Kill them with kindness

Tinted vintage photo of The Lady Chapel at the ruins of Glastonbury Abbey, Glastonbury UK.

Tinted vintage photo of The Lady Chapel at the ruins of Glastonbury Abbey.

 

Sometimes, I peep at folks through Facebook and it’s like a marketplace where there are many conspicuous wannabe ladies of Avalon (with only one L; not the real French town with double L). Honestly, regardless of where they are or where they go to, they seem to be importing and exporting much the same. Also curious is that they don’t have an openly competitive attitude. Instead, they butter each other up with amiable gestures. I guess that’s what people now call sisterhood! It serves them, but it’s not true cooperation and it manifests as a variety of snobbery, in relation to everybody else. Deep down, maybe they know, or at least suspect that, actually, what they want is readily available to everyone. As long as they follow a certain modus operandi that keeps nowadays Glastonbury and the extended spiritual marketplace alive, if debauched as ever.

Of course, there are rarer elixirs, to be found in less congested locales that owe nothing to soggy apple crumble, sodding Malmesbury, congregations of greedy monks, mischievous abbots, cunning priestesses, conmen, carnivals, funfairs, cultural appropriation, and the commodification of lowercase spirituality. As a tip for the potentially talented, deeply creative, and truly original:

Go, go, and add to the rowdy crowd…, but don’t get lost in the mist, fog, or pouring rain. That’s not important and won’t make you special. Besides, damp weather is the worst for feeble bones. I can say this because I, once a probing young Portuguese, arrived in Glastonbury on the verge of the Millennium; childlike and open-minded. I also used to ride horses in Sintra since I was a kid. So, I fell on the malodourous mud times enough to learn to avoid it.

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Presente de menina

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The Original Rider Waite Deck, by Arthur Edward Waite & Pamela Colman Smith. The Sun, XIX.

Findo o Outono, com todas as tarefas de jardinagem que lhe estão associadas, e terminada a Saturnália, a confecção da orange marmalade e do primeiro bolo-rei, tenho mais uma vez vagar para regressar ao blog, mesmo antes do Dies Natalis Solis Invicti. Em época de presentes, derivada da tradição da Sigillaria, recordo o primeiro Tarot que tive.

Criada entre livros, foi o meu pai que me ofereceu o meu primeiro livro acerca de Tarot e um baralho com os Arcanos Maiores e as Figuras. Eu tinha seis anos. Não foi prenda de aniversário nem natalícia. Foi noutro dia qualquer. O baralho era pequenino, de sete por cinco centímetros e meio, ideal para as mãozinhas de uma criança curiosa, que se fartou de brincar com ele. Assim fui aprendendo a linguagem do Tarot. Ao longo dos anos, vários outros baralhos vieram até mim. Durante a minha primeira viagem à Grã-Bretanha, em plena Mists of Avalon Pilgrimage, a Enid Williams, uma iniciada da Fellowship of Isis, ofereceu-me os seus próprios Motherpeace Tarot Book & Deck, de Vicki Noble e Karen Vogel. Só alguns anos mais tarde, quando tinha vinte e cinco anos, escolhi e comprei o meu próprio Tarot de eleição. Mas comprar baralhos de Tarot e um certo “tipo” de livros nem sempre é fácil.

Aos dezoito, quando era uma estudante de Design, no segundo ano da faculdade, ia muitas vezes ao Chiado. Por vezes, ia encontrar o meu pai na Bertrand, mas passava muito tempo sozinha, a explorar as livrarias circundantes. Numa tarde bonita, fui atraída pela fachada Deco da Livraria Aillaud & Lellos. Há algum tempo, li o seguinte, no blog “Aprender uma coisa nova por dia”, no post de 15 de Fevereiro de 2015, “Hoje quero aprender sobre – As livrarias antigas de Lisboa”:

“Subsiste na Rua do Carmo esta livraria que abriu portas em 1931. Vende livros de todos os géneros, mas sobretudo edições mais antigas e livros generalistas, e uma das suas duas montras oferece sempre livros a preços promocionais. A fachada da loja mantém a traça original, em pedra cinzenta, e as duas colunas que ladeiam a porta ostentam motivos gravados em estilo Art Deco.”

É bom saber, porque a minha experiência foi contrária, porque não encontrei “livros de todos os géneros”. Não voltei lá. Não quer dizer que não volte, mas ainda não aconteceu. Tivesse eu menos bons exemplos e força anímica, o que escutei naquela livraria podia ter-me desencaminhando de muitos e bons estudos.

O meu hábito sempre ficar a namorar os livros, mas assim que entrei o vendedor, que talvez não fosse um verdadeiro livreiro, perguntou-me logo o que eu procurava. Eu pedi que me indicasse a secção de Esoterismo, como é costume chamar a um conjunto muito heterogéneo de publicações de várias áreas de estudo, que partilham estantes com livretes de instruções e curiosidades mais ou menos duvidosos. De facto, não gosto da palavra aplicada ao contexto, mas não queria entrar em detalhes e esperava uma simples indicação. Em vez disso, o funcionário manteve as mãos atrás das costas, sem nunca desmanchar um sorriso cínico e respondeu; “Aqui, não vendemos esse tipo de livros.”

Fosse hoje, eu sei muito bem o que lhe diria, mas a minha reacção foi não ter reacção, porque pensava que aquele tipo de resposta, antiguinha, pertencia à década de cinquenta. Acerca dessa época, Doreen Valiente disse, numa entrevista FireHeart, em 1999:

“You couldn’t buy a pack of tarot cards in those days. Literally. I tried for ages before I was able to get a pack of tarot cards, and nowadays, you can buy any amount of packs of tarot cards.”

Ora, aquele era o ano de 1998! De resto, achei que qualquer palavra minha seria escusada, para além das estritamente necessárias, antes de me retirar. Com o meu mais doce sorriso, agradeci, cumprimentei, e saí. Ninguém me mandou descer o Chiado!

Acredito que, na verdade, o problema foi mais o tipo de atendimento do que a livraria e duvido que não tivesse encontrado, pelo menos, os livros do Paulo Cardoso ou o Livro de São Cipriano.

Um par de anos após o a minha primeria ‘Glastonbury experience’, onde todas as livrarias têm aquele “tipo” de livros, passei algumas semanas em Londres, onde visitei a mais antiga livraria de Ocultismo do mundo, a Atlantis Bookshop, Museum Street, Bloomsbury. Agradeço ao meu pai, por me ter dado aquele primeiro Tarot e a liberdade para explorar todo o “tipo” de livros que alegravam as estantes das livrarias e da nossa biblioteca doméstica, em qualquer idade, sem demais considerações. De tal forma que, confesso, eu lia Anaïs Nin aos onze anos. Oops! Mais não digo, nestes dias doces que pertencem às crianças, que se querem muito curiosas. E viva o Sol!

Fazendo jus ao “Museum”

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Recriação da vida quotidiana de uma ‘witch’, no MWM (Fotografia: © Museum of Witchcraft and Magic)

A chegada das primeiras chuvas, depois de um Verão sufocante, vem reactivar o que de mais orgânico existe na minha memória, que se relaciona com o estio e o “tempo impetuoso” que por vezes se manifesta de forma surpreendente e implacável.

Esta é a época das transmutações e da sublimação. Assim, pensando em situações de grande impacto, reporto-me a acontecimentos com mais de uma década, que hoje podem ser olhados como agentes de mudança benéficos, ainda que na época tenham sido devastadores. Com o distanciamento que os anos e a geografia me permitem, observo também como alguns meios de comunicação usaram uma calamidade para redefinirem as razões pelas quais uma aldeia piscatória é conhecida em todo o mundo. Censuraram pontos de interesse incontornáveis, que o establishment continua a querer relegar para o mundo das sombras. Ou seja, tudo o que ainda não cabe na pretty picture de um Reino Unido pitoresco, próprio dos postais ilustrados que estamos à espera de encontrar à venda nas lojas mais cristãs do countryside.

