Lares fora do lar

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Vista do alpendre do Bay Restaurant, no Hotel Penzance, na Cornualha (Kernow / Cornwall).

Esta reflexão parte da experiência pessoal e não tem nada a ver com alegadas tradições nativas da Europa, noções de Soberania e de casamentos simbólicos entre uma Deusa e um Rei, a terra e as pessoas, a natureza e a cultura, o feminino e o masculino, e outras noções dualistas que são constantemente simplificadas para servirem as religiões modernas e o ideal ecológico dos nossos dias.

É uma relação muito especial a que estabelecemos com locais que se tornam uma “casa fora de casa”. Home away from home é a expressão mundialmente reconhecível. A forma como a afeição surge pode parecer inexplicável, mas não é raro encontrarmos os motivos na nossa infância. Pensemos um pouco nos estímulos mais fortes e agradáveis que a nossa percepção de criança expandia e assimilava. Não parecem iguais na idade adulta e, no entanto, nunca deixamos de os procurar e de tentar senti-los como da primeira vez que os experimentámos. É natural que essa ligação a um lugar longe do entorno habitual se deva mais ao facto de nele termos reencontrado, com renovada intensidade, os estímulos que recordamos com prazer do que por ser radicalmente diferente. Torna-se mais fácil estabelecer uma conexão profunda e há boas razões para que seja assim, em particular quando a nossa presença numa determinada região ou cidade se torna recorrente ao longo de anos, ainda que a título esporádico.

Na religio Romana conhecemos os Lares Familiares, guardiães indígenas da habitação onde residimos. Eles são distintos do génio de lugar, por estarem circunscritos à casa onde formamos o nosso lar. A celebração anual que lhes é dedicada coincide com as calendas deste mês de Maio. Ao contrário dos Penates, que são protectores da família, ligados à nossa genética e aos nossos ancestrais, os Lares não se movem connosco quando viajamos e nos hospedamos em diversos locais. Eles são os residentes por excelência e é em torno deles que o culto doméstico se realiza. Assim, é importante reconhecer a sua existência quando vivemos numa casa que se torna significativa, ainda que aí fiquemos apenas temporariamente. É o que acontece a alguém que faz house-sitting por um mês ou mais ou aluga temporariamente uma casa que gostaria que fosse sua. O mesmo é válido para os time-sharing e as casas de férias. Sempre que a permanência numa habitação deixe de ter um carácter de hospedagem e passe a ser considerável, estabelecemos uma ligação com ela. Esta interacção pode ser estabilizada e nutrida, se procedermos de acordo com os preceitos de diversas tradições, sejam elas teístas ou energéticas.

É surpreendente percebermos que uma relação com um lugar e com as casas que vamos habitando é aprofundada a um nível íntimo através das nossas vivências. Este aspecto pode ser sentido por todos, sobretudo quando os laços com um local se estreitam devido a relacionamentos e à experiência de partilharmos o espaço onde moramos. Porém, uma mulher pode experienciar isso de um modo muito visceral, ao nível da sua sexualidade. Para dar um exemplo extremo, quando um parto acontece fora do país de origem de uma mulher, num local que lhe é muito familiar e significativo para si, esse evento contribui imenso para reforçar a ligação que sente. O contrário também é válido e pode ter consequências nefastas, mais ou menos evidentes, quando a conexão não aconteceu ou não foi estabilizada. De qualquer forma, é sempre uma ocorrência indelével, sobretudo se o parto for domiciliar.

Por muito menos, podemos manter-nos conectados com os nossos “locais de poder”, durante toda a vida, ainda que as nossas relações pessoais e os nossos afectos se alterem, que mudemos de região e voltemos aos nossos países de origem. Tomaremos sempre como nossos os infortúnios e as alegrias dessa terra e do seu povo e vamos sempre estar a par de detalhes como a meteorologia. Isto é particularmente verdade se a nossa “casa fora de casa” se situar junto à costa atlântica, para os lados de Mount’s Bay, perto do ponto mais ocidental da Península de Penwith, e se for semelhante às memórias mais precoces que temos do lugar onde crescemos e queremos viver.

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Girl talk para todos

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d'Arte Moderna.

