Retiro, o que me faz espécie

The Green Man by Brian Froud

The Green Man by Brian Froud

Se calhar sou eu que sou esquisita, mas tenho para mim que no caminho da Consciência está o respeito por uma noção de auto-preservação que assenta no princípio da Higiene. E se para alguns “ascetas” esse conceito se restringe à higiene mental, chegando a ser notório o desleixo com a limpeza do corpo físico, outras pessoas ainda se preocupam com medidas de higiene que deveriam reger muitos dos alegados “centros de retiros” espalhados um pouco por todo o mundo.

O primeiro que visitei, por semanas em anos consecutivos, desde 2001, deve ter-me deixado mal habituada. Trata-se de EarthSpirit Centre, em Dundon, nas proximidades de Glastonbury, que tem crescido sob o cuidado permanente do nosso querido e inesquecível anfitrião, o Green Man David Taylor. Ele sempre foi receptivo a sugestões que tem vindo a implementar, com vista a uma maior sustentabilidade, segurança e conforto. São prova disso as distinções que o centro tem recebido e que o tornaram referência incontornável no Reino Unido. É um Green Tourism Award Winner, com a categoria Gold, Kindred Spirit Awards Winner, e Ethical – CSR – Green Business of the Year.

Em Portugal, a minha experiência de permanência em locais que se identificam como “centro de retiros” é pequena e acredito que ainda não conheci alguns dos melhores, mas do que conheci, no distrito de Lisboa, serviu para identificar onde é que eu traço o risco. Se visitar novos centros, não deixarei de colocar questões como:

– quantas pessoas se servem da mesma casa de banho, em particular da mesma sanita?

– com que regularidade, durante o retiro, os sanitários são desinfectados?

– o preço do retiro é mais baixo do que nos outros centros porque não inclui a limpeza?

– quais a medidas tomadas quanto à deambulação e saúde de animais domésticos?

– quais as práticas de desinfestação e sua regularidade?

– existe uma máquina de lavar – ou pelo menos escaldar – louça a altas temperaturas?

Sim, porque, quanto a esta última, qualquer chafarrica que sirva cafezinhos em louça não descartável é obrigada por lei a ter tal equipamento! Ora, como é que em “centros de retiros”, sendo que alguns deles são perfeitamente ad hoc e funcionam em instalações que não foram pensadas nesse sentido, não se considera o que devia ser uma prioridade absoluta?

Deixei a sugestão relativamente à máquina de lavar loiça em um – e apenas um – dos casos, em que o centro é gerido pelos proprietários do local, que muito empenho e recursos têm investido num espaço que é, de facto, um exemplo a seguir. A outros, que funcionam com grandes limitações de instalações e autonomia dos próprios arrendatários, e sem prejuízo da relevância das actividades desenvolvidas, prefiro simplesmente não voltar. Aplico eu mesma a máxima que ouvi há dias, de uma pessoa responsável por um desses locais; “fica com o que te serve e deixa o que não te serve”. Sem dúvida! Especialmente em determinadas fases da vida, que exigem todos os melhores cuidados. Em todo o caso, para os que não querem ou não possam investir em equipamento, talvez não fosse má ideia deixarem claro a quem os visita que é melhor levarem louça própria e identificável, que possam usar e lavar (no habitual lavatório, com água fria ou tépida), sem corrermos o risco de andarmos a fazer roleta-russa, sobretudo com talheres que podem estar mais ou menos “lavadinhos”, segundo o conceito de limpeza de cada um/a, mas que nunca são realmente esterilizados.

Talvez, no entendimento de alguns, nós, os participantes de retiros, ainda tenhamos de “evoluir” até ao ponto em que acreditaremos que os Elementares nos protegerão das hepatites e de outras afecções. Mas confesso, nem em locais muito humildes, na Índia, senti que houvesse tamanho laxismo. E nem é que eu não acredite que muitos se sentem pioneiros e que estão a fazer o melhor que podem, com toda a boa vontade, mas a verdade é que para ter uma porta aberta e dizer ao mundo que se fundou e se é responsável por um Centro de Retiros, é preciso mais do que um yurt, uma garagem ou umas tendinhas, e boas intenções.

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Kill them with kindness

Tinted vintage photo of The Lady Chapel at the ruins of Glastonbury Abbey, Glastonbury UK.

Tinted vintage photo of The Lady Chapel at the ruins of Glastonbury Abbey.

 

Sometimes, I peep at folks through Facebook and it’s like a marketplace where there are many conspicuous wannabe ladies of Avalon (with only one L; not the real French town with double L). Honestly, regardless of where they are or where they go to, they seem to be importing and exporting much the same. Also curious is that they don’t have an openly competitive attitude. Instead, they butter each other up with amiable gestures. I guess that’s what people now call sisterhood! It serves them, but it’s not true cooperation and it manifests as a variety of snobbery, in relation to everybody else. Deep down, maybe they know, or at least suspect that, actually, what they want is readily available to everyone. As long as they follow a certain modus operandi that keeps nowadays Glastonbury and the extended spiritual marketplace alive, if debauched as ever.

Of course, there are rarer elixirs, to be found in less congested locales that owe nothing to soggy apple crumble, sodding Malmesbury, congregations of greedy monks, mischievous abbots, cunning priestesses, conmen, carnivals, funfairs, cultural appropriation, and the commodification of lowercase spirituality. As a tip for the potentially talented, deeply creative, and truly original:

Go, go, and add to the rowdy crowd…, but don’t get lost in the mist, fog, or pouring rain. That’s not important and won’t make you special. Besides, damp weather is the worst for feeble bones. I can say this because I, once a probing young Portuguese, arrived in Glastonbury on the verge of the Millennium; childlike and open-minded. I also used to ride horses in Sintra since I was a kid. So, I fell on the malodourous mud times enough to learn to avoid it.

