Dar de beber a quem tem sede

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‘Pombas a beber’- mosaico da Casa das Pombas, Pompeia (Museo Archeologico di Napoli)

O que não falta é quem queria vender-nos a fórmula do sucesso. Porém, no que diz respeito à Religio Romana do Cultus Deorum o sucesso perde o sentido que a maioria lhe atribui.

Por todo o lado encontramos dicas para cativar, manter e aumentar as audiências, os seguidores nas redes sociais, os membros de grupos de partilha, que muitas não são mais do que espaços de promoção pessoal ou corporativa. Devemos ser assíduos na publicação de imagens e artigos apelativos, mas somos aconselhados a não desenvolver, aprofundar, nem alongar muito as nossas intervenções online. Afinal, a maioria não escuta para entender, mas sim para reagir e retorquir. O importante deixa de ser o conteúdo e passa a ser a afluência, o movimento aparente que é produzido por um sem número de notificações que parecem comprovar a efervescente troca de ideias e, enfim, o sucesso de uma comunidade que se encontra sobretudo, ou apenas, no meio virtual. Para muitos, o que importa é que cada vez mais pombas venham beber da água que lhes dão.

Ora, esta lógica de gestão de trazer por casa não serve ao Cultus Deorum Romanorum e àqueles que, de forma altruísta, partilham o que aprenderam de fontes seguras e com a mais pura prática da sua tradição, ao longo de muitos anos e, em alguns casos, de décadas. Num artigo de 2015, Nick Farrell referiu o seguinte:

“Por medo de serem vistos como autocráticos, os professores permitem o bulling dos seus alunos ignorantes. É agora possível calar um professor que se atreva a referir que a adorada crença New Age de um aluno está errada. Foi-me dito online que é melhor que uma pessoa seja autorizada a distribuir as suas ideias ignorantes do que eu a questioná-las.”

Embora se referisse à degradação que o Ocultismo tem vindo a sofrer, é uma realidade que se verifica em diversos contextos. A explosiva receita de sucesso, que mistura a torrente de publicações não arbitradas e a censura daqueles que procuram moderar e esclarecer, em nada serve comunidades de pessoas que de facto querem aprender e expandir o seu conhecimento e prática de uma tradição religiosa como o Cultus Deorum Romanorum.

 

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Vitória desejada

Mirror with a Relief of Venus Victrix Roman, eastern Mediterranean, mid-2nd century AD - Princeton University Art Museum, August 2009 a

Espelho com relevo de Vénus Victrix. Romano, Mediterrâneo Oriental, meados do século II da Era Comum (Fotografia: Princeton University Art Museum, Agosto, 2009)

Hoje, domingo, 10 de Julho de 2016 haverá uma vitória e um vitorioso nos jogos! A final do EURO 2016, Campeonato Europeu de Futebol, vai inspirar um pequeno ritual diurno em honra da Dea Vénus Victrix, com sacrifício/oferenda de incenso e Vinho do Porto genuíno para peticionar em favor da Seleção Portuguesa de Futebol, para que os atletas possam estar no seu melhor e, jogando como uma equipa, vencer a partida contra a Seleção Francesa de Futebol, tornando-se os novos Campeões Europeus de Futebol.

“Vitória parece um atributo estranho para a deusa do amor mas tanto Sulla como Pompeu sonharam com Vénus Victrix. Júlio César, que reclamou ter Vénus como sua ancestral, sacrificou a ela e ela assegurou que ele fosse sempre vitorioso.” Forum Ancient Coins

“Vénus Victrix (“Vénus a Vitoriosa”) era um aspecto de Vénus ao qual Pompeu dedicou um templo no topo do seu teatro no Campus Martius em 55 antes da Era Comum. Também havia um altar a Vénus Victrix no Capitólio, e festivais eram dedicados especificamente a ela a 12 de Agosto e 9 de Outubro.” New World Encyclopedia

Today, Sunday, 10th July 2016 there will be a victory and a victor at the games! The final match of the EURO 2016, European Football Championship, will inspire a small daytime ritual in honour of Dea Venus Victrix, with sacrifice/offering of incense and genuine Port Wine to petition in favour of the Portuguese National Football Team, so that the athletes may be at their best and, playing as a team, win the match against the French National Football Team, becoming the new Football Champions of Europe.

“Victory seems an odd attribute for the goddess of love but both Sulla and Pompey dreamed of Venus Victrix. Julius Caesar, who claimed Venus as his ancestor, sacrificed to her and she ensured he was always victorious.” Forum Ancient Coins

“Venus Victrix (“Venus the Victorious”) was an aspect of Venus to which Pompey dedicated a temple at the top of his theater in the Campus Martius in 55 B.C.E. There was also a shrine to Venus Victrix on the Capitoline Hill, and festivals were dedicated specifically to her on August 12 and October 9.” New World Encyclopedia

Lares fora do lar

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Esta reflexão parte da experiência pessoal e não tem nada a ver com alegadas tradições nativas da Europa, noções de Soberania e de casamentos simbólicos entre uma Deusa e um Rei, a terra e as pessoas, a natureza e a cultura, o feminino e o masculino, e outras noções dualistas que são constantemente simplificadas para servirem as religiões modernas e o ideal ecológico dos nossos dias.

É uma relação muito especial a que estabelecemos com locais que se tornam uma “casa fora de casa”. Home away from home é a expressão mundialmente reconhecível. A forma como a afeição surge pode parecer inexplicável, mas não é raro encontrarmos os motivos na nossa infância. Pensemos um pouco nos estímulos mais fortes e agradáveis que a nossa percepção de criança expandia e assimilava. Não parecem iguais na idade adulta e, no entanto, nunca deixamos de os procurar e de tentar senti-los como da primeira vez que os experimentámos. É natural que essa ligação a um lugar longe do entorno habitual se deva mais ao facto de nele termos reencontrado, com renovada intensidade, os estímulos que recordamos com prazer do que por ser radicalmente diferente. Torna-se mais fácil estabelecer uma conexão profunda e há boas razões para que seja assim, em particular quando a nossa presença numa determinada região ou cidade se torna recorrente ao longo de anos, ainda que a título esporádico.

Na religio Romana conhecemos os Lares Familiares, guardiães indígenas da habitação onde residimos. Eles são distintos do génio de lugar, por estarem circunscritos à casa onde formamos o nosso lar. A celebração anual que lhes é dedicada coincide com as calendas deste mês de Maio. Ao contrário dos Penates, que são protectores da família, ligados à nossa genética e aos nossos ancestrais, os Lares não se movem connosco quando viajamos e nos hospedamos em diversos locais. Eles são os residentes por excelência e é em torno deles que o culto doméstico se realiza. Assim, é importante reconhecer a sua existência quando vivemos numa casa que se torna significativa, ainda que aí fiquemos apenas temporariamente. É o que acontece a alguém que faz house-sitting por um mês ou mais ou aluga temporariamente uma casa que gostaria que fosse sua. O mesmo é válido para os time-sharing e as casas de férias. Sempre que a permanência numa habitação deixe de ter um carácter de hospedagem e passe a ser considerável, estabelecemos uma ligação com ela. Esta interacção pode ser estabilizada e nutrida, se procedermos de acordo com os preceitos de diversas tradições, sejam elas teístas ou energéticas.

É surpreendente percebermos que uma relação com um lugar e com as casas que vamos habitando é aprofundada a um nível íntimo através das nossas vivências. Este aspecto pode ser sentido por todos, sobretudo quando os laços com um local se estreitam devido a relacionamentos e à experiência de partilharmos o espaço onde moramos. Porém, uma mulher pode experienciar isso de um modo muito visceral, ao nível da sua sexualidade. Para dar um exemplo extremo, quando um parto acontece fora do país de origem de uma mulher, num local que lhe é muito familiar e significativo para si, esse evento contribui imenso para reforçar a ligação que sente. O contrário também é válido e pode ter consequências nefastas, mais ou menos evidentes, quando a conexão não aconteceu ou não foi estabilizada. De qualquer forma, é sempre uma ocorrência indelével, sobretudo se o parto for domiciliar.

Por muito menos, podemos manter-nos conectados com os nossos “locais de poder”, durante toda a vida, ainda que as nossas relações pessoais e os nossos afectos se alterem, que mudemos de região e voltemos aos nossos países de origem. Tomaremos sempre como nossos os infortúnios e as alegrias dessa terra e do seu povo e vamos sempre estar a par de detalhes como a meteorologia. Isto é particularmente verdade se a nossa “casa fora de casa” se situar junto à costa atlântica, para os lados de Mount’s Bay, perto do ponto mais ocidental da Península de Penwith, e se for semelhante às memórias mais precoces que temos do lugar onde crescemos e queremos viver.

Guardiães de uma ilha

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

The Roman Baths © Bath & North East Somerset Council 2016

Sempre soube escutar os génios de lugar, mas foi na “grande ilha” que apurei esse instinto.

