me about your concerns. I would like to reassure you that we take our role as caretakers of these sites very seriously and consider all elements very carefully when developing our interpretation.

Yours sincerely,

Alex Page.

 

Historic Properties Director – West

Tel 0117 975 0727 or 07747559940

Fax 0117 975 0701

English Heritage cares for over 400 historic monuments, buildings and sites – from world famous prehistoric sites to grand medieval castles, from Roman forts on the edges of empire to cold war bunkers. Through these we bring the story of England to life for over 10 million visitors each year.

The English Heritage Trust is a charity, no. 1140351, and a company, no. 07447221, registered in England.

This e-mail (and any attachments) is confidential and may contain personal views which are not the views of English Heritage unless specifically stated. If you have received it in error, please delete it from your system and notify the sender immediately. Do not use, copy or disclose the information in any way nor act in reliance on it. Any information sent to English Heritage may become publicly available.”

Finalmente, a minha contra-resposta:

12 May 2016

“Dear Mr. Page,

Thank you for your comprehensive reply. However, I’m afraid you said nothing about accessibility and some of your words work against you. My views remain unchanged, so let’s agree to disagree.

As you know, the duty of the English Heritage is to preserve historical places. Therefore, please, leave the legend to Literature and oral tradition. Metaphorically, it may be valid that legend shaped Tintagel Castle’s history, but the site was not developed because of any legend and, physically, does not reflect their imagery. If the English Heritage needs a place to create an interpretation centre that would precede the visit to the site itself, where panels and artistic installations can be included, maybe Tintagel Parish can indicate a park or garden where the objective can be better achieved. I have nothing against large sculptures, but they belong elsewhere, not on the site and if you think their interference is minimal, I may as well think it is excessive, because that’s subjective. I couldn’t be less interested in the mob’s opinions, frankly. I rather acknowledge the statement and credibility of a large group of independent historians. The English Heritage should not manage a place like Tintagel Castle to try to please a fee-paying public eager to be entertained. Your apologetic need to stress that the elements are “not so large” and that so-called Merlin’s face is a “temporary installation” only confirms that those elements are superfluous add-ons. Historically, and romantically, Tintagel Castle is what it is. What is physically there is visible. What is not physically there is simply inexistent and leaves fertile space for imagination.

As for the term “Dark Age”:

“Medieval historiography has eschewed this outdated term for 30 years or more. It is therefore disappointing that EH has carved it into a slate slab at the site. This is not good interpretation as it is going to perpetuate a very outmoded and unsubstantiated view of the past.” Dr Tehmina Goskar, in The Tintagel Controversy.

I will leave you with the words of Henry Jenner, in Tintagel Castle in History and Romance (1927):

“Altogether, Tintagel Castle, considering how famous it is, especially in modern imitations of Arthurian romances, has singularly little history and not much romance attached to it, when one comes to sum it up, and it was probably not really the scene of the one incident that brought it into notice. Historically and romantically Tintagel Castle is rather a fraud.”

Maybe the English Heritage could find a way to include those words in its “scheme”, as they too are part of Tintagel Castle’s story. I wrote story, not History.

Best wishes”

 

Avalon e as sombras de Marion

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Exemplar autografado por Marion Zimmer Bradley do seu best-seller “The Mists of Avalon”; Alfred A. Knopf, New York, 1982

Neste momento, estou num hiato de duas semanas entre retiros que, de uma forma ou de outra, nos convidam a revisitar as sombras do Sagrado Feminino.

No passado domingo, durante uma deliciosa refeição na companhia da tripulação e dos restantes passageiros que viajaram na Shamanic Airlines, veio à baila o assunto das sacerdotisas, do marketing associado à chancela de ‘Avalon’, da minha experiência pessoal de quase vinte anos com o universo de Glastonbury, e do nome de Marion Zimmer Bradley. Quando eu referi o escândalo de alegada pedofilia que envolve a escritora e que fez correr muita tinta virtual em 2014, sobretudo nos blogs e média internacionais, algumas pessoas atentas, cultas e informadas que estavam à mesa sofreram um choque. Na verdade, ficaram espantadas que tal notícia tivesse escapado ao seu radar. Portanto, é um facto que é preciso continuar a comentar o assunto, sobretudo em português, uma vez que eu não me lembro de ter lido sequer uma pequena nota no nosso idioma acerca disto, muito menos da parte de quem costuma invocar a escritora ou daqueles que agora detêm os direitos de publicação da sua obra no nosso país. Entretanto, o nome de Marion Zimmer Bradley continua a ser mencionado, sem que seja feito nenhum reparo referente aos factos chocantes.

Se é errado descartar a autora e o seu incontornável best-seller de uma forma hipócrita, é ainda pior continuar a usar o seu nome e o poder que os seus livros ainda têm sobre um público fantasioso e largamente desinformado, ao mesmo tempo que se faz uma espécie de acordo tácito a favor de um pacto de silêncio acerca das fortes alegações que foram feitas. Porém, agora estou em crer que muitas pessoas – sobretudo mulheres inevitavelmente inspiradas por aquele e outros best-sellers com a chancela ‘Avalon’ – permanecem vítimas do seu próprio desconhecimento, ou mesmo na conveniente incerteza de que isto não seja apenas um boato mal-intencionado lançado ao mundo por uma perturbada, traumatizada ou até vingativa Moira Greyland, em relação à sua própria mãe, a autora de “As Brumas de Avalon”, que em inglês tem o sonante título “The Mists of Avalon”:

 

“Olá Deirdre.

É muito pior do que isso.

A primeira vez que ela me molestou, eu tinha três anos. A última vez, eu tinha doze anos, e estava capaz de seguir o meu caminho.

Eu pus o Walter na cadeia por molestar um menino. Eu tinha tentado intervir quando ele tinha 13, dizendo à mãe e à Lisa, e elas apenas o afastaram para o apartamento dele.

Eu estava a viver parcialmente em sofás, desde os meus dez anos de idade por causa das drogas sem controle, das orgias e do constante fluxo de pessoas que entravam e saiam da nossa “casa” de família.

Nada disto devia ser uma novidade. O Walter era um violador em série com muitas, muitas, muitas vítimas (eu mencionei 22 aos polícias) mas a Marion era muito, mas muito pior. Ela era cruel e violenta, bem como completamente louca sexualmente. Eu não sou a sua única vítima, nem as raparigas foram as suas únicas vítimas.

Quem me dera ter melhores notícias.”