Um recado

“Purim at Mea Shearim, Jerusalem, Israel” (Fotografia: Frederic Brenner)

Cada celebração traz oportunidades de purificação, reflexão e entendimento. O mês que precede o novo ano sacro é um tempo de conexão com os antepassados, dos familiares aos mais ancestrais. Para mim, a Parentália foi profundamente reveladora e permitiu-me aferir alguns pontos de vista, estudar, e descartar alguns preconceitos. Não mais usarei a datação ab urbe condita (ou seja, ‘desde a fundação da cidade’ de Roma), sabendo como é errónea e que no passado foi usada para fins propagandistas. Se alguém espera encontrar aqui uma grande admiradora do Império Romano vai ficar desapontado. Sou apenas uma politeísta e uma cultrix, no sentido Romano do termo. Tenho em conta a necessidade de honrar as minhas origens, não apenas através dos rituais, mas da minha conduta e de uma tomada de posição em situações que não devem passar despercebidas a ninguém.

Isto não é de agora, mas têm vindo a aumentar as manifestações de antissemitismo e não posso ficar indiferente à paranóia das Nações Unidas em relação a Israel, que é evidente em vários planos, desde o Conselho dos Direitos Humanos à UNESCO, a par de incongruências que me fazem temer pelo futuro, a muito curto prazo. Que Anna Perenna não nos falhe e que os ciclos sejam benéficos. Também no âmbito dos eventos feministas dos últimos meses, temos assistido à ingerência de propagandistas e até de uma terrorista condenada que procura legitimar a sua presença ilegal nos Estados Unidos da América, manipulando a opinião pública menos atenta ou apenas mais inclusiva e predisposta ao ódio pelos Judeus. Chegámos ao ponto em que uma dessas mulheres vociferou acerca de quem, segundo ela, pode e não pode ser considerado feminista!

Fica apenas uma nota a alertar para a necessidade de, tanto quanto possível, conhecermos a História e não permitirmos que os piores momentos, a começar pelos horrores que a Roma Antiga e a Igreja Católica trazem à nossa memória colectiva, sejam reescritos, reabilitados, e repetidos sob outras aparências e com novos requintes de malvadez.

 

Presente de menina

sun-waite-smith-tarot

The Original Rider Waite Deck, by Arthur Edward Waite & Pamela Colman Smith. The Sun, XIX.

Findo o Outono, com todas as tarefas de jardinagem que lhe estão associadas, e terminada a Saturnália, a confecção da orange marmalade e do primeiro bolo-rei, tenho mais uma vez vagar para regressar ao blog, mesmo antes do Dies Natalis Solis Invicti. Em época de presentes, derivada da tradição da Sigillaria, recordo o primeiro Tarot que tive.

Criada entre livros, foi o meu pai que me ofereceu o meu primeiro livro acerca de Tarot e um baralho com os Arcanos Maiores e as Figuras. Eu tinha seis anos. Não foi prenda de aniversário nem natalícia. Foi noutro dia qualquer. O baralho era pequenino, de sete por cinco centímetros e meio, ideal para as mãozinhas de uma criança curiosa, que se fartou de brincar com ele. Assim fui aprendendo a linguagem do Tarot. Ao longo dos anos, vários outros baralhos vieram até mim. Durante a minha primeira viagem à Grã-Bretanha, em plena Mists of Avalon Pilgrimage, a Enid Williams, uma iniciada da Fellowship of Isis, ofereceu-me os seus próprios Motherpeace Tarot Book & Deck, de Vicki Noble e Karen Vogel. Só alguns anos mais tarde, quando tinha vinte e cinco anos, escolhi e comprei o meu próprio Tarot de eleição. Mas comprar baralhos de Tarot e um certo “tipo” de livros nem sempre é fácil.

Aos dezoito, quando era uma estudante de Design, no segundo ano da faculdade, ia muitas vezes ao Chiado. Por vezes, ia encontrar o meu pai na Bertrand, mas passava muito tempo sozinha, a explorar as livrarias circundantes. Numa tarde bonita, fui atraída pela fachada Deco da Livraria Aillaud & Lellos. Há algum tempo, li o seguinte, no blog “Aprender uma coisa nova por dia”, no post de 15 de Fevereiro de 2015, “Hoje quero aprender sobre – As livrarias antigas de Lisboa”:

“Subsiste na Rua do Carmo esta livraria que abriu portas em 1931. Vende livros de todos os géneros, mas sobretudo edições mais antigas e livros generalistas, e uma das suas duas montras oferece sempre livros a preços promocionais. A fachada da loja mantém a traça original, em pedra cinzenta, e as duas colunas que ladeiam a porta ostentam motivos gravados em estilo Art Deco.”

É bom saber, porque a minha experiência foi contrária, porque não encontrei “livros de todos os géneros”. Não voltei lá. Não quer dizer que não volte, mas ainda não aconteceu. Tivesse eu menos bons exemplos e força anímica, o que escutei naquela livraria podia ter-me desencaminhando de muitos e bons estudos.

O meu hábito sempre ficar a namorar os livros, mas assim que entrei o vendedor, que talvez não fosse um verdadeiro livreiro, perguntou-me logo o que eu procurava. Eu pedi que me indicasse a secção de Esoterismo, como é costume chamar a um conjunto muito heterogéneo de publicações de várias áreas de estudo, que partilham estantes com livretes de instruções e curiosidades mais ou menos duvidosos. De facto, não gosto da palavra aplicada ao contexto, mas não queria entrar em detalhes e esperava uma simples indicação. Em vez disso, o funcionário manteve as mãos atrás das costas, sem nunca desmanchar um sorriso cínico e respondeu; “Aqui, não vendemos esse tipo de livros.”