Como é habitual, a BBC é a maior aliada de todos os que querem reescrever os factos, de forma a projectarem para o mundo a imagem idílica das “terras de sua Majestade”. Para alguns, é óbvio que estou a falar de Boscastle ou Kastel Boterel, no norte da Cornualha, e dos acontecimentos a que por pouco eu não assisti in loco, a 16 de Agosto de 2004. Os mesmos que foram relembrados em incontáveis artigos escritos por ocasião do décimo aniversário da flash flood, a cheia que destruiu grande parte da aldeia e de outros vales nas proximidades de Tintagel. Locais como Crackington Haven e Rocky Valley nem sequer foram mencionados nos noticiários. Exactamente por não serem tão conhecidos como a aldeia onde, desde 1960, existe um curioso museu que é acarinhado por muitos e detestado por alguns. O Museum of Witchcraft and Magic foi dos poucos edifícios poupados à destruição total. Apesar da sua localização mais próxima do mar e de ter sofrido muitos estragos, não foi arrastado pela enxurrada. Este facto excepcional não foi digno de nota em artigos com títulos sugestivos, como o da BBC News, “Boscastle: The village ‘washed on to the map’”, de 16 de Agosto de 2014, onde apenas foi feita um acanhada referência a um “Museum”, que só identificamos através do nome da colaboradora Carole Talboys.

Desapareceram do mapa setenta e cinco carros, cinco caravanas, vários barcos e seis edifícios, incluindo o centro de turismo junto ao parque de estacionamento e a loja cristã de lembranças que funcionava do lado oposto ao museu, no local onde agora existe uma simpática National Trust shop. Os detalhes relativos à violenta precipitação que se fez sentir durante algumas horas e às características geográficas que contribuíram para que o rio Valency se transformasse numa torrente estão amplamente registados. As operações de salvamento foram as que mais meios exigiram, depois da Segunda Guerra Mundial. Desde o primeiro momento, o piloto de um helicóptero da Sea King que sobrevoou a área afectada requisitou todos os meios aéreos disponíveis. Entre os Magnificent Seven, destacam-se os contributos de um helicóptero da Royal Air Force da Royal Marines Base de Chivenor, em Devon, que salvou cerca de sessenta pessoas, de outro da Royal Naval Air Station de Culdrose e da Cornwall Air Ambulance. Do balanço final não constou qualquer perda de vida humana nem ferido grave, graças a todos os esforços de inúmeros habitantes com grande presença de espírito, de cerca de cem bombeiros da Cornualha e de Devon e da Guarda Costeira.

Houve muitos heróis naquele dia e todos merecem ser recordados com gratidão. O que não é admissível é que aquela cheia terrível, que ganhou um lugar de destaque na História do Reino Unido, sirva de pretexto para o whitewashing do costume. Ou seja, para que se faça tabula rasa do papel que durante décadas o Museum of Witchcraft and Magic, inúmeros colaboradores no âmbito do Paganismo em geral, e histórias fatídicas de mulheres como Joan Wytte, desempenharam no quotidiano de Boscastle. A contribuição para a economia local pode ser avaliada pela média de 40,000 visitantes, nos anos anteriores à cheia, apesar da epidemia de Febre Aftosa que teve impacto no turismo da Grã-Bretanha. É imperativo que os leitores dos artigos censórios da BBC, que apenas descobriram a aldeia após a catástrofe, e os visitantes de todo o mundo que só lá foram depois de terminado o processo de reabilitação total, fiquem bem cientes da existência prévia daquele museu, apreciem-no ou não. Porque, em conjunto com o património natural de Valency Valley e de Peter’s Wood (NT), bem como de preciosidades espirituais e arquitectónicas como a evocativa Minster Church, o MWM sempre foi uma referência incontornável para iniciados em diversas tradições mágicas, viajantes esclarecidos, peregrinos cristãos progressistas e até os habituais holidaymakers.

Feita esta introdução, volto às minhas memórias de todas as visitas a Boscastle. A primeira aconteceu durante a Mists of Avalon Pilgrimage de 2001 e repetiu-se duas vezes. As imagens mais intensas que ainda guardo são de um dia de Verão que parecia não ter fim, em Agosto de 2004, poucos dias antes da tragédia. Nada fazia prever uma alteração tão súbita do clima e de tudo o que me rodeava, a não ser talvez os fortes ventos que durante aquela semana motivaram o encerramento provisório de Tintagel Castle. Depois de uma manhã e início de tarde passados em Port Isaac, Trevena, Rocky Valley e St. Nectan’s Glen, o mini-bus deixou mais um grupo da Sacred Journeys for Women junto ao caminho do bosque, que leva até à encantadora clareira de Minster Church. Após uma temporada em West Penwith, no sul da Cornualha, eu e um amigo, colaborador habitual da SJW, aceitámos o convite para mais uma partilha com o novo grupo de mulheres que tinha acabado de chegar à Cornualha, vindo de Glastonbury.

Finda a visita ao graveyard que cerca a pequena igreja, descemos em silêncio pelo “bosque de fadas e duendes”, até ao fundo do romântico vale onde o rio Valency era apenas um riacho cristalino. Descalça pela erva, estendi o meu xaile axadrezado na margem, sentei-me e acenei às outras mulheres que iam passando por mim. Quando cheguei ao ponto de encontro, no parque de estacionamento, a coordenadora avisou-me que o resto do grupo ficara para trás para ajudar uma das mulheres, que tinha torcido um tornozelo no sinuoso caminho do bosque. Devido ao atraso, era preciso que alguém familiarizado com o local fosse avisar o Graham King, o então proprietário e curador do MWM, para que ele soubesse o que se passava e pudesse contar com a visita do grupo, ainda durante aquela tarde. Assim, eu segui à frente e como sempre fui muito bem recebida no museu, com direito a visita gratuita em regime de livre-trânsito e à habitual troca de impressões acerca de algumas das peças mais interessantes da colecção. Não que o preço do bilhete fosse caro, bem pelo contrário, e eu sempre tive muito prazer em contribuir para o fundo que assegura a preservação do MWM.

O museu original foi fundado em 1951, na Ilha de Man, por Cecil H. Williamson. Ele empregou Gerald Gardner como ‘resident witch’, mas a amizade entre eles não durou, porque o reservado Williamson, que era fascinado pela Craft das “wayside witches” do West Country, nunca aprovou a prática Wicca do excêntrico Gardner. Após alguns anos, Cecil mudou o museu para Windsor, em Inglaterra, vendendo a Gardner o edifício e moinho conhecidos por ‘Witches Mill’. Para mais detalhes acerca destes e de muitos outros factos relacionados com estas figuras incontornáveis da Witchcraft contemporânea, recomendo a leitura dos livros de Philip Heselton, em particular “Gerald Gardner And the Cauldron of Inspiration: An Investigation into the Sources of Gardnerian Witchcraft”. Durante vários anos, Gardner e Williamson geriram museus separados, tendo Williamson mudado o local do seu museu para vários pontos do sul da Inglaterra, como a aldeia de Bourton-on-the-Water, em Cotswold, onde a comunidade cristã lhe fez a vida negra, com direito a ameaças de morte, gatos estrangulados e pendurados no seu quintal, e cocktails molotov atirados para o interior do museu. Por fim, acabou por se retirar para a Cornualha e se fixar em Boscastle, em 1960.