Moira Greyland

 

Ora, o melindre que estas acusações de pedofilia causaram foi agravado pelo facto de estarmos perante uma escritora com um tom francamente feminista, ou como prefiro dizer “anti-masculino”, que relega os homens, esses fracos, carentes e emasculados irmãozinhos mais novos, para um plano meramente secundário, que em nada pode competir com a superioridade das mulheres que os manipulam a seu bel-prazer. Talvez, uma metáfora para o que aconteceu aos meninos sexualmente abusados, alegadamente, tanto por Marion como pelo seu marido Walter Breen. Não, o nosso choque não tem a mesma dimensão daquele que sofremos quando descobrimos que outros autores e figuras proeminentes eram pedófilos que até escreviam sobre fadas e mundos de encantar. Porque esses eram homens e, infelizmente, quase todas as notícias de pedofilia nos forçam a encarar essa triste realidade no masculino. O problema é que este golpe surgiu de onde menos esperávamos, no feminino, e é por isso que parece doer mais. E o pior é que a acusada morreu e com ela a possibilidade de se fazer justiça, em relação ao que terá realmente acontecido.

Eu não convivo bem com o número de pessoas que agora dizem coisas como; “Eu sempre senti algo escuro / pesado / errado enquanto lia os livros dela.” ou “Eu mal consegui acabar de os ler!” ou “Nunca me passou pela cabeça comprar os livros dela!” Francamente, que pessoas tão sensíveis! Será por isso que um segredo tão horrível ficou escondido durante tantos anos? Assim que tudo veio finalmente a lume, as manifestações de incredulidade, indignação e profunda tristeza sucederam-se:

“Eu estou a ficar muito irritada. Não porque outro pedófilo foi exposto, mas porque ela e os abusos do seu marido estão a ser associados ao Paganismo. Vamos lá dar mais uma pedra à direita religiosa, para que eles a possam atirar a nós!

Não, eu não sou uma fã da Bradley e nunca fui. Tentei ler as Brumas e dei por mim a sentir raiva, apenas porque havia algo que fez disparar o meu alarme, e agora eu sei porquê.

Eu sou Pagã e tenho sido há quase 50 anos. Eu aprendi acerca das minhas práticas e crenças através de professores e não de livros. Eu não fui atraída para o Paganismo por causa de algo que alguém escreveu, mas porque sabia que era onde eu pertencia, desde muito jovem. Dito isto, não, eu não estou a criticar ninguém que tenha sido atraído para o caminho Pagão porque leu algo que o despertou para um lado seu com o qual tinha de se conectar. Encontrar o seu caminho é sempre pessoal.

O que eu estou a tentar dizer é que este assunto cria ligações perigosas. Ele permite que a direita religiosa aponte o dedo aos Pagãos e diga que somos os monstros que sempre nos acusaram de ser. Sim, a Bradley e o seu marido precisam de ser vistos como as pessoas doentes que eram e condenados pela dor que infligiram às vítimas dos seus abusos. Ela usou a sua fama para ganhar acesso às crianças e isso é uma coisa horrível, mas como todos os pedófilos ela usou o que tinha para conseguir o que queria.

Eu vivi por 10 anos em abuso sexual e muitos mais anos de abuso físico e mental. O meu agressor era católico, mas isso não faz de todos os católicos abusadores. Assim como Bradley, sendo uma agressora e Pagã não faz de todos os Pagãos abusadores, mas devido ao facto de ela ter sido um ícone para muitos Pagãos, ao discutirmos que ela foi descoberta como sendo um pedófilo estamos a formar um link que não precisamos nem queremos.”

Kathy Krauss O’Leary

 

“Para seu governo, fui eu quem expôs a história de Moira, e eu sou Pagã.

Existem várias narrativas possíveis e eu não podia impedir as pessoas de pensarem, mas isso não era razão para impedir que a história fosse contada.

Já agora, está preocupada com aquilo que o Paganismo PARECE?

Umm, por que não se preocupa antes com o estado de Moira e do irmão dela?”

Deirdre Saoirse Moen

 

“Eu não ligava nenhuma ao livro e não idolatrava a MZB, por isso eu não tenho o sentimento de perda e traição que muitos amantes do livro parecem estar a expressar. O que eu estou é triste. Porque, apesar de todas as nossas grandes intenções, dos altos ideais espirituais e sociais, ainda somos apenas pessoas – com tudo de bom, mau e feio de qualquer outra comunidade. A minha desilusão vem do fim da suposição ingénua de que este tipo de coisa não poderia acontecer aqui, connosco, na nossa comunidade. Nós somos melhor do que isto, não somos? Aparentemente não e isso é triste.

Eu olhava para os abusos e a hipocrisia das comunidades Católica, Batista e outras e sentia-me grata por este “tipo de coisa” não acontecer na nossa comunidade, porque eu acreditava que cuidamos uns dos outros e nos regemos por um padrão mais elevado. Muitas pessoas dizem o que fazem e agora está claro como a luz do dia que alguns de nós não fazem o que dizem. E isso deixa-me profundamente triste.

Claro, todos nós somos seres humanos imperfeitos, mas mesmo assim eu costumava acreditar que somos um grupo de indivíduos que tinha mais do que uma parcela de autoconsciência. Parecia que todos a quem já acudi, não importa o quão casualmente, acabariam por dar a volta e que iriarmos discutir as questões que cada um tem. Mas uma coisa é ter alguns problemas, outra bem diferente é ser um predador numa comunidade que tem sido tão aberta e crédula. Faz-me perguntar quantos mais de nós terão cometido crimes hediondos contra os mais vulneráveis da nossa comunidade.

Muitas pessoas deixam o mainstream, as religiões patriarcais, e encontrar-nos e acreditam que somos melhores, mais esclarecidos, mais confiável do que o que eles deixaram. Eles acreditam que somos uma comunidade onde podem ser livres para serem vulneráveis, onde podem crescer e curar-se. A nossa comunidade não tem o tipo de marcadores que as religiões patriarcais têm, que facilitam uma cultura de abuso e silêncio e, no entanto, lá está. Acho que é hora de limpar o orvalho dos meus óculos e perceber que somos apenas como todos os outros. E isso deixa-me triste. ”

Zanna Russell

 

