A ocasião faz o Pagão

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

Mercúrio, relevo Romano, Corinium Museum, Cirencester.

É natural que alguém queira mudar de vida quando se sente realizado durante a participação em círculos, festivais, conferências, viagens, e retiros com ênfase na Espiritualidade. Parece fácil passar de participante a orientador ou ceder à tentação de levar os “trabalhos mágicos” mais a sério. Ter ideias e iniciativas nesse sentido pode fazer alguém voltar a querer saltar da cama, logo de madrugada. Se a vida profissional é frustrante, oferece pouca segurança ou compete com a vida pessoal e familiar, muitos chegam à conclusão que não têm nada a perder se tentarem enveredar por outros caminhos. Sobretudo, se no horizonte está a promessa – ou a miragem – de uma vida ao ar livre, itinerante, artística, sem horários rígidos nem trânsito a horas de ponta, em que as relações humanas no seio de uma comunidade diversa parecem estar livres da competitividade do mercado de trabalho, plenas de entreajuda e ideais mais elevados.

Associar a vida religiosa, a espiritualidade, e as finanças pessoais é um dos mais atraentes becos sem saída da New Age, dos Novos Movimentos Religiosos, e do Paganismo. É muito comum encontrar quem encare a sua sustentabilidade como sendo interdependente da uma prática Pagã. Ou seja, “Sou Pagão, logo tenho um ganha-pão.” Desde quando? Porque, o facto de ser Pagão não torna ninguém um elemento da casta espiritual de uma “tribo” urbana, que vai zelar para que nada lhe falte. Nos dias que correm, qualquer um pode ter qualquer título (que não equivale a nenhuma certificação) e um ofício que lhe corresponda. Portanto, a oferta de serviços espirituais da mais variada ordem é bem maior do que a procura. A certo ponto, as comunidades esgotam-se em si mesmas e sem recursos financeiros só lhes resta voltarem à economia da troca directa.

Uma figura popular da Witchcraft como a “EnchantressSorita d’Este, que há mais de dez anos tinha uma carreira em Londres, da qual abdicou para se fixar em Glastonbury e gerir a sua própria editora, Avalonia, só conseguiu equilibrar ‘a barca’ porque estava no sítio e no momento certos, podia investir e sabia o que fazer. Financeiramente, não terá sido a melhor escolha possível, mas até ela está surpreendida por ter encontrado um estilo de vida e negócio viáveis, que lhe trouxeram muitos outros benefícios. Não pense alguém que escrever acerca da sua tradição ou espiritualidade pessoal e fazer pequenas edições dos seus livros e dos livros dos outros membros de covens ou groves vai ser sustentável, quanto mais um modo de vida. A ideia é romântica e parece haver clientela certa para oráculos e agendas lunares, em Sintra ou de Carcavelos a Carnaxide, mas se não se acautelarem, o mais certo é ficarem no prejuízo.

Mesmo em relação aos nichos mais populares, como o Druidismo, é preciso ter em conta que são muito vulneráveis às modas dos Paganismos modernos. De um modo geral, o mercado “Céltico” entrou em decadência, há cerca de uma década. Basta notar que em 2015, como em anos precedentes, nem na Grã-Bretanha conseguiram organizar The Druid Network Conference e outros eventos, por falta de público disposto a pagar para assistir, embora estivessem previstas as participações de figuras mais ou menos proeminentes. São excepções os Druid Camps, organizados em vários locais, por Philip Carr-Gomm (OBOD), como não poderia deixar de ser. O facto é que no Paganismo moderno, como nas recuperadas religiões da Antiguidade, não há infra-estruturas nem uma tradição de auto-financiamento, principalmente na Europa. Muitos Pagãos queixam-se de não terem acesso a uma série de benesses que existem nas religiões maioritárias, mas a verdade é que há poucos Pagãos dispostos a pagar a outros Pagãos, seja por não poderem, por ainda acharem que uma actividade espiritual não pode ter nada a ver com dinheiro, ou por desconfiança em relação a qualquer tipo de liderança ou organização. Gato escaldado…

É por causa deste cenário que vamos assistindo a metamorfoses súbitas, um pouco por todo o lado. É o fenómeno “clean-up”, em que as pessoas despem as suas personas espiritualizadas, deixam de tentar promover-se com base em qualificações dúbias e numa série de títulos que foram coleccionando e que listam de forma exaustiva em todos os cartazes relativos aos seus workshops e retiros. Começam a procurar formação credenciada numa área concreta ou a investir em pequenos negócios livres do ruido associado ao tema das espiritualidades. Em muitos casos, passam mesmo a negar qualquer associação à sua “encarnação” anterior, temendo que esse histórico dificulte a integração no mainstream ou no âmbito académico. Em situações menos radicais, apenas mudam de fantasia, em busca de novos públicos, passando da Bruxaria ao Yoga ou do Druidismo à “Arquetipologia” num ápice. Há um aspecto muito descartável em todas estas manifestações de sobrevivência.

Afinal, só porque alguém decidiu encarar uma actividade que deve ser remunerada como se fosse uma missão, não quer dizer que a sua comunidade tivesse de lhe suprir as necessidades básicas. Muitas pessoas defendem e contribuem para causas, de forma mais ou menos pública, sem estarem à espera, sequer, de um agradecimento. Quem tem seriedade, não se promove através de uma causa, nem conta com isso para se sustentar, ainda que apoie e ofereça informação acerca de determinados serviços. Uma religião e um movimento não têm de ser diferentes de qualquer causa. Infelizmente, há muitas minorias sob o pára-sol do Paganismo que confundem os factores. Isto degenera em problemas financeiros e frustração em relação à própria comunidade, da qual era esperado reconhecimento, a vários níveis. O problema nestes casos é sempre uma grande dose de precipitação e o facto de não preverem o óbvio. Porque nos movimentos e nas modas há sempre muita gente interessada, que “talvez” vá a uma série de eventos, mas que raramente confirma “inscrições” virtuais através de emails e transferências bancárias.

A responsabilidade por esta situação é, em grande parte, de quem oferece os seus “serviços Pagãos”. Porquê desvalorizar a necessidade de retorno financeiro? Porquê mentir de forma deliberada, para parecer desapegado, ou sentir-se culpado porque uma actividade gerou o mais pequeno lucro? Este é um aspecto residual muito cristão, com o sabor franciscano que está tão em voga, mas que a maioria prefere associar a filosofias do Oriente. Por outro lado, não seria mais saudável, recompensador, e honesto, separar bem as águas, sem querer transformar a mais comum leitura oracular ou massagem de relaxamento numa missão em territórios “místicos”, ainda que possam ter uma dimensão espiritual? Claro que isto não tem nada a ver com o Holismo, que não dispensa qualificações de excelência, as quais não se obtêm a não ser através de estudos formais. Ora, ao preço a que está a Educação e tendo em conta a entrega que exige, não se pode esperar que alguém certificado trabalhe de graça ou por quantias simbólicas, que mal dão para o combustível. Sobretudo, quando os profissionais não estão desesperados e os clientes (consumidores) podem pagar o valor justo por bens e serviços.

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Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.

Desfazer equívocos a bem da sensibilidade

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

“La Nascita di Venere”, de Sandro Botticelli, (c. 1486). Tempera sobre tela. 172.5 cm × 278.9 cm (67.9 in × 109.6 in). Galleria degli Uffizi, Florença.

Os Romanos são frequentemente considerados precursores da apropriação cultural. A verdade é que as palavras que usamos não são explícitas nem descritivas do que aconteceu no âmbito religioso. Em arqueologia é mais comum empregar-se a palavra aculturação. Segundo José d’Encarnação, que apresentou a palestra “Altar romano dedicado a Arantius Tanginiciaecus”, no passado dia 19 de Março, no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, a aculturação religiosa terá sido “uma das mais sábias atitudes que a política organizativa dos Romanos soube adoptar”. Durante aquele evento foi apresentada uma ara de estética romana, proveniente da Beira Interior, dedicada a uma divindade indígena à qual foram atribuídos diversos epítetos e que é considerada um exemplo de “convivência pacífica entre Romanos e povos indígenas”.

Nem sempre a referida aculturação foi progressiva e em muitos casos nem sequer foi isso que aconteceu. Muito menos se tratou de apropriação. Longe de mim fazer aqui o que os ingleses chamariam cherry picking, em relação à palavra mais adequada. Não quero tentar relativizar a violência que terá resultado de decisões políticas dos Romanos da Antiguidade, mas é essencial entender que a expansão do Império Romano não teve uma motivação religiosa. A suposta apropriação de divindades pela religio Romana é uma incorrecção e denota desconhecimento acerca da natureza dos Deuses e do que seria considerado supertitio pela tradição Romana do Cultus Deorum. Antes de mais, é essencial usarmos a palavra correcta, que é incorporação, porque não implica a sugestão de que os Deuses possam ser comandados e subjectivizados.

Os Romanos sempre souberam como transferir o culto de uma divindade de outro povo e território para o seu panteão e os seus templos, com base na relação de respeito que estabeleceram com os Deuses e não como uma manifestação de conquista ou tentativa de humilhação do opositor. Eles nunca o fizeram por acharem que os seus Deuses não eram suficientes ou que a sua religião não era satisfatória, mas porque sempre foram flexíveis. Os Romanos reconheceram as divindades autóctones e quiseram assimilar muitas à sua tradição, sem proibir outras formas de culto. Um dos casos mais conhecidos é o da Deusa Juno de Veii, que através da cerimónia conhecida por evocatio foi convidada a proteger os Romanos antes da conquista daquela cidade. A Juno foi oferecido um culto e um templo em Roma que Ela aceitou ao favorecer os Romanos, passando desde então a ser uma das Deusas da tríade Capitolina mais conhecida, ao lado de Júpiter e Minerva. No entanto, sempre foi reconhecido o culto de Juno fora de Roma, sobretudo pelos Argives e o povo de Lavinium, que a reverenciava como Juno Sospita.