Graham King comprou o museu a Williamson em 1996, depois de decidir fazer uma mudança de estilo de vida radical. Cecil Williamson viria a morrer em 1999, aos 90 anos de idade. Segundo King, ele era um homem fascinante, witch e cunning-man praticante de todos os tipos de magia, que fazia ‘trabalhos’ para os seus clientes. Terá sido agente do MI6, exercendo funções de conselheiro oculto dos serviços secretos britânicos, durante a guerra. Mais um caso surpreendente, a juntar ao de Doreen Valiente que, segundo a recente investigação de Heselton, foi um dos elementos do Bletchley staff a que Churchill se referiu como “the geese that laid the golden eggs and never cackled“.

Quando Graham King tomou conta do museu, herdou o esqueleto de Joan Wytte, uma mulher nascida em 1775 que foi apelidada de “Fighting Fairy Woman”, devido à sua estatura pequena e carácter quezilento. Ela era conhecida pela sua clarividência e as pessoas recorriam a ela para obterem profecias e curas. Terá realizado simpatias, em particular uma espécie de magia popular em que usava farrapos ou ‘clouties’ das roupas de pessoas enfermas. Atava-os a árvores junto dos muitos poços sagrados que existem naquela zona rural. A ideia era deixar o trapo desfazer-se até desaparecer, como a doença que se queria debelada. Antes de ser enterrado, o esqueleto de Joan foi analisado por especialistas forenses que confirmaram a sua idade de trinta e muitos anos. Concluíram que ela foi uma fumadora e que usava um cachimbo de barro. Devido a um grande abcesso no dente do ciso direito, terá desenvolvido uma atitude irascível na fase final da sua vida. Terá proferindo imprecações de forma indiscriminada, envolvendo-se em lutas onde demonstrava a sua extraordinária força física, que levantou suspeitas de possessão diabólica. Por fim, foi acusada, não de bruxaria mas de desordem pública e roubo, e encarcerada na medonha Bodmin Gaol. Aí, sucumbiu às deploráveis condições de vida, tendo morrido de broncopneumonia em 1813, antes mesmo de ir a julgamento.

Os seus ossos tornaram-se uma oddity, foram usados em sessões espíritas e várias outras práticas, antes de chegarem ao museu de Williamson. A verdade é que as ossadas humanas sempre foram usadas como atracções e os restos mortais de Joan Wytte estiveram expostos durante quarenta anos. Porém, partilhando da mentalidade que rege causas como a HAD – Honouring the Ancient Dead, os novos responsáveis do museu acharam por bem que lhe fosse concedido um enterro decente. Para além disso, o museu tinha vindo a ser alvo de fenómenos como poltergeist, pelo que foi pedido conselho a uma witch com mediunidade, que revelou que o espirito da falecida desejava ter uma cerimónia fúnebre. Assim, em 1998, com grande discrição, Graham e as pessoas da sua confiança enterraram-na respeitosamente num recanto bonito de um bosque da região. Algum tempo depois, colocaram perto desse lugar um memorial dedicado àquela que se tornou uma lenda local e é frequente encontrarem flores que visitantes anónimos deixam junto da lápide onde está gravado o seguinte epitáfio:

“Joan Wytte

Born 1775

Died 1813

In Bodmin Gaol

Buried 1998

No

Longer

Abused”

A maior parte dos museus recebe grants, apoios de patrocinadores, mas devido à sua temática o MWM não atrai esses padrinhos e subsiste apenas das receitas de bilheteira e de doações de particulares. Não se trata de um grande negócio e recorre à sua estimada Society of Friends. Cada amigo paga uma subscrição anual em troca da newsletter e de um evento anual, durante o qual algumas pessoas são convidadas a palestrar acerca de assuntos relevantes. As subscrições e doações são usadas na conservação dos arquivos e aquisição de espólio. Para além disso, é frequente o museu receber objectos, sobretudo ferramentas rituais de ocultistas falecidos e até colecções inteiras. Muito do trabalho de inventário e manutenção é realizado por voluntários ou pessoas que se deslocam ao museu para efectuarem pesquisas e aceitam este acordo de reciprocidade. Uma vez que a publicidade gratuita é sempre bem-vinda, o MWM sempre soube tirar o melhor partido dos média, chegando a receber alguns valores de companhias de Televisão. O objectivo é sempre fazer a mensagem do museu passar para o público e a prioridade é receber muitos visitantes, porque de facto a preservação e expansão daquela colecção, única no Reino Unido e no mundo, depende sobretudo da afluência sazonal, da Páscoa ao Halloween, sendo possível agendar algumas visitas excepcionais durante o resto do ano. Após a devastação das cheias, foram aplicados todos os esforços e um grande investimento na recuperação do museu, que reabriu ao público, como se nada se tivesse passado, no dia 25 de Março de 2005.

Naquele longínquo fim de tarde de Agosto, depois das despedidas e mesmo antes de partir de Boscastle rumo a Devon, eu ainda tive tempo de passar pelo posto de turismo que viria a ser arrasado. Comprei algumas lembranças e o livro “The Quest for King Arthur” (David Day, forward by Terry Jones; Michael O’Mara Books Limited). Mais um adorado título na minha biblioteca e menos um exemplar perdido, entre tantos goodies levados para o mar pelas águas inclementes da cheia do rio Valency, que transbordou apenas dias mais tarde. O choque e a tristeza foram indescritíveis, mas a esperança e a resiliência das gentes de Boscastle, em nome do bem comum, tornaram-se exemplos a seguir.

Genius loci de Merlin’s Cave

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Genius loci manifesta-se na encosta sul de Tintagel Castle

Existe uma pequena enseada ambiciosamente chamada “praia” de Tintagel, que é banhada pelo mar azul-turquesa. O mesmo que na nebulosidade parece cor de chumbo. Nos dias mais ensolarados e quentes faz-nos querer entrar na água. Porém, no lado oposto do promontório, onde esta fotografia foi tirada, o vento pode ser implacável e o caminho pode ficar interdito aos visitantes.

Eu tive a sorte de pisar cada degrau desse percurso íngreme, várias vezes. Entendo que a erosão é um problema que ameaça o local e que a subida é fisicamente exigente, mas não aceito o argumento segundo o qual a solução seja implantar uma ponte nos rochedos. Sobretudo, quando essa ponte não irá colmatar a falta de acessibilidade a visitantes com mobilidade limitada. Para além disso, terá de ser fechada sempre que os elementos assim o ditarem. Tendo em conta o que já assisti em Tintagel Castle, isso acontecerá muitas vezes, mesmo no pico do Verão. Apesar disso, o concurso público promovido com alarido pela imprensa apurou um projecto vencedor. A juntar a outras atrocidades, esse será o símbolo máximo da usurpação de um dos mais importantes monumentos da Cornualha pelo English Heritage.

Outra incongruência é que, apesar do risco de erosão, tenha sido permitida uma operação invasiva numa área geológica classificada como Site of Specific Scientific Interest. É de notar que as Lendas Arturianas têm sobrevivido bem, sem necessidade de esculpirem rostos imaginários nas rochas de lugares tão proeminentes e sagrados como os trílitos de Stonehenge ou os White Cliffs of Dover. Assim, porquê abrir uma excepção em Tintagel? Em qualquer outro monumento histórico isso seria considerado vandalismo, mas junto da entrada da chamada Merlin’s Cave aquele rosto indigente surgiu com o estatuto imedato de “intervenção artística”. O que se seguirá? Talvez Damien Hirst tenha uma ideia.