Nos últimos tempos, quando visito a Quinta da Regaleira, em Sintra, sinto-me incomodada com o ambiente do palácio. Isto não tem nada a ver com o facto de aquela arquitectura ecléctica – a la Portugal dos Pequeninos – não ser o meu cup of tea. A Álea dos Deuses permanece inalterada e os jardins escapam, mas não estão livres de uma tensão que me faz temer pela segurança dos visitantes que sobem às torres esguias e percorrem as grutas artificiais. Como estará a vigilância por aqueles lados? Talvez tenha a ver com a forma como o espaço está a ser explorado, para fins que em muitos casos não têm nada a ver com as premissas do lugar. Quem quer um espaço bonitinho para os seus eventos empresariais pode sempre ir à Lapa. Sloppiness é uma palavra que surge na minha mente e me leva a recear pelo “vermelho do veludo”. Falta atenção aos detalhes e, claro, uma residência daquelas sem grande parte do seu recheio original, ou à época, parece espoliada.

A propósito, não sei se daqui a uma década teremos a oportunidade de ver os delicados mosaicos da capela sem algum desgaste, tendo em conta os magotes de visitantes que entram e arrastam os sapatos por ali, antes de voltarem a sair como se não tivessem visto grande coisa. Ainda me lembro do tempo em que as pessoas dariam um dente da frente para lá entrarem e não se limitavam a passar vistoria, apenas porque o spot está indicado no roteiro turístico. Afinal, a quinta não esteve tantas décadas praticamente selada a lacre para ser dilapidada em menos de um quarto de século, com a ajuda de uma gestão com queda para o negócio da organização de eventos. Posso tentar encontrar apenas um motivo, mas o certo é que algo tem vindo a ser perturbado e não apenas porque o palácio está aberto ao público. Sei que sempre foi tão exaustivo como magnético, mesmo quando estava fechado. A primeira vez que eu tive a sorte de conseguir entrar foi em meados dos anos 90 e achei óptimo quando passou a ser visitável. Perdeu aquela aura solene e elitista dos espaços reservados aos doutos. No entanto, ali, como em qualquer lugar que passa a ser um ponto turístico, o equilíbrio é delicado.

Nullus locus sine Genius

“Nenhum lugar é sem um Génio”, escreveu Sérvio, em Virgilii Aeneidos Commentarius (Comentário à Eneida de Virgílio), 5, 95. Em Saturnalia, III, Macrobio deixou claro que cada cidade possui um Deus protector ou tutelar. Plínio confirmou isso mesmo, em Naturalis Historia (Historia Natural), XXVIII.

Se vivêssemos num mundo ideal, em que os arruaceiros não enchem um espaço sagrado com toneladas de lixo, em pleno solstício de Verão, nem sobem aos lintéis megalíticos, como se estivessem num viaduto qualquer, eu seria a favor da liberdade de circulação em Stonehenge, na Grã-Bretanha. Infelizmente, não conheci a planície de Salisbury no tempo em que não havia gradeamento em torno do monumento. Mesmo assim, valeu a pena pagar por visitas privadas de duas horas, em sistema de livre-trânsito, apesar dos mirones desbocados e da vigilância armada. Foram todos esquecidos, a partir do momento em que as pedras à nossa volta transformaram o som e as tocámos com reverência. Após um glorioso pôr-do-sol e também numa manhã quente e chuvosa, os corvos ficaram a observar-nos do alto das pedras, quando unimos as mãos para formarmos um círculo no centro do ‘ring’. Apesar de todas as confusões, violência, e polémicas, e ainda que os ‘gigantes’ venham a tombar, a minha experiência diz-me que é impossível oprimir ou aniquilar o génio daquele lugar.

Talvez o promontório de Tintagel seja dos locais mais mágicos, no sentido insólito do termo, onde o génio de lugar demonstra a sua presença através de imagens na paisagem e propicia eventos inesperados. É possível ver o seu rosto, a partir de determinados ângulos, à medida que subimos as escadinhas íngremes que levam ao átrio do castelo. Experiências como esta podem ter os dias contados, porque os visitantes vão passar a ser guiados através de uma ponte (com restrições de acessibilidade), directamente para o interior das ruínas. O antigo percurso estará disponível apenas num sentido, da ilha para o centro de visitantes. Assim decidiu o English Heritage, que é mesmo o único elemento inglês em Tintagel e que faz uma espécie de ocupação pacífica de um dos ex-libris da Cornualha. Pouco contribui para evitar a crescente “Disneyficação” do local, através da imposição de um imaginário revivalista Arturiano que atrai os turistas mais desinformados, mas que nada tem a ver com as origens da lenda nem com o folclore de Kernow.

Para quem se acostuma ao panorama grandioso e dramático da Cornualha e à suavidade das colinas sagradas do ‘Vale of Avalon’, entre as Quantock e as Mendip, a cidade de Bath pode não seduzir à primeira vista. Fica encafuada na paisagem, como se estivesse prestes a sumir-se pelo ralo. Mas há lugares que superam todas as expectativas e nos guiam noutras direcções, que sempre se insinuaram e apenas esperavam a nossa atenção. Muitas vezes, são aqueles que parecem atracções de somenos relevância, num itinerário pleno de lugares míticos, que sempre sonhámos visitar. Tendo em conta as minhas raízes portuguesas, noutra estância termal Romana, eu não devia ter ficado tão surpreendida com a familiaridade que senti ao chegar a The Roman Baths. O charme de um jantar gourmet, o quarteto a tocar ao vivo, os enormes lustres, e a fonte que dá o nome à deslumbrante Grand Pump Room, apenas aumentaram o encantamento. Para além disso, não há nada de que uma fã de Jane Austen – que cresceu em Seteais – não goste num cenário assim. Nunca pensei encontrar um lugar onde uma divindade tutelar, que neste caso é Sulis, estivesse tão reconfortada e se manifestasse com tamanha elegância. Sem dúvida, atenções não lhe têm faltado, ao longo de vários séculos em que a Cultura Clássica e as tradições autóctones foram preservadas e recriadas naquele microcosmos.

As caldas têm uma temperatura constante de 49ºC (120ºF) e são ricas em componentes minerais, sobretudo grandes quantidades de iões de sulfato de sódio, cálcio, e cloro. A maioria das nascentes de água quente da Grã-Bretanha emerge a temperaturas não superiores a 30ºC e por isso não são consideradas verdadeiras hot springs. Das onze caldas da ilha, cinco nascentes estão situadas em Bath e nas proximidades. Têm sido visitadas desde o Neolítico e na Idade do Ferro tornaram-se o foco de um culto local, que ganhou proeminência. Foi durante a ocupação Romana que o complexo com templo e balneário se formalizou sob o nome Aquae Sulis, em honra da divindade tutelar, que foi sincretizada com Minerva. O nome de Sulis, que não é de origem Romana, alude à visão (raíz proto-céltica) e ao sol (raíz proto-indo-europeia), e passou a ser usado como epíteto da Deusa capitolina.

Sulis Minerva não está só associada à cura, mas também à agricultura, à fertilidade, ao ciclo reprodutivo feminino, e sobretudo à amamentação. Foram encontradas algumas miniaturas representando seios esculpidos em marfim, que estavam consagrados àquela Deusa. Terão sido usados por mães enquanto amamentavam e depois oferecidos em sinal de agradecimento por uma boa produção de leite materno. A associação com a fertilidade está relacionada com a riqueza mineral das águas e a vida vegetativa, de cor verde, que prolifera em redor das nascentes. Isto reforça a conexão solar do nome da Deusa, uma vez que é a combinação da água com a luz do sol que permite uma boa colheita. Estes atributos não costumam estar associados a Minerva e revelam mais acerca da natureza da divindade autóctone. Ela também favorece a profecia, através do aperfeiçoamento de artes divinatórias que, mais uma vez, utilizam a água das nascentes em conjunção com a luz solar. Sulis não foi venerada em nenhum outro lugar e não pode ser transportada para outros contextos, embora existam divindades tutelares que têm funções semelhantes. Com Minerva não acontece o mesmo.

As nascentes representam os limiares sagrados e têm óbvias conotações ctónicas, o que justifica a grande quantidade de defixiones (placas de maldições) encontradas em Bath. Emergindo das profundezas do submundo, elas forneceram águas quentes e frias, que eram essenciais para os banhos Romanos. Mesmo depois do culto ter entrado em declínio, o complexo continuou a ter importância para os habitantes. No século XVII recuperou a sua relevância nacional, quando a realeza e a aristocracia passaram a deslocar-se a Bath e a “tomar as águas” para manterem a saúde. Por volta de 1720, a vila começou a desenvolver-se e a ser frequentada por quem queria ver e ser visto, transformando-se num centro da moda, marcado pela arquitectura Georgiana que evoluiu a partir do revivalismo Palladiano e que ficou a cargo de nomes como John Wood the Elder, o seu filho John Wood the Younger, o arquitecto neoclássico Robert Adam, e Thomas Baldwin, entre muitos outros que se voltaram para a Roma Antiga em busca de inspiração. É dessa época o elegante spa que nos foi legado. No presente, o moderno Thermae Bath Spa inclui a Piscina Minerva, que é uma das principais atracções, e continua uma tradição de dois mil anos.