Detalhe de “La Pompeiana”, de Federico Maldarelli (1871), 49 × 73 cm, Galleria Nazionale d’Arte Moderna.

De há um mês para cá, a tónica tem estado nas mulheres e hoje não vai ser excepção, mas acredito que este espaço não seja particularmente apreciado por algumas. Espero que – todos – os leitores entendam que este não é um blog devotado ao Movimento da Deusa ou ao Sagrado Feminino. É natural que falemos daquilo que conhecemos bem e, se formos para o plano autobiográfico, no que toca à chamada “espiritualidade da deusa” (nem todas as mulheres fazem questão de usar o D maiúsculo), então sim, desde há vinte anos tenho tido encontros de primeiro grau com essa esfera. Não a procurei, mas quando se tem dezasseis anos e se quer palmilhar todo o território do sudoeste de Inglaterra e da Cornualha, temos de encontrar um nicho que nos permita ir para o terreno em segurança e na companhia de entusiastas de sítios megalíticos que não se limitem a debitar factos arqueológicos. E eu encontrei o nicho de que precisava naquela altura, à distância e no outro lado do Atlântico.

Foi sobretudo entre mulheres que, após a viragem do milénio, eu pude seguir numa viagem que se repetiu várias vezes. Passei por todos os hotspots e, no que pode ser entendido como um bónus (bem pago), passei por conferências da Deusa, workshops, e círculos de mulheres. Tive muitas oportunidades para observar, mesmo enquanto tomava parte em cerimónias eclécticas, ao amanhecer, ao pôr-do-sol, e à luz da lua; pelo menos, sempre que o clima britânico permitiu. Quando se faz tudo aquilo durante duas semanas ou mais, de cada vez, com uma dúzia de mulheres americanas, canadianas, australianas, e britânicas, de várias idades, com quem se janta, dorme, acorda, e viaja, os melhores momentos são os inesperados, as pequenas partilhas, a entreajuda, e não tanto aqueles em que é suposto sentirmos alguma coisa transcendente.

Há quinze anos, o Movimento da Deusa estava no auge. Quem chegou antes ou depois pode ter a mesma sensação, mas a verdade é que o boom do milénio deu um enorme impulso a esse contexto. Sempre foi impossível para mim sentir que era parte daquela euforia feminina, tantas vezes um pouco forçada, entre sorrisos, bocejos, e olhares de soslaio. Havia de tudo, ou então eram os meus inocentes olhos. Lembro-me de pensar que aquelas “sacerdotisas da Deusa” que estavam no town hall de Glastonbury eram demasiado optimistas em relação aos possíveis focos de pé-de-atleta, quando convidavam todas as mulheres (e eramos muitas, naquelas edições da Goddess Conference) a descalçarem-se para percorrerem um labirinto marcado no soalho com fita adesiva colorida. Não foram os meus sapatinhos verdes que saíram dos meus pés. Que Romano! O cepticismo saudável sempre me protegeu. Porque não há uma micose mais sagrada do que outra.

Era esse o meu estado de espírito em relação a certas iniciativas. Nada parecido ao transe extático era possível, apesar do cenário e da boa vontade. Por outro lado, não havia nada como estar fora de portas, com os pés na terra ou na lama, em contacto directo com o vento, o sol…, a erva. Daquela que nasce nas colinas de Somerset e não da outra, que se consome no Glastonbury Festival. Mas existe uma enorme diferença entre vivenciar e aprender com a paisagem, onde quer que seja, e sermos sugestionadas a ver o que nos dizem para vermos, em determinados locais que sempre subsistiram graças às diversas peregrinações. Tornar-me uma “sacerdotisa da Deusa” nunca foi uma hipótese. Poderia tê-lo feito desde muito jovem. Teria sido a primeira portuguesa a obter o título, a desdobrar-me em workshops, círculos, palestras, conferências, e cerimónias com a comercial chancela de “Avalon”, que tem sido ensombrada por apropriação cultural e escândalos com escritoras de best-sellers. Sem dúvida, se eu quisesse ter conquistado audiências e fazer marketing poderia ter seguido essa carreira, mas nesse caso não seria eu e sim uma personagem de um qualquer romance enevoado, com estética duvidosa.

