Reclamando a sacerdotisa

GREECE ANCIENT GODS

Uma sacerdotisa segura um ramo de oliveira enquanto participa nas cerimónias em honra de Zeus, no Templo de Zeus em Atenas. (Fotografia: Petros Giannakouris / The Associated Press Archives)

“Uma sacerdotisa é uma mulher que oficia rituais. Uma sacerdotisa oficia ritos sagrados e serve as necessidades espirituais da comunidade.”

Esta é uma definição de sacerdotisa. Pode parecer demasiado resumida ou mesmo incompleta, por não contemplar uma dimensão interior de quem é, ou pelo menos sente ser, no mais íntimo de si, uma sacerdotisa. A objectividade não permite interpretações ambíguas, deixando claro que ter uma função sacerdotal requer uma acção e não apenas o reconhecimento de uma vocação ou a experiência do arquétipo da Sacerdotisa. O mesmo é válido para qualquer outro ofício. Com a necessidade de desempenhar tarefas surge a possibilidade de errar. Na sociedade que não perdoa o erro é muito comum encontrarmos pessoas que se sentem sacerdotisas mas que não são, por puro medo de errar.

Devido à erosão da autoconfiança feminina, durante milénios, e à certeza de serem alvos preferenciais do patriarcado, ainda vigente, muitas potenciais sacerdotisas escolhem não manifestar a sua natureza. A consciência da responsabilidade, associada a vários obstáculos externos, que historicamente têm sido impostos às mulheres, remete muitas vocações para o plano dos desejos, dos chamamentos a que poucas atendem. A maioria não saberia que passos dar no sentido da concretização e as que arriscam tentar podem ser confrontadas com competitividade feroz por parte de outras mulheres, que operam com base no ego. Este é o resultado mais evidente de séculos de medo, opressão e violência, que provocaram fragmentação e resultaram no isolamento e na desconfiança entre as mulheres. A maioria acabou por confiar mais nos seus opressores e detractores do que em si mesma e entregou-lhes a sua autoridade espiritual e os seus filhos.

Outro aspecto que inibe muitas pessoas, sem diferença de sexo e género, é o aparente conflito entre as funções de orientação moral e espiritual e as posições de poder. As mulheres, em particular, desde a Antiguidade foram destituídas das suas funções de mediadoras espirituais no seio das suas comunidades. Ficaram impedidas de ascenderem nas hierarquias religiosas imperantes, acabando restringidas aos cultos domésticos ou estritamente femininos, que exigiam votos de castidade. No presente, muitas mulheres acreditam que só é possível ascenderem a determinados graus sacerdotais por via das instituições religiosas cristãs ou em alguns sítios de Poder – por vezes, nebulosos –, onde a união em torno do Sagrado Feminino permite a realização regular e descomplexada de rituais públicos de várias tradições.

A ideia de sacerdotisa aproxima-se muitas vezes da ideia de fada ou de personagens de romances protagonizados por mulheres feéricas, poderosas, ou implacáveis, que terão existido num local entre mundos, velado, restrito, ou simplesmente metafórico, mas com tremendo impacto no mundo exterior e nos fados dos outros mortais. Por outro lado, verifica-se uma vulgarização do uso de títulos sacerdotais dissociados das respectivas funções, sem que as auto-intituladas e até as ordenadas se revelem figuras sacerdotais, de facto. As sacerdotisas, como os gurus, tornaram-se meros clichés. Em muitos contextos é repetido que todas somos sacerdotisas, e que todos somos professores, mas a verdade é que não somos.

Existem requisitos indispensáveis para alguém poder exercer bem determinadas funções, forças de expressão à parte. Não basta acordar a sentir-se sacerdotisa, recordar alegadas vidas passadas em que terá sido sacerdotisa, acumular estudos universitários e iniciações, nem cumprir um percurso que culmina numa ordenação formal, que confere credibilidade, reconhecimento público, e poder. Esses são apenas estágios em processos longos que não oferecem quaisquer garantias de sucesso. Não basta experimentar o manto sacerdotal, para ver como lhe fica – e quanto pode render-lhe –, pensando que é possível mergulhar apenas o dedinho do pé no glamoroso lago das sacerdotisas, sem correr o risco de cair à água, ou ao pântano, antes de saber nadar ou pelo menos manter-se à tona.

As verdadeiras “Mulheres da Liberdade”, “Senhoras da Magia”, “Sacerdotisas do Poder” sabem que as suas funções não se coadunam com sentimentos de superioridade, em relação aos machos ou às outras fêmeas de qualquer espécie, muito menos à ostentação de títulos, graus, ou ordenações. Elas sabem que nem sequer se trata de ter a intenção, ou a pretensão, de dinamizar eventos, entreter audiências, ou ensinar alguém. Elas também sabem que o essencial é serem responsáveis pelas suas acções, aconteça o que acontecer, no exercício das suas funções. Note-se a ênfase na componente prática.