O evocatio realizado na religio Romana não pode ser entendido à luz das modernas “ciências Herméticas” e das religiões politeístas eclécticas que “trabalham” com os Deuses. Muito menos segundo o curioso conceito de “adaptabilidade cristã”, tantas vezes mencionado como sendo uma qualidade católica. A adaptabilidade cristã – católica – que regeu a era de perseguição formal dos cultores das religiões nacionais: que começou com a legislação contra os cultos antigos, a 350 da Era Comum; que foi reforçada no dia 23 de Novembro de 353, com o encerramento dos templos e a abolição dos sacrifícios sob pena de morte; e que culminou no Édito de Tessalónica, Cunctos Populos ou De Fide Catolica, a 27 de Fevereiro de 380, o qual estabeleceu a exclusividade do Cristianismo enquanto religião de um certo Império Romano, que nunca foi mais do que uma encenação de magnificência. A tal adaptabilidade que é demonstrada cada vez que alguém insiste em afirmar o desaparecimento das religiões autóctones, em particular as provenientes da Antiguidade Clássica. A mesma adaptabilidade que assegura que os católicos não se importam com as raízes e os elementos “pagãos” da sua religião, declarando que isso apenas a torna mais abrangente. Afinal, permite que os politeístas esqueçam os seus “deuses imaginários” e sejam cristianizados através da adoração de santos, o que é suposto servir-lhes de consolo.

Ora, à “luz” desta mentalidade e da ignorância total acerca da natureza dos Deuses, a que tão bem serve o moderno conceito de arquétipo usado no jargão das “novas psicologias”, não é possível que alguém entenda que os Deuses não são comutáveis nem apropriáveis. Para além do insulto implícito, esta falha de compreensão é uma manifestação cristã residual que causa problemas a muitos politeístas recém-assumidos e pouco familiarizados com a religio. Se no caso de Juno estamos perante uma Deusa itálica, o mesmo não acontece com Afrodite, e isto reporta-me à situação de uma jovem que terá encontrado o Cultus Deorum, aparentemente, graças àquela Deusa do Olimpo. Duas semanas antes, ela tivera uma “epifania” acerca de uma divindade que sempre estivera presente na sua vida. Quando contactou os cultores pela primeira vez o seu tom era o de quem tinha acabado de se apaixonar por alguém que mal conhecia. A sua abordagem foi o mais sincera possível, tendo admitido saber muito pouco acerca dos Deuses Romanos, mas mostrando grande interesse em clarificar aquilo que parecia tratar-se de um mal-entendido ou de uma partida internáutica de Mercúrio. Afinal, ela teria sido guiada para um grupo de apoio de cultores Romanos onde começou por procurar informações acerca de…Afrodite!

De acordo com o seu testemunho, a jovem tinha sempre “trabalhado” com uma Deusa que nunca se preocupara em nomear. Acumulara uma colecção de conchas e búzios do mar, a sua cor favorita era verde-marinho, adorava maçãs, e quanto mais pensava na misteriosa Deusa mais necessidade tinha de estar perto de rosas. O seu altar estava coberto de conchas e incluía uma imagem do quadro “O Nascimento de Vénus”, que encontrara esquecida numa gaveta, em casa dos seus avós. Estes e outros aspectos levavam-na a crer estar perante Afrodite. No entanto, encontrava-se a clarificar as suas dúvidas junto de cultores tradicionais da religio Romana, o que impunha que ela descobrisse de uma vez por todas a quem queria dirigir-se. Porque o panteão Romano não inclui Afrodite (e Vénus, com quem partilha atributos, é muito mais arcaica). Naquele caso era crucial que a jovem se familiarizasse com os elementos presentes na sua vida e discernisse entre as duas Deusas. Precisava de saber se estaria a tomar uma pela outra, como é comum acontecer quando alguém tem um conhecimento enciclopédico das divindades ou pensa que a sua diversidade é apenas aparente e se resume a uma questão de nomenclatura. Este é um aspecto residual do pensamento monoteísta que atrapalha muitos novos politeístas, à medida que aprendem o culto dos Deuses, nas diversas tradições, ou quando querem estabelecer um culto ecléctico a muitos Deuses em simultâneo, à revelia de quaisquer preceitos religiosos tradicionais.

Aquela jovem foi prontamente informada da existência do politeísmo Helénico e das respectivas comunidades e grupos de apoio, onde poderia encontrar toda a informação acerca de Afrodite que desejasse. Só ela iria conseguir decifrar se estaria a usar o nome errado para Vénus, uma vez que por decalque cultural e limitação religiosa a maioria das pessoas exteriores ao verdadeiro politeísmo, e ao Cultus Deorum Romanorum, em particular, não se apercebe que todos os Deuses são distintos, por via da percepção, raízes e atitudes. Eles não devem ser confundidos, embora possam ser sincretizados. O melhor a fazer enquanto não se tem certeza do nome de uma divindade, que provavelmente será um patrono para toda a vida, é venerá-la “por qualquer que seja o seu nome”, até que esse seja revelado de forma inconfundível. No caso referido, a ligação marítima não é o suficiente para identificar a Deusa como sendo Afrodite. Seria errado que terceiros concluíssem isso, porque poderia levar a um afastamento da jovem da sua patrona, caso não se tratasse de Afrodite. Vénus também tem muitas qualidades marítimas, sobretudo na Sicília, e em particular em Eryx. Se a jovem decidisse reverenciar as duas Deusas ao mesmo tempo poderia acabar desorientada, a confundir os preceitos da tradição Helénica com os da tradição Romana, e a sentir que a sua adorada Deusa a teria abandonado. O que não quer dizer que uma cultrix não deva ter mais do que um patrono do panteão Romano, mas essa não era a situação da jovem, que estava a viver um dilema envolvendo não só duas Deusas mas duas tradições e a prática pessoal que tivera até aí.

Através deste episódio é possível perceber que o conceito de apropriação, à semelhança de conversão, é estranho ao Cultus Deorum Romanorum, e às tradições politeístas, em geral; embora alguns movimentos religiosos eclécticos não se preocupem muito em relação à forma como somam seguidores. Há situações que requerem circunspecção e sensibilidade, porque não serve a ninguém, muito menos a cada um dos Deuses e às diversas tradições religiosas herdadas da Antiguidade, tentar manipular as pessoas, tomando uma divindade por outra, e dizendo que tanto faz o nome que lhes chamem. O objectivo não é “conquistar” um rebanho – ou um exército – de “fiéis”, que neste caso seria composto por cultores fictícios e mal informados, que poderiam nem sequer ser politeístas. Porque é frequente a verdadeira mentalidade religiosa de cada um revelar-se nos detalhes, na forma como as pessoas se expressam e pensam, mesmo quando tentam aprender mais sobre uma tradição politeísta proveniente da Antiguidade. Muitas querem de facto apropriar divindades e elementos religiosos, sem abdicarem daquilo em que sempre acreditaram (sobretudo, quando não acreditam em quaisquer divindades e as tomam por conceitos), numa manobra de estilo ou tentando rebelarem-se um pouco perante a família, os amigos, o seu público, e a comunidade. Outras sempre “orbitaram” em torno de uma religião que precisava ser retomada e que tiveram de aprender a praticar, para transcenderem de vez o fascínio pelos livros de Mitologia ou de História da Religião. E isto não é coisa que aconteça de um dia para o outro, nem que se ponha de parte como uma peça de roupa que deixou de ser útil e passou de moda.

 

Vermelho, quente, e sagrado

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak and The Redvolution © Todos os direitos reservados)

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak © Todos os direitos reservados)

Quando o velho Departamento de Vendas dá o ar de sua graça, abuso é eufemismo.

Sem floreados, nas palavras de Sera Beak, que traduzi da forma mais leal que sei:

“Sacerdotisa, é isto:

Hoje recebi o que recebo várias vezes ao dia: um email a solicitar o meu apoio para promover o programa de auto-ajuda/espiritualidade/empoderamento de outras mulheres. Apesar de eu estar familiarizada com estes emails, este em particular gerou uma série de sentimentos.

O email foi escrito por uma “gestora de programa”, a convidar-me para me tornar uma afiliada (fazer dinheiro) promovendo junto da minha audiência um iminente Programa de Sacerdotisa virtual oferecido por duas mulheres que eu não conheço, que não se preocuparam em escrever-me uma nota pessoal, apresentando-me respeitosamente os seus corações, as suas almas e as suas missões.

O meu coração vermelho, quente, e sagrado contraiu-se de dor e uma feroz energia feminina aflorou do âmago da terra e serpenteou em torno de mim com um sibilo. A mensagem que segue é uma tentativa de traduzir este sibilo:

Oh, Fuck No! Hoje em dia, o patriarcado não só está a usar um disfarce de deusa, como conseguiu apoderar-se do arquétipo da sacerdotisa. Espeta um molho de penas no cabelo, faz uns rituais à luz a lua, aprende uma mão-cheia de artes femininas, pratica a quantidade apropriada de auto-reflexão, liberação sexual, trabalho de sombra e yoga asanas, não te esqueças de pagar a contribuição, e BAM – também tu podes ser iniciada como sacerdotisa (em um ano ou menos) e seguir em frente e prosperar como a mulher magicamente empoderada que estás a ser manipulada a tornar-te!