Tantos anos passados desde aquele tempo e percebo que houve pouca evolução – ou mesmo uma estagnação deprimente – em alguns aspectos importantes, apesar de continuar a existir um vasto público para o género. Continuo a deparar-me com as características do Movimento da Deusa, em particular de “escolas de sacerdotisas” fortemente inspiradas pela ficção de Marion Zimmer Bradley e pelos livros de Jean Shinoda Bolen, que sempre me fizeram recuar. Às vezes, leio as palavras desta ou daquela sacerdotisa / formadora / organizadora de eventos e penso que “a oeste nada de novo”. Desde os primeiros anos desta década, é possível encontrar exemplos disso em português de Portugal. Em certos casos, pessoas com bastante sentido de oportunidade procuram estabelecer-se como referências nacionais, recorrendo aos média sensacionalistas para promoverem as suas propostas, paupérrimas e pouco amadurecidas. Portanto, é um fenómeno recente no nosso país, mas por incrível que pareça é apresentado como uma inovação que finalmente chega a terras Lusas pela mão de mulheres que apenas nos últimos anos foram, viram e de alguma forma se tornaram “representantes” de alguma coisa, por via da participação em eventos ou de formação, mais ou menos aprofundada, sobretudo em Glastonbury.

Hoje em dia, eu tenho relutância em relação a alguns ambientes, eventos, fóruns de “espiritualidades” que são exclusivamente reservados a mulheres. A verdade é que mesmo durante as viagens com grupos de mulheres existiram sempre pontos de apoio marcantes na figura de alguns homens, tão imperfeitos como qualquer pessoa, mas sobretudo benevolentes. No entanto, nem todos os contextos mistos me seduzem. Nunca fui nem pretendo vir a ser iniciada na Fellowship of Isis, Thelema, ou Wicca, apesar de ter estado várias vezes na presença da falecida Lady Olivia Robertson e de ter privado com colaboradores directos de (e high-priest/esses iniciados por) Doreen Valiente, Alexander Sanders, e outras personalidades mais ou menos sui generis. Não tenho vaidade em referir estes detalhes, porque exacerba o elitismo que sempre prejudicou aquelas comunidades, mas também me deparei com isso ao longo do meu percurso. Sempre me foquei nas minhas origens e herança.

Quanto ao Movimento da Deusa, nunca poderia ter encontrado nele uma base sólida, porque aí faltam os Deuses e, na maior parte das vezes, apesar da exuberância de imagens e nomes de divindades femininas, também faltam as Deusas. É fácil perceber que a maioria das mulheres que se juntam àquele fluxo passam pouco tempo a tentarem perceber se a sua Deusa é só uma, ou se são várias, ou se depende do dia, talvez porque as tais “deusas” sejam um espelho delas mesmas. Chegamos a um ponto em que parece que vale tudo, desde que sobre espaço suficiente para incrementar a gosto. O resto…é bliss! E isto não tem nada a ver com thealogy, o trabalho de Marija Gimbutas, ou os escritos de Merlin Stone. Do ponto de vista religioso, por mais libertador e curativo que possa ser em determinada altura da vida, tudo aquilo se chama psicologia.

Sendo cultrix, eu tenho o prazer de partilhar a minha religião com muitos homens, fortes e feridos, e orgulho-me de um panteão que inclui Deuses como Janus, Júpiter, Marte, e Mercúrio. Oh, então eles não são só planetas? Pois. Alguém quer falar de empoderamento? É difícil ter preferências. Eles, homens e Deuses, também são o máximo. Uma cultrix não é uma mulher que selecciona as Deusas do panteão Romano (e até deita a unha às de outros panteões), enquanto ignora os Deuses, ou se recusa a partilhar a sua religião com homens. Quem conhece a estrutura dos rituais mais básicos da religio Romana sabe que isso não é possível. Felizmente, a par de mulheres instruídas, sensíveis, feministas, e implacáveis no que toca a argumentação – daquele tipo que nenhuma “sacerdotisa da Deusa” seria capaz de refutar –, encontram-se cultores que são autênticos gladiadores, sobretudo na arena da blogosfera, quando se trata de defender a verdadeira natureza das nossas Deusas, dos nossos Deuses, e do politeísmo em geral.