Já lá vai o tempo em que os livros eram lançados à fogueira e eu, que sempre estive ligada ao mundo do Livro e sei em primeira mão o quão importante a obra de Zimmer Bradley é para o volume de vendas das editoras que em cada país detêm os direitos de publicação, defendo que todos os livros devem ser preservados, ainda que o seu conteúdo possa ser nefasto e que os seus autores tenham sido pessoas execráveis. Ainda que seja humanamente difícil, acredito que é possível discernir entre a obra e a mão que segura a pena ou clica no teclado. Não seria a favor da interdição de nenhuma obra, muito menos de romances que, apesar de qualquer negrume inerente ao enredo e às personagens, não são perniciosos. Muitos de nós que os lemos, fizemo-lo em tenra idade e sobrevivemos, por vezes, a múltiplas releituras. Conquanto tenhamos tido o privilégio de aceder a obras Arturianas, de Ficção e outras, relativas ao imaginário de Avalon, de qualidade muito superior, ainda assim relembramos esta ou aquela passagem das ‘Brumas’ e voltamos a esfolhear o livro. Muitos leitores viram a série televisiva e têm opiniões acerca de como a obra foi adaptada ao pequeno ecrã, sabendo que provavelmente nunca chegará ao Cinema. Talvez tenhamos pensado em sugeri-lo aos jovens da geração Harry Potter e Eclipse, que se deixaram enredar por outras teias. Entretanto, ficamos na dúvida se será acertado perpetuar a influência de um livro escrito por uma alegada pedófila. Para alguns, não restam dúvidas de qual a decisão a tomar.

Convenhamos que, sem a obra mais conhecida de Marion Zimmer Bradley:

– não existiriam tantas X, Y e Z de Avalon;

– que obras precedentes, de autores como Dion Fortune (“Avalon of the Heart”) e Geoffrey Ashe (“King Arthur’s Avalon – The Story of Glastonbury”), teriam permanecido nas brumas, inacessíveis às massas, relegadas para o plano de obras de culto de uma minoria mais esclarecida;

– que obras posteriores, de autores tão populares como Jean Shinoda Bolen (“Travessia para Avalon”) e Stephen Lawhead (“O Ciclo Pendragon”), talvez não tivessem sido publicadas ou, sequer, escritas da forma como foram, nem alcançado o volume de vendas que se verificou;

– que Glastonbury não seria o que é hoje, uma vez que todos os que de alguma forma interagiram com este contexto e com a chancela de ‘Avalon’, sem excepção, ainda que nunca tenham lido uma linha do que Marion Zimmer Bradley escreveu e se sintam repelidos pelo simples facto de ela ter sido uma máquina de best-sellers ou uma pseudo-Pagã que na verdade nunca renunciou ao Cristianismo e cujas cinzas foram espalhadas pelo Tor (for fuck sake), têm beneficiado, directa ou indirectamente da máquina de marketing gerada pelo fenómeno “The Mists of Avalon” e por muitos outros livros que mencionam a vila.

Congratulo Sorita D’Este, por ter sido uma das poucas pessoas em Glastonbury que se manifestaram publicamente acerca das acusações, lamentando “Mists of Avalon…oh oh dear”, “Mists of Avalon will never mean the same thing again.” Também Danu Forest dirigiu palavras de pesar e advertência a todos os que criaram uma “religião” a partir dos livros da autora. Os silêncios mais gritantes vieram mesmo daquelas pessoas que escolheram plasmar imagens inspiradas pelo livro nas pinturas ornamentais da casa que alberga o Glastonbury Goddess Temple, que sempre se apresentaram como uma transposição da “irmandade de sacerdotisas da Deusa e de Avalon” para a realidade dos dias de hoje, e que devem muita da sua popularidade ao sucesso da obra de Zimmer Bradley.

A título pessoal, em Junho de 2014, desde que tomei conhecimento da primeira troca de correspondência entre Moira e Deirdre Saoirse Moen, no meio bloguista, ainda antes de o assunto ter chegado a jornais como o The Guardian e o Washington Post, eu partilhei com os mais próximos a depravação que estava a emergir, de dia para dia. Porque a minha vida também foi tocada pelas ‘Mists’ e não teria tomado o mesmo rumo:

– se aos treze anos, após ter lido “A Casa da Floresta”, eu não tivesse pegado no primeiro de quatro volumes da edição portuguesa de “As Brumas de Avalon”, que algumas colegas de escola e várias mulheres que eu conhecia tinham lido e elogiado;

– se aos dezasseis anos, depois de devorar mais livros semelhantes e outros acerca de “passagens” para Avalon e muito mais, eu não tivesse descoberto que no mundo real, na ilha que sempre me fascinou, existe – mesmo – uma vila chamada Glastonbury. Um local onde foi criado um “espelho do Cálice” e preservado um poço sagrado, no meio de um jardim que pode ser visitado. Onde, ó delícia das delícias, existe mesmo uma estranha colina labiríntica (e não em espiral) que é o famoso Tor, bem como várias outras colinas mencionadas no romance de Zimmer Bradley (que afinal não é lá muito original). Vila essa onde até havia uma University of Avalon, que entretanto mudou de nome para se tornar Isle of Avalon Foundation. O mesmo local onde mora uma mulher chamada Kathy Jones, que nos finais dos anos noventa apareceu no Travel Channel a contar que sobreviveu a um cancro da mama graças à Senhora de Avalon e às águas ferruginosas da Nascente Vermelha. A mesma mulher que desenvolveu pela primeira vez a ideia romanceada por Zimmer Bradley de uma irmandade de sacerdotisas da Deusa e de Avalon, que encontrou receptividade em imensas mulheres, por todo o mundo. As mesmas que muitas vezes se esquecem que ninguém precisa da permissão de ninguém para fundar templos a qualquer divindade, porque ninguém detém direitos particulares em relação ao conceito de templo, de sacerdotisas da Deusa, nem de Avalon;

– se aos dezanove anos, em 1999, eu não tivesse enviado um fax para o escritório da Sacred Journeys for Women, na California, a pedir informações sobre a Mists of Avalon Pilgrimage;

– se aos vinte e um, depois de adiar por um ano a minha viagem, eu não tivesse finalmente ido ao encontro de uma ‘irmandade’ livre e muito especial que não pediu licença a ninguém para se chamar Sheela-na-Gig Sisterhood;

– se aos vinte e muitos, depois de perceber de que é feito o “Reino Unido” e aberto os olhos para questões como a Apropriação Cultural, eu não tivesse aprendido muito mais acerca de Glastonbury e da razão histórica porque se diz que esse é o local que mais se relaciona com Avalon, da qual tanto se fala sem nada se saber a respeito da origem francesa do nome e das fontes históricas onde a associação da mítica ilha com Glastonbury foi feita pela primeira vez, com recurso a argumentos linguísticos e outros detalhes circunstanciais, para servir interesses económicos que ainda hoje existem.