Segue uma lista de locais sagrados e muitos outros pontos de interesse que visitei e honrei, por várias vezes durante alguns anos, no sudoeste de Inglaterra e na Cornualha, onde cada genius loci é perceptível e se manifesta, por vezes de forma surpreendente:

Círculos de pedras (e henge), alinhamentos, subterrâneos (fogou), e complexos funerários:

Stonehenge, Wiltshire, England

Avebury stone circles, Wiltshire, England

Kennet Avenue, Avebury, Wiltshire, England

West Kennet Long Barrow, Avebury, Wiltshire, England

Stanton Drew stone circles, Somerset, England

Nine Maidens of Belston Tor (perto de necrópole da Idade do Bronze), Dartmoor, West Devon

Boscawen-Un, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mên-an-Tol, West Penwtih, Cornwall / Kernow

Boskednan stone cirlce (Nine Maidens, Nine Stones of Boskednan), Ding Dong, perto de Porthmeor, West Penwith, Cornwall / Kernow

The Merry Maidens, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lanyon Quoit, e West Lanyon Quoit (vestígios) entre Madron e Morvah, West Penwith, Cornwall / Kernow

Zennor Quoit, Zennor, West Penwith, Cornwall /Kernow

The Hurlers, St Cleer, Cornwall / Kernow

Carn Euny / Karn Uni, fogou, Sancreed, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Colinas sagradas, naturais e artificiais (mound), e figuras:

Silbury Hill, Avebury, Wiltshire, England

Glastonbury Tor, Somerset, England

Chalice Hill, Glastonbury, Somerset, England

Wearyall Hill, Glastonbury, Somerset, England

Lollover Hill, Compton Dundon, Somerset, England

Burrow Mump, (Southlake Moor), Burrowbridge, Taunton, Somerset, England

Cerne Abbas Giant, Dorset, England

Zennor Tor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Michael’s Mount / Karrek Loos, “the grey rock in the wood” of Lyonesse (inclui igreja medieval, castelo palaciano, e jardins), Marazion, Cornwall / Kernow

 

Bosques e vales, ribeiros e cascatas:

Dundon Beacon, Compton Dundon, Somerset, England

St Nectan’s Glen and Waterfall, Trethevy, Tintagel, Cornwall / Kernow

Peters Wood e Minster Wood, Valency Valley, Boscastle, Cornwall / Kernow

Rocky Valley (inclui baixo-relevo, na rocha, de labirinto cretense), Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Poços sagrados e fontes termais:

The Chalice Well, Glastonbury, Somerset, England

The Roman Baths, Bath, Somerset, England

Sancreed Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

Madron Well, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Enseadas (coves), praias, portos e cabos:

Prussia Cove (King’s Cove), Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

Marazion beach, Mount’s Bay, Conrwall / Kernow

Newlyn Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Mousehole Harbour, Mount’s Bay, West Penwith, Cornwall / Kernow

Lamorna Cove, West Penwith, Cornwall / Kernow

Pednvounder beach, (Treen beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthcurno beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Sennen beach, West Penwith, Cornwall / Kernow

Land’s End, West Penwith, Cornwall / Kernow

Porthzennor Cove, Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Ives beaches (Porthmeor beach, Porthgwidden beach, Bamaluz beach), West Penwith, Cornwall / Kernow

Gwithian beach, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernwo

Godrevy beach, Peter’s Point, Haley, St. Ives Bay, Cornwall / Kernow

Port Isaac, Cornwall / Kernow

Tintagel beach, Tintagel, Cornwall / Kernow

 

Jardins:

Chalice Well Gardens, Glastonbury, Somerset, England

Morrab Gardens, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

Trengwainton Garden, Penzance, West Penwith, Cornwall / Kernow

St. Micheals Mount Gardens, Mount’s Bay, Cornwall / Kernow

 

Fortificações:

Maiden Castle, Dorset, England

Cadbury Castle, Somerset, England

Dundon Hill Hillfort, Compton Dundon, Somerset, England

Tintagel Castle, Cornwall / Kernow

 

Igrejas, abadias e catedrais:

Glastonbury Abbey (inclui ruína de St. Mary’s Chapel), Somerset, England

Church of St. John the Baptist, Glastonbury, Somerset, England

St. Mary’s Church, Glastonbury, Somerset, England

St. Michael’s Tower (ruína), Glastonbury Tor, Somerset, England

St. Micheal’s Church (ruína), Burrow Mump, Taunton, Somerset, England

Wells Cathedral (inclui um relógio astronómico), Somerset, England

St. Andrew’s Church, Compton Dundon, Somerset, England

Church of St. Mary the Virgin, Belstone, perto de Okehampton, Dartmoor, West Devon

Minster Church, Boscastle, Cornwall / Kernow

St. Senara’s Church (inclui relevo, em madeira, de uma sereia, Mermaid of Zennor), Zennor, West Penwith, Cornwall / Kernow

 

Posso ter esquecido algum e talvez volte para fazer rituais e outras visitas. Um dia.

 

Elitistas e empertigados

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museuo Archeologico Nazionale

Fresco representando o padeiro Terentius Neo e a sua esposa; de Pompeia, Museo Archeologico Nazionale di Napoli.

“É verdade, o vitriol não está confinado à internet. Na verdade, muita (não toda, mas grande parte) da minha experiência enquanto Pagã, ao encontrar outros Pagãos que não conheço, é caracterizada por indiferença, altivez, e paranóia – da parte deles. Eu costumava sentir-me desapontada, quando uma amiga dizia, “Oh, tens de conhecer a não-sei-quantos, ela é uma Druida” ou fosse o que fosse, e eu conhecia essa não-sei-quantos que era distante, paranóica, e competitiva – SE-CA! Bom, não se pode ter uma conversa decente quando se trata de competirmos acerca de seja lá o que for aquilo por que aparentemente estamos a competir. No ano passado, num festival, conheci uns Pagãos que um velho associado me assegurou serem mesmo interessantes e que simplesmente tinha de conhecer. Bem, eu nunca tinha conhecido gente tão glacial e antipática na minha vida. De facto, eu mal os ‘conheci’ uma vez que fizeram questão de me olhar de lado e ignorar. E porquê? Porque, posso apenas pensar, estavam terrivelmente preocupados com o estatuto deles em relação ao meu e ao de todas as outras pessoas. Eu acho que não estou a imaginar isso. Passei anos a lidar com grupos mágicos e Pagãos em que o prestígio e a hierarquia são importantes, apesar de isto nunca ser admitido nos círculos mais polidos, por isso penso que consigo detectar aquilo quando sou confrontada com a situação.

É disso que esta – esta hostilidade – se trata, trata-se de postura hierárquica. E da posse de conhecimento, ou do que se pensa ser conhecimento secreto, ligado a questões internas [e externas] de um grupo e seus afiliados, ou não-afiliados. Têm de espantar o [suposto] forasteiro. Simplesmente têm de fazê-lo! Especialmente se ele parece capaz de competir… competir por quê? Fãs, seguidores, prestígio, liderança, aumento da auto-estima… sei lá. Hierarquia e prestígio, “poder sobre”, são características que a Bruxaria Pagã finge não desejar. E eu estou certa que em algumas situações [ideais] não existe. (E a Bruxaria é tão mágica como grupos magic(k)os, por isso não se dêem ao trabalho de dizer “Oh, só aqueles grupos hierárquicos de magia cerimonial é que são assim”). Eu diria que na maior parte dos casos não há nada que um individuo ou um casal dominante goste mais do que ser – e manter-se como – “chefe” do grupo… quando o que deve acontecer é encorajarem os outros a desenvolverem-se e tornarem-se fantásticos… a graduarem-se e saírem da sombra dos “professores”. De qualquer forma, como disse Anton La Vey, se fingires que te envolveste em Bruxaria por qualquer razão a não ser poder, então estás a iludir-te.

Oh, e antes que alguém tenha um ataque apopléctico, deixem-me dizer que apesar de acima ter mencionado uma Druida, eu não estou a destacar nenhum “tipo” de Pagão em particular… o exemplo em que eu estava a pensar era uma Druida, mas o outro exemplo eram Wiccans (eu penso [ou eles pensam]). A manipulação hierárquica paranóica é evidente em muitos tipos de grupos Pagãos e Magic[k]os.”