Fosse hoje, eu sei muito bem o que lhe diria, mas a minha reacção foi não ter reacção, porque pensava que aquele tipo de resposta, antiguinha, pertencia à década de cinquenta. Acerca dessa época, Doreen Valiente disse, numa entrevista FireHeart, em 1999:

“You couldn’t buy a pack of tarot cards in those days. Literally. I tried for ages before I was able to get a pack of tarot cards, and nowadays, you can buy any amount of packs of tarot cards.”

Ora, aquele era o ano de 1998! De resto, achei que qualquer palavra minha seria escusada, para além das estritamente necessárias, antes de me retirar. Com o meu mais doce sorriso, agradeci, cumprimentei, e saí. Ninguém me mandou descer o Chiado!

Acredito que, na verdade, o problema foi mais o tipo de atendimento do que a livraria e duvido que não tivesse encontrado, pelo menos, os livros do Paulo Cardoso ou o Livro de São Cipriano.

Um par de anos após o a minha primeria ‘Glastonbury experience’, onde todas as livrarias têm aquele “tipo” de livros, passei algumas semanas em Londres, onde visitei a mais antiga livraria de Ocultismo do mundo, a Atlantis Bookshop, Museum Street, Bloomsbury. Agradeço ao meu pai, por me ter dado aquele primeiro Tarot e a liberdade para explorar todo o “tipo” de livros que alegravam as estantes das livrarias e da nossa biblioteca doméstica, em qualquer idade, sem demais considerações. De tal forma que, confesso, eu lia Anaïs Nin aos onze anos. Oops! Mais não digo, nestes dias doces que pertencem às crianças, que se querem muito curiosas. E viva o Sol!

Lares fora do lar

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Esta reflexão parte da experiência pessoal e não tem nada a ver com alegadas tradições nativas da Europa, noções de Soberania e de casamentos simbólicos entre uma Deusa e um Rei, a terra e as pessoas, a natureza e a cultura, o feminino e o masculino, e outras noções dualistas que são constantemente simplificadas para servirem as religiões modernas e o ideal ecológico dos nossos dias.

É uma relação muito especial a que estabelecemos com locais que se tornam uma “casa fora de casa”. Home away from home é a expressão mundialmente reconhecível. A forma como a afeição surge pode parecer inexplicável, mas não é raro encontrarmos os motivos na nossa infância. Pensemos um pouco nos estímulos mais fortes e agradáveis que a nossa percepção de criança expandia e assimilava. Não parecem iguais na idade adulta e, no entanto, nunca deixamos de os procurar e de tentar senti-los como da primeira vez que os experimentámos. É natural que essa ligação a um lugar longe do entorno habitual se deva mais ao facto de nele termos reencontrado, com renovada intensidade, os estímulos que recordamos com prazer do que por ser radicalmente diferente. Torna-se mais fácil estabelecer uma conexão profunda e há boas razões para que seja assim, em particular quando a nossa presença numa determinada região ou cidade se torna recorrente ao longo de anos, ainda que a título esporádico.

Na religio Romana conhecemos os Lares Familiares, guardiães indígenas da habitação onde residimos. Eles são distintos do génio de lugar, por estarem circunscritos à casa onde formamos o nosso lar. A celebração anual que lhes é dedicada coincide com as calendas deste mês de Maio. Ao contrário dos Penates, que são protectores da família, ligados à nossa genética e aos nossos ancestrais, os Lares não se movem connosco quando viajamos e nos hospedamos em diversos locais. Eles são os residentes por excelência e é em torno deles que o culto doméstico se realiza. Assim, é importante reconhecer a sua existência quando vivemos numa casa que se torna significativa, ainda que aí fiquemos apenas temporariamente. É o que acontece a alguém que faz house-sitting por um mês ou mais ou aluga temporariamente uma casa que gostaria que fosse sua. O mesmo é válido para os time-sharing e as casas de férias. Sempre que a permanência numa habitação deixe de ter um carácter de hospedagem e passe a ser considerável, estabelecemos uma ligação com ela. Esta interacção pode ser estabilizada e nutrida, se procedermos de acordo com os preceitos de diversas tradições, sejam elas teístas ou energéticas.

É surpreendente percebermos que uma relação com um lugar e com as casas que vamos habitando é aprofundada a um nível íntimo através das nossas vivências. Este aspecto pode ser sentido por todos, sobretudo quando os laços com um local se estreitam devido a relacionamentos e à experiência de partilharmos o espaço onde moramos. Porém, uma mulher pode experienciar isso de um modo muito visceral, ao nível da sua sexualidade. Para dar um exemplo extremo, quando um parto acontece fora do país de origem de uma mulher, num local que lhe é muito familiar e significativo para si, esse evento contribui imenso para reforçar a ligação que sente. O contrário também é válido e pode ter consequências nefastas, mais ou menos evidentes, quando a conexão não aconteceu ou não foi estabilizada. De qualquer forma, é sempre uma ocorrência indelével, sobretudo se o parto for domiciliar.

Por muito menos, podemos manter-nos conectados com os nossos “locais de poder”, durante toda a vida, ainda que as nossas relações pessoais e os nossos afectos se alterem, que mudemos de região e voltemos aos nossos países de origem. Tomaremos sempre como nossos os infortúnios e as alegrias dessa terra e do seu povo e vamos sempre estar a par de detalhes como a meteorologia. Isto é particularmente verdade se a nossa “casa fora de casa” se situar junto à costa atlântica, para os lados de Mount’s Bay, perto do ponto mais ocidental da Península de Penwith, e se for semelhante às memórias mais precoces que temos do lugar onde crescemos e queremos viver.