Eu poderia abster-me de abordar estes assuntos outra vez, depois de os ter mencionado brevemente em “Girl talk para todos”, e dizer que Avalon deixou de ser a minha praia, porque segui para outros jardins, mas isso não seria verdade. Com todo o conhecimento de causa, e respeitando quem “chegou” muito depois, esta será sempre a minha praia. Dado o meu percurso, que por muitos anos guardei para o meu círculo mais íntimo, sei que tenho o dever de dizer algumas palavras acerca destes factos, especialmente em Portugal, onde quase sempre a maioria “descobre a pólvora depois da guerra”. Eu nunca iria querer passar adiante e esquecer-me de tudo o que li, estudei e vivi graças à palavra escrita de Marion Zimmer Bradley. Sou a favor de que os seus livros continuem disponíveis, mas que sejam citados e vendidos com todas as cartas na mesa, em relação à vida da autora, para que os leitores menos avisados possam decidir lê-los ou não, por este ou aquele motivo.

Quanto à pedofilia e à forma como algumas pessoas repetem que não devemos julgar acções de pessoas de outros tempos e de contextos díspares do nosso, eu discordo. Para dar um exemplo Romano, por mais que eu admire e me apoie nos escritos de Cícero, não ignoro o facto de ele ter manifestado um interesse e saciado o desejo muito particular por meninas pré-adolescentes ou muito jovens e não estou disposta a aceitar que alguém tenha um estatuto especial, apenas porque é uma figura pública, criativa ou excêntrica. O abuso sexual, em particular o de crianças e jovens, é condenável em qualquer época e circunstância.

Como diz Deirdre Saoirse Moen, que se correspondeu com Moira e expôs todos os detalhes com a permissão dela, “não há palavras” para os poemas que se seguem. O primeiro foi escrito logo após a morte de Marion Zimmer Bradley e o segundo veio a público em 2014, o que nos deixa a pensar na quantidade de pessoas bem próximas da escritora, incluindo Diana L. Paxton, que fez o corta-e-cola de todo o material que a autora das ‘Brumas’ deixou escrito, tornando possível o lançamento póstumo de “A Sacerdotiza de Avalon” e “Os Corvos de Avalon”, que sem surpresa também foram best-sellers durante a primeira década deste milénio.

Mother’s Hands

© 2000 Moira Stern (Moira Greyland) in “honor” of my mother, Marion Zimmer Bradley

 

I lost my mother late last year

Her epitaph I’m writing here

Of all the things I should hold dear

Remember Mother’s hands

 

Hands to strangle, hands to crush

Hands to make her children blush

Hands to batter, hands to choke

Make me scared of other folk

 

But ashes for me, and dust to dust

If I can’t even trust

Mother’s hands.

 

They sent me sprawling across a room

The bathtub nearly spelled my doom

Explaining my persistent gloom

Remember Mother’s hands.

 

And hands that touched me way down there

I still pretend that I don’t care

Hands that ripped my soul apart

My healing goes in stop and start

 

Never a mark did she leave on me

No concrete proof of cruelty

But a cross-shaped scar I can barely see

The knife in Mother’s hands.

 

So Mother’s day it comes and goes

No Hallmark pretense, deep red rose

Except blood-red with her actions goes

It drips off Mother’s hands.

 

The worst of all my mother did

Was evil to a little kid

The mother cat she stoned to death

She told to me with even breath

 

And no remorse was ever seen

Reality was in between

Her books, her world, that was her life

The rest of us a source of strife.

 

She told me that I was not real

So how could she think I would feel

But how could she look in my eyes

And not feel anguish at my cries?

 

And so I give you Mother’s hands

Two evil, base, corrupted hands

And lest her memory forget

I’m still afraid of getting wet.

 

The bathtub scene makes me see red

With water closing over my head

No little girl should fear to die

Her mother’s fury in her eye!

 

But both her hands were choking me

And underwater again I’d be

I think she liked her little game

But I will never be the same

 

I’m still the girl who quakes within

And tries to rip off all her skin

I’m scared of water, scared of the dark

My mother’s vicious, brutal mark.

 

In self-admiring tones she told

Of self restraint in a story old.

For twice near death she’d beaten me,

And now she wants my sympathy.

 

I’ve gone along for quite awhile,

Never meant to make you smile

But here and now I make my stand

I really hate my mother’s hands.

They Did Their Best

By Moira Greyland

 

The cry of our day is to smile as we say

Something pat that sounds like understanding

And those of us left who still cry when bereft

Risk guilt trips upon our heads landing

 

Something pat that sounds like understanding

So the ones of us left Who still cry when bereft

Risk guilt trips upon our heads landing

 

For the party line now Is to claim that somehow

Everybody somehow did their best

So the ones who did wrong Goes the new New Age song

Aren’t to blame, we should lay this to rest.

 

But it’s lies, there are villains who are still out there killing

Or else for our courts there’s no need

Our jails are not filled With innocents willed

By a system corrupted with greed.

 

My mother did her best, yes she really did her best

To drown me for not being her willing lover

My daddy did his best, oh he really did his best

And forced his preteen boyfriends to bend over.

 

Some people are sick, like to make people suffer

Some people just turn a blind eye

But pretending a monster is ribbons and lace

May condemn a small child to die.

 

My husband was a cop and much child abuse had stopped

Like the mom who put her baby on the stove

She threw him out of sight but the smell she couldn’t hide

And she didn’t come out smelling like a rose.

 

Did that mommy do her best? Would you tell that little one

“Forgive her dear, she must have been insane”

Would you tell that to those burns, To that lie will you return

And hurt those shining eyes so full of pain?

 

A victim does his best, a victim does her best

To love and live and give up grief and malice

But when we had no love, but what came down from

Above It’s surprising we have not become more callous.

 

And how to learn to cope And not give up all my hope

Is painful far enough without your lies

But if you had seen me then With blood pouring off my skin

Would you have turned a deaf ear to my cries??

 

And told me “Mommy did her best, yes, she really did her best

So stop crying and stop bleeding and forgive her

To cut you she’s the right, and to throw you out of sight

And not love you till you sexually deliver!!

Polémicas premeditadas

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Os cultores, e os politeístas de uma forma geral, devem deixar certos assuntos para depois. Não porque esses assuntos não tenham relevância, mas porque não são tão importantes como as nossas vidas privadas e tudo o resto que faz parte do quotidiano, como por exemplo prestar culto aos Deuses. Nas últimas semanas, as celebrações do novo Anno Sacro, a Calendas de Aprilis, e a Venerália, que celebrámos ontem, em honra de Vénus Verticórdia, mereceram mais atenção por parte dos cultores do que quaisquer polémicas. Os agitadores podem sempre esperar, mas se não quiserem também podem ir procurando outras colmeias onde consigam realmente semear a discórdia. Entretanto, para mim, o “depois” pode muito bem ser hoje.