Reparem que não fui eu que escrevi aquilo, se bem que podia ter sido e nem me ficava por aqueles exemplos. Eu apenas traduzi um comentário feito por Caroline Jane Tully [1], em Albion Calling, a 31 de Janeiro de 2013. Reporta-nos a uma realidade que tem directamente a ver com tradições alegadamente esotéricas. Essa é uma característica comum à maioria dos grupos do Paganismo moderno, especialmente naqueles com sabor cristão e nos que partilham raízes mais ou menos herméticas. O secretismo, as iniciações e as linhagens são aspectos centrais em muitos contextos. E são estes aspectos que mais atraem aqueles que procuram obter uma aparência de estatuto, que lhes permita projectar uma determinada imagem de si mesmos sobre todos os que os rodeiam. Na minha experiência como observadora, as pessoas mais empertigadas não são as que estiveram directamente ligadas aos fundadores deste ou daquele Paganismo. Sobretudo, porque estas aprenderam com as “mães” e os “pais” do Paganismo moderno a serem despretensiosas. Partilharam com eles o dia-a-dia, as coisas mais comezinhas, e até o sofrimento provocado pelas doenças que os afligiram na velhice. Sabem que seria absurdo entronizá-los e posarem de herdeiros perante a restante comunidade Pagã.

O problema são aqueles que pouco ou nada têm a que se agarrar, nem a nível do que sabem nem das pessoas que conhecem. Tudo o que lhes resta é o faz-de-conta e, muitas vezes, o silêncio, que usam para parecerem superiores e inacessíveis. The wise are silentand busyand important; do tipo que nunca aprece, nunca está, nunca pode, nunca tem tempo. E se estes, que devem estar uns furos acima da ‘plebe’, não são sábios podem sempre tentar parecer, através daqueles silêncios. Mas há quem goste de os fazer falar, como nos contou a forest witch, artista sagrada, e herbalista tradicional, Sarah Anne Lawless, em Heathen Harvest:

“Penso que acertaste em cheio quando disseste manter uma imagem. Uma imagem, não a realidade. Com a popularidade da internet e a ascensão da cultura da celebridade, a imagem tornou-se mais importante do que a realidade. Quando os mágicos falam acerca de tudo o que os define, a sua imagem, eu afincadamente pergunto “isso é tudo fantástico, mas o que é que FAZ?”, até obter uma verdadeira resposta. Isto frequentemente acaba comigo a descobrir que um ocultista sombrio, satânico, obcecado por grimoires populares ou é um ocultista de cadeirão ou apenas pratica a bonitinha magia folclórica de jardim, que nada tem a ver com a imagem que projecta. O fulcro da questão, como eu percebi, é que a geração de mágicos mais jovens sente uma enorme pressão para parecer tão inteligente e interessante como os seus ídolos, em vez de serem eles mesmos. Alguns até estão tão empenhados em cultivar essa imagem que se esquecem daquilo em que realmente acreditam. Há ocultistas de cadeirão que lêem mas nada praticam e existem supostos Pagãos que acreditam mas nada praticam e a maioria encontra-se na internet. A forma de sair disto é ter uma prática pessoal, e sujar as mãos com alguma magia, para obterem experiência. Eu sou uma pessoa muito sociável e mantenho uma prática que é ao mesmo tempo pessoal e comunitária. É possível.”

Sem aqueles subterfúgios, torna-se mais difícil sobressair – no sentido pejorativo do termo –, quando estamos numa tradição exotérica. Porém, na ausência de iniciações e linhagens, alguns carapaus de corrida – machos e fêmeas – encontram outras formas de se destacarem. Os despiques pseudo-académicos a que assistimos nas redes sociais são sempre bom entretenimento. É como ver alguém com o diploma da Universidade Google a debitar informação em termos médicos, em grupos de apoio.

Acerca de personagens semelhantes àquelas, Ethan Doyle White [2] escreveu, em comentário, no seu blog Albion Calling:

“Eles nunca revelaram nenhumas qualificações académicas próprias – nem PhDs, MAs, nem sequer BAs, nem parecem ter alguma vez publicado em revistas da especialidade – e no entanto continuam a pronunciar-se acerca de matérias académicas usando linguagem que parece transmitir autoridade. Eu encontrei indivíduos assim antes, tanto dentro do Paganismo como por todo o lado; pessoas que são bastante inteligentes e sabedoras, e que podem até ter algumas qualificações académicas, mas que gostam de se achar melhores do que os académicos profissionais ou semi-profissionais, que depois atacam de forma vil e muito pouco académica. Claro, a internet faculta o cenário perfeito para estes indivíduos; melhor do que os meandros das publicações de autor a que antes se encontravam confinados.”

À medida que os dissidentes de grupos se multiplicam, nas redes sociais aumentam os grupos-cogumelo ou os grupos-satélite ou os grupos-às-moscas, a par de blogs que dão voz a tudo o que é ecléctico. Jobs for the boys. Esses são os únicos lugares onde os sabichões podem ter a certeza de não encontrar oposição. Aí, usam o que aprenderam, sobretudo graças às pessoas cujos argumentos não conseguiram rebater, para impressionarem quem pouco sabe. Todos são bem-vindos! Talvez seja um aspecto residual do que lhes acontecia quando eram Wiccans ou Druidas ou Teletubbies, e se organizavam em covens e groves. Aqueles são os contextos onde há sempre a possibilidade de fundarem um grupinho só seu, mais ou menos em segredo, onde podem ter o papel principal, alegando praticar ritos antigos, sobretudo quando percebem pouco da tradição em causa, seja ela mais ou menos moderna.

[1] Caroline Jane Tully: Tem um Bachelor of Arts em Belas Artes pela Universidade de Monash e um Diploma de Graduação e Pós-Graduação em Estudos Clássicos e Arqueologia da Universidade de Melbourne, Austrália. Terminou o doutoramento em culto das árvores no Egeu pré-histórico e Mediterrâneo Oriental. Também está interessada na recepção do mundo antigo, em particular a recepção das antigas religiões egípcias e minoica.

[2] Ethan Doyle White: Um candidato a PhD da University College London com um interesse particular no desenvolvimento do culto, ritual e magia. A sua pesquisa publicada concentra-se em dois temas principais: religião pré-cristã na Europa, e a recepção, reinterpretação, e reutilização da Europa pré-cristã num contexto moderno (isto é no Paganismo contemporâneo). Embora tenha sido academicamente treinado nas disciplinas de Arqueologia, é um acérrimo defensor de perspectivas interdisciplinares, e a sua pesquisa intercepta os Estudos Religiosos, a História e o folclorismo. Publicou um livro académico [Wicca: History, Belief, and Community in Modern Pagan Witchcraft ], nove artigos em revistas académicas, e também vinte e quatro críticas em seis revistas diferentes.

Polémicas premeditadas

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Fresco da Casa dos Epigramas, Pompeia, século I da Era Comum.

Os cultores, e os politeístas de uma forma geral, devem deixar certos assuntos para depois. Não porque esses assuntos não tenham relevância, mas porque não são tão importantes como as nossas vidas privadas e tudo o resto que faz parte do quotidiano, como por exemplo prestar culto aos Deuses. Nas últimas semanas, as celebrações do novo Anno Sacro, a Calendas de Aprilis, e a Venerália, que celebrámos ontem, em honra de Vénus Verticórdia, mereceram mais atenção por parte dos cultores do que quaisquer polémicas. Os agitadores podem sempre esperar, mas se não quiserem também podem ir procurando outras colmeias onde consigam realmente semear a discórdia. Entretanto, para mim, o “depois” pode muito bem ser hoje.

Para alguns, o facto de haver pessoas que mantêm a religião livre de politiquices é um sinal de fascismo. Atentem nesta contradição! Porque o que finalmente vou comentar, ao fim de uma semana após ter estalado a polémica nos blogs internacionais, é uma tentativa de criar um clima de suspeição em relação aos – e entre os – politeístas de diversas tradições. É grave, mas não suscita a minha indignação. Dedico um post a este assunto porque, à semelhança de outras pessoas que entendem ser preciso repudiar as alegações que foram feitas, eu também sei que existe apenas uma pequena janela temporal para determinarmos qual vai ser o discurso nas próximas décadas, acerca do Politeísmo. E se queremos manter o foco nos Deuses e não nas politiquices que alguns elementos tentam imiscuir nas comunidades politeístas a que, na maior parte das vezes, nem sequer pertencem ou apenas fingem pertencer, sob pretexto de nos alertarem para os supostos perigos que espreitam a cada canto dos nossos fóruns, grupos, e comunidades locais, então temos de tomar uma posição. E esta tomada de posição tem esperado muito para acontecer. Temos aturado demasiadas impertinências. Não precisamos de manifestar revolta, porque o assunto só provoca o espanto de quem compreende que estamos perante pessoas que querem levar os outros para o seu campo de batalha, para jogarem o seu jogo, e lhes facilitarem a vida no que toca à difusão das suas ideologias. Porque é preciso entendermos que para esses elementos qualquer publicidade é boa publicidade. Adivinhem quem está a tentar radicalizar o Politeísmo?