Por esta altura, eu e qualquer pessoa que tenha visitado Tintagel Castle quando a presença do English Heritage se limitava à gift shop tem motivos para se sentir privilegiado. E que bom era dispensar a boleia da carrinha e seguir pelo caminho abaixo, da King Arthur Bookshop até à base do promontório, parando numa roulotte para comprar um cone de gelado mint/choc-chip e acabar descalça, a molhar os pés no mar! Outros tempos, que não eram ensombrados por estátuas do Darth Vader com dois metros e tal de altura e um nome ridículo que não quer dizer nada do que eles pensam, porque Gallos em Kernewek não é sinónimo de “poder” mas sim de habilidade ou capacidade de fazer alguma coisa. A maior intervenção que eu alguma vez fiz por lá foi guardar umas pedrinhas e seixos para recordação. So guilty…

É dessas visitas que eu guardo memórias de como a magia acontece e o genius loci de Tintagel Castle se manifesta. A cor azul-acinzentada da rocha que brilha com uma iridescência subtil e a luz, intensa e um pouco etérea, quando se mistura com a neblina marítima. Era assim que estava o ambiente, da última vez que lá estive. A maré estava baixa e eu desci até à praia na companhia de um amigo, que é músico profissional e se mudou de Londres para a Cornualha há mais de uma década, depois de muitos anos a sonhar fazê-lo. A caverna de tecto arqueado está situada abaixo do cabeço que se separou do promontório e liga a praia de seixos ao lado oposto, onde os raios de sol começavam a aparecer, logo após o meio-dia.

Caminhávamos com cuidado, olhos pregados ao chão, para compensar a súbita falta de luz e tentar ver onde pisávamos. Havia outros visitantes na caverna, mas não estava apinhada. Num instante, eu percebi que se tratava de um grupo de jovens mulheres norte-americanas, talvez um pouco mais novas do que eu. Quando estávamos a meio-caminho, olhando para a saída, vi que elas pararam quando estavam apenas um pouco mais adiante de nós. Foi como se tivessem planeado fazê-lo e reparei como assentiram em concordância, antes de começarem a entoar belas harmonias, num cântico que parecia de sereias. Seis silhuetas recortadas contra luz, num concerto para o qual eu nem sequer paguei bilhete!

Entretanto, eu pensei naquela figura cujo rosto apenas o vento e as ondas esculpiram e continuam a fustigar, do outro lado do rochedo. Imaginei que ele deveria estar encantado com aquelas vozes e com tudo o que de mágico acontece em Tintagel. Foi um daqueles momentos que não podem ser recriados. Uma dádiva que por alguma razão merecemos receber.

Eu serei para sempre tão grata!

Recomendo uma colecção de curtas-metragens acerca de Kernow e da Língua Kernewek, que está condensada em dois DVDs da autoria do Bardo do Gorsedh Kernow e produtor Denzil Monk. Inclui um documentário acerca da polémica ocupação (legalizada) de Tintagel Castle pelo English Heritage. O título é Tyskennow Kernow e os trailers podem ser vistos online:

Tyskennow Kernow – Trailer 1

Tyskennow Kernow – Trailer 2

 

Rituais e Consciência

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

“Knuckle Bones”; Sir Edward John Poynter (1891)

Nós temos pequenos tiranos dentro das nossas mentes. Se eles não forem trazidos a lume, criam todo o tipo de complicações e privam-nos de experiências enriquecedoras, que em nada são incompatíveis com a prática religiosa de cada um. Pode parecer que vou divagar um pouco acerca de um assunto que é vagamente do foro psicológico, mas não. Apenas quero notar que é benéfico termos uma noção do papel que os rituais em geral, e não apenas os religiosos, podem ter a vários níveis. Para este efeito, adiante, vou recorrer ao testemunho de uma facilitadora holística extremamente qualificada, com quem há mais de uma década aprendi a criar e partilhar espaço ritual, fora de qualquer contexto religioso.

Pessoas guiadas pela superstição (que não equivale à supertitio) nem sequer aceitariam receber reiki sem terem a certeza de não ser incompatível com os preceitos da sua religião. Por outro lado, muitas dispensam ou abandonam acompanhamento psicológico ou psiquiátrico em favor de exorcismos, de várias denominações, que geralmente exacerbam sentimentos de solidão, culpa e desespero, muitas vezes com desfechos fatais. Não ajuda o facto de muitos desses rituais serem realizados à revelia de qualquer ordenação, por pessoas pouco capacitadas, ou mesmo abusadores que realizam o chamado “ministério interno”. Outras pessoas vão mais longe e recusam assistência médica aos filhos, como demonstração daquilo a que chamam “fé”. Estamos perante aquilo que extrapola a liberdade religiosa.

Cada cabeça sua sentença, mas é determinante perceber que os rituais podem não ter um carácter religioso. A maioria não tem, mas apesar disso ou exactamente por isso podem ser experiências valiosas e benéficas para qualquer pessoa, seja religiosa ou não. Eu nunca recebi – nem nunca me foi imposto – qualquer sacramento e só participei de ritos religiosos na idade adulta. Por isso, foi no âmbito da Criatividade que descobri o poder dos rituais e iniciei a minha experiência com o espaço ritual. Há quinze anos, recebi ferramentas que viriam a ser úteis ao longo da vida e que provaram ser inestimáveis, sobretudo nos últimos anos, quer a nível pessoal, quer para entender melhor a importância dos rituais religiosos. Com a preciosa e subtil orientação de Jessica Montgomery [1], aprendi a praticar magia que nada tem a ver com tradições esotéricas ou Paganismo moderno, e que não depende da leitura de livros ou da participação em conferências da Deusa. Tem a ver com Consciência.

O que é bom é para ser partilhado, ainda que seja apenas através de breves palavras e a título introdutório, a partir de uma entrevista que à semelhança de um workshop, de um curso intensivo, ou de uma palestra, não pode traduzir o que é ter o privilégio de aprender de forma orgânica, em ambiente propício, sem hora marcada, diariamente e ao longo de semanas, com a amiga ‘Jessica Blessica’, que nunca esqueço, e não apenas com um coach:

“Ritual pessoal e mudança consciente construindo uma nova consciência de propósito através de magia intencional”

«Muitas pessoas acham a ideia de ritual intimidatória e misteriosa. Todos fomos submetidos a rituais que têm tanto a ver com ordem – e tão pouco a ver com arte – que a vivacidade que procuramos raramente lá está. Rituais conduzidos em Latim ou cheios de gestos incompreensíveis ou oficiados por uma pessoa enquanto as restantes servem de audiência dificilmente nos fazem sentir revigorados. Para ser potente, o conteúdo tem de ser reconhecível. Mais importante é que as experiências curativas devem ser participativas. E se alguma vez esteve presente num “novo” casamento e não se sentiu comovido, provavelmente sofreu com o reverso da medalha. Na nossa rejeição de rituais vazios do passado, nós podemos negligenciar convenções antigas e poderosas a favor da nossa cosmologia privada, que acaba por parecer uma charada que mais ninguém entende. Para ser eficaz, qualquer experiência curativa precisa equilibrar significado pessoal e transpessoal – o “Eu” da perspectiva individual contrabalançado pelo “Nós” da humanidade partilhada. Quando as ferramentas do ritual se mantêm simples e acessíveis, cada um pode iniciar, honrar, enraizar, libertar ou renascer ao longo do ciclo de vida. Como uma prática holística, o ritual funciona para além da compreensão linear, evocando novos percursos neurais e estados do ser mais favoráveis. Através do ritual, para parafrasear Gandhi, é possível viver a mudança que desejamos ver no mundo.