Para alguns, o facto de haver pessoas que mantêm a religião livre de politiquices é um sinal de fascismo. Atentem nesta contradição! Porque o que finalmente vou comentar, ao fim de uma semana após ter estalado a polémica nos blogs internacionais, é uma tentativa de criar um clima de suspeição em relação aos – e entre os – politeístas de diversas tradições. É grave, mas não suscita a minha indignação. Dedico um post a este assunto porque, à semelhança de outras pessoas que entendem ser preciso repudiar as alegações que foram feitas, eu também sei que existe apenas uma pequena janela temporal para determinarmos qual vai ser o discurso nas próximas décadas, acerca do Politeísmo. E se queremos manter o foco nos Deuses e não nas politiquices que alguns elementos tentam imiscuir nas comunidades politeístas a que, na maior parte das vezes, nem sequer pertencem ou apenas fingem pertencer, sob pretexto de nos alertarem para os supostos perigos que espreitam a cada canto dos nossos fóruns, grupos, e comunidades locais, então temos de tomar uma posição. E esta tomada de posição tem esperado muito para acontecer. Temos aturado demasiadas impertinências. Não precisamos de manifestar revolta, porque o assunto só provoca o espanto de quem compreende que estamos perante pessoas que querem levar os outros para o seu campo de batalha, para jogarem o seu jogo, e lhes facilitarem a vida no que toca à difusão das suas ideologias. Porque é preciso entendermos que para esses elementos qualquer publicidade é boa publicidade. Adivinhem quem está a tentar radicalizar o Politeísmo?

Estando em Portugal, o mais provável é que eu seja a primeira pessoa a escrever em Tuga acerca do que aconteceu. Não por ser a única politeísta portuguesa que tomou conta da ocorrência, mas porque os outros que também juntam as suas vozes às muitas que têm reagido ao artigo do blog Gods&Radicals, preferem fazê-lo em inglês, por uma questão de acessibilidade, uma vez que interagem com outros politeístas de vários países. Eu também o faço em inglês, nos blogs e redes sociais, das poucas vezes que dedico cinco minutos a comentar, mas não faço questão que este espaço tenha impacto além das fronteiras lusófonas. Estou mais interessada em perceber como essas influências exteriores, e as polémicas geradas além-mares, poderão impactar a tímidas comunidades politeístas portuguesas. E no que diz respeito à intersecção entre Religião e Política, o nosso país tem características únicas, que determinam que a nossa reacção também seja distinta – mas não menos intensa – daquela que se observa nos Estados Unidos da América e no resto da Europa e do mundo.

Sob pena de espalhar um pouco mais a palavra dos agitadores (e porque ser agitador também é um direito que a todos assiste), passo a explicar que o post que está no centro da polémica intitula-se “Confronting the New Right”, ou “Confrontando a Nova Direita”, e é anónimo, apesar de ter sido escrito para o referido blog Gods&Radicals. Esta plataforma é dedicada ao “Pagan Anti-Capitalism”, ou “Anti-Capitalismo Pagão”, seja lá isso o que for. Portanto, estamos perante um grupo que não tem qualquer pudor em associar a sua religiosidade (ou a aparência de religiosidade) a uma ideologia. Pelo contrário, assume e cultiva essa associação, autodenominando-se uma “beautiful resistance”, ou “bela resistência”. O tom não deixa margem para equívocos. Não vou aqui referir os nomes de quem quer sobressair, até porque pouco importam no panorama nacional, mas uma simples pesquisa por parte dos leitores mais atentos a estes meandros será o suficiente para que percebam de quem se tratam as figuras de proa e qual tem vindo a ser o seu plano (a sua agenda).

É que os tipos são fuinhas! A acusação, travestida de alerta acerca de – e simultaneamente dirigida a – várias comunidades politeístas, quer se definam Pagãs ou não, foi a de que existe uma tendência fascista inerente à natureza das mais diversas tradições. Depois de uma introdução em que é apresentada uma definição da tal “New Right” e afirmada a alegada influência dessa ideologia sobre as comunidades Pagãs, Politeístas, Heathenistas e Ocultistas, somos confrontados com uma análise detalhada das supostas vulnerabilidades de diversas tradições apolíticas ou que, segundo o/s autor/es do texto, apenas são apresentadas como apolíticas mas estarão imbuídas das ideias dessa tal “New Right”, sob disfarce de senso-comum, costumes, saberes tradicionais, ou a vontade dos Deuses. Ou seja, o que eles estão a insinuar é que se formos apolíticos é certo e sabido que essa é só uma forma de sermos ainda mais manipuláveis ou deliberadamente fascistas. Poupem-me! O que está ser feito não é um alerta, é uma associação directa que é preciso impugnar, desde já.

Como cultrix da religio Romana, Cultus Deorum Romanorum, vou continuar a oferecer esclarecimentos, à semelhança do que tem sido feito por outros politeístas que têm vindo a retomar as religiões que foram espezinhadas ao longo de milénios. Mas desde já, a título pessoal, como portuguesa que sou, eu não admito que ninguém – muito menos alguém que provavelmente nada sabe acerca da luta pela Liberdade em Portugal – tire ilações acerca das minhas opções políticas, de forma preconceituosa, com base na minha religiosidade. Se alguém não é capaz de discernir entre esses dois planos, esse alguém não sou eu, mas sim quem se dá ao desplante de insinuar que as minhas expressões de religiosidade politeísta e o meu apreço pela minha herança cultural podem denotar alguma inclinação política extremista.

Antes de prosseguir, abro um parêntese para sublinhar um detalhe que não deve passar despercebido. Nesse rol que foi mencionado, são apontadas as tradições Dianicas e da Espiritualidade da Deusa; Druídicas; Reconstrucionistas; Devocionais; Heathenistas, Asatru e Tradições Nórdicas; Ocultismo, Bruxaria (Witchcraft), e Tradições de Alta Magia. Ou seja, todos os principais sectores em que se inserem religiões e tradições específicas, como o Cultus Deorum Romanorum, o Politeísmo Helénico e, para dar um exemplo de uma religião moderna, a Wicca. No entanto, se continuarmos a ler, podemos ver que é feito o reparo de que estas tradições não estão alinhadas com a tal “New Right” (grande novidade), apesar de todos os alegados perigos e vulnerabilidades referidos. No seguimento desse reparo é feita uma menção explícita às tradições da OBOD – Order of Bards, Ovates and Druids (a qual desde cedo optei por não integrar, sobretudo devido à amizade colorida que a ordem tem com o Unitarian Universalism e com o conceito de “igrejas da floresta”, que me dá vontade de fugir), à Reclaiming (com a qual estou bem familiarizada, graças aos meus laços com o outro lado do Atlântico), e à Feri (que de tão jovem que é já nem é “do meu tempo”), entre outras não especificadas. Segundo o/s autor/es, estas tradições têm uma ênfase mais igualitária e não hierárquica do que as outras, o que as torna mais imunes às investidas da tal “New Right”. Ora, ora! Por que será que estas tradições estão a ser arredadas da fogueira? Não será porque os autores e dinamizadores do Gods&Radicals estão intimamente ligados a essas tradições? É verdade.