(suspiro)

Como já reparámos, “Sacerdotisa” transformou-se na mais recente tendência em títulos espirituais da moda espiritual. O que se esticou até “Yogini” voo para “Dakini” abriu as pernas à “Tantrika” e agora dança em torno de uma fogueira como “Sacerdotisa” (ainda melhor se listar tudo aquilo na sua tagline – juntando uma generosa porção de “Xamã”).

Ora, de todo o coração defendo e celebro o facto de cada mulher transportar o arquétipo da sacerdotisa, e eu não quero mais nada a não ser que as mulheres reclamem o seu direito natural de legitimar este percurso orgânico de Estarem ao Serviço, mas infelizmente, eu tenho encontrado poucas mulheres que estão genuinamente a encarnar este arquétipo da forma como o planeta tão desesperadamente precisa que ele seja encarnado neste momento.

É interessante que as mais autênticas sacerdotisas que tive o privilégio de conhecer nem sequer se auto-intitulem “sacerdotisas”. Não há necessidade de um “título” ou de um disfarce, uma marca ou uma campanha, uma sessão fotográfica, um vídeo, ou um website glamoroso. Não há necessidade de te atraírem para o seu campo ou para o teu Self.

Elas simplesmente são Quem Elas São e Oferecem Aquilo que Oferecem – e se tu não consegues sentir o Fogo Sagrado de onde elas vêm, do qual elas cuidam e que ajudam a reacender nos outros, então és tu que ficas a perder.

Todos sabemos que há verdadeiras, tremendas, ancestrais, eruptivas Iniciações de Sacerdotisas a decorrer neste preciso momento, por todo o planeta, e eu sou eternamente grata pelas corajosas (sobretudo) encobertas sacerdotisas que impulsionam estes intrépidos movimentos femininos. E, se elas estiverem a ser guiadas para-por nada nem ninguém excepto o único Gestor de Programa que precisam, A Grande Ela – eu fico radiante quando estas autênticas sacerdotisas partilham as suas ofertas publicamente (via websites, fotos, vídeos, programas, etc.), para que possamos encontrá-las, para que sintamos o que é ser-nos oferecido algo vindo do feminino, sem cordelinhos subtis amarrados, e para que seja possível dar-lhes o reconhecimento devido, o respeito E o apoio financeiro que merecem.

Mas, o email que eu recebi hoje lembrou-me que não importa as nossas melhores intenções, não importa se estamos mesmo a ser guiadas para reclamar este título publicamente e iniciarmos outras mulheres na sua própria memória do autêntico poder feminino – nós não podemos fazê-lo se estivermos a usar mal este atraente titulo para inflar a identidade ou a usar o poder que vem com o papel de “sacerdotisa” para atingir objectivos egocêntricos.

E representar e vender esta energia arquetípica sagrada da forma como este email (e a página de lançamento do website que o acompanhava) demonstrou, deixou-me ainda mais ciente de que nunca conseguiremos ser sacerdotisas para nós mesmas ou para outros se estivermos conscientemente a submetermo-nos – ou inconscientemente a agarrarmo-nos – às astutas garras do furtivo consumismo espiritual, do marketing pernicioso, e a um subtil sistema sintético que apesar de soar e parecer certo à superfície, está na verdade a vampirizar o nosso poder feminino e a perpetuar a nossa escravização.

Agora, para concluir o meu desafogo, eu vou inapropriadamente “acrescentar” uma das minhas citações favoritas acerca de sacerdotisas que vem do vibrante romance de Elizabeth Cunningham, “A Paixão de Maria Madalena”, na voz de Madalena:

“Eu não sei o que há com as sacerdotisas. Podes sempre dizer. Ou eu pelo menos posso…eu reconhecia uma mulher em autoridade quando via uma. A maioria das mulheres, uma vez por outra, preocupam-se em alguma medida em agradar aos homens ou às pessoas em geral [ou em tentarem “ser” alguém ou “fazer” alguma coisa que lhes traga fama, dinheiro, vantagens profissionais, atenção social ou reconhecimento espiritual]. As sacerdotisas não. O jogo delas é maior. Os seus olhos demonstram-no.”

 

Senhoras,

Nós precisamos de jogar um JOGO MAIOR

(do que aquele com o qual o mercado de auto-ajuda/espiritualidade está a tentar-nos).

E,

Atrevam-se a Demonstrá-Lo.

(não a dizê-Lo.)

Por outras palavras, nós precisamos fazer aquilo que cada célula dos nossos belos corpos deseja fazer com este retornado arquétipo da sacerdotisa:

Honrem-No,

Abracem-No,

Libertem-No,

E protejam-No como uma mãe ursa protege as crias,

E uma mulher selvagem protege o Sagrado.

BAM.”

 

O original, em inglês, foi publicado a 10 de Abril de 2015, no blog Rouge Awakening .

Reclamando a sacerdotisa

GREECE ANCIENT GODS

Uma sacerdotisa segura um ramo de oliveira enquanto participa nas cerimónias em honra de Zeus, no Templo de Zeus em Atenas. (Fotografia: Petros Giannakouris / The Associated Press Archives)

“Uma sacerdotisa é uma mulher que oficia rituais. Uma sacerdotisa oficia ritos sagrados e serve as necessidades espirituais da comunidade.”

Esta é uma definição de sacerdotisa. Pode parecer demasiado resumida ou mesmo incompleta, por não contemplar uma dimensão interior de quem é, ou pelo menos sente ser, no mais íntimo de si, uma sacerdotisa. A objectividade não permite interpretações ambíguas, deixando claro que ter uma função sacerdotal requer uma acção e não apenas o reconhecimento de uma vocação ou a experiência do arquétipo da Sacerdotisa. O mesmo é válido para qualquer outro ofício. Com a necessidade de desempenhar tarefas surge a possibilidade de errar. Na sociedade que não perdoa o erro é muito comum encontrarmos pessoas que se sentem sacerdotisas mas que não são, por puro medo de errar.

Devido à erosão da autoconfiança feminina, durante milénios, e à certeza de serem alvos preferenciais do patriarcado, ainda vigente, muitas potenciais sacerdotisas escolhem não manifestar a sua natureza. A consciência da responsabilidade, associada a vários obstáculos externos, que historicamente têm sido impostos às mulheres, remete muitas vocações para o plano dos desejos, dos chamamentos a que poucas atendem. A maioria não saberia que passos dar no sentido da concretização e as que arriscam tentar podem ser confrontadas com competitividade feroz por parte de outras mulheres, que operam com base no ego. Este é o resultado mais evidente de séculos de medo, opressão e violência, que provocaram fragmentação e resultaram no isolamento e na desconfiança entre as mulheres. A maioria acabou por confiar mais nos seus opressores e detractores do que em si mesma e entregou-lhes a sua autoridade espiritual e os seus filhos.

Outro aspecto que inibe muitas pessoas, sem diferença de sexo e género, é o aparente conflito entre as funções de orientação moral e espiritual e as posições de poder. As mulheres, em particular, desde a Antiguidade foram destituídas das suas funções de mediadoras espirituais no seio das suas comunidades. Ficaram impedidas de ascenderem nas hierarquias religiosas imperantes, acabando restringidas aos cultos domésticos ou estritamente femininos, que exigiam votos de castidade. No presente, muitas mulheres acreditam que só é possível ascenderem a determinados graus sacerdotais por via das instituições religiosas cristãs ou em alguns sítios de Poder – por vezes, nebulosos –, onde a união em torno do Sagrado Feminino permite a realização regular e descomplexada de rituais públicos de várias tradições.

A ideia de sacerdotisa aproxima-se muitas vezes da ideia de fada ou de personagens de romances protagonizados por mulheres feéricas, poderosas, ou implacáveis, que terão existido num local entre mundos, velado, restrito, ou simplesmente metafórico, mas com tremendo impacto no mundo exterior e nos fados dos outros mortais. Por outro lado, verifica-se uma vulgarização do uso de títulos sacerdotais dissociados das respectivas funções, sem que as auto-intituladas e até as ordenadas se revelem figuras sacerdotais, de facto. As sacerdotisas, como os gurus, tornaram-se meros clichés. Em muitos contextos é repetido que todas somos sacerdotisas, e que todos somos professores, mas a verdade é que não somos.

Existem requisitos indispensáveis para alguém poder exercer bem determinadas funções, forças de expressão à parte. Não basta acordar a sentir-se sacerdotisa, recordar alegadas vidas passadas em que terá sido sacerdotisa, acumular estudos universitários e iniciações, nem cumprir um percurso que culmina numa ordenação formal, que confere credibilidade, reconhecimento público, e poder. Esses são apenas estágios em processos longos que não oferecem quaisquer garantias de sucesso. Não basta experimentar o manto sacerdotal, para ver como lhe fica – e quanto pode render-lhe –, pensando que é possível mergulhar apenas o dedinho do pé no glamoroso lago das sacerdotisas, sem correr o risco de cair à água, ou ao pântano, antes de saber nadar ou pelo menos manter-se à tona.

As verdadeiras “Mulheres da Liberdade”, “Senhoras da Magia”, “Sacerdotisas do Poder” sabem que as suas funções não se coadunam com sentimentos de superioridade, em relação aos machos ou às outras fêmeas de qualquer espécie, muito menos à ostentação de títulos, graus, ou ordenações. Elas sabem que nem sequer se trata de ter a intenção, ou a pretensão, de dinamizar eventos, entreter audiências, ou ensinar alguém. Elas também sabem que o essencial é serem responsáveis pelas suas acções, aconteça o que acontecer, no exercício das suas funções. Note-se a ênfase na componente prática.