Vermelho, quente, e sagrado

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak and The Redvolution © Todos os direitos reservados)

Sera Beak (Fotografia original: em Sera Beak © Todos os direitos reservados)

Quando o velho Departamento de Vendas dá o ar de sua graça, abuso é eufemismo.

Sem floreados, nas palavras de Sera Beak, que traduzi da forma mais leal que sei:

“Sacerdotisa, é isto:

Hoje recebi o que recebo várias vezes ao dia: um email a solicitar o meu apoio para promover o programa de auto-ajuda/espiritualidade/empoderamento de outras mulheres. Apesar de eu estar familiarizada com estes emails, este em particular gerou uma série de sentimentos.

O email foi escrito por uma “gestora de programa”, a convidar-me para me tornar uma afiliada (fazer dinheiro) promovendo junto da minha audiência um iminente Programa de Sacerdotisa virtual oferecido por duas mulheres que eu não conheço, que não se preocuparam em escrever-me uma nota pessoal, apresentando-me respeitosamente os seus corações, as suas almas e as suas missões.

O meu coração vermelho, quente, e sagrado contraiu-se de dor e uma feroz energia feminina aflorou do âmago da terra e serpenteou em torno de mim com um sibilo. A mensagem que segue é uma tentativa de traduzir este sibilo:

Oh, Fuck No! Hoje em dia, o patriarcado não só está a usar um disfarce de deusa, como conseguiu apoderar-se do arquétipo da sacerdotisa. Espeta um molho de penas no cabelo, faz uns rituais à luz a lua, aprende uma mão-cheia de artes femininas, pratica a quantidade apropriada de auto-reflexão, liberação sexual, trabalho de sombra e yoga asanas, não te esqueças de pagar a contribuição, e BAM – também tu podes ser iniciada como sacerdotisa (em um ano ou menos) e seguir em frente e prosperar como a mulher magicamente empoderada que estás a ser manipulada a tornar-te!

(suspiro)

Como já reparámos, “Sacerdotisa” transformou-se na mais recente tendência em títulos espirituais da moda espiritual. O que se esticou até “Yogini” voo para “Dakini” abriu as pernas à “Tantrika” e agora dança em torno de uma fogueira como “Sacerdotisa” (ainda melhor se listar tudo aquilo na sua tagline – juntando uma generosa porção de “Xamã”).

Ora, de todo o coração defendo e celebro o facto de cada mulher transportar o arquétipo da sacerdotisa, e eu não quero mais nada a não ser que as mulheres reclamem o seu direito natural de legitimar este percurso orgânico de Estarem ao Serviço, mas infelizmente, eu tenho encontrado poucas mulheres que estão genuinamente a encarnar este arquétipo da forma como o planeta tão desesperadamente precisa que ele seja encarnado neste momento.

É interessante que as mais autênticas sacerdotisas que tive o privilégio de conhecer nem sequer se auto-intitulem “sacerdotisas”. Não há necessidade de um “título” ou de um disfarce, uma marca ou uma campanha, uma sessão fotográfica, um vídeo, ou um website glamoroso. Não há necessidade de te atraírem para o seu campo ou para o teu Self.

Elas simplesmente são Quem Elas São e Oferecem Aquilo que Oferecem – e se tu não consegues sentir o Fogo Sagrado de onde elas vêm, do qual elas cuidam e que ajudam a reacender nos outros, então és tu que ficas a perder.

Todos sabemos que há verdadeiras, tremendas, ancestrais, eruptivas Iniciações de Sacerdotisas a decorrer neste preciso momento, por todo o planeta, e eu sou eternamente grata pelas corajosas (sobretudo) encobertas sacerdotisas que impulsionam estes intrépidos movimentos femininos. E, se elas estiverem a ser guiadas para-por nada nem ninguém excepto o único Gestor de Programa que precisam, A Grande Ela – eu fico radiante quando estas autênticas sacerdotisas partilham as suas ofertas publicamente (via websites, fotos, vídeos, programas, etc.), para que possamos encontrá-las, para que sintamos o que é ser-nos oferecido algo vindo do feminino, sem cordelinhos subtis amarrados, e para que seja possível dar-lhes o reconhecimento devido, o respeito E o apoio financeiro que merecem.