Guardiães de uma ilha

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

Sempre soube escutar os génios de lugar, mas foi na “grande ilha” que apurei esse instinto.

Nos últimos tempos, quando visito a Quinta da Regaleira, em Sintra, sinto-me incomodada com o ambiente do palácio. Isto não tem nada a ver com o facto de aquela arquitectura ecléctica – a la Portugal dos Pequeninos – não ser o meu cup of tea. A Álea dos Deuses permanece inalterada e os jardins escapam, mas não estão livres de uma tensão que me faz temer pela segurança dos visitantes que sobem às torres esguias e percorrem as grutas artificiais. Como estará a vigilância por aqueles lados? Talvez tenha a ver com a forma como o espaço está a ser explorado, para fins que em muitos casos não têm nada a ver com as premissas do lugar. Quem quer um espaço bonitinho para os seus eventos empresariais pode sempre ir à Lapa. Sloppiness é uma palavra que surge na minha mente e me leva a recear pelo “vermelho do veludo”. Falta atenção aos detalhes e, claro, uma residência daquelas sem grande parte do seu recheio original, ou à época, parece espoliada.

A propósito, não sei se daqui a uma década teremos a oportunidade de ver os delicados mosaicos da capela sem algum desgaste, tendo em conta os magotes de visitantes que entram e arrastam os sapatos por ali, antes de voltarem a sair como se não tivessem visto grande coisa. Ainda me lembro do tempo em que as pessoas dariam um dente da frente para lá entrarem e não se limitavam a passar vistoria, apenas porque o spot está indicado no roteiro turístico. Afinal, a quinta não esteve tantas décadas praticamente selada a lacre para ser dilapidada em menos de um quarto de século, com a ajuda de uma gestão com queda para o negócio da organização de eventos. Posso tentar encontrar apenas um motivo, mas o certo é que algo tem vindo a ser perturbado e não apenas porque o palácio está aberto ao público. Sei que sempre foi tão exaustivo como magnético, mesmo quando estava fechado. A primeira vez que eu tive a sorte de conseguir entrar foi em meados dos anos 90 e achei óptimo quando passou a ser visitável. Perdeu aquela aura solene e elitista dos espaços reservados aos doutos. No entanto, ali, como em qualquer lugar que passa a ser um ponto turístico, o equilíbrio é delicado.

Nullus locus sine Genius

“Nenhum lugar é sem um Génio”, escreveu Sérvio, em Virgilii Aeneidos Commentarius (Comentário à Eneida de Virgílio), 5, 95. Em Saturnalia, III, Macrobio deixou claro que cada cidade possui um Deus protector ou tutelar. Plínio confirmou isso mesmo, em Naturalis Historia (Historia Natural), XXVIII.

Se vivêssemos num mundo ideal, em que os arruaceiros não enchem um espaço sagrado com toneladas de lixo, em pleno solstício de Verão, nem sobem aos lintéis megalíticos, como se estivessem num viaduto qualquer, eu seria a favor da liberdade de circulação em Stonehenge, na Grã-Bretanha. Infelizmente, não conheci a planície de Salisbury no tempo em que não havia gradeamento em torno do monumento. Mesmo assim, valeu a pena pagar por visitas privadas de duas horas, em sistema de livre-trânsito, apesar dos mirones desbocados e da vigilância armada. Foram todos esquecidos, a partir do momento em que as pedras à nossa volta transformaram o som e as tocámos com reverência. Após um glorioso pôr-do-sol e também numa manhã quente e chuvosa, os corvos ficaram a observar-nos do alto das pedras, quando unimos as mãos para formarmos um círculo no centro do ‘ring’. Apesar de todas as confusões, violência, e polémicas, e ainda que os ‘gigantes’ venham a tombar, a minha experiência diz-me que é impossível oprimir ou aniquilar o génio daquele lugar.

Talvez o promontório de Tintagel seja dos locais mais mágicos, no sentido insólito do termo, onde o génio de lugar demonstra a sua presença através de imagens na paisagem e propicia eventos inesperados. É possível ver o seu rosto, a partir de determinados ângulos, à medida que subimos as escadinhas íngremes que levam ao átrio do castelo. Experiências como esta podem ter os dias contados, porque os visitantes vão passar a ser guiados através de uma ponte (com restrições de acessibilidade), directamente para o interior das ruínas. O antigo percurso estará disponível apenas num sentido, da ilha para o centro de visitantes. Assim decidiu o English Heritage, que é mesmo o único elemento inglês em Tintagel e que faz uma espécie de ocupação pacífica de um dos ex-libris da Cornualha. Pouco contribui para evitar a crescente “Disneyficação” do local, através da imposição de um imaginário revivalista Arturiano que atrai os turistas mais desinformados, mas que nada tem a ver com as origens da lenda nem com o folclore de Kernow.