Quem não quiser, não for requisitada, ou não estiver preparada para oficiar cerimónias, de acordo com a sua tradição religiosa ou de modo assumidamente improvisado, pode participar de círculos de partilha, escrever textos acerca deste e de outros assuntos, ou simplesmente tecer um espaço no qual o sagrado possa manifestar-se. Afinal, há muito trabalho que deve ser feito em silêncio, sem depender do rufar dos tambores, da dança extática, e dos rituais públicos.

O maior desafio de qualquer pessoa que se dirige a uma figura sacerdotal, com o intuito de aprender os preceitos de uma tradição ou de recorrer ao auxílio de um mediador que facilite a sua conexão com a dimensão divina, de um modo geral, é assumir a sua responsabilidade no que advém dessa escolha e da forma como usa as informações que lhe são transmitidas. Os maiores desafios para um mediador, que pode ser ou não ser um mentor moral para alguém, tanto é o de zelar pela sua tradição como o de não reter informações que tem o dever de transmitir, na tentativa de forjar um estatuto que não possui, gerando uma aura de superioridade e mistério.

Não menos importante em qualquer mentor é a capacidade de reconhecer quando certa pessoa se revela inepta para o percurso a que se propôs e quando precisa de ser redireccionada para outro percurso ou para outro mentor. O que não falta são pessoas dispostas a manterem outras na sua sombra, apenas para alimentarem o seu ego e obterem dividendos. Estas situações podem tomar contornos criminais e justificar o recurso a medidas que assegurem a integridade física e anímica de quem procura indivíduos que se revelam impostores ou, na melhor das hipóteses, que estão pouco conscientes do mal que a sua falta de preparação pode provocar a pessoas imaturas, crédulas, intimidadas, ou desesperadas.

O que pode surpreender é que o oposto aconteça com mais frequência. É cada vez mais real a necessidade de proteger figuras sacerdotais independentes, mediadores psíquicos, mentores de minorias religiosas, e todas as pessoas honestas que prestem serviços oraculares, facilitem meditações orientadas, curas energéticas, rituais públicos, ou cursos introdutórios a inúmeras disciplinas do âmbito do Oculto, ainda que de forma gratuita. Estes profissionais estão particularmente expostos a juízos de valor, acusações de burla, difamação e injúria, por parte de concorrentes gananciosos e, sobretudo, de clientes e discípulos insatisfeitos. Muitos preferem descredibilizar e arrasar a reputação de alguém, em vez de assumirem que as suas escolhas foram feitas de livre e espontânea vontade.

Acontece que o requisito essencial para alguém realizar funções sacerdotais é exactamente a qualidade que falta a grande parte das pessoas que procuram serviços ou mentores que os orientem na sua vida pessoal ou no caminho para o almejado sucesso, no inescrupuloso mercado das espiritualidades e mais além. A principal causa para a existência de uma cultura da desresponsabilização, face às consequências de escolhas pessoais, pode bem ser o desrespeito pela autoridade espiritual de cada um, que começa em tenra idade. As consagrações às diversas divindades e religiões, durante a infância, é um abuso que carece reconhecimento público e jurídico.

Existe uma diferença crucial entre introduzir uma criança às práticas religiosas, tradições familiares, usos e costumes da sua e de outras sociedades, e em definir um percurso religioso ou não-religioso que lhe é imposto como uma doutrina. Desde a infância, a maioria ou é ensinada a desconsiderar por completo qualquer prática religiosa ou, ao contrário, a não questionar, a atender com assiduidade, e até a assumir papéis em ritos religiosos inibidores, realizados por adultos estranhos ao seu círculo afectivo, que não têm qualquer formação específica para interagirem com crianças, durante o desempenho das suas funções sacerdotais. Crescem vulneráveis a situações que propiciam o abuso da sua autoridade espiritual e abdicam dela, sem que cheguem sequer a ter plena consciência da sua existência e do papel que ela pode ter na protecção contra abusos de outra ordem, ao longo de toda a vida.

Sem uma prática pessoal sólida, que promova o autoconhecimento, a preservação da integridade espiritual, a liberdade religiosa de cada indivíduo, e o serviço ponderado a favor de uma comunidade, não é possível assumir funções sacerdotais. Quando alguém assume posturas degradantes, quer face a outras figuras sacerdotais, quer em relação a uma ou mais divindades, aceita ser subjugado, e atribui a outrem a responsabilidade pelas consequências dos seus actos, não pode exercer aquelas funções. Estamos perante uma pessoa desequilibrada, capaz de ferir a si e aos outros, com base numa convicção, em nome de interesses pessoais, de um suposto poder supremo ou força irresistível, perante a qual é servil. Infelizmente, ainda é comum encontrar quem pense que qualquer filosofia que ensine as pessoas a pensarem por si é perigosa para o próprio indivíduo, ameaça as hierarquias e aqueles que temem as suas sombras.

 

Quem brinca com o fogo

A Veiled Vestal Virgin (detail) 1847, Raffaelle Monti 1

“A Virgem Vestal Velada” (detalhe), 1847, Raffaelle Monti.

 

Contemplei durante algum tempo, antes de incluir este comentário – agora, em bom português –  em Divina Mens. Penso que o caso em questão é demasiado caricato para ser ignorado. Desde o início, um clássico. Não quero fazer dele um alerta, mas um exemplo. Corro o risco de propagar ainda mais uma ideia pobre, mas apenas mais um pouco, porque o público deste espaço é um conjunto muito selecto de leitores, não diria “iluminados” mas inteligentes, cultos, informados e espiritualmente ricos (diz quem escreve e se inclui).

Decidi partir do pressuposto de que “Por muitos caminhos podemos chegar a Roma”, que é a metáfora para os percursos – muitas vezes sinuosos – que podem levar o indivíduo a uma existência um pouco mais esclarecida e, até, a qualquer religião e tradição legítima, que pelo menos não tenha origem na ignorância – e na ganância – de alguém ávido de protagonismo. Assim, em vez de tentar contrariar a máxima “Toda a publicidade é boa publicidade”, com que me deparei, optei por colocá-la ao serviço dos Deuses e dos aspirantes a Cultores, publicando uma análise à nova “tradição”.

Como é habitual com ideias e idiotas que não valem uma lasca de um chifre de Pan, apenas tomamos conhecimento do fenómeno porque a figura central acedeu aos seus contactos nos média para promover o seu projecto. Sem revelar as suas fontes históricas, conta apenas com a sua condição de “classicista” para conferir credibilidade às suas afirmações e reivindicações.

A criadora de New Vesta tem a presunção de achar que a sua prática espiritual privada, muito recente, constitui à partida não só uma tradição, mas uma nova religião. À semelhança do que acontece com a plataforma Nova Roma, que apesar de tudo tem um espectro mais lato e um nível muito superior a esta invenção de trazer por casa, cozinhada por Debra Macleod, a palavra new/nova indica que estamos perante um projecto de paganismo com sabor romano, criado de raiz. Nada mais deve à Religio Romana do que alguma inspiração, muito livre, para certas práticas e para um conto escrito, talvez, à luz da vela. É esta narrativa, que a autora afirma ser a memória de um acontecimento inusitado, ocorrido no passado, que está na base da referência a uma alegada tradição, da qual ela seria a derradeira guardiã.

Contos, cada um conta os que quer, mas foi esta declaração, o carácter comercial, e a insistência de Macleod em propagar a sua narrativa como se de uma verdade histórica se tratasse, que justificou alguns comentários muito pertinentes e bem-humorados dos Cultores mais atentos, incluindo daqueles que têm sólida formação e percursos académicos, com artigos publicados, nas áreas de Religião e Estudos Clássicos.

Bom, mas como em tudo há pontos positivos, pelo menos não parece estarmos perante um predador sexual disfarçado de líder espiritual, de qualquer variedade, e talvez Debra consiga guiar algumas mulheres e famílias no sentido de uma prática inofensiva, que poderá ser satisfatória para algumas pessoas.

Macleod deu uma entrevista reveladora, em que até a forma como aceitou as perguntas denota desconhecimento. Uma das plataformas que difundiram o projecto desta senhora foi o blog da comunidade Humanistic Paganism, que criou uma coluna onde dá voz aos seus membros e a amigos que “pensam como eles” (like-minded friends). Dando ampla expressão aos seus pontos-de-vista, e sem avaliar os seus telhados de vidro, a entrevistada não foi comedida nas críticas:

“HP: O que chama à religião que pratica?

DM: New Vesta. É uma reintrodução e renovação do antigo culto/tradição Romano(a) de Vesta, deusa da casa e fogo do lar.

HP: Se chama a si mesma “Pagã”, o que na sua religião é “Pagão”? Porque escolhe chamar-se “Pagã”? Se não chama “Pagã” a si mesma, porque não o faz?

DM: Eu chamo a mim mesma pagã. Para mim, é um termo simples e identificável, amplamente reconhecido que distingue a minha visão do mundo de uma visão do mundo Abraâmica ou monoteísta.

HP: Que outros termos (i.e., humanista, naturalista, ateísta, panteísta, bruxa, druida, xamã, etc.) usa para descrever a sua religião e porquê?

DM: Eu penso que o termo paganismo humanista ou paganismo secular são óptimos para descrever a tradição New Vesta.

(…)

HP: Como fez a sua transição para a sua actual religião? Conte-nos um pouco acerca da sua jornada de fé.

DM: Eu vou tornar curta uma história muito, muito longa: Quando tinha 20 anos, viajei para Roma onde encontrei uma mulher que dizia ser uma sacerdotisa Vestal nas ruinas do antigo Templo de Vesta. Ela estava a arder uma vela e, depois de falarmos um pouco, ela deu-ma e pediu-me para a acender em todos os 1ª de Março (a data tradicional em que os antigos renovavam o fogo do templo de Vesta).