Estando em Portugal, o mais provável é que eu seja a primeira pessoa a escrever em Tuga acerca do que aconteceu. Não por ser a única politeísta portuguesa que tomou conta da ocorrência, mas porque os outros que também juntam as suas vozes às muitas que têm reagido ao artigo do blog Gods&Radicals, preferem fazê-lo em inglês, por uma questão de acessibilidade, uma vez que interagem com outros politeístas de vários países. Eu também o faço em inglês, nos blogs e redes sociais, das poucas vezes que dedico cinco minutos a comentar, mas não faço questão que este espaço tenha impacto além das fronteiras lusófonas. Estou mais interessada em perceber como essas influências exteriores, e as polémicas geradas além-mares, poderão impactar a tímidas comunidades politeístas portuguesas. E no que diz respeito à intersecção entre Religião e Política, o nosso país tem características únicas, que determinam que a nossa reacção também seja distinta – mas não menos intensa – daquela que se observa nos Estados Unidos da América e no resto da Europa e do mundo.

Sob pena de espalhar um pouco mais a palavra dos agitadores (e porque ser agitador também é um direito que a todos assiste), passo a explicar que o post que está no centro da polémica intitula-se “Confronting the New Right”, ou “Confrontando a Nova Direita”, e é anónimo, apesar de ter sido escrito para o referido blog Gods&Radicals. Esta plataforma é dedicada ao “Pagan Anti-Capitalism”, ou “Anti-Capitalismo Pagão”, seja lá isso o que for. Portanto, estamos perante um grupo que não tem qualquer pudor em associar a sua religiosidade (ou a aparência de religiosidade) a uma ideologia. Pelo contrário, assume e cultiva essa associação, autodenominando-se uma “beautiful resistance”, ou “bela resistência”. O tom não deixa margem para equívocos. Não vou aqui referir os nomes de quem quer sobressair, até porque pouco importam no panorama nacional, mas uma simples pesquisa por parte dos leitores mais atentos a estes meandros será o suficiente para que percebam de quem se tratam as figuras de proa e qual tem vindo a ser o seu plano (a sua agenda).

É que os tipos são fuinhas! A acusação, travestida de alerta acerca de – e simultaneamente dirigida a – várias comunidades politeístas, quer se definam Pagãs ou não, foi a de que existe uma tendência fascista inerente à natureza das mais diversas tradições. Depois de uma introdução em que é apresentada uma definição da tal “New Right” e afirmada a alegada influência dessa ideologia sobre as comunidades Pagãs, Politeístas, Heathenistas e Ocultistas, somos confrontados com uma análise detalhada das supostas vulnerabilidades de diversas tradições apolíticas ou que, segundo o/s autor/es do texto, apenas são apresentadas como apolíticas mas estarão imbuídas das ideias dessa tal “New Right”, sob disfarce de senso-comum, costumes, saberes tradicionais, ou a vontade dos Deuses. Ou seja, o que eles estão a insinuar é que se formos apolíticos é certo e sabido que essa é só uma forma de sermos ainda mais manipuláveis ou deliberadamente fascistas. Poupem-me! O que está ser feito não é um alerta, é uma associação directa que é preciso impugnar, desde já.

Como cultrix da religio Romana, Cultus Deorum Romanorum, vou continuar a oferecer esclarecimentos, à semelhança do que tem sido feito por outros politeístas que têm vindo a retomar as religiões que foram espezinhadas ao longo de milénios. Mas desde já, a título pessoal, como portuguesa que sou, eu não admito que ninguém – muito menos alguém que provavelmente nada sabe acerca da luta pela Liberdade em Portugal – tire ilações acerca das minhas opções políticas, de forma preconceituosa, com base na minha religiosidade. Se alguém não é capaz de discernir entre esses dois planos, esse alguém não sou eu, mas sim quem se dá ao desplante de insinuar que as minhas expressões de religiosidade politeísta e o meu apreço pela minha herança cultural podem denotar alguma inclinação política extremista.

Antes de prosseguir, abro um parêntese para sublinhar um detalhe que não deve passar despercebido. Nesse rol que foi mencionado, são apontadas as tradições Dianicas e da Espiritualidade da Deusa; Druídicas; Reconstrucionistas; Devocionais; Heathenistas, Asatru e Tradições Nórdicas; Ocultismo, Bruxaria (Witchcraft), e Tradições de Alta Magia. Ou seja, todos os principais sectores em que se inserem religiões e tradições específicas, como o Cultus Deorum Romanorum, o Politeísmo Helénico e, para dar um exemplo de uma religião moderna, a Wicca. No entanto, se continuarmos a ler, podemos ver que é feito o reparo de que estas tradições não estão alinhadas com a tal “New Right” (grande novidade), apesar de todos os alegados perigos e vulnerabilidades referidos. No seguimento desse reparo é feita uma menção explícita às tradições da OBOD – Order of Bards, Ovates and Druids (a qual desde cedo optei por não integrar, sobretudo devido à amizade colorida que a ordem tem com o Unitarian Universalism e com o conceito de “igrejas da floresta”, que me dá vontade de fugir), à Reclaiming (com a qual estou bem familiarizada, graças aos meus laços com o outro lado do Atlântico), e à Feri (que de tão jovem que é já nem é “do meu tempo”), entre outras não especificadas. Segundo o/s autor/es, estas tradições têm uma ênfase mais igualitária e não hierárquica do que as outras, o que as torna mais imunes às investidas da tal “New Right”. Ora, ora! Por que será que estas tradições estão a ser arredadas da fogueira? Não será porque os autores e dinamizadores do Gods&Radicals estão intimamente ligados a essas tradições? É verdade.

Please (Mr.Rhyd and co.), não me venham contar histórias da Carochinha acerca desta ou daquela sacrossanta comunidade Pagã moderna, composta por bons Pagãos, fadas e duendes, que querem orientar os “seekers”. De um modo geral, tenho boa impressão do papel que a OBOD, sobretudo na pessoa de Philip Carr-Gomm, tem tido na alargada comunidade Pagã, mas não consigo ignorar a espécie que me faz aquela expressão inspirada no Tao Te Ching, “leading by appearing to follow”, “liderar aparentando seguir”, que tanto ele como vários líderes de ordens druídicas gostam de usar. Em tempos, escutei de organizadores de viagens de grupo, workshops, e conferências da Deusa, que ninguém tinha nenhum lucro com todas essas actividades. Entretanto, está para ser inaugurada uma nova Goddess House em Glastonbury. E ainda bem, mas quem a pagou e vai manter? Enfim, ou anda muita gente a trabalhar para aquecer ou, então, areia nos olhos dos outros é refresco. É de notar que, a par da promoção dos cursos à distância da OBOD, há quem tenha trilhado carreiras na área editorial. Ninguém está a insinuar que obtêm grandes lucros com isso, mas do prestígio já não se livram. Porque haveriam de querer livrar-se? É o caso do mesmo Philip Carr-Gomm, formado em Psicologia e líder “informal” daquela “informal” ordem druídica. De alguma forma, o papel dele na OBOD justifica uma página de autor na maior rede social e vários livros editados por publishing houses como a Watkins Books, HarperCollins, Random House, Granta Books, entre outras, com direito a edições traduzidas em dezenas de idiomas. E para ficar tudo em família, também podemos assinalar a colaboração dele com Stephanie Carr-Gomm, na edição do The Druid Animal Oracle (Simon & Schuster, Fireside Books, USA and Australia 1994. Connections Publishing UK 1996). Portanto, a perder é que não ficam.

Para quem não sabe, os cerca de 10,000 druidas da Grã-Bretanha correspondem (roughly) a 0,01% da população do país. Àqueles druidas britânicos há que juntar os do resto do mundo, sobretudo dos Estados Unidos. A alguns pode parecer pouco, e sabemos que o Druidismo, nas suas diversas expressões e ordens é uma minoria religiosa, mas 0,01% num país como a Grã-Bretanha representa um público e justifica que haja editoras que estão dispostas a publicar, não só os livros de Carr-Gomm como de uma série de outros autores afectos à OBOD. Nenhuma editora o faria se não tivesse os custos cobertos nem qualquer perspectiva de retorno financeiro. Em Portugal (Zéfiro – Edições e Actividades Culturais Lda.) e em quase todos os países onde a ordem está presente também é assim e isso é perfeitamente legítimo, mas não podemos estar à espera que seja a OBOD, e os seus representantes “informais” que em cada país vão somando fama e seguidores, a lamentar as associações que foram feitas naquele artigo do Gods&Radicals, em relação à maioria das outras comunidades. Quanto mais alarmados ficarem todos aqueles que andam à deriva, ou saltitando nos diferentes ramos do açucarado Paganismo moderno, ou do “arquetipismo” pseudo-psicológico que nada tem a ver com Religião, mais seguidores terão a OBOD e os seus emergentes protagonistas locais.