Quem não quiser, não for requisitada, ou não estiver preparada para oficiar cerimónias, de acordo com a sua tradição religiosa ou de modo assumidamente improvisado, pode participar de círculos de partilha, escrever textos acerca deste e de outros assuntos, ou simplesmente tecer um espaço no qual o sagrado possa manifestar-se. Afinal, há muito trabalho que deve ser feito em silêncio, sem depender do rufar dos tambores, da dança extática, e dos rituais públicos.

O maior desafio de qualquer pessoa que se dirige a uma figura sacerdotal, com o intuito de aprender os preceitos de uma tradição ou de recorrer ao auxílio de um mediador que facilite a sua conexão com a dimensão divina, de um modo geral, é assumir a sua responsabilidade no que advém dessa escolha e da forma como usa as informações que lhe são transmitidas. Os maiores desafios para um mediador, que pode ser ou não ser um mentor moral para alguém, tanto é o de zelar pela sua tradição como o de não reter informações que tem o dever de transmitir, na tentativa de forjar um estatuto que não possui, gerando uma aura de superioridade e mistério.

Não menos importante em qualquer mentor é a capacidade de reconhecer quando certa pessoa se revela inepta para o percurso a que se propôs e quando precisa de ser redireccionada para outro percurso ou para outro mentor. O que não falta são pessoas dispostas a manterem outras na sua sombra, apenas para alimentarem o seu ego e obterem dividendos. Estas situações podem tomar contornos criminais e justificar o recurso a medidas que assegurem a integridade física e anímica de quem procura indivíduos que se revelam impostores ou, na melhor das hipóteses, que estão pouco conscientes do mal que a sua falta de preparação pode provocar a pessoas imaturas, crédulas, intimidadas, ou desesperadas.

O que pode surpreender é que o oposto aconteça com mais frequência. É cada vez mais real a necessidade de proteger figuras sacerdotais independentes, mediadores psíquicos, mentores de minorias religiosas, e todas as pessoas honestas que prestem serviços oraculares, facilitem meditações orientadas, curas energéticas, rituais públicos, ou cursos introdutórios a inúmeras disciplinas do âmbito do Oculto, ainda que de forma gratuita. Estes profissionais estão particularmente expostos a juízos de valor, acusações de burla, difamação e injúria, por parte de concorrentes gananciosos e, sobretudo, de clientes e discípulos insatisfeitos. Muitos preferem descredibilizar e arrasar a reputação de alguém, em vez de assumirem que as suas escolhas foram feitas de livre e espontânea vontade.

Acontece que o requisito essencial para alguém realizar funções sacerdotais é exactamente a qualidade que falta a grande parte das pessoas que procuram serviços ou mentores que os orientem na sua vida pessoal ou no caminho para o almejado sucesso, no inescrupuloso mercado das espiritualidades e mais além. A principal causa para a existência de uma cultura da desresponsabilização, face às consequências de escolhas pessoais, pode bem ser o desrespeito pela autoridade espiritual de cada um, que começa em tenra idade. As consagrações às diversas divindades e religiões, durante a infância, é um abuso que carece reconhecimento público e jurídico.

Existe uma diferença crucial entre introduzir uma criança às práticas religiosas, tradições familiares, usos e costumes da sua e de outras sociedades, e em definir um percurso religioso ou não-religioso que lhe é imposto como uma doutrina. Desde a infância, a maioria ou é ensinada a desconsiderar por completo qualquer prática religiosa ou, ao contrário, a não questionar, a atender com assiduidade, e até a assumir papéis em ritos religiosos inibidores, realizados por adultos estranhos ao seu círculo afectivo, que não têm qualquer formação específica para interagirem com crianças, durante o desempenho das suas funções sacerdotais. Crescem vulneráveis a situações que propiciam o abuso da sua autoridade espiritual e abdicam dela, sem que cheguem sequer a ter plena consciência da sua existência e do papel que ela pode ter na protecção contra abusos de outra ordem, ao longo de toda a vida.

Sem uma prática pessoal sólida, que promova o autoconhecimento, a preservação da integridade espiritual, a liberdade religiosa de cada indivíduo, e o serviço ponderado a favor de uma comunidade, não é possível assumir funções sacerdotais. Quando alguém assume posturas degradantes, quer face a outras figuras sacerdotais, quer em relação a uma ou mais divindades, aceita ser subjugado, e atribui a outrem a responsabilidade pelas consequências dos seus actos, não pode exercer aquelas funções. Estamos perante uma pessoa desequilibrada, capaz de ferir a si e aos outros, com base numa convicção, em nome de interesses pessoais, de um suposto poder supremo ou força irresistível, perante a qual é servil. Infelizmente, ainda é comum encontrar quem pense que qualquer filosofia que ensine as pessoas a pensarem por si é perigosa para o próprio indivíduo, ameaça as hierarquias e aqueles que temem as suas sombras.