Quando voltei ao Canadá, embrulhei a vela e a memória enquanto continuei com a minha vida, indo para a universidade onde estudei os clássicos, e depois para a minha carreira de advogada. Eu progredi para o início da minha própria prática de meditação para casais. Vesta era totalmente irrelevante para mim naquele tempo.

Embora eu tivesse – e ainda tenha – um marido e crianças maravilhosos, eu às vezes senti que o meu casamento e a minha vida familiar não estavam à altura das minhas expectativas para a minha vida. A minha carreira – que me levava a estar sentada numa sala com casais miseráveis e quezilentos todos os dias também não ajudava. Foi um tempo em que dei por mim, pela primeira vez na minha vida, a pensar realmente na tradição de Vesta e em como durante tantos séculos trouxera significado, solidariedade e felicidade aos casamentos e vida familiar.

Então eu desenterrei a velha vela Vestal da cave da casa dos meus pais (onde tinha estado numa antiga mochila durante mais de duas décadas) e reacendi-a no 1º de Março, 2013. Já a reacendi três vezes – 2013, 2014 e 2015. Eu costumo usar a cera derretida para criar novas velas Vestal que dou às mulheres que desejam arder uma vela Vestal nas suas casas.”

A entrevista desenrola-se em torno do que Debra é, daquilo em que acredita, do que gosta e reprova, sobretudo em relação a práticas religiosas e comportamentos de outros Pagãos. Ou seja, tudo o que é subjectivo e, portanto, do foro pessoal, da sua sacra privata, e da tradição que ela quer instituir da porta de sua casa para dentro e entre as seguidoras que compram os seus livros, que frequentam as suas sessões, e a quem distribui – ou vende – velas que contêm um gotinha da cera de abelha da velhíssima vela romana que lhe foi dada na Cidade Eterna. Nada que importe a quem está interessado em aprender e praticar a Religio Romana e a legítima Traditio de Numa Pompilus ou qualquer tradição familiar ancestral. Debra conclui, no mesmo tom de censura que está presente em várias respostas, com o seguinte comentário acerca dos Pagãos, que talvez seja a denominação que ela reserva, também, aos Cultores:

“Eu penso que os Pagãos tendem a ser mais educados do que as comunidades de outras religiões e, apesar de isso ser óptimo, eu também penso que muitos Pagãos estão excessivamente ávidos de “exibir” uns aos outros o seu conhecimento acerca das suas e de outras tradições. É óptimo contribuir, clarificar questões; contudo, isto é frequentemente feito com um aberrante grau de arrogância. Eu esperava mais de uma multidão relativamente iluminada. Obrigada!”

Depois de ler apenas a introdução escrita no website de New Vesta, não é difícil perceber porque pessoas como Debra Macleod B.A., LL.B. se sentem decepcionadas com quem demonstra o seu conhecimento acerca das suas e de outras tradições, quer se identifique ou não como Pagão:

“A tradição de Vesta iluminou vidas e protegeu lares durante séculos

Até que foi banida & criminalizada durante a ascensão do Cristianismo

Mas a chama continuou a arder em segredo

Sustentada através dos tempos pelos devotados que a protegeram

Agora, esta tradição regressou para iluminar as casas modernas

Para dar um foco que fortaleça relacionamentos & solidariedade familiar

E para iluminar as vidas de todos os que a seguem”

Ou seja, a todos os que seguem Debra Macleod e consomem o seu produto espiritualizado.

Arrebatador, talvez, para as centenas que gostam da página New Vesta no facebook. No entanto, de acordo com uma verdadeira tradição familiar, da qual infelizmente resta apenas a oralidade – mas que é suportada pela História Nova, de Zosimus –, a Chama de Vesta foi extinta por Teodósio, o que resultou numa defixio dirigida à sobrinha do Imperador, Serena, e a toda a sua descendência, pela última das sacerdotisas de Vesta.

“O New fez-me parar – como em new age.

Vesta é intemporal e eterna. O “new” é palerma.

Para ela é uma ferramenta de marketing. Indicar o que não bate certo educa aqueles que podem não saber detalhes; afinal ela está a viver à conta de pessoas crédulas que não conhecem melhor. Infelizmente, ela espalha a sua BS [bullshit]. Talvez devêssemos comentar nos sites dela, esclarecê-la com delicadeza.

Esta é a Vestal que agora afirma ser a guardiã da Chama de Roma; talvez ela devesse estudar um pouco:

“Debra Macleod, B.A., LL.B. is a couples and family mediator, a top-selling marriage author-expert and a popular resource for major media in North America. She is the leading proponent of the New Vesta tradition and order. Her New Vesta book series and Add a Spark women’s seminars “spread the flame” into modern lives and homes.”

O blog dela.

Pergunto-me se ela estará casada e com filhos. O meu senso diz-me que ela não faz ideia de que existem pessoas, sacerdotisas de Vesta sérias que fizeram votos de castidade (pode até haver uma virgem algures), uma vez que ela não parece saber muito mais do que o rudimentar conhecimento ecléctico de Vesta. Provavelmente tem alguma coisa a ver com:

“On March 1st of 1989, a woman who claimed to be the last in this long line of Vestals visited the ruins of the Temple of Vesta in the Roman Forum. She carried a hand-crafted, aged beeswax candle that she said contained the Flame of Vesta. In an attempt to keep the “old ways” alive, she gifted this to a fellow visitor named Debra May Macleod.”

Uma Vela de Cera de Abelha que contém a Chama de Vesta. O meu “senso” raramente está errado. Aqui está um texto que ela escreveu no huff post que fala mais de Cristianismo do que de Vesta, a avó dela era uma católica devota e foi assim que ela recebeu a sua iniciação ao Mundo Romano de Vesta e por isso agora eu entendo porque é tão estranho.

Aqui está outra biografia completa que demonstra que ela nem suspeita que uma Sacerdotisa de Vesta tem de fazer um voto de Castidade – uma vez que ela é casada. Talvez como Terapeuta Conjugal (com uma graduação em Leis) a patrona dela seja a deusa errada mas claro que de uma perspectiva Cristã Vénus é pouco mais do que uma desavergonhada. Não a casta Mater Venus cujas indiscrições são expressões de emoções da paixão e do amor profundo que demonstram que nem os deuses conseguem conquistar as forças da natureza, as quais eles mesmos são.

Eu li três contextos diferentes, um que diz que ela vem de um passado Pentecostal rural [redneck], outro que diz um passado Católico, outro diz ateísta, nunca mencionados em simultâneo. Um diz que ela é advogada outro diz que ela é uma classicista, – novamente nunca mencionados em conjunto.

O cúmulo é isto, e eu ainda estou a engasgar-me ao descobrir finalmente o nome daquela misteriosa mulher:

“In March of 1989, Debra – then only twenty years old – was travelling in Europe and found herself drawn to the ruins of the ancient Temple of Vesta in the Roman Forum. It was here that she would meet one of the most remarkable women she would ever encounter in her life – the last living Vestal priestess whose first name was Camilla. The Vestal passed on to Debra, a “sworn atheist”, not just the spirit and teachings of the Vesta tradition, but also the sacred Flame of Vesta, now contained in an aged beeswax candle.”

Grande classicista, o nome da última sacerdotisa Vestal vivente é Camilla. Que conveniente.

Esta senhora está errada e é extremamente ignorante e não merece mais o nosso tempo.”

Jenna Rose Brent

“Parece que não é à própria chama que ela dá importância mas a esta vela que lhe foi dada e que ela pode ou não ainda possuir, mas com a qual eu sei que ela acende o stock de velas vestal, como que para abençoá-las e espalhar a chama por outros lares. Definitivamente um conceito new age, contudo no meu próprio sacellum eu não mantenho a lucerna de óleo acesa a não ser durante os rituais. Mas lá está…eu não sou um conselheiro matrimonial com um passado BDMS [bondage, dominance, masochism, sadism] a fingir ser a “Vestalis Maxima” por isso…”

Mikey Frenzie

 

Por muitos caminhos podemos chegar a Roma

Samuel Palmer The Coloseum, Rome 2

“The Colosseum of Rome” (Anfiteatro Flávio); Samuel Palmer (1805-1881). Black chalk with pen and black ink on paper. 2 11/16 x 3 1/8 inches (68 x 79 mm) The Joseph F. McCrindle Collection. (2009.235) The Morgan Library & Museum

 

Entre pessoas que pensam o Divino do ponto de vista daquilo que para si é credível ou inverosímil, é comum encontrarmos estudiosos, terapeutas e artistas que apenas reconhecem as divindades através dos símbolos, qualidades, nomes, mitos, e da antropomorfia que lhes é atribuída. Fazendo uso desse património, não contemplam as religiões tradicionais que reconhecem o númen de uma deusa ou os númenes de múltiplos deuses. Essa postura e os argumentos usados para os limitar ao plano mental, o qual muitas pessoas não conseguem ou não se permitem transcender, abre um precedente que muitas vezes degenera em apropriação cultural daqueles símbolos. Não só por indivíduos exteriores ao contexto étnico das divindades e religiões, mas também por aqueles que, de forma involuntária ou deliberada, abusam as suas próprias heranças culturais e desconsideram as religiões tradicionais dos grupos étnicos de que descendem. Para compreender este processo é essencial saber o que é a apropriação cultural, de um modo geral, e entender o propósito dos símbolos no contexto religioso.