Não há necessidade de adoptar sistemas exóticos ou ritos esotéricos. O nosso desejo de significado e profundidade é satisfeito por representações familiares de milagres quotidianos. A nossa consciência de criança compreende facilmente a brincadeira sagrada e pensa naturalmente em símbolos: ovo, rebento, pedra, chama, sino, ramo, água, cordão e itens simples semelhantes são poderosamente evocativos. Actos como partir, queimar, enterrar, unir, limpar, ungir ou adornar requerem pouca interpretação e, usados conscientemente, oferecem-nos tudo o que realmente precisamos de ter na nossa caixa de ferramentas rituais. Estados alterados são fáceis de alcançar através de canção, movimento, respiração, imersão, ingestão, jejum ou privação sensorial. Variações destes ingredientes básicos são encontradas em rituais por todo o planeta e ao longo dos séculos. Uma década a facilitar rituais com centenas de pessoas comuns convenceu-me que há alguma coisa orgânica neste tipo de expressão criativa. Catalisar as nossas aptidões naturais de auto-cura através de experiência intencional é algo que todos parecemos saber fazer, dada a oportunidade.»

[1] Jessica Montgomery, M.S.W.: “Tem um histórico de mais de vinte anos a orientar workshops de desenvolvimento pessoal e aconselhamento a estudantes. Ela tem um B.A. em Psicologia pela Reed College, um Summa Cum Laude M.S.W. em Trabalho Social Clínico pela Portland State University, e fez uma Pós-Graduação no Institute for Family Centered Therapy. Ela ganhou uma University Club Fellowship, e recebeu um American Association of University Women Award. Ela também teve treino especializado em Processo de Grupo, Trauma, Apego, Sexualidade e Intimidade, Terapia pela Arte, Competência Cultural, e Desenvolvimento Infantil. No seguimento de muitos anos de trabalho de apoio, Jessica iniciou o seu Hakomi and M.E.T.A. Training em 2004, e retomou a sua prática privada em 2006. A par do ensino de Hakomi em Portland, Jessica é uma facilitadora de Re-Criação do Self; está a desenvolver um Treino de Apego a nível local com Donna Roy, Jon Eisman e outros; e vai liderar a expansão das ofertas Hakomi na área de Seattle. Uma residente de Portland de longa data, Jessica é uma líder activa de uma comunidade intencional diversa empenhada em elevar a consciência.” Hakomi Institute Faculty

Elitistas e empertigados

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museuo Archeologico Nazionale

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museo Archeologico Nazionale di Napoli.

“É verdade, o vitriol não está confinado à internet. Na verdade, muita (não toda, mas grande parte) da minha experiência enquanto Pagã, ao encontrar outros Pagãos que não conheço, é caracterizada por indiferença, altivez, e paranóia – da parte deles. Eu costumava sentir-me desapontada, quando uma amiga dizia, “Oh, tens de conhecer a não-sei-quantos, ela é uma Druida” ou fosse o que fosse, e eu conhecia essa não-sei-quantos que era distante, paranóica, e competitiva – SE-CA! Bom, não se pode ter uma conversa decente quando se trata de competirmos acerca de seja lá o que for aquilo por que aparentemente estamos a competir. No ano passado, num festival, conheci uns Pagãos que um velho associado me assegurou serem mesmo interessantes e que simplesmente tinha de conhecer. Bem, eu nunca tinha conhecido gente tão glacial e antipática na minha vida. De facto, eu mal os ‘conheci’ uma vez que fizeram questão de me olhar de lado e ignorar. E porquê? Porque, posso apenas pensar, estavam terrivelmente preocupados com o estatuto deles em relação ao meu e ao de todas as outras pessoas. Eu acho que não estou a imaginar isso. Passei anos a lidar com grupos mágicos e Pagãos em que o prestígio e a hierarquia são importantes, apesar de isto nunca ser admitido nos círculos mais polidos, por isso penso que consigo detectar aquilo quando sou confrontada com a situação.

É disso que esta – esta hostilidade – se trata, trata-se de postura hierárquica. E da posse de conhecimento, ou do que se pensa ser conhecimento secreto, ligado a questões internas [e externas] de um grupo e seus afiliados, ou não-afiliados. Têm de espantar o [suposto] forasteiro. Simplesmente têm de fazê-lo! Especialmente se ele parece capaz de competir… competir por quê? Fãs, seguidores, prestígio, liderança, aumento da auto-estima… sei lá. Hierarquia e prestígio, “poder sobre”, são características que a Bruxaria Pagã finge não desejar. E eu estou certa que em algumas situações [ideais] não existe. (E a Bruxaria é tão mágica como grupos magic(k)os, por isso não se dêem ao trabalho de dizer “Oh, só aqueles grupos hierárquicos de magia cerimonial é que são assim”). Eu diria que na maior parte dos casos não há nada que um individuo ou um casal dominante goste mais do que ser – e manter-se como – “chefe” do grupo… quando o que deve acontecer é encorajarem os outros a desenvolverem-se e tornarem-se fantásticos… a graduarem-se e saírem da sombra dos “professores”. De qualquer forma, como disse Anton La Vey, se fingires que te envolveste em Bruxaria por qualquer razão a não ser poder, então estás a iludir-te.

Oh, e antes que alguém tenha um ataque apopléctico, deixem-me dizer que apesar de acima ter mencionado uma Druida, eu não estou a destacar nenhum “tipo” de Pagão em particular… o exemplo em que eu estava a pensar era uma Druida, mas o outro exemplo eram Wiccans (eu penso [ou eles pensam]). A manipulação hierárquica paranóica é evidente em muitos tipos de grupos Pagãos e Magic[k]os.”

Reparem que não fui eu que escrevi aquilo, se bem que podia ter sido e nem me ficava por aqueles exemplos. Eu apenas traduzi um comentário feito por Caroline Jane Tully [1], em Albion Calling, a 31 de Janeiro de 2013. Reporta-nos a uma realidade que tem directamente a ver com tradições alegadamente esotéricas. Essa é uma característica comum à maioria dos grupos do Paganismo moderno, especialmente naqueles com sabor cristão e nos que partilham raízes mais ou menos herméticas. O secretismo, as iniciações e as linhagens são aspectos centrais em muitos contextos. E são estes aspectos que mais atraem aqueles que procuram obter uma aparência de estatuto, que lhes permita projectar uma determinada imagem de si mesmos sobre todos os que os rodeiam. Na minha experiência como observadora, as pessoas mais empertigadas não são as que estiveram directamente ligadas aos fundadores deste ou daquele Paganismo. Sobretudo, porque estas aprenderam com as “mães” e os “pais” do Paganismo moderno a serem despretensiosas. Partilharam com eles o dia-a-dia, as coisas mais comezinhas, e até o sofrimento provocado pelas doenças que os afligiram na velhice. Sabem que seria absurdo entronizá-los e posarem de herdeiros perante a restante comunidade Pagã.