Mas, o email que eu recebi hoje lembrou-me que não importa as nossas melhores intenções, não importa se estamos mesmo a ser guiadas para reclamar este título publicamente e iniciarmos outras mulheres na sua própria memória do autêntico poder feminino – nós não podemos fazê-lo se estivermos a usar mal este atraente titulo para inflar a identidade ou a usar o poder que vem com o papel de “sacerdotisa” para atingir objectivos egocêntricos.

E representar e vender esta energia arquetípica sagrada da forma como este email (e a página de lançamento do website que o acompanhava) demonstrou, deixou-me ainda mais ciente de que nunca conseguiremos ser sacerdotisas para nós mesmas ou para outros se estivermos conscientemente a submetermo-nos – ou inconscientemente a agarrarmo-nos – às astutas garras do furtivo consumismo espiritual, do marketing pernicioso, e a um subtil sistema sintético que apesar de soar e parecer certo à superfície, está na verdade a vampirizar o nosso poder feminino e a perpetuar a nossa escravização.

Agora, para concluir o meu desafogo, eu vou inapropriadamente “acrescentar” uma das minhas citações favoritas acerca de sacerdotisas que vem do vibrante romance de Elizabeth Cunningham, “A Paixão de Maria Madalena”, na voz de Madalena:

“Eu não sei o que há com as sacerdotisas. Podes sempre dizer. Ou eu pelo menos posso…eu reconhecia uma mulher em autoridade quando via uma. A maioria das mulheres, uma vez por outra, preocupam-se em alguma medida em agradar aos homens ou às pessoas em geral [ou em tentarem “ser” alguém ou “fazer” alguma coisa que lhes traga fama, dinheiro, vantagens profissionais, atenção social ou reconhecimento espiritual]. As sacerdotisas não. O jogo delas é maior. Os seus olhos demonstram-no.”

 

Senhoras,

Nós precisamos de jogar um JOGO MAIOR

(do que aquele com o qual o mercado de auto-ajuda/espiritualidade está a tentar-nos).

E,

Atrevam-se a Demonstrá-Lo.

(não a dizê-Lo.)

Por outras palavras, nós precisamos fazer aquilo que cada célula dos nossos belos corpos deseja fazer com este retornado arquétipo da sacerdotisa:

Honrem-No,

Abracem-No,

Libertem-No,

E protejam-No como uma mãe ursa protege as crias,

E uma mulher selvagem protege o Sagrado.

BAM.”

 

O original, em inglês, foi publicado a 10 de Abril de 2015, no blog Rouge Awakening .

Reclamando a sacerdotisa

GREECE ANCIENT GODS

Uma sacerdotisa segura um ramo de oliveira enquanto participa nas cerimónias em honra de Zeus, no Templo de Zeus em Atenas. (Fotografia: Petros Giannakouris / The Associated Press Archives)

“Uma sacerdotisa é uma mulher que oficia rituais. Uma sacerdotisa oficia ritos sagrados e serve as necessidades espirituais da comunidade.”

Esta é uma definição de sacerdotisa. Pode parecer demasiado resumida ou mesmo incompleta, por não contemplar uma dimensão interior de quem é, ou pelo menos sente ser, no mais íntimo de si, uma sacerdotisa. A objectividade não permite interpretações ambíguas, deixando claro que ter uma função sacerdotal requer uma acção e não apenas o reconhecimento de uma vocação ou a experiência do arquétipo da Sacerdotisa. O mesmo é válido para qualquer outro ofício. Com a necessidade de desempenhar tarefas surge a possibilidade de errar. Na sociedade que não perdoa o erro é muito comum encontrarmos pessoas que se sentem sacerdotisas mas que não são, por puro medo de errar.