Quando tocamos no assunto apropriação cultural, não é raro sermos desencorajados com os habituais revirar de olhos e zombarias. No mínimo, alguém dirá que estamos a ser demasiado zelosos e a espartilhar o mundo em grupos, segundo uma visão dualista que opõe o “Eu” ao “Outro”, sem atender ao facto de todas as culturas procurarem inspiração umas nas outras. Muitos Pagãos queixam-se da “Polícia Cultural”, que acusam de perseguir aspirantes a tribalistas. Ninguém gosta de ver a sua indulgência posta em causa e as chamadas de atenção são encaradas como pretexto de quezília porque, na maior parte das vezes, não lhes convém saber a que nos referimos. Para muitos, encarar a apropriação cultural é pouco proveitoso, demasiado extenuante ou complicado. Preferem abster-se e manter os seus hábitos e devaneios. O problema é que estas atitudes acontecem a partir de uma posição de privilégio e não de respeito. Quando alguém se permite ignorar os efeitos da apropriação cultural, porque não o afecta a um nível pessoal, não anula o problema para aqueles que sofrem o impacto desse acto abusivo. Diminuir a questão apenas agrava o insulto.

Apropriação cultural consiste em tomar para si a propriedade intelectual, sabedoria tradicional, expressão cultural e artefactos de outros povos, sem permissão, mesmo que seja sob pretexto de honrarem um grupo étnico, incluindo elementos tradicionais de outro contexto na sua própria narrativa cultural. Isto pode parecer louvável, mas não acontece de forma igualitária, como parte de um intercâmbio saudável. Consiste no uso não autorizado das danças, música, folclore, culinária, vestuário, tatuagens e pinturas tribais, medicina tradicional, símbolos religiosos, e tudo o que seja originário daquela cultura. Os danos são maiores quando se trata de uma minoria étnica que foi ou é oprimida, alvo de genocídio, ou explorada de alguma forma.

Em carta aberta dirigida a todos os educadores, Tara Houska, a procuradora-geral especializada em direitos tribais e membro fundador da organização Not Your Mascots, expôs as evidências que atestam o impacto negativo da apropriação cultural para todas as crianças e deu o seu testemunho:

“Em 2005, a American Psychological Association (APA) recomendou a eliminação imediata de todas as mascotes com temas Nativos em instituições educativas, equipas atléticas, etc. A sua posição foi baseada na evidência empírica que demonstra o impacto prejudicial que as mascotes Nativas têm na auto-estima das crianças Nativas Americanas.

As crianças Nativas Americanas são 2.5 vezes mais vulneráveis ao suicídio do que qualquer outra raça; é a segunda causa de morte entre os 15 e os 34 anos. Ver o contínuo uso de símbolos e nomes que atingem as nossas crianças em situação de risco é particularmente desencorajador.

As mascotes Nativas também afectam as crianças não Nativas. Em Março deste ano, psicólogos da University of Buffalo conduziram um estudo predominantemente com participantes brancos e determinaram que, apesar das intenções positivas de honrar os Nativos Americanos, as mascotes trazem à memória pensamentos negativos e estereótipos associados aos povos Nativos. Mais, estes participantes expostos a mascotes Nativas também têm mais tendências a estereotipar negativamente outros grupos étnicos.

Este não é certamente o tipo de contexto que crie espaços educativos positivos para as mentes jovens. O bem-estar das nossas crianças devia ter mais importância do que o legado de uma mascote desportiva. Os Nativos Americanos têm lutado contra a apropriação das nossas imagens e a chacota feita da nossa cultura durante décadas, isto não é nada de novo.

Quando me mudei para Washington, D.C., eu fiquei chocada com a omnipresença das imagens da equipa de futebol americano de Washington. Eu não conseguia imaginar ser uma criança Nativa aqui; eu lembro-me de sentir vergonha enquanto estudante, quando fazíamos o cocar de papel para o Dia de Acção de Graças e quando os meus colegas se mascaravam de Nativos para o Halloween – isto é outro nível de indignidade. Cresceres a ouvir “Arranquem os escalpes dos Peles Vermelhas” durante os jogos e veres regularmente colegas a usarem uma caricatura de ti numa camisola; as nossas culturas não são trajes. Nós ainda estamos aqui.”

Chas S. Clifton, autor e historiador especializado em Estudos Ingleses e Estudos Pagãos, colaborador do Grupo de Estudos Pagãos da American Academy of Religion (AAR), na sua dissertação Nature Religion for Real, publicada na revista GNOSIS 48, de 1998, refere:

“E ninguém possui as ideias de percussão, fogueiras, cânticos, transes, magia sexual, meditação, ou os símbolos da faca, cálice, bastão, ou qualquer outro.”

De facto, a utilização de qualquer elemento universal não constitui só por si um sinal de apropriação cultural. Esta acontece quando vários elementos universais e étnicos estão reunidos, segundo os preceitos de uma cerimónia livremente adaptada dos ritos tradicionais de um povo aborígene, para o qual as verdadeiras cerimónias são sagradas. Não pode ser ignorado o facto de, na maioria dos contextos de colonização, estas práticas terem sido proibidas e consideradas actos criminosos que atentavam contra a soberania do colonizador que viria a destituí-las da sua sacralidade, apenas para as apropriar a seu bel-prazer. Neste caso, temos um exemplo de pastiche espiritual, que é uma apropriação feita para conseguir um determinado ambiente, um estilo ou feeling, que alguém totalmente exterior àquela cultura quer recriar em ocasiões e contextos que nada têm a ver com a origem étnica onde buscaram essa inspiração. Quando o objectivo não se resume a efeitos decorativos, do plano dos sentidos, procuram alinhar-se com determinados valores tradicionais de outras culturas, numa tentativa de reclamarem tradições que estão ausentes da sua vida.

Tudo aquilo pode parecer inofensivo, mas causa danos e grandes prejuízos, porque não podemos dissociar a propriedade cultural da propriedade intelectual e a sua protecção é essencial para a sobrevivência e desenvolvimento cultural dos povos indígenas. Quando um industrial reproduz um artefacto indígena em série, sem permissão, sem recorrer aos artesãos desse povo, nem contribuindo com a devida percentagem dos lucros gerados para a preservação da cultura que violou, ao criar um produto que não respeita qualquer ética e que não é mais do que um acessório carnavalesco, o dano é inegável. Com frequência, quando um motivo tradicional é roubado não é possível, do ponto de vista legal, atribuir o direito sobre essa propriedade intelectual que é parte da propriedade cultural de um povo, por direito, desde tempos ancestrais. Mas esta lacuna não legitima a apropriação.

Por vezes, a apropriação resulta em ridículo para quem ostenta símbolos étnicos. Um exemplo é o que acontece quando alguém que não é Maori se inspira em motivos Maori ou os copia e recorre aos serviços de um tatuador que não é um artista ta moko, que não entende os motivos e em nada beneficia a cultura Maori com o pagamento que recebe. Não quer dizer que todas as tatuagens com motivos Maori sejam inapropriadas, mas nunca serão consideradas ta moko e são designadas Kirituhi. Durante a época balnear podemos perceber que quando um motivo sagrado específico para o rosto é tatuado noutra parte do corpo, para além de ridículo, torna-se insultuoso.

Da mesma forma, ao definirem o que são cerimónias xamânicas, xamãs e xamanismo, muitos alegados facilitadores espirituais dos nossos dias estão a classificar a si mesmos, a outros povos e seus líderes espirituais, segundo um conceito que não existe como tal em nenhuma das tradições englobadas. Essa categoria, que é apenas aparente, reflecte os fetiches de uma visão imperialista do mundo e perpetua a invasão cultural, que promove a opressão, uma percepção selectiva e estática da realidade. Resulta na imposição de uma visão do mundo sobre outra, insinuando a aparente superioridade do invasor e a falsa inferioridade do invadido. É inaceitável que exista quem, sem qualquer experiência vivencial ou conexões com a cultura apropriada, se sinta no direito de redefinir, nos seus termos, o que é ou não é apropriação cultural. Isto é ofensivo, porque desta forma a narrativa que prevalece não é a das pessoas que viram a sua propriedade cultural violada, mas sim a voz de quem violou, o que é mais nocivo do que apropriação em si. Porque mesmo quando o apropriador admite que a sua atitude indignou os representantes legítimos daquela cultura, não acredita que tenha, de facto, feito nada errado.

Reporto-me agora à apropriação de elementos da Cultura Clássica da Europa, com o propósito de aprofundar a importância do símbolo no contexto religioso e étnico.

Em alguns dos seus livros mais populares, a médica, analista junguiana, professora de psiquiatria e autora Jean Shinoda Bolen trilhou o terreno movediço da apropriação cultural. No livro As Deusas em cada Mulher, que antecedeu Os Deuses em cada Homem, as «deusas» gregas são o elemento diferenciador através do qual a autora apresenta e desenvolve, de forma acessível ao grande público, o verdadeiro tema do livro, que nada tem de novo: o autoconhecimento através dos arquétipos. Repete, sem pudor, a afirmação mais comum e simplista, segundo a qual as divindades romanas são apenas traduções das divindades gregas adoptadas, ignorando por completo a verdadeira origem de muitos deuses romanos que não partilham númenes nem mitos com os deuses gregos e sempre estiveram associados a locais da Península Itálica:

“A maioria de nós aprendeu qualquer coisa sobre deuses e deusas do Monte Olimpo nos tempos de escola e viu estátuas e quadros deles. Os Romanos adoravam as mesmas divindades, designando-as pelos seus nomes latinos. Os deuses do Olimpo tinham atributos muito humanos: o seu comportamento, reacções emocionais, aspecto e mitologia fornecem-nos padrões semelhantes ao comportamento e atitudes humanos.”