O problema são aqueles que pouco ou nada têm a que se agarrar, nem a nível do que sabem nem das pessoas que conhecem. Tudo o que lhes resta é o faz-de-conta e, muitas vezes, o silêncio, que usam para parecerem superiores e inacessíveis. The wise are silentand busyand important; do tipo que nunca aprece, nunca está, nunca pode, nunca tem tempo. E se estes, que devem estar uns furos acima da ‘plebe’, não são sábios podem sempre tentar parecer, através daqueles silêncios. Mas há quem goste de os fazer falar, como nos contou a forest witch, artista sagrada, e herbalista tradicional, Sarah Anne Lawless, em Heathen Harvest:

“Penso que acertaste em cheio quando disseste manter uma imagem. Uma imagem, não a realidade. Com a popularidade da internet e a ascensão da cultura da celebridade, a imagem tornou-se mais importante do que a realidade. Quando os mágicos falam acerca de tudo o que os define, a sua imagem, eu afincadamente pergunto “isso é tudo fantástico, mas o que é que FAZ?”, até obter uma verdadeira resposta. Isto frequentemente acaba comigo a descobrir que um ocultista sombrio, satânico, obcecado por grimoires populares ou é um ocultista de cadeirão ou apenas pratica a bonitinha magia folclórica de jardim, que nada tem a ver com a imagem que projecta. O fulcro da questão, como eu percebi, é que a geração de mágicos mais jovens sente uma enorme pressão para parecer tão inteligente e interessante como os seus ídolos, em vez de serem eles mesmos. Alguns até estão tão empenhados em cultivar essa imagem que se esquecem daquilo em que realmente acreditam. Há ocultistas de cadeirão que lêem mas nada praticam e existem supostos Pagãos que acreditam mas nada praticam e a maioria encontra-se na internet. A forma de sair disto é ter uma prática pessoal, e sujar as mãos com alguma magia, para obterem experiência. Eu sou uma pessoa muito sociável e mantenho uma prática que é ao mesmo tempo pessoal e comunitária. É possível.”

Sem aqueles subterfúgios, torna-se mais difícil sobressair – no sentido pejorativo do termo –, quando estamos numa tradição exotérica. Porém, na ausência de iniciações e linhagens, alguns carapaus de corrida – machos e fêmeas – encontram outras formas de se destacarem. Os despiques pseudo-académicos a que assistimos nas redes sociais são sempre bom entretenimento. É como ver alguém com o diploma da Universidade Google a debitar informação em termos médicos, em grupos de apoio.

Acerca de personagens semelhantes àquelas, Ethan Doyle White [2] escreveu, em comentário, no seu blog Albion Calling:

“Eles nunca revelaram nenhumas qualificações académicas próprias – nem PhDs, MAs, nem sequer BAs, nem parecem ter alguma vez publicado em revistas da especialidade – e no entanto continuam a pronunciar-se acerca de matérias académicas usando linguagem que parece transmitir autoridade. Eu encontrei indivíduos assim antes, tanto dentro do Paganismo como por todo o lado; pessoas que são bastante inteligentes e sabedoras, e que podem até ter algumas qualificações académicas, mas que gostam de se achar melhores do que os académicos profissionais ou semi-profissionais, que depois atacam de forma vil e muito pouco académica. Claro, a internet faculta o cenário perfeito para estes indivíduos; melhor do que os meandros das publicações de autor a que antes se encontravam confinados.”

À medida que os dissidentes de grupos se multiplicam, nas redes sociais aumentam os grupos-cogumelo ou os grupos-satélite ou os grupos-às-moscas, a par de blogs que dão voz a tudo o que é ecléctico. Jobs for the boys. Esses são os únicos lugares onde os sabichões podem ter a certeza de não encontrar oposição. Aí, usam o que aprenderam, sobretudo graças às pessoas cujos argumentos não conseguiram rebater, para impressionarem quem pouco sabe. Todos são bem-vindos! Talvez seja um aspecto residual do que lhes acontecia quando eram Wiccans ou Druidas ou Teletubbies, e se organizavam em covens e groves. Aqueles são os contextos onde há sempre a possibilidade de fundarem um grupinho só seu, mais ou menos em segredo, onde podem ter o papel principal, alegando praticar ritos antigos, sobretudo quando percebem pouco da tradição em causa, seja ela mais ou menos moderna.

[1] Caroline Jane Tully: Tem um Bachelor of Arts em Belas Artes pela Universidade de Monash e um Diploma de Graduação e Pós-Graduação em Estudos Clássicos e Arqueologia da Universidade de Melbourne, Austrália. Terminou o doutoramento em culto das árvores no Egeu pré-histórico e Mediterrâneo Oriental. Também está interessada na recepção do mundo antigo, em particular a recepção das antigas religiões egípcias e minoica.

[2] Ethan Doyle White: Um candidato a PhD da University College London com um interesse particular no desenvolvimento do culto, ritual e magia. A sua pesquisa publicada concentra-se em dois temas principais: religião pré-cristã na Europa, e a recepção, reinterpretação, e reutilização da Europa pré-cristã num contexto moderno (isto é no Paganismo contemporâneo). Embora tenha sido academicamente treinado nas disciplinas de Arqueologia, é um acérrimo defensor de perspectivas interdisciplinares, e a sua pesquisa intercepta os Estudos Religiosos, a História e o folclorismo. Publicou um livro académico [Wicca: History, Belief, and Community in Modern Pagan Witchcraft ], nove artigos em revistas académicas, e também vinte e quatro críticas em seis revistas diferentes.

Semear o sonho

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“God Hypnos” ou Somnus, o deus do sono, para os romanos. British Museum No 267. Bronze encontrado em Perugia; uma reprodução de escultura grega, em mármore (Fotografia: Walters, Henry Beauchamp, 1915)

Muitas pessoas pensam que a religio é apenas um conjunto de compromissos com os Deuses, que envolvem rituais rigorosos e aborrecidos. O fundamento é de facto o compromisso com os Deuses, mas aprender os rituais da maneira correcta é apenas parte dele. Este é o aspecto “smartphone” do culto dos deuses, que é reconhecido de imediato. É como uma prescrição reproduzível em publicações e apps do tipo “rituais Romanos para totós”. Aprender a razão de ser do elemento ritual é outro aspecto, e fazer desse ritual uma segunda natureza é o que completa a fundação.

Alguns dos que são chamados aos ou pelos Deuses Romanos, desviam-se da riqueza do Cultus Deorum e movem-se para o eclectismo, procurando suprir as suas necessidades “espirituais”. Nesses contextos modernos, ao invés de terem uma tradição politeísta Romana, têm uma tradição politeísta ecléctica, em que adoptam alguns Deuses Romanos ou até mesmo todo o panteão. Estes modernos exploradores, na sua demanda, acreditam erradamente que qualquer elemento exterior ao ritual pode ser encarado como superstitio. Porém, este é um conceito relativo. É semelhante à superstição de hoje, mas inclui a componente “mágica”. O Cultus Deorum está cheio de componentes mágicos que são aceitáveis. As crenças Romanas, aos olhos das pessoas modernas, estão cheias de magia e misticismo. A superstição mágica que acarretava problemas para os antigos romanos era aquela que desconsiderava ou dispensava os Deuses ou que era prejudicial para os cidadãos e para os estados. Veja-se defixio.

Algumas técnicas de cura, por exemplo, são semelhantes às curas energéticas, populares nos dias de hoje. De acordo com a definição actual elas são mágicas, místicas, ou têm ambas as qualidades. Uma das mais antigas é incubatio, que pode ser usada para a obtenção de respostas e que é uma poderosa ferramenta de cura, quando associada a um lugar sagrado. Neste ponto, é importante perceber que a sacralidade de um lugar não depende da existência de um Templo. Os nossos ancestrais nem sempre tinham Templos, mas eles tinham sempre lugares sagrados. Nós criamos um espaço sagrado no local onde colocamos um lararium ou um sacellum, numa determinada dependência do nosso lar, mas existem muitos lugares, no seu estado natural, que são sagrados. Alguns são bem conhecidos, tanto na Península Itálica como na Península Ibérica, e mais além. Outros podem ser identificados por uma pessoa, apenas, e ser secretos.