Fechado que está aquele parêntese, voltemos agora ao cerne da questão. Que  os “Pagãos Anti-Capitalistas” não tentem definir a natureza e supostas vulnerabilidades da minha comunidade religiosa, à qual não pertencem, que não conhecem nem querem conhecer, mas que descrevem de forma a provocar inquietação e a obterem reacções que não tardam em usar contra nós, para nos fazerem parecer tão histéricos como as sufragistas aos olhos dos seus detractores. Passo a traduzir do texto original em inglês:

“Reconstrucionismo: Um dos locais mais significativos onde a New Right intersecta as crenças Pagãs. A ênfase em regressar a tradições ‘reconstruidas’ (e pouco compreendidas), fórmulas sociais e estruturas hierárquicas, assim como uma ênfase em recuperar a herança europeia são frequentemente problemáticas. Mais, tendências nacionalistas e de exclusivismo racial são frequentemente justificadas como sendo parte dos ‘costumes’.”

“Politeísmo Devocional: Similar aos problemas do Reconstrucionismo, mas com uma dimensão extra. Porque como alguns Politeístas Devocionais colocam a autoridade final nos ‘deuses’ e enfatizam as relações hierárquicas (entre humanos e deus, sacerdote e devoto), as questões éticas não podem ser questionadas pelas pessoas preocupadas por causa da ‘vontade dos deuses’.”

– Primeiro, no que me diz respeito, e ainda que outros cultores não se importem de ser chamados Pagãos, eu não sou Pagã nem pagã, e não pratico nenhuma forma de Paganismo.

– Segundo, “crença” tem alguém para quem acreditar é a base da sua religião e não os cultores da religio Romana, onde o único voto é o de cumprirmos aquilo a que nos propomos diante dos Deuses, e não viver segundo Escrituras e Mandamentos. Só por isto, pode ver-se a falha de compreensão de quem escreveu aquilo.

– Terceiro, ninguém quer regressar a lado nenhum, apenas retomar, a título particular, comunitário, e não nacional, as religiões que foram proibidas, mas que no caso Romano podemos entender perfeitamente, desde que queiramos tomar conhecimento de pelo menos a ínfima parte da avassaladora quantidade de registos que os nossos ancestrais nos legaram. O facto de termos de ‘reconstruir’, ou apenas retomar o que foi bruscamente interrompido, e progressivamente dilapidado por quem desde então escreveu a História, só revela a natureza dos opressores.

– Quarto, essa necessidade de conhecer a mentalidade dos Romanos que fundaram a religio não advém de nenhuma intenção de reinstituir a velha ordem, de viver numa sociedade sequer semelhante à da Roma Antiga, de voltar à época em que havia escravos e em que as mulheres eram consideradas inferiores ou ficavam a cargo dos patres familias. Se pensássemos assim em relação ao Cristianismo, a existência de religiões cristãs na actualidade significaria que os cristãos ainda viveriam como no tempo das catacumbas, das Cruzadas, ou da Inquisição (no caso dos católicos). Esta analogia é para deixar claro que podemos ser pessoas dos nossos dias, sofisticadas e até visionárias, ao mesmo tempo que temos uma religião da Antiguidade ou autóctone de qualquer território europeu.

– Quinto, nunca existiram quaisquer questões de “exclusivismo racial” na religio Romana, nem no tempo da Roma Antiga nem nas actuais comunidades do Cultus Deorum. Aliás, como lusófonos que somos, nunca devemos esquecer que, ao contrário do que veio a acontecer, também por mãos dos nossos antepassados, durante o domínio do Cristianismo, a cor da pele nunca foi sinónimo de um determinado estatuto ou da ausência dele. Por outro lado, a noção de nacionalismo não se aplica a uma religião que é praticada por todo o mundo, com ênfase na sacra privata e não na sacra pública.

– Sexto, em relação ao que é referido no parágrafo dedicado ao Politeísmo Devocional, nem vou dar-me ao trabalho de explicar por que razão é absurdo achar que há algum perigo no facto de alguém consciente da sua autoridade espiritual estabelecer uma relação “hierarquizada” com qualquer divindade (e não com qualquer mortal, ainda que sacerdote). Pois, se os Deuses fossem criados pelas nossas mentes, como os arquétipos, e dependessem da nossa existência, como a psicologia, então é que não haveria relação nenhuma a não ser com os nossos ‘umbigos’ mentais. Mais, relembro que não são os politeístas que vivem de acordo com Mandamentos e Escrituras que sempre foram seleccionadas, reescritas, e usadas para deixar clara a ‘vontade de Deus’ (com D maiúsculo, if you please senhor/es autor/es, porque Ele, como Deuses e Deusas, pode muito bem existir e o respeito também está nestes detalhes).

Agora pergunto, onde é que estão a incompatibilidade, o problema, ou o perigo? Eu sei onde. Um pouco por todo o lado, em todas as instituições e comunidades, porque fascistas há em todas as esferas. Sobretudo, o problema está nas mentes manipuladoras de quem achou que lhes seria útil fazer uma análise tão exaustiva como negligente dos sectores Pagãos e/ou politeístas, e escreveu um rascunho como aquele, com o objectivo de dividir para reinar e difundir a sua ideologia Anti-Capitalista, que na tem a ver com Religião. Acredito que o pessoal na Gods&Radicals ainda ache que alguém devia agradecer-lhes pelo ‘alerta’ e por todas as dicas incluídas num ‘artigo’ que podia ter algum valor, se não tivesse sido escrito de forma tão ignorante, depreciativa, e tendenciosa.

Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.

Desfazer equívocos a bem da sensibilidade

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

Os Romanos são frequentemente considerados precursores da apropriação cultural. A verdade é que as palavras que usamos não são explícitas nem descritivas do que aconteceu no âmbito religioso. Em arqueologia é mais comum empregar-se a palavra aculturação. Segundo José d’Encarnação, que apresentou a palestra “Altar romano dedicado a Arantius Tanginiciaecus”, no passado dia 19 de Março, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, a aculturação religiosa terá sido “uma das mais sábias atitudes que a política organizativa dos Romanos soube adoptar”. Durante aquele evento foi apresentada uma ara de estética romana, proveniente da Beira Interior, dedicada a uma divindade indígena à qual foram atribuídos diversos epítetos e que é considerada um exemplo de “convivência pacífica entre Romanos e povos indígenas”.

Nem sempre a referida aculturação foi progressiva e em muitos casos nem sequer foi isso que aconteceu. Muito menos se tratou de apropriação. Longe de mim fazer aqui o que os ingleses chamariam cherry picking, em relação à palavra mais adequada. Não quero tentar relativizar a violência que terá resultado de decisões políticas dos Romanos da Antiguidade, mas é essencial entender que a expansão do Império Romano não teve uma motivação religiosa. A suposta apropriação de divindades pela religio Romana é uma incorrecção e denota desconhecimento acerca da natureza dos Deuses e do que seria considerado supertitio pela tradição Romana do Cultus Deorum. Antes de mais, é essencial usarmos a palavra correcta, que é incorporação, porque não implica a sugestão de que os Deuses possam ser comandados e subjectivizados.

Os Romanos sempre souberam como transferir o culto de uma divindade de outro povo e território para o seu panteão e os seus templos, com base na relação de respeito que estabeleceram com os Deuses e não como uma manifestação de conquista ou tentativa de humilhação do opositor. Eles nunca o fizeram por acharem que os seus Deuses não eram suficientes ou que a sua religião não era satisfatória, mas porque sempre foram flexíveis. Os Romanos reconheceram as divindades autóctones e quiseram assimilar muitas à sua tradição, sem proibir outras formas de culto. Um dos casos mais conhecidos é o da Deusa Juno de Veii, que através da cerimónia conhecida por evocatio foi convidada a proteger os Romanos antes da conquista daquela cidade. A Juno foi oferecido um culto e um templo em Roma que Ela aceitou ao favorecer os Romanos, passando desde então a ser uma das Deusas da tríade Capitolina mais conhecida, ao lado de Júpiter e Minerva. No entanto, sempre foi reconhecido o culto de Juno fora de Roma, sobretudo pelos Argives e o povo de Lavinium, que a reverenciava como Juno Sospita.

O evocatio realizado na religio Romana não pode ser entendido à luz das modernas “ciências Herméticas” e das religiões politeístas eclécticas que “trabalham” com os Deuses. Muito menos segundo o curioso conceito de “adaptabilidade cristã”, tantas vezes mencionado como sendo uma qualidade católica. A adaptabilidade cristã – católica – que regeu a era de perseguição formal dos cultores das religiões nacionais: que começou com a legislação contra os cultos antigos, a 350 da Era Comum; que foi reforçada no dia 23 de Novembro de 353, com o encerramento dos templos e a abolição dos sacrifícios sob pena de morte; e que culminou no Édito de Tessalónica, Cunctos Populos ou De Fide Catolica, a 27 de Fevereiro de 380, o qual estabeleceu a exclusividade do Cristianismo enquanto religião de um certo Império Romano, que nunca foi mais do que uma encenação de magnificência. A tal adaptabilidade que é demonstrada cada vez que alguém insiste em afirmar o desaparecimento das religiões autóctones, em particular as provenientes da Antiguidade Clássica. A mesma adaptabilidade que assegura que os católicos não se importam com as raízes e os elementos “pagãos” da sua religião, declarando que isso apenas a torna mais abrangente. Afinal, permite que os politeístas esqueçam os seus “deuses imaginários” e sejam cristianizados através da adoração de santos, o que é suposto servir-lhes de consolo.