Para quem se acostuma ao panorama grandioso e dramático da Cornualha e à suavidade das colinas sagradas do ‘Vale of Avalon’, entre as Quantock e as Mendip, a cidade de Bath pode não seduzir à primeira vista. Fica encafuada na paisagem, como se estivesse prestes a sumir-se pelo ralo. Mas há lugares que superam todas as expectativas e nos guiam noutras direcções, que sempre se insinuaram e apenas esperavam a nossa atenção. Muitas vezes, são aqueles que parecem atracções de somenos relevância, num itinerário pleno de lugares míticos, que sempre sonhámos visitar. Tendo em conta as minhas raízes portuguesas, noutra estância termal Romana, eu não devia ter ficado tão surpreendida com a familiaridade que senti ao chegar a The Roman Baths. O charme de um jantar gourmet, o quarteto a tocar ao vivo, os enormes lustres, e a fonte que dá o nome à deslumbrante Grand Pump Room, apenas aumentaram o encantamento. Para além disso, não há nada de que uma fã de Jane Austen – que cresceu em Seteais – não goste num cenário assim. Nunca pensei encontrar um lugar onde uma divindade tutelar, que neste caso é Sulis, estivesse tão reconfortada e se manifestasse com tamanha elegância. Sem dúvida, atenções não lhe têm faltado, ao longo de vários séculos em que a Cultura Clássica e as tradições autóctones foram preservadas e recriadas naquele microcosmos.

As caldas têm uma temperatura constante de 49ºC (120ºF) e são ricas em componentes minerais, sobretudo grandes quantidades de iões de sulfato de sódio, cálcio, e cloro. A maioria das nascentes de água quente da Grã-Bretanha emerge a temperaturas não superiores a 30ºC e por isso não são consideradas verdadeiras hot springs. Das onze caldas da ilha, cinco nascentes estão situadas em Bath e nas proximidades. Têm sido visitadas desde o Neolítico e na Idade do Ferro tornaram-se o foco de um culto local, que ganhou proeminência. Foi durante a ocupação Romana que o complexo com templo e balneário se formalizou sob o nome Aquae Sulis, em honra da divindade tutelar, que foi sincretizada com Minerva. O nome de Sulis, que não é de origem Romana, alude à visão (raíz proto-céltica) e ao sol (raíz proto-indo-europeia), e passou a ser usado como epíteto da Deusa capitolina.

Sulis Minerva não está só associada à cura, mas também à agricultura, à fertilidade, ao ciclo reprodutivo feminino, e sobretudo à amamentação. Foram encontradas algumas miniaturas representando seios esculpidos em marfim, que estavam consagrados àquela Deusa. Terão sido usados por mães enquanto amamentavam e depois oferecidos em sinal de agradecimento por uma boa produção de leite materno. A associação com a fertilidade está relacionada com a riqueza mineral das águas e a vida vegetativa, de cor verde, que prolifera em redor das nascentes. Isto reforça a conexão solar do nome da Deusa, uma vez que é a combinação da água com a luz do sol que permite uma boa colheita. Estes atributos não costumam estar associados a Minerva e revelam mais acerca da natureza da divindade autóctone. Ela também favorece a profecia, através do aperfeiçoamento de artes divinatórias que, mais uma vez, utilizam a água das nascentes em conjunção com a luz solar. Sulis não foi venerada em nenhum outro lugar e não pode ser transportada para outros contextos, embora existam divindades tutelares que têm funções semelhantes. Com Minerva não acontece o mesmo.

As nascentes representam os limiares sagrados e têm óbvias conotações ctónicas, o que justifica a grande quantidade de defixiones (placas de maldições) encontradas em Bath. Emergindo das profundezas do submundo, elas forneceram águas quentes e frias, que eram essenciais para os banhos Romanos. Mesmo depois do culto ter entrado em declínio, o complexo continuou a ter importância para os habitantes. No século XVII recuperou a sua relevância nacional, quando a realeza e a aristocracia passaram a deslocar-se a Bath e a “tomar as águas” para manterem a saúde. Por volta de 1720, a vila começou a desenvolver-se e a ser frequentada por quem queria ver e ser visto, transformando-se num centro da moda, marcado pela arquitectura Georgiana que evoluiu a partir do revivalismo Palladiano e que ficou a cargo de nomes como John Wood the Elder, o seu filho John Wood the Younger, o arquitecto neoclássico Robert Adam, e Thomas Baldwin, entre muitos outros que se voltaram para a Roma Antiga em busca de inspiração. É dessa época o elegante spa que nos foi legado. No presente, o moderno Thermae Bath Spa inclui a Piscina Minerva, que é uma das principais atracções, e continua uma tradição de dois mil anos.

Segue uma lista de locais sagrados e muitos outros pontos de interesse que visitei e honrei, por várias vezes durante alguns anos, no sudoeste de Inglaterra e na Cornualha, onde cada genius loci é perceptível e se manifesta, por vezes de forma surpreendente:

Círculos de pedras (e henge), alinhamentos, subterrâneos (fogou), e complexos funerários:

Stonehenge, Wiltshire, England

Avebury stone circles, Wiltshire, England

Kennet Avenue, Avebury, Wiltshire, England

West Kennet Long Barrow, Avebury, Wiltshire, England

Stanton Drew stone circles, Somerset, England

Nine Maidens of Belston Tor (perto de necrópole da Idade do Bronze), Dartmoor, West Devon

Boscawen-Un, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mên-an-Tol, West Penwtih, Cornwall / Kernow

Boskednan stone cirlce (Nine Maidens, Nine Stones of Boskednan), Ding Dong, perto de Porthmeor, West Penwith, Cornwall / Kernow

The Merry Maidens, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lanyon Quoit, e West Lanyon Quoit (vestígios) entre Madron e Morvah, West Penwith, Cornwall / Kernow

Zennor Quoit, Zennor, West Penwith, Cornwall /Kernow

The Hurlers, St Cleer, Cornwall / Kernow

Carn Euny / Karn Uni, fogou, Sancreed, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Colinas sagradas, naturais e artificiais (mound), e figuras:

Silbury Hill, Avebury, Wiltshire, England

Glastonbury Tor, Somerset, England

Chalice Hill, Glastonbury, Somerset, England

Wearyall Hill, Glastonbury, Somerset, England

Lollover Hill, Compton Dundon, Somerset, England

Burrow Mump, (Southlake Moor), Burrowbridge, Taunton, Somerset, England

Cerne Abbas Giant, Dorset, England

Zennor Tor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Michael’s Mount / Karrek Loos, “the grey rock in the wood” of Lyonesse (inclui igreja medieval, castelo palaciano, e jardins), Marazion, Cornwall / Kernow

 

Bosques e vales, ribeiros e cascatas:

Dundon Beacon, Compton Dundon, Somerset, England

St Nectan’s Glen and Waterfall, Trethevy, Tintagel, Cornwall / Kernow

Peters Wood e Minster Wood, Valency Valley, Boscastle, Cornwall / Kernow

Rocky Valley (inclui baixo-relevo, na rocha, de labirinto cretense), Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Poços sagrados e fontes termais:

The Chalice Well, Glastonbury, Somerset, England

The Roman Baths, Bath, Somerset, England

Sancreed Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

Madron Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Enseadas (coves), praias, portos e cabos:

Prussia Cove (King’s Cove), Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

Marazion beach, Mount’s Bay, Conrwall / Kernow

Newlyn Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mousehole Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lamorna Cove, West Penwith, Cornwall / Kernow

Pednvounder beach, (Treen beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthcurno beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Sennen beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Land’s End, West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthzennor Cove, Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Ives beaches (Porthmeor beach, Porthgwidden beach, Bamaluz beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Gwithian beach, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernwo

Godrevy beach, Peter’s Point, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernow

Port Isaac, Cornwall / Kernow

Tintagel beach, Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Jardins:

Chalice Well Gardens, Glastonbury, Somerset, England

Morrab Gardens, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

Trengwainton Garden, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Micheals Mount Gardens, Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

 

Fortificações:

Maiden Castle, Dorset, England

Cadbury Castle, Somerset, England

Dundon Hill Hillfort, Compton Dundon, Somerset, England

Tintagel Castle, Cornwall / Kernow

 

Igrejas, abadias e catedrais:

Glastonbury Abbey (inclui ruína de St. Mary’s Chapel), Somerset, England

Church of St. John the Baptist, Glastonbury, Somerset, England

St. Mary’s Church, Glastonbury, Somerset, England

St. Michael’s Tower (ruína), Glastonbury Tor, Somerset, England

St. Micheal’s Church (ruína), Burrow Mump, Taunton, Somerset, England

Wells Cathedral (inclui um relógio astronómico), Somerset, England

St. Andrew’s Church, Compton Dundon, Somerset, England

Church of St. Mary the Virgin, Belstone, perto de Okehampton, Dartmoor, West Devon

Minster Church, Boscastle, Cornwall / Kernow

St. Senara’s Church (inclui relevo, em madeira, de uma sereia, Mermaid of Zennor), Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Posso ter esquecido algum e talvez volte para fazer rituais e outras visitas. Um dia.

 

A ocasião faz o Pagão

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

É natural que alguém queira mudar de vida quando se sente realizado durante a participação em círculos, festivais, conferências, viagens, e retiros com ênfase na Espiritualidade. Parece fácil passar de participante a orientador ou ceder à tentação de levar os “trabalhos mágicos” mais a sério. Ter ideias e iniciativas nesse sentido pode fazer alguém voltar a querer saltar da cama, logo de madrugada. Se a vida profissional é frustrante, oferece pouca segurança ou compete com a vida pessoal e familiar, muitos chegam à conclusão que não têm nada a perder se tentarem enveredar por outros caminhos. Sobretudo, se no horizonte está a promessa – ou a miragem – de uma vida ao ar livre, itinerante, artística, sem horários rígidos nem trânsito a horas de ponta, em que as relações humanas no seio de uma comunidade diversa parecem estar livres da competitividade do mercado de trabalho, plenas de entreajuda e ideais mais elevados.

Associar a vida religiosa, a espiritualidade, e as finanças pessoais é um dos mais atraentes becos sem saída da New Age, dos Novos Movimentos Religiosos, e do Paganismo. É muito comum encontrar quem encare a sua sustentabilidade como sendo interdependente da uma prática Pagã. Ou seja, “Sou Pagão, logo tenho um ganha-pão.” Desde quando? Porque, o facto de ser Pagão não torna ninguém um elemento da casta espiritual de uma “tribo” urbana, que vai zelar para que nada lhe falte. Nos dias que correm, qualquer um pode ter qualquer título (que não equivale a nenhuma certificação) e um ofício que lhe corresponda. Portanto, a oferta de serviços espirituais da mais variada ordem é bem maior do que a procura. A certo ponto, as comunidades esgotam-se em si mesmas e sem recursos financeiros só lhes resta voltarem à economia da troca directa.

Uma figura popular da Witchcraft como a “EnchantressSorita d’Este, que há mais de dez anos tinha uma carreira em Londres, da qual abdicou para se fixar em Glastonbury e gerir a sua própria editora, Avalonia, só conseguiu equilibrar ‘a barca’ porque estava no sítio e no momento certos, podia investir e sabia o que fazer. Financeiramente, não terá sido a melhor escolha possível, mas até ela está surpreendida por ter encontrado um estilo de vida e negócio viáveis, que lhe trouxeram muitos outros benefícios. Não pense alguém que escrever acerca da sua tradição ou espiritualidade pessoal e fazer pequenas edições dos seus livros e dos livros dos outros membros de covens ou groves vai ser sustentável, quanto mais um modo de vida. A ideia é romântica e parece haver clientela certa para oráculos e agendas lunares, em Sintra ou de Carcavelos a Carnaxide, mas se não se acautelarem, o mais certo é ficarem no prejuízo.