Please (Mr.Rhyd and co.), não me venham contar histórias da Carochinha acerca desta ou daquela sacrossanta comunidade Pagã moderna, composta por bons Pagãos, fadas e duendes, que querem orientar os “seekers”. De um modo geral, tenho boa impressão do papel que a OBOD, sobretudo na pessoa de Philip Carr-Gomm, tem tido na alargada comunidade Pagã, mas não consigo ignorar a espécie que me faz aquela expressão inspirada no Tao Te Ching, “leading by appearing to follow”, “liderar aparentando seguir”, que tanto ele como vários líderes de ordens druídicas gostam de usar. Em tempos, escutei de organizadores de viagens de grupo, workshops, e conferências da Deusa, que ninguém tinha nenhum lucro com todas essas actividades. Entretanto, está para ser inaugurada uma nova Goddess House em Glastonbury. E ainda bem, mas quem a pagou e vai manter? Enfim, ou anda muita gente a trabalhar para aquecer ou, então, areia nos olhos dos outros é refresco. É de notar que, a par da promoção dos cursos à distância da OBOD, há quem tenha trilhado carreiras na área editorial. Ninguém está a insinuar que obtêm grandes lucros com isso, mas do prestígio já não se livram. Porque haveriam de querer livrar-se? É o caso do mesmo Philip Carr-Gomm, formado em Psicologia e líder “informal” daquela “informal” ordem druídica. De alguma forma, o papel dele na OBOD justifica uma página de autor na maior rede social e vários livros editados por publishing houses como a Watkins Books, HarperCollins, Random House, Granta Books, entre outras, com direito a edições traduzidas em dezenas de idiomas. E para ficar tudo em família, também podemos assinalar a colaboração dele com Stephanie Carr-Gomm, na edição do The Druid Animal Oracle (Simon & Schuster, Fireside Books, USA and Australia 1994. Connections Publishing UK 1996). Portanto, a perder é que não ficam.

Para quem não sabe, os cerca de 10,000 druidas da Grã-Bretanha correspondem (roughly) a 0,01% da população do país. Àqueles druidas britânicos há que juntar os do resto do mundo, sobretudo dos Estados Unidos. A alguns pode parecer pouco, e sabemos que o Druidismo, nas suas diversas expressões e ordens é uma minoria religiosa, mas 0,01% num país como a Grã-Bretanha representa um público e justifica que haja editoras que estão dispostas a publicar, não só os livros de Carr-Gomm como de uma série de outros autores afectos à OBOD. Nenhuma editora o faria se não tivesse os custos cobertos nem qualquer perspectiva de retorno financeiro. Em Portugal (Zéfiro – Edições e Actividades Culturais Lda.) e em quase todos os países onde a ordem está presente também é assim e isso é perfeitamente legítimo, mas não podemos estar à espera que seja a OBOD, e os seus representantes “informais” que em cada país vão somando fama e seguidores, a lamentar as associações que foram feitas naquele artigo do Gods&Radicals, em relação à maioria das outras comunidades. Quanto mais alarmados ficarem todos aqueles que andam à deriva, ou saltitando nos diferentes ramos do açucarado Paganismo moderno, ou do “arquetipismo” pseudo-psicológico que nada tem a ver com Religião, mais seguidores terão a OBOD e os seus emergentes protagonistas locais.

Fechado que está aquele parêntese, voltemos agora ao cerne da questão. Que  os “Pagãos Anti-Capitalistas” não tentem definir a natureza e supostas vulnerabilidades da minha comunidade religiosa, à qual não pertencem, que não conhecem nem querem conhecer, mas que descrevem de forma a provocar inquietação e a obterem reacções que não tardam em usar contra nós, para nos fazerem parecer tão histéricos como as sufragistas aos olhos dos seus detractores. Passo a traduzir do texto original em inglês:

“Reconstrucionismo: Um dos locais mais significativos onde a New Right intersecta as crenças Pagãs. A ênfase em regressar a tradições ‘reconstruidas’ (e pouco compreendidas), fórmulas sociais e estruturas hierárquicas, assim como uma ênfase em recuperar a herança europeia são frequentemente problemáticas. Mais, tendências nacionalistas e de exclusivismo racial são frequentemente justificadas como sendo parte dos ‘costumes’.”

“Politeísmo Devocional: Similar aos problemas do Reconstrucionismo, mas com uma dimensão extra. Porque como alguns Politeístas Devocionais colocam a autoridade final nos ‘deuses’ e enfatizam as relações hierárquicas (entre humanos e deus, sacerdote e devoto), as questões éticas não podem ser questionadas pelas pessoas preocupadas por causa da ‘vontade dos deuses’.”

– Primeiro, no que me diz respeito, e ainda que outros cultores não se importem de ser chamados Pagãos, eu não sou Pagã nem pagã, e não pratico nenhuma forma de Paganismo.

– Segundo, “crença” tem alguém para quem acreditar é a base da sua religião e não os cultores da religio Romana, onde o único voto é o de cumprirmos aquilo a que nos propomos diante dos Deuses, e não viver segundo Escrituras e Mandamentos. Só por isto, pode ver-se a falha de compreensão de quem escreveu aquilo.

– Terceiro, ninguém quer regressar a lado nenhum, apenas retomar, a título particular, comunitário, e não nacional, as religiões que foram proibidas, mas que no caso Romano podemos entender perfeitamente, desde que queiramos tomar conhecimento de pelo menos a ínfima parte da avassaladora quantidade de registos que os nossos ancestrais nos legaram. O facto de termos de ‘reconstruir’, ou apenas retomar o que foi bruscamente interrompido, e progressivamente dilapidado por quem desde então escreveu a História, só revela a natureza dos opressores.