Ora, à “luz” desta mentalidade e da ignorância total acerca da natureza dos Deuses, a que tão bem serve o moderno conceito de arquétipo usado no jargão das “novas psicologias”, não é possível que alguém entenda que os Deuses não são comutáveis nem apropriáveis. Para além do insulto implícito, esta falha de compreensão é uma manifestação cristã residual que causa problemas a muitos politeístas recém-assumidos e pouco familiarizados com a religio. Se no caso de Juno estamos perante uma Deusa itálica, o mesmo não acontece com Afrodite, e isto reporta-me à situação de uma jovem que terá encontrado o Cultus Deorum, aparentemente, graças àquela Deusa do Olimpo. Duas semanas antes, ela tivera uma “epifania” acerca de uma divindade que sempre estivera presente na sua vida. Quando contactou os cultores pela primeira vez o seu tom era o de quem tinha acabado de se apaixonar por alguém que mal conhecia. A sua abordagem foi o mais sincera possível, tendo admitido saber muito pouco acerca dos Deuses Romanos, mas mostrando grande interesse em clarificar aquilo que parecia tratar-se de um mal-entendido ou de uma partida internáutica de Mercúrio. Afinal, ela teria sido guiada para um grupo de apoio de cultores Romanos onde começou por procurar informações acerca de…Afrodite!

De acordo com o seu testemunho, a jovem tinha sempre “trabalhado” com uma Deusa que nunca se preocupara em nomear. Acumulara uma colecção de conchas e búzios do mar, a sua cor favorita era verde-marinho, adorava maçãs, e quanto mais pensava na misteriosa Deusa mais necessidade tinha de estar perto de rosas. O seu altar estava coberto de conchas e incluía uma imagem do quadro “O Nascimento de Vénus”, que encontrara esquecida numa gaveta, em casa dos seus avós. Estes e outros aspectos levavam-na a crer estar perante Afrodite. No entanto, encontrava-se a clarificar as suas dúvidas junto de cultores tradicionais da religio Romana, o que impunha que ela descobrisse de uma vez por todas a quem queria dirigir-se. Porque o panteão Romano não inclui Afrodite (e Vénus, com quem partilha atributos, é muito mais arcaica). Naquele caso era crucial que a jovem se familiarizasse com os elementos presentes na sua vida e discernisse entre as duas Deusas. Precisava de saber se estaria a tomar uma pela outra, como é comum acontecer quando alguém tem um conhecimento enciclopédico das divindades ou pensa que a sua diversidade é apenas aparente e se resume a uma questão de nomenclatura. Este é um aspecto residual do pensamento monoteísta que atrapalha muitos novos politeístas, à medida que aprendem o culto dos Deuses, nas diversas tradições, ou quando querem estabelecer um culto ecléctico a muitos Deuses em simultâneo, à revelia de quaisquer preceitos religiosos tradicionais.

Aquela jovem foi prontamente informada da existência do politeísmo Helénico e das respectivas comunidades e grupos de apoio, onde poderia encontrar toda a informação acerca de Afrodite que desejasse. Só ela iria conseguir decifrar se estaria a usar o nome errado para Vénus, uma vez que por decalque cultural e limitação religiosa a maioria das pessoas exteriores ao verdadeiro politeísmo, e ao Cultus Deorum Romanorum, em particular, não se apercebe que todos os Deuses são distintos, por via da percepção, raízes e atitudes. Eles não devem ser confundidos, embora possam ser sincretizados. O melhor a fazer enquanto não se tem certeza do nome de uma divindade, que provavelmente será um patrono para toda a vida, é venerá-la “por qualquer que seja o seu nome”, até que esse seja revelado de forma inconfundível. No caso referido, a ligação marítima não é o suficiente para identificar a Deusa como sendo Afrodite. Seria errado que terceiros concluíssem isso, porque poderia levar a um afastamento da jovem da sua patrona, caso não se tratasse de Afrodite. Vénus também tem muitas qualidades marítimas, sobretudo na Sicília, e em particular em Eryx. Se a jovem decidisse reverenciar as duas Deusas ao mesmo tempo poderia acabar desorientada, a confundir os preceitos da tradição Helénica com os da tradição Romana, e a sentir que a sua adorada Deusa a teria abandonado. O que não quer dizer que uma cultrix não deva ter mais do que um patrono do panteão Romano, mas essa não era a situação da jovem, que estava a viver um dilema envolvendo não só duas Deusas mas duas tradições e a prática pessoal que tivera até aí.

Através deste episódio é possível perceber que o conceito de apropriação, à semelhança de conversão, é estranho ao Cultus Deorum Romanorum, e às tradições politeístas, em geral; embora alguns movimentos religiosos eclécticos não se preocupem muito em relação à forma como somam seguidores. Há situações que requerem circunspecção e sensibilidade, porque não serve a ninguém, muito menos a cada um dos Deuses e às diversas tradições religiosas herdadas da Antiguidade, tentar manipular as pessoas, tomando uma divindade por outra, e dizendo que tanto faz o nome que lhes chamem. O objectivo não é “conquistar” um rebanho – ou um exército – de “fiéis”, que neste caso seria composto por cultores fictícios e mal informados, que poderiam nem sequer ser politeístas. Porque é frequente a verdadeira mentalidade religiosa de cada um revelar-se nos detalhes, na forma como as pessoas se expressam e pensam, mesmo quando tentam aprender mais sobre uma tradição politeísta proveniente da Antiguidade. Muitas querem de facto apropriar divindades e elementos religiosos, sem abdicarem daquilo em que sempre acreditaram (sobretudo, quando não acreditam em quaisquer divindades e as tomam por conceitos), numa manobra de estilo ou tentando rebelarem-se um pouco perante a família, os amigos, o seu público, e a comunidade. Outras sempre “orbitaram” em torno de uma religião que precisava ser retomada e que tiveram de aprender a praticar, para transcenderem de vez o fascínio pelos livros de Mitologia ou de História da Religião. E isto não é coisa que aconteça de um dia para o outro, nem que se ponha de parte como uma peça de roupa que deixou de ser útil e passou de moda.

 

Aprendendo a sermos cultores

Cupidos e Psique fazendo sacríficos.‬ Fresco do quarto estilo de Pompeia (Casa dos Bronzes, VII 4, 59). 60 × 53 cm. Inv. No. 20879. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional

Cupidos e Psique fazendo sacríficos.‬ Fresco do quarto estilo de Pompeia (Casa dos Bronzes, VII 4, 59). 60 × 53 cm. Inv. No. 20879. Nápoles, Museu Arqueológico Nacional

A escassez de manuais práticos acerca da religio Romana é normalmente apontada por aqueles que demonstram curiosidade pelas tradições religiosas Romanas como uma falha do Cultus Deorum Romanorum. Como se revelasse pouca iniciativa ou vontade dos cultores em propagarem a religio. Algumas pessoas, acostumadas a tradições e religiões derivadas do Ocultismo de raiz judaica e cristã podem pensar que se trata de um desses pactos secretos (mas não muito) que têm o estranho poder de atrair as multidões e os fracos de espírito sedentos de poder. De facto, o secretismo cobre todo tipo de lacunas, porque não importa se estamos a manter em segredo algum conhecimento precioso e intransmissível ou se nunca o soubemos, e se nada mais há a não ser brumas mentais e algum fogo-de-artifício ecléctico-simbolista, teosófico-templário, astrológico-científico, ióguico-iluminado, ou mitológico-literário. No caso da religio Romana, o que a protege e distingue não é o secretismo mas a simplicidade e, ao mesmo tempo, uma tal riqueza de conteúdo que chega a ser avassaladora. Se alguém tentar seduzir um público para a religio com base na promessa de uma transmissão de ensinamentos secretos e potentes, ou na obtenção de um determinado estatuto ou grau, então é óbvio que se trata de uma fraude. Claro que sempre existiram cultos subterrâneos, místicos, e de fusão, mas não se tratam do Cultus Deorum Romanorum.