Mesmo em relação aos nichos mais populares, como o Druidismo, é preciso ter em conta que são muito vulneráveis às modas dos Paganismos modernos. De um modo geral, o mercado “Céltico” entrou em decadência, há cerca de uma década. Basta notar que em 2015, como em anos precedentes, nem na Grã-Bretanha conseguiram organizar The Druid Network Conference e outros eventos, por falta de público disposto a pagar para assistir, embora estivessem previstas as participações de figuras mais ou menos proeminentes. São excepções os Druid Camps, organizados em vários locais, por Philip Carr-Gomm (OBOD), como não poderia deixar de ser. O facto é que no Paganismo moderno, como nas recuperadas religiões da Antiguidade, não há infra-estruturas nem uma tradição de auto-financiamento, principalmente na Europa. Muitos Pagãos queixam-se de não terem acesso a uma série de benesses que existem nas religiões maioritárias, mas a verdade é que há poucos Pagãos dispostos a pagar a outros Pagãos, seja por não poderem, por ainda acharem que uma actividade espiritual não pode ter nada a ver com dinheiro, ou por desconfiança em relação a qualquer tipo de liderança ou organização. Gato escaldado…

É por causa deste cenário que vamos assistindo a metamorfoses súbitas, um pouco por todo o lado. É o fenómeno “clean-up”, em que as pessoas despem as suas personas espiritualizadas, deixam de tentar promover-se com base em qualificações dúbias e numa série de títulos que foram coleccionando e que listam de forma exaustiva em todos os cartazes relativos aos seus workshops e retiros. Começam a procurar formação credenciada numa área concreta ou a investir em pequenos negócios livres do ruido associado ao tema das espiritualidades. Em muitos casos, passam mesmo a negar qualquer associação à sua “encarnação” anterior, temendo que esse histórico dificulte a integração no mainstream ou no âmbito académico. Em situações menos radicais, apenas mudam de fantasia, em busca de novos públicos, passando da Bruxaria ao Yoga ou do Druidismo à “Arquetipologia” num ápice. Há um aspecto muito descartável em todas estas manifestações de sobrevivência.

Afinal, só porque alguém decidiu encarar uma actividade que deve ser remunerada como se fosse uma missão, não quer dizer que a sua comunidade tivesse de lhe suprir as necessidades básicas. Muitas pessoas defendem e contribuem para causas, de forma mais ou menos pública, sem estarem à espera, sequer, de um agradecimento. Quem tem seriedade, não se promove através de uma causa, nem conta com isso para se sustentar, ainda que apoie e ofereça informação acerca de determinados serviços. Uma religião e um movimento não têm de ser diferentes de qualquer causa. Infelizmente, há muitas minorias sob o pára-sol do Paganismo que confundem os factores. Isto degenera em problemas financeiros e frustração em relação à própria comunidade, da qual era esperado reconhecimento, a vários níveis. O problema nestes casos é sempre uma grande dose de precipitação e o facto de não preverem o óbvio. Porque nos movimentos e nas modas há sempre muita gente interessada, que “talvez” vá a uma série de eventos, mas que raramente confirma “inscrições” virtuais através de emails e transferências bancárias.

A responsabilidade por esta situação é, em grande parte, de quem oferece os seus “serviços Pagãos”. Porquê desvalorizar a necessidade de retorno financeiro? Porquê mentir de forma deliberada, para parecer desapegado, ou sentir-se culpado porque uma actividade gerou o mais pequeno lucro? Este é um aspecto residual muito cristão, com o sabor franciscano que está tão em voga, mas que a maioria prefere associar a filosofias do Oriente. Por outro lado, não seria mais saudável, recompensador, e honesto, separar bem as águas, sem querer transformar a mais comum leitura oracular ou massagem de relaxamento numa missão em territórios “místicos”, ainda que possam ter uma dimensão espiritual? Claro que isto não tem nada a ver com o Holismo, que não dispensa qualificações de excelência, as quais não se obtêm a não ser através de estudos formais. Ora, ao preço a que está a Educação e tendo em conta a entrega que exige, não se pode esperar que alguém certificado trabalhe de graça ou por quantias simbólicas, que mal dão para o combustível. Sobretudo, quando os profissionais não estão desesperados e os clientes (consumidores) podem pagar o valor justo por bens e serviços.

Rituais e Consciência

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

Nós temos pequenos tiranos dentro das nossas mentes. Se eles não forem trazidos a lume, criam todo o tipo de complicações e privam-nos de experiências enriquecedoras, que em nada são incompatíveis com a prática religiosa de cada um. Pode parecer que vou divagar um pouco acerca de um assunto que é vagamente do foro psicológico, mas não. Apenas quero notar que é benéfico termos uma noção do papel que os rituais em geral, e não apenas os religiosos, podem ter a vários níveis. Para este efeito, adiante, vou recorrer ao testemunho de uma facilitadora holística extremamente qualificada, com quem há mais de uma década aprendi a criar e partilhar espaço ritual, fora de qualquer contexto religioso.

Pessoas guiadas pela superstição (que não equivale à supertitio) nem sequer aceitariam receber reiki sem terem a certeza de não ser incompatível com os preceitos da sua religião. Por outro lado, muitas dispensam ou abandonam acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em favor de exorcismos, de várias denominações, que geralmente exacerbam sentimentos de solidão, culpa e desespero, muitas vezes com desfechos fatais. Não ajuda o facto de muitos desses rituais serem realizados à revelia de qualquer ordenação, por pessoas pouco capacitadas, ou mesmo abusadores que realizam o chamado “ministério interno”. Outras pessoas vão mais longe e recusam assistência médica aos filhos, como demonstração daquilo a que chamam “fé”. Estamos perante aquilo que extrapola a liberdade religiosa.