Um ritual define o tom sagrado e abre a porta para esta dimensão, a música enche o espaço com a vibração sagrada, a alimentação frugal ilumina o corpo e a mente, a dança extática eleva a vibração, os exercícios de respiração aumentam a energia espiritual, e ligam-nos ao sagrado, aumentando a conexão com o Divino. Usar a visualização e repetição verbal ou mental necessária de um desejo, uma intenção, etc., contribui para focar a atenção e alcançar o objectivo ou resposta; neste caso, através do sonho, durante o sono. Depois de acordar, o indivíduo pode querer questionar acerca do que experienciou e precisar de auxílio de uma figura sacerdotal especializada na interpretação dos sonhos.

Integrando esta mentalidade, de acordo com as técnicas e o método escolhidos para “plantar a semente” do sonho, é possível vivenciar a profundidade da religião Romana, que transformará um indivíduo num Cultor Romano.

 

Incubando sonhos:

«Comum durante toda a antiguidade, a prática de incubatio, ou incubação do sonho, consistia em “dormir num templo ou lugar sagrado para fins oraculares.” Peregrinos costumam viajar distâncias consideráveis para alcançar tal templo ou santuário em busca de algum sonho ou visão divinamente inspirados. Dentro do próprio santuário, eles eram colocados sob os cuidados de sacerdotes. Estes oniromantes – versados em adivinhação de sonhos – preparavam o sono dos visitantes, oferecendo-lhes as águas milagrosas associadas ao santuário, junto com alguma planta soporífera ou mistura medicinal. O sono, por isso, se seguia. Responsáveis por manterem a “higiene do sonho” dos seus clientes – ou seja, mantendo seus corpos sonolentos e suas almas receptivas para que os sonhos pudessem chegar imperturbáveis – os sacerdotes dos sonhos serviam como intermediários entre o humano e o divino, entre o reino do consciente e o das telas cintilantes do próprio subconsciente.

Confinado a um cubículo ou Abaton (um dormitório restrito), o cliente visitante, o “consulente”, seria o receptor de algum sonho, alguma mensagem codificada, enviada por qualquer divindade que se homenageasse naquele santuário. Pode dizer-se que a divindade, o santuário, e as águas milagrosas associadas a esse santuário, juntos, formavam um único conjunto oracular. Dentro desse conjunto, o sacerdote, praticando uma forma de medicina sacerdotal, iria interpretar a visão recém-recebida do cliente em termos de conteúdo curativo ou divinatório. O sonho em si era considerado medicinal, se o cliente estivesse doente, ou revelador, se o cliente estivesse em busca de alguma visão esclarecedora. Em ambos os casos, o sonho era relativo à condição ou estado de espírito de quem vinha para consultar a divindade in situ.

(…)

Na verdade, o que poderia surpreender-nos hoje ao estudar oniromancia na antiguidade (assim como práticas comparáveis em sociedades tribais em todo o mundo como revelado pela etnologia moderna) é a ênfase quase exclusiva que os seus praticantes colocavam no futuro. Sonhos, visões, alucinações induzidas foram todos interpretados em termos da sua eventual aplicação na vida quotidiana. Como arautos do real, eles antecipavam a realidade, precedendo um evento. Podemos perceber que essas sociedades antigas foram orientadas – na sua disposição psíquica – em direcção à sua própria evolução. Eles olhavam em frente. Sob a rigorosa supervisão sacerdotal, as visões concedidas pelo Deus, que eles experienciavam no sono do templo anunciava o que estava para vir.

Nós, por outro lado, tendemos a olhar para trás, nas nossas interpretações de sonhos. Sob a orientação dos nossos próprios sacerdotes de sonhos, olhamos para essas “visitações psíquicas” na esperança de que elas desbloqueiem regiões inacessíveis da memória, dando-nos vislumbres do nosso passado demasiado encoberto. Aí, como sabemos, ainda se escondem os nossos anjos e demónios, as paisagens traumáticas da nossa infância, os eventos – ficcionais ou não – que constituem o nosso próprio ser. Nós olhamos para esses mundos de sonho privados na esperança de que, após devidamente interpretados, eles permitam libertarmo-nos de muitos pontos de fixação psíquica e penetrar, finalmente, a totalidade de um dado instante: o próprio presente.

(…)

Os sonhos foram, outrora, lidos como oráculos, como sinais do que estava iminente. Iluminações divinas, eles indicavam o futuro…»

in Sobin, Gustaf. Luminous Debris: Reflecting on Vestige in Provence and Languedoc. Berkeley: University of California Press, 1999.

Poder e superstitio

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Um fresco do século III descoberto nas catacumbas da Capela de São Callisto, em Roma, representando Jesus segurando uma varinha na mão direita enquanto reergue Lázaro dos mortos.

A superstitio não se traduz apenas numa atitude servil que procura aplacar a ira dos Deuses mas também no desejo de extrair e usar o poder dos Deuses, através da magia natural e das suas Leis Magicas. A Lei do Contacto ou Contagion é a segunda lei secundária da Lei da Similaridade. Segundo esta lei, as coisas que alguma vez estiveram em contacto continuam a actuar uma sobre a outra, à distância, mesmo depois do contacto físico ter cessado. Pelo menos, até que seja realizado algum ritual para banir essa conexão.

Entre os que ambicionam ao poder, são comuns expressões que revelam superstitio e presunção. Um exemplo é; “Estou a trabalhar com os Deuses.” Ou seja, com esta ou aquela divindade, desta ou daquela tradição, desta ou daquela cultura; muitas vezes alternadamente, outras em simultâneo. Isto também acontece, de forma mais assumida e socialmente aceite entre pessoas de qualquer religião ou sem nenhuma, no contexto das teorias psicológicas que reinterpretam o conceito Junguiano de arquétipo. Trabalhos.

Entre praticantes modernos das mais diversas tradições mágicas, é frequente a procura de referências acerca de métodos, como de iscos para as divindades que procuram atrair. Tais “informações” chegam a adquirir um carácter sigiloso ou mesmo intransmissível, por serem alegadamente potentes e apenas destinadas aos iniciados nas referidas tradições. Mesclam ideias herméticas da Renascença e conceitos modernos de magia, dos séculos XIX e XX, de tal forma que se instala a crença acerca da existência de correspondências mágicas fixas que remontam à Antiguidade. A consequência deste equívoco é a ideia de que os Romanos (ou Egípcios ou Gregos…) saberiam todas as respostas para as preguntas dos neopagãos com pretensões a mágicos. À falta de antepassados originais, é aos Cultores que chegam aquelas questões, tão recorrentes que poderiam justificar a abertura de um centro online ou linha telefónica com respostas standard, de forma a desobstruir os grupos de partilha dedicados à Religio.

“Isso soa familiar. No passado tentei explicar as diferenças entre o uso da magia na religião Romana e o tipo de magia greco-egípcia do Império Oriental. Pode encontrar-se magia natural nas práticas Romanas. A cura de Catão para uma perna partida é um exemplo da Lei da Similaridade. As ideias acerca dos numina divinos estarem em coisas e de que os numina podem acumular-se em coisas que assim ganham poder espiritual adicional é um exemplo da Lei do Contagion. Esta lei, da magia natural, é a ideia por detrás das relíquias em todas as religiões. A magia greco-egípcia também usa essas leis da magia natural. Mas adiciona alguns outros conceitos, tal como astrologia, elementares, daemones e o poder das palavras para os controlar. Os Cristãos hoje não percebem que quando os autores dos textos deles colocam Jesus a dizer “ego eimi, eimi…” estavam a recordar uma típica fórmula mágica greco-egípcia. Comparativamente é o mesmo que a fórmula encontrada no GPM: “Eu sou o grande deus Heru que te comanda.” Pode ser por isto que Jesus foi inicialmente representado no Ocidente como um mágico com uma varinha mágica a transformar a água em vinho e a reerguer os mortos. No Ocidente Romano eles conseguiam reconhecer tal fórmula como sendo Oriental. As ideias por detrás do ocultismo moderno vieram desse mesmo contexto. O que os modernos ocultistas por vezes não percebem é que as suas “ciências Herméticas” – teurgia, astrologia moderna, alquimia, tarot, etc. – e a chamada alta magia têm origens Cristãs. Indiquem-lhes Iamblichus, Platão, e outras fontes gregas para o que eles procuram. Explicações são demasiado complexas para oferecer.”