Vou tentar desfiar um pouco esta enorme meada. Em qualquer livraria da vila de Glastonbury, em Somerset, onde coexistem cerca de uma centena de cultos e religiões, podemos estar certos de encontrar dezenas de manuais práticos, “how to books”, que asseguram ser possível, com uma boa dose de estilo, tornarmo-nos seguidores, devotos, e praticantes, de religiões e tradições mais ou menos antigas ou declaradamente modernas. Em qualquer livraria generalista e mesmo em alguns hipermercados, não é preciso procurar muito para encontrarmos guias práticos acerca de Wicca, Ásatrú, Druidismo, dicionários de Magia, Grimoires, Livros de Sombras, de São Cipriano, de orações, e vários livros introdutórios às religiões monoteístas Abraâmicas, ou politeístas maioritárias, como o Hinduísmo. Se quisermos um livro acerca da religião Romana é provável que nos indiquem a secção de História da Religião, ou nos mostrem livros de Mitologia concebidos para crianças e jovens. Porque existem apenas alguns livros dirigidos à prática actual de uma certa “religião Romana”, que nem sequer são credíveis. Apresentam versões adulteradas de práticas religiosas de inspiração Romana, corrompidas por aspectos derivados do Neoplatonismo e até da Franco-maçonaria, que segundo alguns as tornariam mais apelativas para as hordas de “seekers” que todos os dias erram pelos diversos ramos das espiritualidades modernas.

Convenhamos, a verdadeira – a única – religio Romana é uma pedra no sapato do Marketing espiritual. Não que sejam incompatíveis, mas o conflito de interesses é grande e de difícil resolução. Cada um poderá verificar por si que vários indivíduos têm tentado estar à altura do desafio, com pouco ou nenhum sucesso, e por vezes recorrendo a métodos ilícitos, desrespeitando o trabalho meritório dos cultores. Para entendermos o que poderia ser feito para alterar esta realidade é preciso sabermos quem são as pessoas que estariam habilitadas a escrever esses livros. Não basta serem académicos ou terem um mestrado em Divinity. É preciso que sejam cultores Romanos experientes, que pensem e vivam a religio com essa mentalidade e não com a mentalidade cristã, judaica, neopagã, oriental ou estritamente espiritual, enquanto usam uma toga. Nem é suficiente que sejam reconstrucionistas de um conceito de Romanitas, que alguns pretendem regenerar nos dias de hoje através da recriação de uma sociedade que copia as instituições políticas, económicas, militares, e também a sacra pública, da Roma Antiga.

Essas pessoas habilitadas existem, mas dificilmente iriam querer assinar um guia prático acerca da religio Romana dirigido ao comum dos “seekers” neo-pagãos, pseudo-budistas, meio-wiccan, pré-asatru, anti-cristãos, ou ex-católicos da actualidade. Antes de mais, porque também esses cultores e estudiosos mais experientes e qualificados tiveram o seu percurso, que foi muitas vezes idêntico ao de qualquer desses “seeker”, antes de chegarem à religio Romana. A forma como cada um – de nós, cultores – foi chamado para a religio é sempre pessoal e nem sequer tem de ser partilhada com os outros cultores, quanto mais com qualquer outra pessoa. Sabemos que a diferença da experiência da religio Romana começa na abordagem que, de preferência, e apesar de todos os estudos que devem ser lidos e desenvolvidos, não depende de um guia prático que amanhã poderá ser usado para acender fogueiras de Beltane. A transmissão de conteúdos e experiências entre cultores está a ser feita, de forma eficaz e gratuita, via fóruns, grupos e blogs, apesar de alguns atentados virtuais que resultam na dissolução súbita de grupos de facebook muito úteis e acessíveis, que rapidamente se reconstituem (procurem por Cultus Deorum).

Divina Mens, no entanto, não é o sítio mais indicado para aprender a prática da religio, passo a passo; primeiro, porque não é exclusivamente dedicado à religio Romana; segundo, porque tem uma dimensão pessoal, em jeito de comentário; e terceiro, porque não é suficientemente descritivo nesse sentido, uma vez que quem o escreve não tem ambições ao magistério nem ao sacerdócio. É possível ter aqui alguns vislumbres do que pode ser o quotidiano dos cultores, mas para uma aprendizagem sistemática existem outros blogs relativamente fiáveis, em inglês, italiano e espanhol, sendo que alguns são bilingues (visitem o blog Mea Pietas de Michael Anthony, o E Nos Lases Iuvate de Carmelo Cannarella, o Ad Maiora Vertite: Il blog sul Culto Romano, o Traditio Romana da Communitas Populi Romani, ou o Cultus Deorum de Costa Rica). Ainda não conheço um em Português, nem de Portugal nem do Brasil, e este não vai ser o primeiro. Apesar disso, espero conseguir deixar claro que a prática da religio Romana é muito exigente, porque há imenso a aprender, tem um tremendo lastro cerimonial e por isso requer um bom “músculo” ritual por parte dos cultores, devendo ser abordada com calma, humildade, e empenho. Por enquanto, tudo se torna mais difícil porque a maioria dos cultores não teve a oportunidade de aprender com os seus ancestrais, mas isso pode mudar nas próximas gerações, que serão livres para interiorizarem a religio de forma progressiva.

De maneira nenhuma o Cultus Deorum Romanorum se presta a abordagens levianas por parte de pessoas que não estão certas de que esta seja a sua herança e religião ou que pretendem ascender no contexto de uma comunidade que poderá dar-lhes uma oportunidade de protagonismo e lucro. A communitas começa a conhecer-se melhor e as pessoas ligam-se de forma cada vez mais estável, apesar de todos os “seekers” que os nossos olhares clínicos são capazes de identificar como sendo presenças apenas transitórias; uma vez que nada surpreende quem anda nestes percursos há duas ou mais décadas. Sabemos que amanhã a maioria será Wiccan ou voltará ao seu seio cristão, e que talvez não se fique por aí. Alguns irão completar um doutoramento qualquer e dar-se-ão por satisfeitos, sem que tenham alguma vez feito um único ritual com pés e cabeça. E isto é tão válido como qualquer outro percurso, mas nada tem de Romano. Entretanto, com a lua-cheia deste mês de Martius entrámos em pleno no novo Anno Sacro Romano e a assinalar este início de um novo ciclo, à semelhança do que tem vindo a acontecer por iniciativa da modesta Communitas Populi Romani, e não só em Roma, realizou-se esta manhã o Rito ad ANNA PERENNA – CPR MMDCCLXIX (11:30 all’entrata del Parco di Villa Glori su Piazzale del Parco della Rimembranza).

“Nós Romanos somos muito superiores em religio, e com isto quero dizer no Culto dos Deuses…” Cícero, De Natura Deorum 2.8

Uma Romana “vecchio stile”

“Anna du Pire como Granida”; Bartholomeus van der Helst, óleo sobre tela, 70 x 58,5 cm, 1660, Galeria Nacional de Praga (Národní galerie v Praze).

“Anna du Pire como Granida”; Bartholomeus van der Helst, óleo sobre tela, 70 x 58,5 cm, 1660, Galeria Nacional de Praga (Národní galerie v Praze).

A cada Anno, a Anna de sempre.

É em Março que começa o ano e este é o MMDCCLXIX. A coincidir com as calendas de Martius, a Matronalia, em honra de Juno Lucina, protectora das mulheres, das crianças, e dos nascimentos, dá o mote dos inícios. Nos idos, no dia 15, de acordo com a primeira lua do antigo calendário lunar Romano, celebra-se a divindade ancestral que está relacionada com o desdobramento do ano, no seu fim e início.

A festa descrita por Ovídio é alegre, porque assinala a chegada da Primavera. A plebe é convocada para os bosques, na Via Flaminia, perto do Tibre. Cada homem deve beber tantas taças de vinho quantos os anos que quer viver. Sem dúvida, um evento popular. Não se poupa nas teatralidades e declamações, acompanhadas de gestos ágeis. O vinho corre como o rio, a comida é boa e o ambiente convida à lascívia, durante as festividades. Porque, afinal, a divindade é das mais antigas do panteão e evoca o abandono da rigidez moral e o gozo da vida, em todos os aspectos mais imediatos.

Dumezil associou-a ao ciclo anual da lua e das estações, um ser duradouro mas em movimento, devido à passagem do tempo. Ao que tudo indica, é originária da Etrúria e é comparável à Deusa provedora indiana Anna Purna (Annapurna).

Anna Perenna, mulher madura que sustém o povo com pão, mesmo durante a escassez, é misteriosa e propicia os actos de magia. Assim comprovam os vestígios de rituais e defixiones achados na fonte com o seu nome, encontrada em 1999, durante as escavações para a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, na esquina da Piazza Euclide e Via G. Dal Monte, no bairro de Parioli, no norte de Roma. O estudo dos cultos a Anna Perenna, tanto na Itália Central, em Roma, como em Buscemi, na Sicília, permite um entendimento mais abrangente da relação dos cultores com a religio. Graças a Ela, o mágico encontra o religioso e os limites revelam-se aparentes.

Bons augúrios e um feliz 69! 2769.