Cada cabeça sua sentença, mas é determinante perceber que os rituais podem não ter um carácter religioso. A maioria não tem, mas apesar disso ou exactamente por isso podem ser experiências valiosas e benéficas para qualquer pessoa, seja religiosa ou não. Eu nunca recebi – nem nunca me foi imposto – qualquer sacramento e só participei de ritos religiosos na idade adulta. Por isso, foi no âmbito da Criatividade que descobri o poder dos rituais e iniciei a minha experiência com o espaço ritual. Há quinze anos, recebi ferramentas que viriam a ser úteis ao longo da vida e que provaram ser inestimáveis, sobretudo nos últimos anos, quer a nível pessoal, quer para entender melhor a importância dos rituais religiosos. Com a preciosa e subtil orientação de Jessica Montgomery [1], aprendi a praticar magia que nada tem a ver com tradições esotéricas ou Paganismo moderno, e que não depende da leitura de livros ou da participação em conferências da Deusa. Tem a ver com Consciência.

O que é bom é para ser partilhado, ainda que seja apenas através de breves palavras e a título introdutório, a partir de uma entrevista que à semelhança de um workshop, de um curso intensivo, ou de uma palestra, não pode traduzir o que é ter o privilégio de aprender de forma orgânica, em ambiente propício, sem hora marcada, diariamente e ao longo de semanas, com a amiga ‘Jessica Blessica’, que nunca esqueço, e não apenas com um coach:

“Ritual pessoal e mudança consciente construindo uma nova consciência de propósito através de magia intencional”

«Muitas pessoas acham a ideia de ritual intimidatória e misteriosa. Todos fomos submetidos a rituais que têm tanto a ver com ordem – e tão pouco a ver com arte – que a vivacidade que procuramos raramente lá está. Rituais conduzidos em Latim ou cheios de gestos incompreensíveis ou oficiados por uma pessoa enquanto as restantes servem de audiência dificilmente nos fazem sentir revigorados. Para ser potente, o conteúdo tem de ser reconhecível. Mais importante é que as experiências curativas devem ser participativas. E se alguma vez esteve presente num “novo” casamento e não se sentiu comovido, provavelmente sofreu com o reverso da medalha. Na nossa rejeição de rituais vazios do passado, nós podemos negligenciar convenções antigas e poderosas a favor da nossa cosmologia privada, que acaba por parecer uma charada que mais ninguém entende. Para ser eficaz, qualquer experiência curativa precisa equilibrar significado pessoal e transpessoal – o “Eu” da perspectiva individual contrabalançado pelo “Nós” da humanidade partilhada. Quando as ferramentas do ritual se mantêm simples e acessíveis, cada um pode iniciar, honrar, enraizar, libertar ou renascer ao longo do ciclo de vida. Como uma prática holística, o ritual funciona para além da compreensão linear, evocando novos percursos neurais e estados do ser mais favoráveis. Através do ritual, para parafrasear Gandhi, é possível viver a mudança que desejamos ver no mundo.

Não há necessidade de adoptar sistemas exóticos ou ritos esotéricos. O nosso desejo de significado e profundidade é satisfeito por representações familiares de milagres quotidianos. A nossa consciência de criança compreende facilmente a brincadeira sagrada e pensa naturalmente em símbolos: ovo, rebento, pedra, chama, sino, ramo, água, cordão e itens simples semelhantes são poderosamente evocativos. Actos como partir, queimar, enterrar, unir, limpar, ungir ou adornar requerem pouca interpretação e, usados conscientemente, oferecem-nos tudo o que realmente precisamos de ter na nossa caixa de ferramentas rituais. Estados alterados são fáceis de alcançar através de canção, movimento, respiração, imersão, ingestão, jejum ou privação sensorial. Variações destes ingredientes básicos são encontradas em rituais por todo o planeta e ao longo dos séculos. Uma década a facilitar rituais com centenas de pessoas comuns convenceu-me que há alguma coisa orgânica neste tipo de expressão criativa. Catalisar as nossas aptidões naturais de auto-cura através de experiência intencional é algo que todos parecemos saber fazer, dada a oportunidade.»

[1] Jessica Montgomery, M.S.W.: “Tem um histórico de mais de vinte anos a orientar workshops de desenvolvimento pessoal e aconselhamento a estudantes. Ela tem um B.A. em Psicologia pela Reed College, um Summa Cum Laude M.S.W. em Trabalho Social Clínico pela Portland State University, e fez uma Pós-Graduação no Institute for Family Centered Therapy. Ela ganhou uma University Club Fellowship, e recebeu um American Association of University Women Award. Ela também teve treino especializado em Processo de Grupo, Trauma, Apego, Sexualidade e Intimidade, Terapia pela Arte, Competência Cultural, e Desenvolvimento Infantil. No seguimento de muitos anos de trabalho de apoio, Jessica iniciou o seu Hakomi and M.E.T.A. Training em 2004, e retomou a sua prática privada em 2006. A par do ensino de Hakomi em Portland, Jessica é uma facilitadora de Re-Criação do Self; está a desenvolver um Treino de Apego a nível local com Donna Roy, Jon Eisman e outros; e vai liderar a expansão das ofertas Hakomi na área de Seattle. Uma residente de Portland de longa data, Jessica é uma líder activa de uma comunidade intencional diversa empenhada em elevar a consciência.” Hakomi Institute Faculty

Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.