Devido à erosão da autoconfiança feminina, durante milénios, e à certeza de serem alvos preferenciais do patriarcado, ainda vigente, muitas potenciais sacerdotisas escolhem não manifestar a sua natureza. A consciência da responsabilidade, associada a vários obstáculos externos, que historicamente têm sido impostos às mulheres, remete muitas vocações para o plano dos desejos, dos chamamentos a que poucas atendem. A maioria não saberia que passos dar no sentido da concretização e as que arriscam tentar podem ser confrontadas com competitividade feroz por parte de outras mulheres, que operam com base no ego. Este é o resultado mais evidente de séculos de medo, opressão e violência, que provocaram fragmentação e resultaram no isolamento e na desconfiança entre as mulheres. A maioria acabou por confiar mais nos seus opressores e detractores do que em si mesma e entregou-lhes a sua autoridade espiritual e os seus filhos.

Outro aspecto que inibe muitas pessoas, sem diferença de sexo e género, é o aparente conflito entre as funções de orientação moral e espiritual e as posições de poder. As mulheres, em particular, desde a Antiguidade foram destituídas das suas funções de mediadoras espirituais no seio das suas comunidades. Ficaram impedidas de ascenderem nas hierarquias religiosas imperantes, acabando restringidas aos cultos domésticos ou estritamente femininos, que exigiam votos de castidade. No presente, muitas mulheres acreditam que só é possível ascenderem a determinados graus sacerdotais por via das instituições religiosas cristãs ou em alguns sítios de Poder – por vezes, nebulosos –, onde a união em torno do Sagrado Feminino permite a realização regular e descomplexada de rituais públicos de várias tradições.

A ideia de sacerdotisa aproxima-se muitas vezes da ideia de fada ou de personagens de romances protagonizados por mulheres feéricas, poderosas, ou implacáveis, que terão existido num local entre mundos, velado, restrito, ou simplesmente metafórico, mas com tremendo impacto no mundo exterior e nos fados dos outros mortais. Por outro lado, verifica-se uma vulgarização do uso de títulos sacerdotais dissociados das respectivas funções, sem que as auto-intituladas e até as ordenadas se revelem figuras sacerdotais, de facto. As sacerdotisas, como os gurus, tornaram-se meros clichés. Em muitos contextos é repetido que todas somos sacerdotisas, e que todos somos professores, mas a verdade é que não somos.

Existem requisitos indispensáveis para alguém poder exercer bem determinadas funções, forças de expressão à parte. Não basta acordar a sentir-se sacerdotisa, recordar alegadas vidas passadas em que terá sido sacerdotisa, acumular estudos universitários e iniciações, nem cumprir um percurso que culmina numa ordenação formal, que confere credibilidade, reconhecimento público, e poder. Esses são apenas estágios em processos longos que não oferecem quaisquer garantias de sucesso. Não basta experimentar o manto sacerdotal, para ver como lhe fica – e quanto pode render-lhe –, pensando que é possível mergulhar apenas o dedinho do pé no glamoroso lago das sacerdotisas, sem correr o risco de cair à água, ou ao pântano, antes de saber nadar ou pelo menos manter-se à tona.

As verdadeiras “Mulheres da Liberdade”, “Senhoras da Magia”, “Sacerdotisas do Poder” sabem que as suas funções não se coadunam com sentimentos de superioridade, em relação aos machos ou às outras fêmeas de qualquer espécie, muito menos à ostentação de títulos, graus, ou ordenações. Elas sabem que nem sequer se trata de ter a intenção, ou a pretensão, de dinamizar eventos, entreter audiências, ou ensinar alguém. Elas também sabem que o essencial é serem responsáveis pelas suas acções, aconteça o que acontecer, no exercício das suas funções. Note-se a ênfase na componente prática.

Quem não quiser, não for requisitada, ou não estiver preparada para oficiar cerimónias, de acordo com a sua tradição religiosa ou de modo assumidamente improvisado, pode participar de círculos de partilha, escrever textos acerca deste e de outros assuntos, ou simplesmente tecer um espaço no qual o sagrado possa manifestar-se. Afinal, há muito trabalho que deve ser feito em silêncio, sem depender do rufar dos tambores, da dança extática, e dos rituais públicos.