– Quarto, essa necessidade de conhecer a mentalidade dos Romanos que fundaram a religio não advém de nenhuma intenção de reinstituir a velha ordem, de viver numa sociedade sequer semelhante à da Roma Antiga, de voltar à época em que havia escravos e em que as mulheres eram consideradas inferiores ou ficavam a cargo dos patres familias. Se pensássemos assim em relação ao Cristianismo, a existência de religiões cristãs na actualidade significaria que os cristãos ainda viveriam como no tempo das catacumbas, das Cruzadas, ou da Inquisição (no caso dos católicos). Esta analogia é para deixar claro que podemos ser pessoas dos nossos dias, sofisticadas e até visionárias, ao mesmo tempo que temos uma religião da Antiguidade ou autóctone de qualquer território europeu.

– Quinto, nunca existiram quaisquer questões de “exclusivismo racial” na religio Romana, nem no tempo da Roma Antiga nem nas actuais comunidades do Cultus Deorum. Aliás, como lusófonos que somos, nunca devemos esquecer que, ao contrário do que veio a acontecer, também por mãos dos nossos antepassados, durante o domínio do Cristianismo, a cor da pele nunca foi sinónimo de um determinado estatuto ou da ausência dele. Por outro lado, a noção de nacionalismo não se aplica a uma religião que é praticada por todo o mundo, com ênfase na sacra privata e não na sacra pública.

– Sexto, em relação ao que é referido no parágrafo dedicado ao Politeísmo Devocional, nem vou dar-me ao trabalho de explicar por que razão é absurdo achar que há algum perigo no facto de alguém consciente da sua autoridade espiritual estabelecer uma relação “hierarquizada” com qualquer divindade (e não com qualquer mortal, ainda que sacerdote). Pois, se os Deuses fossem criados pelas nossas mentes, como os arquétipos, e dependessem da nossa existência, como a psicologia, então é que não haveria relação nenhuma a não ser com os nossos ‘umbigos’ mentais. Mais, relembro que não são os politeístas que vivem de acordo com Mandamentos e Escrituras que sempre foram seleccionadas, reescritas, e usadas para deixar clara a ‘vontade de Deus’ (com D maiúsculo, if you please senhor/es autor/es, porque Ele, como Deuses e Deusas, pode muito bem existir e o respeito também está nestes detalhes).

Agora pergunto, onde é que estão a incompatibilidade, o problema, ou o perigo? Eu sei onde. Um pouco por todo o lado, em todas as instituições e comunidades, porque fascistas há em todas as esferas. Sobretudo, o problema está nas mentes manipuladoras de quem achou que lhes seria útil fazer uma análise tão exaustiva como negligente dos sectores Pagãos e/ou politeístas, e escreveu um rascunho como aquele, com o objectivo de dividir para reinar e difundir a sua ideologia Anti-Capitalista, que na tem a ver com Religião. Acredito que o pessoal na Gods&Radicals ainda ache que alguém devia agradecer-lhes pelo ‘alerta’ e por todas as dicas incluídas num ‘artigo’ que podia ter algum valor, se não tivesse sido escrito de forma tão ignorante, depreciativa, e tendenciosa.

Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.

Desfazer equívocos a bem da sensibilidade

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

Os Romanos são frequentemente considerados precursores da apropriação cultural. A verdade é que as palavras que usamos não são explícitas nem descritivas do que aconteceu no âmbito religioso. Em arqueologia é mais comum empregar-se a palavra aculturação. Segundo José d’Encarnação, que apresentou a palestra “Altar romano dedicado a Arantius Tanginiciaecus”, no passado dia 19 de Março, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, a aculturação religiosa terá sido “uma das mais sábias atitudes que a política organizativa dos Romanos soube adoptar”. Durante aquele evento foi apresentada uma ara de estética romana, proveniente da Beira Interior, dedicada a uma divindade indígena à qual foram atribuídos diversos epítetos e que é considerada um exemplo de “convivência pacífica entre Romanos e povos indígenas”.

Nem sempre a referida aculturação foi progressiva e em muitos casos nem sequer foi isso que aconteceu. Muito menos se tratou de apropriação. Longe de mim fazer aqui o que os ingleses chamariam cherry picking, em relação à palavra mais adequada. Não quero tentar relativizar a violência que terá resultado de decisões políticas dos Romanos da Antiguidade, mas é essencial entender que a expansão do Império Romano não teve uma motivação religiosa. A suposta apropriação de divindades pela religio Romana é uma incorrecção e denota desconhecimento acerca da natureza dos Deuses e do que seria considerado supertitio pela tradição Romana do Cultus Deorum. Antes de mais, é essencial usarmos a palavra correcta, que é incorporação, porque não implica a sugestão de que os Deuses possam ser comandados e subjectivizados.

Os Romanos sempre souberam como transferir o culto de uma divindade de outro povo e território para o seu panteão e os seus templos, com base na relação de respeito que estabeleceram com os Deuses e não como uma manifestação de conquista ou tentativa de humilhação do opositor. Eles nunca o fizeram por acharem que os seus Deuses não eram suficientes ou que a sua religião não era satisfatória, mas porque sempre foram flexíveis. Os Romanos reconheceram as divindades autóctones e quiseram assimilar muitas à sua tradição, sem proibir outras formas de culto. Um dos casos mais conhecidos é o da Deusa Juno de Veii, que através da cerimónia conhecida por evocatio foi convidada a proteger os Romanos antes da conquista daquela cidade. A Juno foi oferecido um culto e um templo em Roma que Ela aceitou ao favorecer os Romanos, passando desde então a ser uma das Deusas da tríade Capitolina mais conhecida, ao lado de Júpiter e Minerva. No entanto, sempre foi reconhecido o culto de Juno fora de Roma, sobretudo pelos Argives e o povo de Lavinium, que a reverenciava como Juno Sospita.

O evocatio realizado na religio Romana não pode ser entendido à luz das modernas “ciências Herméticas” e das religiões politeístas eclécticas que “trabalham” com os Deuses. Muito menos segundo o curioso conceito de “adaptabilidade cristã”, tantas vezes mencionado como sendo uma qualidade católica. A adaptabilidade cristã – católica – que regeu a era de perseguição formal dos cultores das religiões nacionais: que começou com a legislação contra os cultos antigos, a 350 da Era Comum; que foi reforçada no dia 23 de Novembro de 353, com o encerramento dos templos e a abolição dos sacrifícios sob pena de morte; e que culminou no Édito de Tessalónica, Cunctos Populos ou De Fide Catolica, a 27 de Fevereiro de 380, o qual estabeleceu a exclusividade do Cristianismo enquanto religião de um certo Império Romano, que nunca foi mais do que uma encenação de magnificência. A tal adaptabilidade que é demonstrada cada vez que alguém insiste em afirmar o desaparecimento das religiões autóctones, em particular as provenientes da Antiguidade Clássica. A mesma adaptabilidade que assegura que os católicos não se importam com as raízes e os elementos “pagãos” da sua religião, declarando que isso apenas a torna mais abrangente. Afinal, permite que os politeístas esqueçam os seus “deuses imaginários” e sejam cristianizados através da adoração de santos, o que é suposto servir-lhes de consolo.