Marco Orazio

 

Correspondências Modernas

Bikini designed by Emilio Pucci, 1955. Emilio Pucci Archive, all rights reserved. 2

Villa Romana del Casale, primeiro quartel do século IV na Sicília, não muito longe da Piazza Armerina. Modelo a usar um biquíni concebido por Emilio Pucci, 1956; fotógrafa Elsa Haertter. Emilio Pucci Archive, todos os direitos reservados.

Reiterando as declarações anteriores:

A Religião Romana Tradicional

“Pode retirar dela o que desejar. Pode acrescentar qualquer coisa que desejar ao seu cultus mas não vamos ensinar isso. Ninguém está a negar permissão a ninguém de fazer o que entender mas nós não ensinamos Japa ou mantra ou feitiços. Pode procurar qualquer comunidade pagã ecléctica que desejar para aprender e discutir o que desejar.

Os Romanos foram tolerantes com outras práticas religiosas também conhecidas por sacra privata conquanto não impedissem ou obstruíssem a sacra publica do Cultus Deorum. A Religião Romana Tradicional de Roma era a sua base. Outros Deuses foram sincretizados ao longo do tempo mas os Dies Consentes permaneceram os mesmos e os Deuses primários e as práticas não se alteraram. Na Antiguidade as práticas era mais semelhantes do que as vastas diferenças que vemos hoje. Esta assimilação ocorreu através de conquista.

Nós não estamos interessados em conquista. É bem-vindo ao nosso lar. Em vez de tentar mudar os nossos hábitos, aprenda com eles. Não entraria numa comunidade Vodoun e insistiria que faria um ritual sem um peristilo porque quer fazê-lo dessa forma. Mas seria convidado a aprender ou sair. Somos Cultores tradicionais e cada um de nós tem o seu cunho pessoal mas também preservamos os princípios básicos já delineados. Por favor, respeite-nos como nós respeitamos a si. Há muito que pode aprender, se der uma oportunidade.”

Jenna Rose Brent

Desfazendo o nó:

Associação com sistemas mágicos

“A filosofia Hermética emerge na Grécia por volta de 500 antes da Era Comum. O Egipto e mais tarde Roma aderiram a ela – os Romanos basicamente devido aos escritos de Platão e Sócrates – muitos estudiosos, filósofos e a elite política de Roma estudaram na Grécia ou foram educados por escravos Gregos e assim aconteceu que Hermes, a filosofia Hermética, a espiritualidade, o misticismo e o conceito de um sistema Hermético se sucederam. Contudo, é sobretudo um sistema Grego que, em algumas tradições, tem uma forte influência do sistema mágico Egípcio.

Quanto aos dias da semana, não eram “adorados” por rotina na Religião Romana – em nenhum período. Porém, havia o aspecto de certos dias serem mais propícios do que outros para pedir favores dos Deuses, um conceito que está no limite entre magia – superstitio na relação mística espiritual com os Deuses Romanos – uma influência dos antepassados Etruscos e mais tarde dos cultos Orientais, embora alguns mistérios tivessem os seus. No entanto, se uma pessoa tinha uma relação com os deuses podia pedir aos seus Patronos independentemente do dia da semana; o fasti, o Feriae, dies festi, que lhe estivesse associado como o dies natalis, Sacra gentilícia, kalends, Ides, Nones etc..

Os rituais dos dias da semana são um conceito relativamente moderno, um conceito oriental mas mesmo no Oriente não é como o conceito de Sanatana dos antigos textos Védicos; embora eles tenham dias auspiciosos para os deuses, eles não adoram os dias da semana ou fazem litanias em cada dia. Tais litanias, meus amigos, são um conceito Cristão que se desenvolveu com o tempo e mesmo esse é um aspecto mais moderno. Um aspecto moderno tornado muito popular nas formas new age das antigas religiões – incluindo a Afrocêntrica – com tempo de sobra. No CD cada Deus teria rituais inteiros no decorrer da cerimónia que inclui a formula básica de um ritual completado com sacrifício. O que é mais importante na Antiga Religião Romana é ter um patrono ou patronos e reverenciá-los regularmente independentemente do dia da semana.

Espiritualmente e misticamente, os acessórios das ferramentas rituais, invocações, cores, pedras, música, libações, oferendas etc. emitem a cadência vibracional que atrai a divindade para o ritual. Não é o dia da semana, a menos que seja uma data específica como aniversário, consagração, ascensão ou morte etc. com o tradicional ritual regulamentar. Dado isto, é perfeitamente aceitável tecer um dia específico numa prática religiosa privada ecléctica, desde que a pessoa perceba o que torna o ritual potente e satisfatório; o que quer dizer que tem de ser feito de forma contínua tendo em atenção a criação do ambiente propício, contracto regulamentar etc. – se não for assim é teatralidade vazia, ou na melhor das hipóteses poesia bonitinha.

Leva muito tempo e entrega manter uma agenda complicada para cada dia da semana de acordo com os ritos da Religio e francamente a maioria não pode fazê-lo, requer muita energia, tempo e dinheiro – no fim trata-se mais de aparências exteriores e programas do que de comunhão com os Deuses. E muitos podem até ganhar a fúria de alguns Deuses se a pessoa falha na manutenção disso. Uma pessoa deve reverenciar os Deuses com qualidade e não quantidade. Um patrono ou três é fazível numa base regular, reverenciar vários Deuses favoritos com um rito e sacrifícios longos e elaborados para cada, trimestral, semianual ou anualmente é o mais apropriado e fazível.”

Jenna Rose Brent

“A religião Romana não aderiu a nenhum sistema de correspondências. De facto, a antiga magia Hermetista, que empregou correspondências, não era consistente. O que encontramos hoje são sistemas modernos que, na melhor das hipóteses, datam do Renascença. Quanto às cores, existiam algumas noções de cores associadas aos planetas. Vénus com verde, do cobre. Apolo ou Sol com ouro. O planeta Marte era com mais frequência relacionado como Hércules, e com a cor vermelha. Luna ou Diana com prata. Júpiter, associado com éter e o céu, com o azul. Preto para Saturno, e cores misturadas para Mercúrio. Estas correspondências de cores são bastante tardias, do Império Oriental, e tiveram uso continuado. Pode ler Ficino para saber mais acerca do uso da cor e dos planetas.

Para além disso, Minerva foi mencionada com olhos verdes, Ceres com cabelo loiro, fitas azuis adornavam os sacrifícios a Neptuno, brancas para Ceres, vermelhas para a Bona Dea, mas estas convenções não eram o mesmo que correspondências. Exemplares encontrados, primeiro da Etrúria e mais tarde por todo o Império Romano, mostram a produção massiva de imagens pintadas de todas as formas, mas apenas o azul, amarelo, vermelho, branco e preto eram usados. Vermelho, azul, e amarelo eram usados alternadamente para o vestuário das figuras. Os Romanos pintavam tudo, mas apenas para decoração, não qualquer sistema de simbolismo ou correspondências mágicas.”

Marco Orazio