O maior desafio de qualquer pessoa que se dirige a uma figura sacerdotal, com o intuito de aprender os preceitos de uma tradição ou de recorrer ao auxílio de um mediador que facilite a sua conexão com a dimensão divina, de um modo geral, é assumir a sua responsabilidade no que advém dessa escolha e da forma como usa as informações que lhe são transmitidas. Os maiores desafios para um mediador, que pode ser ou não ser um mentor moral para alguém, tanto é o de zelar pela sua tradição como o de não reter informações que tem o dever de transmitir, na tentativa de forjar um estatuto que não possui, gerando uma aura de superioridade e mistério.

Não menos importante em qualquer mentor é a capacidade de reconhecer quando certa pessoa se revela inepta para o percurso a que se propôs e quando precisa de ser redireccionada para outro percurso ou para outro mentor. O que não falta são pessoas dispostas a manterem outras na sua sombra, apenas para alimentarem o seu ego e obterem dividendos. Estas situações podem tomar contornos criminais e justificar o recurso a medidas que assegurem a integridade física e anímica de quem procura indivíduos que se revelam impostores ou, na melhor das hipóteses, que estão pouco conscientes do mal que a sua falta de preparação pode provocar a pessoas imaturas, crédulas, intimidadas, ou desesperadas.

O que pode surpreender é que o oposto aconteça com mais frequência. É cada vez mais real a necessidade de proteger figuras sacerdotais independentes, mediadores psíquicos, mentores de minorias religiosas, e todas as pessoas honestas que prestem serviços oraculares, facilitem meditações orientadas, curas energéticas, rituais públicos, ou cursos introdutórios a inúmeras disciplinas do âmbito do Oculto, ainda que de forma gratuita. Estes profissionais estão particularmente expostos a juízos de valor, acusações de burla, difamação e injúria, por parte de concorrentes gananciosos e, sobretudo, de clientes e discípulos insatisfeitos. Muitos preferem descredibilizar e arrasar a reputação de alguém, em vez de assumirem que as suas escolhas foram feitas de livre e espontânea vontade.

Acontece que o requisito essencial para alguém realizar funções sacerdotais é exactamente a qualidade que falta a grande parte das pessoas que procuram serviços ou mentores que os orientem na sua vida pessoal ou no caminho para o almejado sucesso, no inescrupuloso mercado das espiritualidades e mais além. A principal causa para a existência de uma cultura da desresponsabilização, face às consequências de escolhas pessoais, pode bem ser o desrespeito pela autoridade espiritual de cada um, que começa em tenra idade. As consagrações às diversas divindades e religiões, durante a infância, é um abuso que carece reconhecimento público e jurídico.

Existe uma diferença crucial entre introduzir uma criança às práticas religiosas, tradições familiares, usos e costumes da sua e de outras sociedades, e em definir um percurso religioso ou não-religioso que lhe é imposto como uma doutrina. Desde a infância, a maioria ou é ensinada a desconsiderar por completo qualquer prática religiosa ou, ao contrário, a não questionar, a atender com assiduidade, e até a assumir papéis em ritos religiosos inibidores, realizados por adultos estranhos ao seu círculo afectivo, que não têm qualquer formação específica para interagirem com crianças, durante o desempenho das suas funções sacerdotais. Crescem vulneráveis a situações que propiciam o abuso da sua autoridade espiritual e abdicam dela, sem que cheguem sequer a ter plena consciência da sua existência e do papel que ela pode ter na protecção contra abusos de outra ordem, ao longo de toda a vida.

Sem uma prática pessoal sólida, que promova o autoconhecimento, a preservação da integridade espiritual, a liberdade religiosa de cada indivíduo, e o serviço ponderado a favor de uma comunidade, não é possível assumir funções sacerdotais. Quando alguém assume posturas degradantes, quer face a outras figuras sacerdotais, quer em relação a uma ou mais divindades, aceita ser subjugado, e atribui a outrem a responsabilidade pelas consequências dos seus actos, não pode exercer aquelas funções. Estamos perante uma pessoa desequilibrada, capaz de ferir a si e aos outros, com base numa convicção, em nome de interesses pessoais, de um suposto poder supremo ou força irresistível, perante a qual é servil. Infelizmente, ainda é comum encontrar quem pense que qualquer filosofia que ensine as pessoas a pensarem por si é perigosa para o próprio indivíduo, ameaça as hierarquias e aqueles que temem as suas sombras.