Bolen recorre à arqueomitologia, uma área de estudo polémica, que por vezes resvala para o domínio da imaginação, na tentativa de afirmar a superioridade do Sagrado Feminino e de ilustrar supostos factos históricos de um passado inverificável. Este recurso enfraquece os argumentos e contribui para a distorção da natureza das divindades referidas. Ao abordar aspectos mitológicos, dissociando-os do seu contexto e assimilando-os a uma presumida origem universal, refere uma Grande Deusa, da qual todas as outras deusas descenderiam. Uma ideia que estava em voga à data da edição original daquele livro (1984), que deve mais ao Feminismo e aos novos movimentos religiosos do que à História das Religiões. Foi uma forma conveniente e proveitosa de agradar ao seu público e de escapar a um assunto bem mais complexo, que ninguém espera ver desenvolvido nos seus livros.

A incompreensão está patente desde o primeiro parágrafo da Introdução, em cada referência às «deusas» gregas, que restringe à imaginação e diz serem formas, ideias mentais, qualidades humanas e imagens, numa clara apropriação dos aspectos simbólicos, que surgem descontextualizados:

“Tal como as mulheres não estavam usualmente conscientes dos poderosos efeitos que os estereótipos culturais tinham sobre elas, também podem não estar conscientes das poderosas forças dentro de si que influenciam o que fazem e como se sentem. São estas forças que apresento neste livro, sob a forma de deusas.”

“Este livro descreve uma nova perspectiva psicológica da mulher, baseada em imagens de mulheres fornecidas pelas deusas gregas, que se mantiveram vivas na imaginação humana durante mais de três mil anos.”

“Os mitos gregos, e todas as outras histórias de fadas e lendas que ainda são contadas ao cabo de milhares de anos, mantêm-se actuais e pessoalmente relevantes, porque existe neles algo de verdadeiro acerca da experiência humana comum.”

“Embora este livro proponha uma teoria e forneça informações úteis aos terapeutas, é escrito para todas as pessoas que queiram compreender melhor as mulheres – sobretudo as que lhes são mais próximas, mais queridas e que lhes causam mais perplexidade – e para as mulheres descobrirem as deusas que vivem nelas.”[1]

Os Cultores poderiam tentar brincar às deusas e aos deuses em cada um. Mais do que divertido, poderia tornar-se uma brincadeira verdadeiramente orgiástica, mas sabem que não seria sensato. Apenas um exercício fútil. O leitor que tome contacto com este tipo de abordagem simplista, sem ter o benefício da experiência prévia do númen, sem conseguir transcender o plano mental que define as suas crenças, e pensando estar a ler livros que não têm o poder de impactar o seu entendimento das divindades, pode vir a ter uma surpresa. Porém, o mais provável é que aceite as limitações propostas e se concentre na temática dos arquétipos, aprendendo o lingo, jogando o jogo, assimilando as incorrecções, e relegando os detalhes referentes às «deusas» para um plano secundário, apenas auxiliar de uma tentativa de caracterização de aspectos da mente humana.

O que não foi esclarecido é que os símbolos, os nomes, as características físicas e qualidades atribuídas pelos seres humanos sempre foram apenas um meio para ascender à divindade. Os seus efeitos, para além do plano mental, não podem ser controlados pelos autores que os apropriam e apresentam ao leitor. Claro que para os praticantes de religiões teístas, as divindades não se resumem à mitologia, apesar de todo o potencial que os mitos encerram e que não podem ser resumidos em princípios teóricos do âmbito da análise junguiana. Portanto, as afirmações desta autora e de muito outros autores soam descabidas.

Todas as manifestações associadas às divindades ajudam os nossos cérebros a compreenderem e a tornarem concreto o que não é tangível nem nomeável. Não me refiro a características da personalidade! Como seres humanos, percebemos que esses símbolos têm implicações que estão para além do nosso entendimento. Em particular, para os Cultores não existem meros símbolos, porque estes manifestam o númen, o poder e, enfim, tudo o que advém da divindade cuja existência não depende do nome nem da forma que lhe atribuímos e que não é uma mera representação mental de uma qualidade humana, mais ou menos consciente. A ordem dos factores e de grandeza é totalmente contrária ao conceito de arquétipo que, segundo a autora e o seu mentor, é um produto da mente humana.

Independentemente dos detalhes relativos ao modo como tudo se processa, sabemos que os símbolos e os rituais têm o poder de direccionar as nossas mentes, estimulando as sinapses e actuando na libertação de substâncias químicas que permitem a ascensão a outros estados de consciência ou aquilo que por vezes é definido por aumento da intensidade de vibração. Estas reações facilitam o acesso a esferas que transcendem o plano mental e estão mais próximas de um plano divino ou da vibração de uma divindade. As palavras proferidas, em qualquer idioma, as nossas acções e intensões, são as ferramentas que nos auxiliam nessa ascensão e nos permitem intensificar as vibrações correctas para reverenciar as divindades. A isto se deve o facto de a prática prevalecer sobre a crença. Ao longo do tempo, sem que haja um intervalo definível, uma vez que este varia dependendo da pessoa e porque muitas vão sempre precisar dos símbolos ou de uma figura sacerdotal que facilite a ascensão, vai-se tornando mais fácil estabelecer a conexão com a divindade, invocá-la, vivenciá-la e manifestá-la em todos os planos da nossa existência e muito para além deles.

É desta forma que mesmo os livros baseados em princípios da análise junguiana, que apropriam os deuses gregos, podem ser um caminho para o verdadeiro conhecimento das divindades. Mas esta é apenas uma possibilidade. Porque, apesar do contacto com o númen poder acontecer de forma involuntária, por mais desprevenido que esteja, o leitor terá um papel activo no desenvolvimento de uma relação com os deuses. Usando uma metáfora, todos os caminhos podem levar a Roma, se os quisermos trilhar.

Muito para além de quaisquer livros bem-intencionados, lançados no mercado da auto-ajuda e das espiritualidades chave-na-mão, que muitos de nós lemos na mais tenra juventude, quando as nossas relações com as divindades eram apenas florescentes (não fluorescentes, como os autocolantes em forma de estrelas e planetas que colamos no tecto do quarto das crianças), o que importa é reter uma noção. Não cabe a ninguém que não “acredita”, e se mantém nesse plano mental, impor o seu ponto de vista acerca do que são ou não são as divindades, fazendo pouco caso da sua dimensão transcendente, indo contra qualquer tradição, e usando as suas opiniões como pretexto para apropriar os respectivos símbolos. Na melhor das hipóteses, essa postura é pretensiosa e na pior acusa desrespeito por um contexto religioso que não conhece. Principalmente se essa pessoa reclama afinidade com essa herança cultural e étnica.

Os filhos não têm o direito de redefinir as suas mães nem os seus pais de acordo com o seu ponto de vista, apenas porque deles descendem. Por mais benevolente que seja a natureza desses pais e mesmo que não castiguem os filhos pelas suas atitudes, que não lhes cortem as mesadas nem os deixem sem sobremesas, os seus actos lesam não só as suas relações familiares, no âmbito privado, como toda a herança, que acaba por ficar mal representada e mais vulnerável a sucessivas apropriações.

Isto é válido para um Nativo Americano que, procurando a aceitação do mundo Anglo, está disposto a alimentar a “imaginação cultural Euro-Americana”, encarnando o estereótipo do “nobre selvagem”. Tal como Clifton referiu, citando a ecofeminista iconoclasta Mary Zeiss Stange, no livro Woman the Hunter, aquele é o “Eco-Índio”, um ícone cultural que pode ser associado ao paradigma tribalista dos nossos dias e que é adoptado por pessoas que não vivenciam a realidade quotidiana dos Nativos Americanos, hoje em dia.

No entanto, aquela advertência também é válida para todos os que vivem na Europa e que fomentam a apropriação de uma vasta herança cultural, recusando-se reconhecer a existência de religiões que foram reprimidas, muitas vezes de forma irrecuperável, ou mal assimiladas por uma religião estrangeira supostamente superior, que durante quase dois mil anos foi imposta à Europa de forma abusiva, com recurso à mais terrível propaganda, em desrespeito pelos valores de diversos grupos étnicos. Claro que os neopaganismos, distintos das religiões étnicas, são como uma reacção cutânea a este passado ainda tão presente, que pode vir a repetir-se num futuro não muito distante.

A consequência mais prejudicial de um panorama em que os povos europeus e os seus descendentes vivem, na Europa e por todo o mundo, com um défice de referências espirituais a que possam chamar suas, do ponto de vista étnico, é aquela consecutiva e por vezes frenética apropriação de símbolos espirituais de outros povos. Para quem vive há duas, cinco ou vinte gerações em continentes que foram colonizados, pode tornar-se impossível negar uma relação legítima, no sentido do intercâmbio e não da apropriação, com as diversas culturas aborígenes, que são heterogéneas e estão em constante transformação. O mesmo não acontece quando a apropriação é feita por pessoas que sempre viveram na Europa. A conexão com aquelas terras, os rios, a fauna, a flora, o sangue, não pode ser estabelecida  apenas no plano mental, à distância ou durante uma visita esporádica, por mais inesquecível que seja.

Igualmente lesiva para a preservação e difusão da herança cultural das diversas etnias europeias é a idealização que os europeus e os seus descendentes, em qualquer continente, fazem de um passado que por vezes é totalmente imaginado, para servir ideologias, espiritualidades modernas e interesses comerciais. Porque, de facto, não precisamos seguir pela via da apropriação cultural para tomarmos contacto directo, conhecermos, respeitarmos e amarmos profundamente as nossas raízes. Esta atitude fará toda a diferença, na Europa e no modo como abordamos as culturas indígenas, por todo o mundo.