Ora, à “luz” desta mentalidade e da ignorância total acerca da natureza dos Deuses, a que tão bem serve o moderno conceito de arquétipo usado no jargão das “novas psicologias”, não é possível que alguém entenda que os Deuses não são comutáveis nem apropriáveis. Para além do insulto implícito, esta falha de compreensão é uma manifestação cristã residual que causa problemas a muitos politeístas recém-assumidos e pouco familiarizados com a religio. Se no caso de Juno estamos perante uma Deusa itálica, o mesmo não acontece com Afrodite, e isto reporta-me à situação de uma jovem que terá encontrado o Cultus Deorum, aparentemente, graças àquela Deusa do Olimpo. Duas semanas antes, ela tivera uma “epifania” acerca de uma divindade que sempre estivera presente na sua vida. Quando contactou os cultores pela primeira vez o seu tom era o de quem tinha acabado de se apaixonar por alguém que mal conhecia. A sua abordagem foi o mais sincera possível, tendo admitido saber muito pouco acerca dos Deuses Romanos, mas mostrando grande interesse em clarificar aquilo que parecia tratar-se de um mal-entendido ou de uma partida internáutica de Mercúrio. Afinal, ela teria sido guiada para um grupo de apoio de cultores Romanos onde começou por procurar informações acerca de…Afrodite!

De acordo com o seu testemunho, a jovem tinha sempre “trabalhado” com uma Deusa que nunca se preocupara em nomear. Acumulara uma colecção de conchas e búzios do mar, a sua cor favorita era verde-marinho, adorava maçãs, e quanto mais pensava na misteriosa Deusa mais necessidade tinha de estar perto de rosas. O seu altar estava coberto de conchas e incluía uma imagem do quadro “O Nascimento de Vénus”, que encontrara esquecida numa gaveta, em casa dos seus avós. Estes e outros aspectos levavam-na a crer estar perante Afrodite. No entanto, encontrava-se a clarificar as suas dúvidas junto de cultores tradicionais da religio Romana, o que impunha que ela descobrisse de uma vez por todas a quem queria dirigir-se. Porque o panteão Romano não inclui Afrodite (e Vénus, com quem partilha atributos, é muito mais arcaica). Naquele caso era crucial que a jovem se familiarizasse com os elementos presentes na sua vida e discernisse entre as duas Deusas. Precisava de saber se estaria a tomar uma pela outra, como é comum acontecer quando alguém tem um conhecimento enciclopédico das divindades ou pensa que a sua diversidade é apenas aparente e se resume a uma questão de nomenclatura. Este é um aspecto residual do pensamento monoteísta que atrapalha muitos novos politeístas, à medida que aprendem o culto dos Deuses, nas diversas tradições, ou quando querem estabelecer um culto ecléctico a muitos Deuses em simultâneo, à revelia de quaisquer preceitos religiosos tradicionais.

Aquela jovem foi prontamente informada da existência do politeísmo Helénico e das respectivas comunidades e grupos de apoio, onde poderia encontrar toda a informação acerca de Afrodite que desejasse. Só ela iria conseguir decifrar se estaria a usar o nome errado para Vénus, uma vez que por decalque cultural e limitação religiosa a maioria das pessoas exteriores ao verdadeiro politeísmo, e ao Cultus Deorum Romanorum, em particular, não se apercebe que todos os Deuses são distintos, por via da percepção, raízes e atitudes. Eles não devem ser confundidos, embora possam ser sincretizados. O melhor a fazer enquanto não se tem certeza do nome de uma divindade, que provavelmente será um patrono para toda a vida, é venerá-la “por qualquer que seja o seu nome”, até que esse seja revelado de forma inconfundível. No caso referido, a ligação marítima não é o suficiente para identificar a Deusa como sendo Afrodite. Seria errado que terceiros concluíssem isso, porque poderia levar a um afastamento da jovem da sua patrona, caso não se tratasse de Afrodite. Vénus também tem muitas qualidades marítimas, sobretudo na Sicília, e em particular em Eryx. Se a jovem decidisse reverenciar as duas Deusas ao mesmo tempo poderia acabar desorientada, a confundir os preceitos da tradição Helénica com os da tradição Romana, e a sentir que a sua adorada Deusa a teria abandonado. O que não quer dizer que uma cultrix não deva ter mais do que um patrono do panteão Romano, mas essa não era a situação da jovem, que estava a viver um dilema envolvendo não só duas Deusas mas duas tradições e a prática pessoal que tivera até aí.

Através deste episódio é possível perceber que o conceito de apropriação, à semelhança de conversão, é estranho ao Cultus Deorum Romanorum, e às tradições politeístas, em geral; embora alguns movimentos religiosos eclécticos não se preocupem muito em relação à forma como somam seguidores. Há situações que requerem circunspecção e sensibilidade, porque não serve a ninguém, muito menos a cada um dos Deuses e às diversas tradições religiosas herdadas da Antiguidade, tentar manipular as pessoas, tomando uma divindade por outra, e dizendo que tanto faz o nome que lhes chamem. O objectivo não é “conquistar” um rebanho – ou um exército – de “fiéis”, que neste caso seria composto por cultores fictícios e mal informados, que poderiam nem sequer ser politeístas. Porque é frequente a verdadeira mentalidade religiosa de cada um revelar-se nos detalhes, na forma como as pessoas se expressam e pensam, mesmo quando tentam aprender mais sobre uma tradição politeísta proveniente da Antiguidade. Muitas querem de facto apropriar divindades e elementos religiosos, sem abdicarem daquilo em que sempre acreditaram (sobretudo, quando não acreditam em quaisquer divindades e as tomam por conceitos), numa manobra de estilo ou tentando rebelarem-se um pouco perante a família, os amigos, o seu público, e a comunidade. Outras sempre “orbitaram” em torno de uma religião que precisava ser retomada e que tiveram de aprender a praticar, para transcenderem de vez o fascínio pelos livros de Mitologia ou de História da Religião. E isto não é coisa que aconteça de um dia para o outro, nem que se ponha de parte como uma peça de roupa que deixou de ser útil e passou de moda.