[1] Jean Shinoda Bolen; As Deusas em cada Mulher, Planeta Editora, 1998

Gato por lebre

Martial 1

“Marcus Valerius Martialis, poeta romano” (London, July 1814, by G. Jones). Marcus Valerius Martialis foi um poeta latino que viveu na Hipânia durante o primeiro século da Era Comum. (Foto: The Print Collector/Print Collector/Getty Images)

 

A etimologia da palavra plágio é interessante e a sua história remonta ao primeiro século da Era Comum. Envolve o poeta romano Marcus Valerius Martialis, que usou a palavra “plagiarus” num dos seus poemas, para descrever um ladrão literário anónimo. Até aí o termo tinha sido usado para descrever o acto de raptar escravos ou pessoas livres que seriam escravizadas e a quem se atribuía valor monetário. Isto significa que para aquele poeta a apropriação dos seus poemas era tão grave como o roubo dos seus escravos, uma vez que o reconhecimento do seu mérito era indissociável da remuneração que deveria receber pelos poemas e que o poeta impostor que lhe negava.

Nos dias que correm, o que publicamos online não está protegido por direitos autorais, a não ser em circunstâncias em que o autor tomou providências extraordinárias que, na prática, podem significar muito pouco. A propriedade intelectual que deve ser protegida, quer tenha carácter ficcional ou derive de investigação, não deve ser difundida no espaço internáutico, nem mesmo através de correio electrónico. De nova, esta informação não tem nada, à semelhança de muitas publicações que todos os dias seduzem os incautos.

O tópico do plágio não é uma novidade, mas é actual e polémico entre cultores que defendem a transparência na difusão e comercialização de conteúdos relativos às religiões que estudam e praticam. O facto de muitos cultores serem académicos que disponibilizam algumas das suas pesquisas e composições através de plataformas de organizações, sem custos para o público, justifica a indignação e as reclamações, sempre que a fraude acontece.

Enquanto permanecemos no domínio dos blogs e websites, o hábito que muitas pessoas pouco capacitadas têm de usar os conteúdos de outros autores, sem referirem a fonte ou apresentando-os como seus, ainda que condenável, não gera grande frémito. Quem dera que copiassem apenas os textos que vale a pena ler. O problema é quando a arteirice de alguns resulta em produto comercializável de credibilidade duvidosa.

Os historiadores de religiões, Françoise Le Roux e Christian-J. Guyonvarc’h fizeram referência à vulnerabilidade do público, em dois dos seus livros relativos aos Estudos Célticos:

“É preciso, ainda e sempre, incansavelmente insistir sobre o facto de o fenómeno celta (como de resto todo o facto indo-europeu) ser unicamente linguístico e religioso, identificando-se a etnia celta, à partida, apenas pela língua. Podemos certamente sonhar e escrever os romances de pura ficção sobre a suposta história dos Celtas, mas nesse caso é preciso prevenir que se está a sonhar.

Em geral, infelizmente, não se previne, e o público deixa-se arrastar (o que poderia fazer para além disso?) por especulações cujo defeito comum consiste em se basearem em aparências que foram um pouco forçadas. E tudo tem uma explicação através dos Celtas, das Cruzadas à Revolução, sem esquecer o surrealismo e as insurreições estudantis de Maio de 1968. Pode mesmo atribuir-se aos Celtas a mensagem salvadora e ecológica que, entre o ano 2000 e um termo indeterminado, salvará a Humanidade – abstracção indefinível – da catástrofe nuclear.”[1]

“É evidente que não temos aqui em consideração os trabalhos marginais ou menores, obras aproximativas que, misturando a imaginação, a ignorância e, por vezes, a má-fé, enchem as montras das livrarias e transformam os Celtas do passado e do presente em matéria-prima comercial. O grande público é presa fácil para alguns semiletrados.”[2]

“Alguns «investigadores» acabam por se convencer de que o domínio céltico é de tão fácil acesso que não há qualquer necessidade de o conhecer para se escreverem livros.”[3]

Um caso flagrante de apropriação surgiu no âmbito inflamável de uma organização que, por incrível que pareça, alguns acreditam ter poder legal para aprovar a publicação de material que foi disponibilizado por inúmeros autores, ao longo de vários anos, no seu website. Esta entidade, autoproclamada Nova Roma é um Estado alternativo que não é reconhecido como fonte legítima de informação pela maioria dos cultores da religião romana. Esta plataforma teve o seu contributo na disseminação de informação mais ou menos fidedigna, acerca da civilização que se propõe reconstruir. Teve o seu tempo.

Os dissidentes daquela organização continuam a ver os seus textos publicados em livros que encontram receptividade junto de muitos leitores menos avisados. Alguns destes consumidores procuram uma introdução amigável e de fácil digestão ao culto dos deuses romanos. A maioria está formatada segundo aquilo que assimilou através de artigos e livros que resumem o panteão de forma enciclopédica ou o aplicam a contextos que nada têm de religioso e que, na melhor das hipóteses, se centram em aspectos mitológicos. Não apresentam referências uteis à reflexão e ao estudo individual, nem introduzem princípios teológicos que convém conhecer, sobretudo, antes de ministrar palestras, facilitar formação, e escrever outros livros redundantes, que irão perpetuar incorrecções graves, de geração em geração. Uma situação recorrente é a contaminação de conceitos clássicos por elementos do neoplatonismo, da magia cerimonial, da psicologia e da astrologia modernas, aos quais nem sequer é feita justiça.

Por terem sido publicados na plataforma online de uma organização, os conteúdos não passam a estar sob a alçada dessa entidade para fins comerciais, nem o seu uso recorrente dispensa referências detalhadas relativamente a todo o material citado. Ainda segundo as virtudes romanas, seria de louvar um pedido de autorização a quem teve o altruísmo de os oferecer aos internautas. Infelizmente há indivíduos que passam anos sem dar sinal de vida, apenas para reaparecerem como alegados autores de compilações de registos que são do domínio público. De livros que nem sequer foram submetidos à apreciação do Collegium Pontificum da entidade Nova Roma.

Para além de plágio, estes abusos são uma forma de apropriação cultural, uma vez que os princípios mais básicos proclamados no contexto onde surgiram são desrespeitados à partida, pelo acto de publicação indevida. Com a agravante de disseminarem uma versão customizada da verdade histórica, que tem um impacto enorme nas práticas religiosas dos aspirantes a cultores, que geralmente se mostram muito satisfeitos por cumprirem as instruções daquelas cartilhas. A única defesa contra estes abusos é a reclamação e, quando esta é ignorada, o maior número possível de críticas escritas em todos os pontos de venda online que permitam comentários aos livros. Apesar de todas estas acções, a situação raramente é revertida.

Um exemplo de rip off, de duas publicações resultantes de plágio, são os livros de um individuo que usa o pseudónimo Lucius Vitellius Triarius, que é o seu nome de cidadão na dita Nova Roma. Uma parte das receitas provenientes da venda dos títulos Religio Romana Handbook, A Guide for Modern Practitioners e Meditations on the Roman Deities, A Guide for Modern Practitioners, seriam retidas pelo alegado autor, talvez para cobrir quaisquer despesas resultantes de eventuais processos judiciais, e uma outra percentagem teria como destino a conta bancária daquela organização, mas não há como confirmar se isto acontece. A única certeza é que os responsáveis pela gestão do website da Nova Roma têm retirado inúmeros textos que continuam a ser do domínio público. Só não se sabe se esta medida vem no sentido de impedir o plágio ou, em vez disso, de retirar do olhar público os textos que, a seu tempo, serão matéria-prima de mais publicações abusivas e mal referenciadas.

A informação relativa a direitos de autor inscrita nas páginas do livro que podem ser visualizadas online apenas menciona o referido cidadão. Muitas vezes, quem compra não sabe que poderia ter acesso ao teor daqueles livros, sem quaisquer custos. A autoria de grande parte dos conteúdos é de vários membros que tinham abandonado aquela entidade, estando o maior contribuidor e responsável pela compilação original a enfrentar algumas dificuldades financeiras, o que não deixa de ser irónico. Nenhum deles antecipou que as suas composições viriam a ser usadas por alguém que nem sequer foi responsável pela compilação. Estes esquemas são executados em proveito de um ou alguns indivíduos, sem respeito pela ética e, na verdade, em detrimento de quem, por todo o mundo, aspira ao conhecimento do que é genuíno e não do que foi alvo de reconstruções que carecem verificação.

Entretanto, depois de várias denúncias, os livros foram temporariamente retirados dos websites subsidiários da Amazon, uma vez que esta companhia se rege pelo princípio de não comercializar publicações forjadas com conteúdos que à data de publicação eram do domínio público. Porém, quando menos se espera, as publicações voltam a estar à venda, gerando nova onda de protestos e a necessidade de alertar os leitores destes guias práticos para o facto de estarem a ser vítimas de fraude. Porque, para além do óbvio, as publicações que aparentemente simplificam acabam por promover a desorientação e o velho hábito que supostos novos sábios – sempre prontos a palrar o que leram e escutaram – têm de adulterar, ocultar e confundir.

Ninguém sabe tudo, mas felizmente há muitos que vão aprendendo o suficiente para se protegerem destas situações e saberem a quem devem reconhecimento pela transmissão gratuita de informação credível. Sabemos que um dos sinais mais evidentes de que não estamos no contexto clássico ou étnico mais desejável é a palavra “nova”.

Referências:

[1] Christian-J. Guyonvarc’h, Françoise Le Roux; A Sociedade Celta, Publicações Europa-América, 1995

[2], [3] Christian-J. Guyonvarc’h, Françoise Le Roux; A Civilização Celta, Publicações Europa-América, 1993